• No results found

Dansk veileder

In document Arenabegrepet i landskapsanalyser (sider 59-71)

Del III Tre aktuelle metoder

3.3 Dansk veileder

Acima defini os caminhos estilísticos de 6,20-25. Ressaltei sua tendência prosaica, seu caráter dialogal, alguns aspectos narrativos e ainda sua inserção parenética. Tais traços estilísticos, ainda que contribuam para a compreensão do texto, não direcionam propriamente seu gênero, apenas ressaltam algumas características. O caráter prosaico sugere apenas a forma de organização e inter-relação das frases; o parenético apenas aponta sua inserção no Deuteronômio; o caráter dialogal sugere dois falantes envolvidos; o caráter narrativo é mostrado em uma das falas, e ainda assim de forma resumida.

Dessa maneira, deixando de perguntar por características estilísticas parciais, pergunto pelo “quê” o texto se propõe a ser, ou seja, para onde convergem essas características estilísticas vivencialmente. Para isso, volto a olhá-las, com o objetivo de identificar o gênero de 6,20-25.

Um diálogo pode ter inúmeros objetivos: pode-se falar do cotidiano, sobre trabalho, religião. Pode ser interessado, interessante, interesseiro... Pode-se responder com um barulho, um gesto, um silêncio ou ainda uma palavra. A depender de como esse diálogo se desenvolve compreende-se a que se refere e qual seu objetivo.

Pela pergunta de 6,20 identifico o objetivo da unidade: visa a ser um ensino. O filho pergunta porque quer saber, o pai responde porque quer que o filho saiba. Mas esse ensino é específico, é acerca de leis dadas por Javé, não é ensino profissional, escolar ou coisa assim. É ensino ligado à fé, é catequese.

Tal catequese contém, basicamente, tradições históricas. Não históricas no sentido contemporâneo. Históricas porque, para Israel, a história é formada pela relação entre Javé e seu povo, é história de fé. E por ser um resumo dessa história de fé, apresenta-se com traços narrativos – é a estratégia da catequese – contar uma história, contar nossa história.

82 Por ser catequese, ensino de fé, foi inserido numa pregação, num sermão. A catequese agora é pregada. Exorta-se que se ensine assim, mas isso é secundário como gênero.

À catequese aponta a comparação de 6,20-25 com textos formalmente parecidos, como Êxodo 12,26; 13,14 e Josué 4,6.21, conforme já indicados pelos estudos de J. Alberto Soggin293, no primeiro capítulo deste trabalho. Nestes, o filho pergunta ao pai sobre uma tradição, um rito, um monumento, e o pai lhe responde: são catequeses. No caso de 6,20-25, catequese acerca das leis dadas por Javé.

Excurso: Literalidade e oralidade: “pergunta catequética” e “resumos de memórias

históricas”

Fora de curso, é verdade. Quebrei o caminho porque compreendi necessário, por ser uma discussão exegética que me interessa, e que interessa a Deuteronômio 6,20-25. A questão é: o texto fixado literariamente é apenas literário ou está vinculado à oralidade? Em outras palavras, Deuteronômio 6,20-25 é apenas um escrito ou, de fato, um pai ensina narrando o que o texto diz?

Desde os estudos de Hermann Gunkel294 se identifica as fórmulas literárias à oralidade. É certo que após o aperfeiçoamento e revisão dessa abordagem não se pode identificar uma fórmula ou forma com um ambiente sem considerar a possibilidade da forma ter sido usada apenas literariamente ou ainda a possibilidade de uma mudança de ambiente após passar da oralidade à literalidade. Em contrapartida, depois de Gunkel não se pode considerar uma forma apenas como evento literário sem refletir acerca de uma possível oralidade subjacente.

A pergunta a ser feita acerca da fórmula é se ela funda uma realidade ou se a realidade a funda. Segundo a Crítica da Forma, considerando o complexo pensamento-manifestação

linguística (som e escrita)-vínculo com a vida295, as manifestações linguísticas são fundadas

por determinada realidade. Isso porque nenhuma manifestação linguística tem caráter único,

293

Discordo dos resultados a que chegou J. A. Soggin, uma vez que considerou, como já visto, essas catequeses ligadas à antiguidade israelita e ao ambiente litúrgico, entre Gilgal e Siquém. Porém, sua identificação do texto como catequese é por mim partilhada.

294

K.L. Sparks. Form criticism. In.: S.Porter (editor). Dictionary os biblical criticism and interpretation. p.111- 114.

