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4. LYKKEN ER…?

4.5 D ET VANSKELIGE LYKKEBEGREPET

Esta pesquisa objetivou identificar a estrutura antropológica do imaginário de um grupo de cuidadores de idosos asilados, da Instituição Lar dos Velhos Paulo de Tarso, da cidade de Ipatinga - Minas Gerais, tomando por base os pressupostos teóricos da Antropologia do Imaginário, de Gilbert Durand e o Arquétipo Teste de Nove Elementos, de Yves Durand como a heurística culturanalítica prestigiada.

Com uma análise apoiada nos autores estudiosos e pesquisadores da velhice, do envelhecimento, do cuidar e dos cuidadores de idosos asilados, explicitados na bibliografia geral, buscou-se como considera Oliveira Filho (2001:174): “As respostas arquetípicas, (...) as matrizes do imaginário deste grupo (...) surgidas no trajeto antropológico”, que se repete aqui, como G. Durand define:

(...) a incessante troca que existe ao nível do imaginário entre as pulsões subjetivas e assimiladoras e as intimações objetivas que emanam, do meio cósmico e social (...);que tendem a mostrar vastas constelações de imagens, constelações praticamente constantes e que parecem estruturadas por um certo isomorfismo dos símbolos convergentes (DURAND, G., 2002: 55-71).

A pesquisa se caracterizou como qualitativa culturanalítica e neste final, realiza-se a interpretação dos dados míticos emergidos no grupo.

Na análise dos protocolos individuais, preenchidos pelos sujeitos pertencentes à pesquisa, os resultados apresentam variabilidade na estrutura do imaginário de cada sujeito, o que pode ser observado no Quadro 7 da seção 8.5 contendo o resultado da análise estrutural:

- 2 (dois) protocolos pseudo-desestruturados, sendo 1 (um) pseudo- desestruturado, com tendência ao místico;

- 1 (um) protocolo apresentando um universo mítico impuro;. - 1 (um) protocolo místico integrado;

- 2 (dois) protocolos tendo um imaginário com estrutura sintética diacrônico - DUEX;

- 1 (um) protocolo mítico sintético diacrônico - DUEX negativo com laivos de desestrutura;

- 1 (um) protocolo mítico sintético diacrônico - DUEX positivo, com laivos de desestrutura condicionada pelo desenho explodido;

Y. Durand (1988:138-141) comenta, referindo-se as pesquisas por ele realizadas que: “a incidência do ambiente informativo do sujeito sobre a realização de suas produções imaginárias” interfere nos dados colhidos no teste. O autor, criador do teste, aponta fatores de diferenciação a considerar na análise dos protocolos do teste AT-9:

- Incidência do sexo: “não há ligação entre a produção de um tema heróico e o fato de ser um sujeito masculino e não têm ligação entre a realização de um tema místico e o fato de ser um sujeito feminino”, ou seja, o sexo não interfere, “não existe ligação/correspondência com o sexo: a heroicidade é tanto um produto do imaginário masculino como do imaginário feminino” (138); os cuidadores que participaram da pesquisa são todas mulheres.

- Incidência da idade: observa-se em pessoas mais velhas a temática mística e estruturação defeituosa, e a temática heróica em jovens: “A idade tem um duplo efeito: ela contribui a fazer aparecer o imaginário do tipo místico e a ter dificuldade de estruturação” (139); o grupo da pesquisa apresenta uma idade que varia entre 22

e 54 anos, e uma média de 27,5 anos de idade. Portanto a idade não interferiu para que o universo místico se apresentasse mesmo sendo um grupo de jovens sujeitos.

- Incidência mental: é necessário um mínimo de nível intelectual para realizar o teste: “a realização de um AT-9 solicita uma atividade mental de síntese” (139); observou-se nos sujeitos-cuidadores que o nível de instrução é relativamente baixo, considerando que a maioria; 4 (quatro) dos 8 (oito) sujeitos não possuem 2° grau completo, sendo que 2 (dois) não têm 1° grau completo, (mesmo assim, apenas dois dos protocolos registraram desestrutura, pseudodesestrutura e outros dois contém um imaginário com laivos de desestrutura). O grau de instrução se reflete no outro fator de diferenciação que se segue – sócio cultural (nível sócio-econômico-baixo).

- Incidência sócio-cultural: “cada sujeito traz/aporta uma conotação pessoal em sua obra, (...) banho de imagens e de mitos nos quais ele vive ou anda, nos casos patológicos, ele substitui um “mito pessoal” obsedante (delírio ou motivo dramatúrgico particular) a ordem mítica coletiva ( por exemplo o combate de dois homens no lugar do enfrentamento de um herói e de um monstro)” (140). O monstro pode se apresentar antropomórfico ou mais de um monstro, como em quase todos os protocolos dessa pesquisa.

No início da análise dos protocolos dos sujeitos-autores da pesquisa, poderia ter acontecido à desistência das inclusões de fiapos míticos, mas considerando o AT-9 em mãos, temos a nossa disposição o interior ativo e particular de uma pessoa; mesmo um imaginário desestruturado, deve ser considerado tanto na análise individual como ser entendido como componente diferencial importante na identificação do universo mítico de um grupo.

