A divergência entre o maximalismo (marxismo) e o anarquismo era uma das grandes polêmicas do início da década de 1920. O Partido Comunista do Brasil, não passou incólume a crítica, mas contra este as críticas ultrapassavam o seu eleitoralismo e atingiam pontos programáticos mais amplos, mesmo que de início o apoio a Revolução Russa (e aos bolcheviques) tivesse sido professado e praticado entre os anarquistas. Também disputas políticas concretas ocorriam entre os anarquistas e comunistas de diferentes correntes. Frentes de ação comum eram rechaçadas constantemente pelos anarquistas.
Mario Brazil em artigo publicado no jornal A Plebe faz a defesa da Revolução Russa, argumenta que no Brasil, no momento em que a repressão às idéias mais se intensificava, sobre a alegação de impedir a reedição dos horrores bolchevistas, algumas notícias escapavam chegando até nós, como
285 OITICIA, José. "Carta Aberta aos fundadores do Partido Socialista Brasileiro" in A Plebe. São Paulo, 24 de fevereiro de 1932
as notícias que anunciavam a negociação entre os Estados burgueses europeus e a República dos Soviets.
Termina seu artigo dizendo que:
"todos os regimes políticos que prevalecem sobre os arcaicos, todos os governos em seus primeiros dias tem tido como base torrentes de sangue humano. Portanto, se sangue houve na Rússia, o seu derramamento obedeceu a um corolário natural e acima de críticas absurdas e pretensiosas"286
Neste artigo notamos ainda a defesa da Revolução Russa e da violência utilizada no processo como algo necessário no próprio processo revolucionário, note-se que este texto é do começo de 1920 quando a posição dos anarquistas começava a se alterar em relação a Revolução.
Já na reunião do Centro Libertário de São Paulo, em 1921, a postura foi outra. Este tema, segundo o informe da reunião, produzido por Florentino de Carvalho, havia produzido "uma verdadeira revolução nos meios libertários de São Paulo".
De um lado se colocavam os anarquistas que aceitavam a ditadura do proletariado e defendiam o apoio ao governo de Lênin. De outro os anarquistas que procuravam prestar todo apoio a Revolução Russa mas que criticavam o partido bolchevista por ter assumido o poder matando o desenvolvimento da revolução.
Na reunião as duas tendências tiveram posições exaltadas e discutiram "sem a cordialidade indispensável e característica das idéias libertárias."
O maximalismo x anarquismo era tema de todas reuniões anarquistas da época, e Florentino de Carvalho não deixa de assumir sua posição no debate, para ele:
"a intervenção dos aliados na vida interna do povo russo é um grande perigo para a revolução, mas o avanço ditatorial, reacionário dos bolchevistas é um perigo, porque a guerra externa impele o povo a união unânime para a resistência ao passo que a reação interna, partindo dos elementos considerados revolucionários, partindo do Estado constituído, é um perigo maior, pois que este não permite
com as suas forças armadas os seus elementos compressivos que o povo se organize e se prepare para fazer respeitar os seus direitos."287
O debate acalorado nas fileiras anarquistas refletia um momento de crise da atuação destes elementos. Uma crise determinada não pelo advento da Revolução Russa, mas pelo contexto econômico, político (nas suas diferentes faces), social, etc. A Revolução Russa forneceu elementos que pautavam novas opções para a atuação política dos anarquistas.288
É interessante observar que havia anarquistas, que sem abandonarem a denominação e boa parte dos seus ideais, defendiam o Estado Transitório e a participação em eleições (caso de alguns que participaram da coligação social). A saída de muitos destes elementos das fileiras anarquistas se deveu a um processo de expurgo informal (devido a forma de estruturação das organizações influenciadas pelos anarquistas) e público caracterizado pela denúncia por parte de anarquistas influentes das concepções que para estes anarquistas não eram compatíveis com seus ideais. Pregava-se a liberdade e aceitavam-se as diferentes correntes, mas alguns pontos eram dogmas que não poderiam ser alterados, sem que o grito de indignação de proeminentes anarquistas fosse ouvido.
