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O título do livro (A Neo-Penélope) é retirado de um dos 17 poe- mas que compõem o primeiro capítulo, “Poemas Femininos”, numa significação metonímica evidente. A análise do comportamento e da mentalidade da mulher contemporânea é simbolizada pelo paradigma de uma Neo-Penélope.

O arquétipo feminino da longa espera, na persistente e heróica re- sistência, urdido com os fios da astúcia e da inteligência humana, é alegorizado pelo mito da manta tecida durante o dia e desfeita durante a noite, como ardil para enganar os pretendentes que visavam apossar- -se da esposa e dos bens de Ulisses, na ilha de Ítaca. Era uma socieda- de patriarcal, em que a mulher, mesmo rainha, não deixava de ser con- siderada como património de seu esposo.

As novas Penélopes, porém, são fruto de uma nova sociedade, não já do domínio masculino, mas em paridade de sexos, na igualdade de oportunidades e do exercício do poder.

Por isso, o velho paradigma da espera feminina, apologia da sua fidelidade conjugal, fica caducado, em função de novas vivências e de novos valores. A Neo-Penélope:

Não tece a tela Não fio o fio Não espera

Por nenhum Ulisses1.

1Ana Hatherly, “A Neo-Penélope”, in “Poemas Escolhidos”, A Neo-Penélope, Lis-

A Neo-Penélope, de Ana Hatherly 71

Mas, por que razão se verifica esta inversão ou subversão do pa- radigma da fidelidade feminina? Será apenas o resultado da revolta que provém da emancipação autonomista ou da superação da tutela servil? Afinal, se mudou a mundividência feminina, também mudou o comportamento masculino. Se Penélope simbolizava a heroicidade feminina, Ulisses representava o arquétipo do herói masculino, enfren- tando os errores mediterrânicos, as tempestades marítimas, a sedução da feiticeira Circe, o enclausuramento de Calipso, o canto mágico e ilusório das sereias, os monstros de Cila e Caríbdis, a perseguição vo- raz do ciclope Polifemo, tudo antes de enfrentar e destruir os preten- dentes. Assim, o comportamento das novas Penélopes encontra uma plausível justificação perante novos Ulisses, amorfos, acomodados, incapazes de enfrentarem heroicamente os seus inimigos:

Às portas do sangue O herói adormecido Agora está deitado Ao Polifemo abraçado Seu próprio satélite forçado2.

Ao contrário deste novo comportamento, o sujeito da escrita dispo- nibiliza-se, “Não menos que Penélope”, para esperar o “outro”, apesar de suas limitações e desilusões. Como qualquer ser humano, o varão não deixa de ser sinal de contradição: por um lado, “enche de sonho” a sua companheira; por outro, desilude e instaura a “controvérsia”:

Estou à tua espera. Estou sempre à espera De esse outro

Que me consome Que me enche de sonho E controvérsia

………. Não menos que Penélope Espero

Vagarosa e muda Em minhas tarefas3.

2 Ibidem

A estética da contradição (“Paradoxal oximoro”) serve de suporte a esse claro-escuro das relações humanas, acentuando a vertente do impossível, do não ser:

O outro é TU-EU Paradoxal oxímoro Impossibilidade ansiosa4.

2. Amar ou não amar

A questão da importância do amor, bem como a sua caracteriza- ção e a sua mitologia, estão bem patentes tanto neste livro, como no conjunto da obra de Ana Hatherly.

A vocação do ser humano para o amor é expressivamente vincu- lada à sua natureza essencial, tal como a sua relação espacial:

Viver sem amor

É como não ter para onde ir Em nenhum lugar

Encontrar casa ou mundo5.

Não amar é algo de filosoficamente negativo, como o não ser e o não acontecer, ou o caos da mudança, da metamorfose:

É contemplar o não-acontecer O lugar onde tudo já não é Onde tudo se transforma No recinto

De onde tudo se mudou6.

Amor e identidade estão de tal modo unidos que, sem o primeiro, o segundo se desorienta e se desconhece, tal como o não ser:

4 Ibidem

5 Ibidem, “Sem Amor”, p. 26. 6 Ibidem

A Neo-Penélope, de Ana Hatherly 73

Sem amor andamos errantes De nós mesmos desconhecidos

Descobrimos que nunca se tem ninguém Além de nós próprios

E nem isso se tem7.