295

83 já que a finalidade da língua é comunicar296. Assim, ao pensar em determinada forma literariamente fixada, pode-se compreender também um ambiente vital em que essa tem sua origem. Mesmo sendo posteriormente usada apenas literariamente, uma forma é reflexo da realidade, já que, se é objetivo que um determinado texto tenha sentido usando uma forma específica, é porque essa forma é compartilhada pela sociedade.

Nesta discussão, recuo um pouco nos caminhos exegéticos. No primeiro capítulo deste trabalho, ao apresentar as discussões sobre 6,20-25 pelo viés do “Pequeno Credo Histórico” de Gerhard von Rad, e das catequeses etiológicas de Jan Alberto Soggin, afirmei que caminharia por outras estradas, não partindo dos mesmos pressupostos e resultados destes.

Nisso, continuo convicto: não penso que depender 6,20-25 de 26,5-9, ou ainda estudar 6,20- 25 pelo viés apenas da forma seja bom caminho: desconsidera o conteúdo, e chega a resultados equívocos.

Ainda assim, retorno à discussão comparativa com os textos bíblicos levantados nas análises de Gerhard von Rad e Jan Alberto Soggin. Porém, ao fazê-lo, tenho outro objetivo: discutir a possibilidade oral de 6,20-25. Faço, para tanto, um estudo breve observando exatamente o que nos textos parecidos com 6,20-25, além dele mesmo, pode indicar uma oralidade subjacente. Tal estudo, portanto, apesar de utilizar os mesmos textos que eles, não está interessado em datar o texto, ou relacioná-lo com o Hexateuco, ou ainda a localizar a catequese em algum santuário do Israel antigo.

Viso, para tanto, duas características textuais específicas notadas em 6,20-25. A primeira é a formulação de “pergunta catequética” presente em 6,20.21, por meio da qual algumas tradições são ensinadas. A segunda é o resumo narrativo de memórias históricas, como visto em 6,21-25. Sigo pelo caminho comparativo:

Pergunta catequética

Chamo de “pergunta catequética” a frase inicial de Deuteronômio 6,20-25, a qual motiva, provoca a catequese. Como já notado, essa característica textual está presente também no Êxodo e em Josué, e é assim apresentada a partir de Deuteronômio 6,20.21:

296

84 Quando te perguntar teu filho amanhã, a dizer:

que [são] ....

e dirás...

Em Êxodo 12,26; 13,14, Josué 4,6.21297 poucas são as variações na fórmula:

Em Êxodo 12,26 em vez do verbo “perguntar” (xa’al) é usado o verbo “dizer” (‘amar) e a frase está na segunda pessoa do plural. Neste é perguntado pela tradição pascoal.

Em Êxodo 13,14 a fórmula é igual a Deuteronômio 6,20.21. Os verbos são os mesmos e a frase está na segunda pessoa no singular. Aqui é o rito da dedicação dos primogênitos a razão da pergunta.

Em Josué 4,6.21, temos duas vezes a mesma construção. Os verbos são iguais a Deuteronômio 6,20.21, porém estão no plural. Pergunta-se pelas pedras que foram tiradas do Jordão e de erguidas como memorial em Gilgal.

A partir dessas características comuns, e da teorização sobre literalidade e oralidade apresentada resumidamente acima, pergunto: seria essa fórmula um reflexo de determinada realidade? Haveria um costume oral espelhado na fórmula? Algumas notações devem ser levadas em conta.

O texto aponta diretamente para certa prática oral. Na fórmula, o filho ‘pergunta’ (xa’al) e a ele deve ser ‘dito’ (’amar). Ambos os verbos apontam para uma realidade oral.

O texto não visa estabelecer uma prática de ensino, mas um conteúdo a ser ensinado. Isso pode ser notado pelo fato de a fórmula seguir um padrão casuístico (ki), ainda que não seja uma lei298. Nesta, o fato é pressuposto, ainda que seja posto como possibilidade. Isso pode ser

notado quando se considera que o casuísmo nasce de uma recorrência de determinada situação. Dessa forma, a “pergunta catequética” insiste em que se deve ensinar. A prática do ensino está pressuposta. O texto insiste no conteúdo a ser ensinado quando da pergunta.

297

Josué 22,24.28 possui uma construção parecida, mas que se distancia em alguns aspectos da ‘pergunta catequética’, por isso não considerado neste conjunto.

298

85 Portanto, como indicativo para a compreensão do texto como oralidade, a fórmula espelha um cotidiano, uma prática comum. E por se fundamentar nessa prática comum é que tem a possibilidade de encontrar êxito acerca do conteúdo a ser ensinado.