Outro aspecto interessante que devemos ressaltar é a argumentação de Florentino de Carvalho que a intervenção dos aliados na Rússia seria menos prejudicial do que o avanço da ditadura bolchevique. A avaliação de Carvalho parte de dois pressupostos, o primeiro é que caso houvesse uma intervenção aliada, o povo russo se levantaria em sua totalidade para a sua defesa, o segundo é que o Estado russo bolchevique só possuiu a função compressiva de uma revolução que desabrochava livremente. Dois argumentos coerentes, que foram bastante utilizados por anarquistas,mas que, a nosso ver, reflete a postura de boa parte dos anarquistas de São Paulo de entender que a revolução se desenvolveria livremente, de acordo com as leis da evolução
287 CARVALHO, Florentino de. “Grande reunião Libertária” in A Plebe. São Paulo, 01 de janeiro de 1921.
288 Um pouco das influências da Revolução Russa sobre o meio anarquista pode ser acompanhada através do seguinte livro: BANDEIRA, Moniz, MELO, Clovis e ANDRADE, A. T. O Ano Vermelho: A
natural, caso não fosse reprimida pela força anti-natural, artificial, do Estado, que matou o desenvolvimento livre da revolução.
Num artigo de Arnaldo Danel publicado no semanário A Obra, de 1920, há uma defesa do sindicalismo contra a ditadura do proletariado como meio “que há de abrir as portas da Anarquia...”
O autor enfatiza o fato de o sindicalismo não ser marxista, argumenta que a ditadura do proletariado não tem nada a ver com o sindicalismo. O Estado marxista, com a ditadura do proletariado, “não perde senão na forma a existência intrínseca de sua prepotência”.
Já o federalismo anarquista começa “com a liberdade absoluta do indivíduo” que através e por causa desta liberdade estabelece um contrato social com outros indivíduos que termina quando a finalidade pactuada é alcançada ou quando por algum motivo a finalidade não se alcança e que, portanto, a rescisão se faz necessária. Sendo este mecanismo contratualista, para Arnaldo, a base da sociedade anarquista pós-revolucionária.289
Em artigo de setembro de 1920, Florentino de Carvalho faz a defesa do bolchevismo contra os capitalistas mas já procede a crítica ao Estado bolchevique. Nos diz que em oposição às calúnias burguesas sempre divulgou a obra benéfica da república russa, mas nunca fez a apologia deste regime pois sabe que qualquer forma de Estado devido a sua estrutura autoritária é contrária aos princípios anarquistas.
Agora que os anarquistas estão de posse de documentos confiáveis, afirmava na época, seria necessário estabelecer a crítica correta pois alguns anarquistas acabam confundindo a Revolução Russa com o Estado burocrático e militarista que ali surgiu ,
“chegando a propagar a organização de um partido socialista-maximalista, [Coligação Social] o qual teria por fim, entre outras coisas, a conquista do Estado burguês, empregando o processo eleitoral, transformando-o em Estado... maximalista, afim de que pusesse a máquina nos eixos, durante o período de transição, este fato pode causar sérios embaraços a ação francamente libertária dos trabalhadores e dos revolucionários (...)
Esta atitude, além de produzir uma cisão nos elementos avançados, significa uma retratação dos princípios que disseram sustentar e uma traição a causa da emancipação humana"290
Revente em artigo no semanário A Obra, elogia o gesto do proletariado russo que quando seus irmãos socialistas de outros países deixavam-se levar pelo impulso guerreiro fizeram a revolução proclamando a tática internacionalista e libertária.
A diferença existentes com os russos não é em relação a revolução mas sim em relação aos bolcheviques.
"Nós vemos na Revolução Social (...) o movimento entre molecular, orgânico das massas, atirando e vivendo por elas e para elas mesmas, prescindindo de chefes e de senhores, dirigindo-se e mantendo-se a si próprias. Esta afirmação não significa que cada membro da multidão se torne um anarquista, nem, muito menos, que nós devemos realizar a revolução quando tivermos anarquizado toda a gente. Estranha quase afronto da hermenêutica seria essa- demais sucedendo haver por este mundo cabecinha revolucionária que nem com milênios de propaganda atingiria a sublimidade do ideal anarquista ! (...) Nunca aventamos a impreparação dos trabalhadores para demonstrar a impossibilidade de uma revolução imediata."291
Chama a atenção neste trecho a crítica realizada a uma das características da maior parte dos anarquistas brasileiros, o educacionismo. A crítica àqueles que querem fazer a revolução após ter educado as massas, feito as massas compreenderem o verdadeiro papel da anarquia, era incomum no Brasil. Porém, a visão do autor de que não é necessário educar as massas antes de fazer a revolução estava fundamentada no sentimento de superioridade de boa parte dos anarquistas brasileiros em relação as massas incultas. A maioria do povo nunca chegaria a compreensão do sublime ideal anarquista, portanto, a revolução poderia ser feita, ou melhor deveria ser feita, independentemente da educação das massas. Assim, estes anarquistas se defendem dos argumentos daqueles que defendiam a ditadura do proletariado