Por isso, o sujeito feminino se ocupa do Tu masculino, apesar do “vórtice de pensar em ti”8, apesar das dificuldades da partilha espiritu- al9, apesar do “espaço / Incolor e nímio da tua ausência”10:

Ocupo-me de ti É certo:

Ocupas-me espaço Preocupas-me11.

Espécie de entrelugar, no meio de opostos, o espaço da comunicação física e espiritual, expresso pelo oxímoro da fala muda do corpo, situa-se entre o mítico Éden e o seu contrário, mas na infinitude da mente:

Lugar intermédio

Entre o Éden e o seu contrário O corpo mudamente fala Ocupando um espaço infinito12.

De resto, a relação entre o corpo e o espaço é particular e insis- tentemente debatida a propósito do amor13, num átopos ou utopia que se confunde com o “espaço flutuante” do sonho:

7 Ibidem

8 Ibidem, “Monólogo de súbita audácia”, p. 17.

9 “Ontem / Estive pensando em ti / Com um lápis na mão. // Era um desafio / Uma

maneira de enfrentar uma crise / Mas era um filtro. // Queria escrever-te veladamen- te / Escondendo o meu tormento / Atrás de um tecido sedoso de palavras. // Mas não consegui. / O lápis permaneceu imóvel. / Dentro de mim / Só se ouvia uma voz que dizia: / Cala-te! Cala-te!” (Ibidem, “Com um lápis na mão”, p. 18).

10 Ibidem, “Ocupo-me de ti”, p. 21. 11 Ibidem

12 Ibidem

13 “Quando se ama / Qual é a relação entre o corpo e o espaço?” (Ibidem,

O amor ocorre num espaço flutuante Num exíguo lugar-nenhum

E o sonho é matéria incerta Mestre na arte da fuga14.

A invocação de Eros não tem a tradicional expressão cultual, co- mo é timbre dos hinos aos deuses, mas manifesta um distanciamento crítico em face dos “milhares de páginas” a ele consagradas, da “enormidade da ambição” com que é invocado e dos “ecos” da “rixa”, da “peleja” e da “aposta” que desencadeia nos corações humanos15.

Desafiando a lógica do possível e do plausível, numa série de imagens paradoxais e oximóricas, entre as quais a representação de um “Eros sem frenético”, o poema “É preciso fazer um esforço” pare- ce ironizar o discurso apelativo da utopia16.

A ironia e o humor perpassam mais uma vez através da estética do paradoxal, atingindo o “sexto sentido” feminino, enviesadamente associado ao sexo (como se sexo derivasse de six), e a “filáucia do próximo”, já que filáucia é o amor de si próprio17.

Por sua vez, a sinestesia e a delicada sensibilidade do discurso poético acentuam a estética do desejo, a partir d’ “A silenciosa força das flores”, juntando a voz, as cores e o perfume18.

14 Ibidem, “O Importante”, p. 24.

15 “Eros: / A quantos ecos / Primitiva clave / Vinculas esta rixa / Esta peleja? // Os

milhares de páginas / Que te consagramos / Localizam / Com exactidão / A enor- midade da ambição / Com que te invocamos // Preparai-vos! / (diz uma leitura sá- bia) // Com uma antiga lógica / Sublinhamos / A importância da aposta” (Ibidem, “Eros”, p. 25).

16 “É preciso fazer um esforço / Considerar possível / Estar sempre de perfil / Ser

mono-asa / Barbatana sem dorso / Branco sem luz / Ave sem cisne // Ondular no ar / Ser o remorso futuro / Relâmpago sem ser visto / Força sem motor / Buraco sem queda / Considerar possível / Eros sem frenético / Livro sem que o leiam / Poema sem que o façam // Fazer um esforço / Sentir insensível / Sem que seja possível /Sem que seja preciso // Profundamente / Tudo é tão importante / Como um olhar furtivo” (Ibidem, “É preciso fazer um esforço”, p. 27).

17 “Estamos aqui / Em estado de liberdade / Condicionada pela enorme filáucia do

próximo / Que um poeta desconhecido confirmou / Quando disse: / O sexo existe / Vem da palavra six / Igual a sexto sentido / Que é feminino / / E acrescentou; / A maçã / É para ser comida” (Ibidem, p. 22).

18 “A silenciosa força das flores / Emana de suas cores / Que são a sua voz / Os seus

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