Resumos de memórias históricas

Outra característica textual de 6,20-25 é o “resumo de memórias históricas”. É uma maneira de organizar determinado material. Chamo “memórias históricas” porque estão separadas temporalmente do que aconteceu. O fato é tradicionado, ou seja, passado entre as gerações como tradição, constituindo memórias significativas.

Tais memórias são organizadas resumidamente como narrativa sintética, ou seja, as formulações são curtas e os fatos relatados299 não são desenvolvidos em detalhes. A intenção não é detalhar os fatos, senão lembrar o acontecimento.

No resumo apresentado em Deuteronômio 6,21-25, os fatos lembrados são a saída do Egito, a dádiva da terra junto com o juramento aos pais e a ordenança da lei. Esses fatos encontram-se resumidos também em outros textos.

Em Deuteronômio 26,5-9, encontra-se um resumo chamado de “Credo Histórico”. Sem retornar à discussão, interessa-me a organização material300:

I. Ancestral arameu v.5

II. Entrada no Egito e formação do povo v.5 III. Aflição no Egito v.6

IV. Clamor e atendimento no Egito v.7

V. Ação salvífica – êxodo e posse da terra v.8-9

Em Números 20,15-16301, relato no qual Moisés envia mensageiros ao rei de Edom pedindo passagem. Tem-se a seguinte sequência:

I. Entrada no Egito e formação do povo v.14

299

Não entro aqui na discussão acerca de se o que está nessas memórias verdadeiramente aconteceram. Parto do pressuposto de que, ao menos para essas memórias, algo aconteceu que as fizessem surgir.

300

Ver as discussões no primeiro capítulo, em 1.2 O texto; Deuteronômio 6,20-25 301

Para discussões acerca desse texto, principalmente forma, datação e comparação com Deuteronômio 26,5-10, ver o item “The relationship between Deut. 26:5-10 and Num. 20:15-16” em Norbert Lohfink. The “Small credo” of Deuteronomy 26,5-9. In.: Theology of the Pentateuch. Minneapolis: Fortress Press, 1994. p.265-289.

86 II. Aflição no Egito v.15

III. Clamor e atendimento no Egito v.16

IV. Ação salvífica – êxodo v.16 [a posse da terra é pressuposta, já que, no relato, estão a caminho dela]

Em Gênesis 15,13-16, no relato em que é prometida a terra a Abraão, tem-se como fala de Deus, a sequência:

I. Estadia em terra alheia v.13 II. Aflição v.13

III. Ação salvífica – êxodo v.14-16

Também em Josué 24, 2-13, no discurso de Josué em Siquém, apresenta-se a sequência, com os relatos do êxodo e posse da terra estendido:

I. Ancestrais v.2-4 II. Entrada no Egito v.4

III. Ação salvífica – êxodo e posse da terra v.5-13

Em Deuteronômio 6,21-25, deixado propositalmente por último, tem-se a sequência: I. Aflição no Egito v.21

II. Ação salvífica – êxodo e posse da terra v.22-23 III. Ordenança das leis v.24-25

Outros textos apresentam a mesma sequência, com algumas variações e adaptações302, bastam-me esses.

Com essa seleção de textos, desejo mostrar que essa forma de organizar as memórias possui, ao mesmo tempo, um caráter fixo e outro moldável. Como caráter fixo, tem-se as tradições que são lembradas – basicamente são êxodo, a promessa aos pais e a posse da terra. De caráter moldável é seleção e organização do resumo: cada texto tem suas ênfases próprias.

302

87 Essas duas características, o caráter fixo e o moldável, apontam para certa oralidade. É no nível oral que um agrupamento fixo de tradições pode ser modificado a depender da situação, para seus próprios fins.

Assim considerado, não parece ser estranho que os relatos, nos quais os resumos de memórias históricas estão contidos, os apresentam como fala: uma confissão (Deuteronômio 26,5-10), um pedido (Números 20,15-16), uma fala divina (Gênesis 15,13-16), um discurso (Josué 24, 2-13), uma resposta-ensino (Deuteronômio 6,20-25), uma oração (Jeremias 32,20-23), um responso litúrgico (Salmo 136). Portanto, também essa forma de organizar o material histórico-tradicional indica à oralidade.

Por esses dois caminhos (a pergunta catequética e a organização das memórias históricas como resumo), considero que, antes de estar literariamente fixado, Deuteronômio 6,20-25 fora oralmente vivido. Não é o texto que funda uma prática de ensino. Antes, uma prática de ensino já existente deve agora ter um conteúdo específico. E esse conteúdo, as tradições históricas, possui certa circularidade oral também, daí sua adaptabilidade.

* * * *

In document Arenabegrepet i landskapsanalyser (sider 59-71)