290 CARVALHO, Florentino de. “O Bolchevismo- repercussão no Brasil” in A Obra . São Paulo, 15 de setembro de 1920.
argumentando que as massas eram incapazes de fazer a revolução por não estarem preparadas. O autor ainda diz que
“ao contrário do que afirmam, a ditadura não desenvolve mas atrofia o espírito revolucionário.
Os Bolchevistas dizem que empurram [a Revolução Social Russa] -mas eles é que são empurrados !”292
Content no artigo “Pelo despotismo autoritário ou pelo anarquismo” nos diz que:
"A cada passo se encontram pessoas que, ou seja por ignorância ou por ambição, nunca se acham satisfeitas mudando de idéias ou de partidos como quem muda de camisa. Que esta mudança sobrevenha após apuradas e profundas meditações, tendo-se reconhecido a falsidade destas idéias preconcebidas, bem está: mas que pelo sim, pelo não, se abandonem os camaradas de lutas e a propagação de um ideal para aderir a um novo partido e entregar-se a novas propagandas- é fazer obra de divisão, contribuir para enublar os espíritos e dar conseqüentemente uma singular idéia da própria mentalidade.
Mas o que não se compreende é que alguns anarquistas, ou pelo menos pretensos anarquistas, abandonem a propaganda de um ideal que ainda ontem faziam seu, e isso porque em vão procuraríamos os motivos sérios, de sua nova atitude"293
Com o triunfo da Revolução Russa, para o autor, sobreveio uma grande confusão. Antes só os anarquistas se proclamavam comunistas, agora alguns dissidentes socialistas, sindicalistas e até mesmo ex-anarquistas se declaram comunistas, gerando confusionismo. É necessário se esclarecer o que cada um entende por comunismo pois na hora da Revolução estas diferenças vão aparecer trazendo graves prejuízos.
O autor de acordo com esta linha de raciocínio começa a estabelecer argumentos kropotknianos. Na história sempre existiram dois princípios, o da autoridade e o da liberdade, os anarquistas já fizeram opção pelo caminho que
291 REVENTE. “Crítica ao regime maximalista da Rússia” in A Obra . São Paulo, 15 de setembro de 1920 .
292 Ibid.
293 Content . “Pelo despotismo autoritário ou pelo anarquismo” in A Obra . São Paulo, 01 de outubro de 1920 .
querem seguir e sabem que a harmonia só seria possível quando um princípio eliminar o outro.
Começa então a analisar a influências das idéias anarquistas no mundo contemporâneo sem a necessidade de voltar a Sócrates ou Rabelais, segundo sua opinião. A influência das idéias anarquistas poderia ser encontrada no próprio seio dos bolchevistas.
"Não se pode negar, com efeito, que na Rússia, no próprio seio da III Internacional, entre os bolchevistas- estes marxistas!- as idéias anarquistas tenham de algum modo pesado sobre as diretrizes, orientando as decisões. As moções contra a defesa nacional, contra o parlamentarismo, e outros mais, ainda que não sendo de natureza essencialmente libertária, estão, não obstante, fortemente impregnados da idéia."294
Na avaliação deste autor , portanto, tudo o que se aproximasse das idéias anarquistas era reflexo da influência das idéias anarquistas na história do mundo, idéias estas que vivem num eterno embate contra os elementos autoritários.
" Estes fatos revelam-nos, apesar de tudo que para fazer a revolução os bolchevistas tiveram de calar o marxismo, e a medida em que se consolidam e se tornam um governo forte apressam-se a demolir o que tinham construído e o que poderia incomodar a sua política"295
Neste sentido, afirmava o autor, os anarquistas, pretensos anarquistas e ex-anarquistas não deveriam abusar da palavra comunismo, antes de saber e fazer saber o que entendiam ao certo por este termo”, pois é “preciso escolher entre o comunismo de Estado e o comunismo anarquista"
A partir da metade de 1920 abundaram as críticas contra o comunismo russo em A Plebe que continuaram até o fim do período por nós pesquisado.
O artigo "A caminho do comunismo" afirmava que havia uma onda dos partidos socialistas mudarem seu rótulo para comunistas, mas que na verdade eram os mesmos partidos coletivistas participantes da segunda internacional, que após a sua falência procuraram uma nova denominação.
294 Ibid.
295 Content . “Pelo despotismo autoritário ou pelo anarquismo” in A Obra . São Paulo, 01 de outubro de 1920 .
Por outro lado, os trabalhadores nas suas lutas têm seguido mais ou menos os métodos anarquistas, mas no fundo, paradoxalmente, sempre obedecem aos seus dirigentes. O povo que há de fazer a revolução vai fazê-la com a mesma mentalidade que possui no presente, passando o primeiro momento de entusiasmo aceitarão e se resignarão as ordens de seus chefes segundo o texto. Por este motivo a próxima revolução, na melhor das hipóteses, faria triunfar o comunismo estatal.
Os anarquistas neste contexto teriam que participar da onda revolucionária com o mesmo ardor que demonstravam em todas as lutas, mas, na prática, os autoritários obteriam o triunfo, "porque o comunismo libertário exige de cada indivíduo, em particular, um esforço e um espírito de sacrifício, para os quais o povo ainda não está educado."296
É interessante notar a aceitação, neste artigo, de uma provável vitória da via estatal do comunismo. O povo ainda não estaria suficientemente educado, nem teria o espírito de sacrifico exigido para a concretização do comunismo libertário, portanto, por mais que os militantes anarquistas se entregassem com toda a dedicação a tormenta revolucionária, a sua ação não daria nos resultados desejados, sendo derrotados neste primeiro momento.
Demócrito em artigo intitulado "Os detratores do Povo" tece uma crítica aos bolchevistas que justificavam a ditadura do proletariado por causa da falta de preparo do povo. O povo, segundo os bolchevistas na visão de Demócrito, seria uma massa amorfa, cheia de vícios, de crenças irracionais e ninguém quer o seu contato, os profissionais liberais e os técnicos o abandonam e sem eles é impossível fazer a obra de reorganização social.
O povo, continuando, seria massa bruta, estômago e sensualismo, não possui a inteligência que os militantes conquistam a troco de muito esforço, experiência e observação. Neste sentido, os bolchevitas defenderiam uma ditadura para educar o povo, através de leis, decretos e portarias.
Demócrito argumentava que os anarquistas não eram alheios aos defeitos "de que sofre o povo trabalhador, as falhas de que padece, a sua insuficiência de pensar e de sentir." A diferença é que esta constatação servia
incentivo aos anarquistas para continuarem a sua obra, com mais esforço, abnegação, fadiga, para melhorar física e mentalmente a condição do povo.297
Assim, a diferença dos bolchevistas e anarquistas, para nós, de acordo com a análise do artigo de Demócrito, não se dava na avaliação do povo, tanto os bolchevistas quanto Demócrito poderiam ser classificados de acordo com o título do artigo como detratores do povo. A diferença estava no fato de uns defenderem o método estatal para se transformar a mentalidade popular, já Demócrito propõe a propaganda e que o povo se auto-emancipe.
Neste sentido a abstração da proposta anarquista defendida por Demócrito é patente. Apontam-se os erros do povo, as soluções para corrigir os erros surgem naturalmente.
Os anarquistas Adelino de Pinho e Romeu Bolelli, respondendo a Antonio Canellas que chamou os anarquistas de seguidores da moda por tecerem críticas aos bolchevistas, argumentam que os anarquistas conheciam a doutrina de Marx antes da Revolução Russa, pelo menos desde a publicação do Manifesto Comunista em 1848 e sempre criticaram o marxismo e a sua ditadura do proletariado.
Mas, indagavam, não seria por espírito de moda que alguns anarquistas e sindicalistas, entusiasmados com a Revolução Russa tenham se convertido em bolcheviques? Os anarquistas, por outro lado, não haviam mudado de lado, sempre permaneceram defendendo as mesmas idéias.
Continuavam a sua argumentação dizendo que Canellas tinha a intenção de ir para a Rússia ver o que se passava com os seus próprios olhos e que para isso alguns anarquistas, inclusive os que escreveram o texto, fizeram uma subscrição arrecadaram dinheiro e enviaram a ele.
Mas, quando chegou a Paris, Canellas se deteve e não continuou a sua viagem. Finalizam dizendo que se Canellas tivesse chegado a Rússia e observado a revolução com seus próprios olhos, talvez tivesse uma opinião diferente sobre a revolução.298
297 DEMÓCRITO. “Os Dectratores do Povo” in A Plebe . São Paulo, 24 de junho de 1922.
298 PINHO, Adelino de e BOLELLI, Romeu. “Os anarquistas e a ditadura do proletariado” in A Plebe . São Paulo, 05 de outubro de 1922.
As discussões entre os anarquistas e aqueles que apoiavam a Revolução Russa e a ditadura do proletariado nas fileiras operárias pós 1917, como dissemos, eram grande nos primeiros anos da década de 1920. Em 07 de novembro de 1921 foi formado no Rio de Janeiro o Grupo Comunista por 12 pessoas. A partir de janeiro de 1922 o grupo começou a publicar a revista Movimento Comunista até junho de 1923 defendendo o programa da Internacional Comunista. Em 1922 dá-se o congresso de fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB), no mês de março. Dos fundadores apenas um não vinha do anarquismo, Manoel Cedon.299
Antonio Bernardo Canellas, mesmo não estando presente no congresso de fundação do Partido Comunista é eleito para a sua direção e escolhido representante do partido para o IV Congresso da IC, realizado em dezembro de 1922.
Neste congresso discutiu com Lênin e aparteou Trotski. Os líderes da Internacional Comunista taxaram as idéias de Canellas de anarquistas e, devido a isso, resolveram não reconhecer oficialmente o PCB na IC admitindo- o apenas como partido simpatizante. Devido a sua postura no Congresso da IC Canellas foi afastado do partido.300
Canellas, por outro lado, considerou a resolução da IC, contrária a adesão do PCB, como inadmissível, mostrando o sectarismo e o espírito de vingança da pessoa que a redigiu segundo sua opinião. Defendia o direito de expressar posições e opiniões mesmo que estivessem em desacordo com a maioria do congresso, pois se o delegado expõe posições erradas seria o dever da executiva do congresso chamar este delegado, baseados em considerações de ordem doutrinária, a retificar as suas opiniões.
Criticava ainda a burocracia do congresso em responder a sua réplica, dizia:
“Para obter uma resposta à minha réplica seria necessário fazer representações aqui e acolá, insistir, enfim, passar
299 DIAS, Everardo. História das lutas sociais no Brasil. São Paulo, Alfa-Ômega, 1977., p 111 e LINHARES, Hermínio. Contribuição à História das Lutas Operárias no Brasil. São Paulo, Alfa-Omega, 1977, p. 67
300 BANDEIRA, Moniz, MELO, Clovis e ANDRADE, A. T. O Ano Vermelho: A Revolução Russa e seus
pelas atribuições conhecidas pelos pobres mortais que se vi- ram algumas vezes na dolorosa contingência de meter requerimento na Prefeitura ou na Repartição de Águas”301 Carlos Bittencourt (Francisco Cianci) argumenta que o fato de alguém que era anarquista e militava entre os mesmos passar a defender princípios autoritários, demonstrava que as teorias ácratas ou não foram compreendidas ou foram mal interpretadas pelo indivíduo.
Portanto, o problema foi a de falta de clareza e falta de coerência total com os princípios anarquistas. Neste sentido, seria necessário definir atitudes tomando com mais vigor a propaganda das “Idéias” anarquistas.302
Bittencourt não levantava a hipótese de que as pessoas que passaram para o “campo” dos “autoritários” buscavam outras estratégias não encontradas entre os anarquistas e que o problema não estava em redobrar o esforço na militância mas, talvez, em pensar novas alternativas no momento de refluxo do movimento operário e da luta revolucionária. Assim como vários outros anarquistas afirmavam, os princípios estavam certos, o que faltava era o comprometimento e a clareza dos ideais. Martins Garcia era da mesma opinião