A análise funcional detectou que na maioria dos universos míticos emergidos, há uma visão positiva da vida em relação à morte, ou seja, uma atitude

positiva frente aos obstáculos a serem vencidos diante do envelhecimento, apesar de vivenciarem e trabalharem dia a dia junto aos idosos asilados e acompanharem de perto a vida asilar e a decadência biológica, psicológica e social por natureza assim como a degeneração psicológica e social que pode ser promovida pelo ambiente de isolamento, solidão e abandono familiar característicos em alguns asilos. “O processo de envelhecimento é dinâmico e progressivo e envolve modificações morfológicas, fisiológicas, bioquímicas e psicológicas, conseqüência da ação do tempo” (AZUL, 1981:02-06). No caso dos idosos asilados a permanência em ILP-s, o espaço, além do tempo, pode acelerar esse processo.

Na análise elemencial considera-se como foram representados os elementos do teste, a função e o simbolismo atribuído a cada um dos nove elementos do teste, segundo o imaginário dos sujeitos-cuidadores; nos protocolos da pesquisa, o personagem é o centro da história dos 8 (oito) sujeito-autores, sendo representado por um ser humano. O elemento água corrente também foi unanimidade entre os sujeitos, variando sua conotação – rio/cachoeira. A espada manteve sua representação (imagem) e função de defesa em 5 (cinco) dos protocolos (o que já descarta o heroísmo do ataque), e apenas em 4 (quatro) simbolizava, de forma negativa a morte. O refúgio apresentou características de função/tranqüilidade na maioria 6 (seis) dos protocolos, representado em 3 (três) dos quatro sujeitos pela casa.

Percebe-se nesta análise que os registros míticos nos protocolos conferem com as ações ditas pelas cuidadoras nas entrevistas/escuta e observadas pela pesquisadora. Há por exemplo em um protocolo, a dramatização trazendo o (elemento) personagem caindo da cama, como acontece ou aconteceu no asilo, o que parece estar refletindo a ação cotidiana dos cuidadores de idosos no asilo. É

importante ressaltar o quanto os cuidadores são alertados para o perigo da queda, quer dizer: da importância na prevenção de quedas em idosos, uma vez que é causa de morte dessa população. Como afirma Perracini, (2002:709),

estes eventos, quando ocorridos em pessoas a partir de 65 anos, representam uma importante causa de morbidade e mortalidade, repercutindo também na vida dos seus familiares e na sociedade que disponibilizará serviços especializados e hospitalares, gerando, assim, um elevado custo assistencial.

A ação cotidiana é influenciada pelo imaginário dos cuidadores, que neste grupo se apresenta de forma disseminada entre ações heróicas e místicas.

O elemento cíclico é colocado na maioria dos protocolos – 5 (cinco) -, com a função de movimento – representado em 3 (três) pelo catavento, que já começa a remeter a presença de um imaginário sintético/disseminatório: o fogo foi simbolizado em 5 (cinco) dos protocolos como luz/aconchego - luz que remete à esquizomorfia e aconchego antifrasia -, o que mais uma vez lembra a síntese -, e em 4 (quatro) deles com função de aquecer – remetendo a tendência mística.

Nos protocolos a morte não aparece como a representação do elemento monstro: em um protocolo o monstro está simbolizado eufemicamente pela imaginação do sujeito-autor; há também em um dos protocolos a ausência de atribuição de símbolo ao elemento monstro.

O elemento monstro aparece simbolizando a morte em 5 (cinco) protocolos, em 3 (três) dos protocolos foi representado por animais (2 = leão), (1 = cachorro) e em 2 (dois) por monstro propriamente dito, e, em outros 2 (dois) representado eufemicamente, pelas cuidadoras, pela luta e pelas barreiras arquitetônica do contexto asilar: a cama alta.

O elemento monstro é colocado no teste por Yves Durand como estímulo arquetípico da morte/perigo.

A situação encontrada na análise elemencial leva a reforçar os resultados evidenciados na análise estrutural, onde o medo está presente, mas existem cuidadoras que o eufemizam ou não consideram o monstro, evidenciando a disseminação entre a reação contra o monstro (heróico) e a eufemização do medo, (atitude mística), o que vem a configurar 1 (um) universo mítico sintético, com tendência ao místico.

No protocolo n°1, o monstro é representado por um leão, mas não há luta na dramatização; o monstro tem a função de assustar, simbolizando medo. O sujeito autor eufemiza o perigo: “era um leão que estava passando perto da caverna (...), ele foi embora para outro caminho”; dessa forma convive com o monstro, não o afronta ou o enfrenta diretamente, mas se for preciso reage e socorre, o que coincide com suas atitudes no asilo. Esse protocolo registra um micro-universo mítico místico impuro que, conforme Y. Durand (1988:97), “colocam em evidência uma certa coexistência do regime místico e do regime heróico, mas os símbolos do monstro e da espada não têm nenhum papel”. A presença fraca de esquizomorfia não é suficiente para configurar um universo sintético, apresenta-se apenas com uma impureza. No protocolo n° 2, o único negativo do grupo, a morte está simbolizando, no quadro do teste, quatro dos nove elementos: a queda, a espada, o monstro e o personagem. Existem motivos evidentes de um imaginário “catastrófico/apocalíptico”, onde a insegurança é ressaltada na fala da cuidadora:

“Hoje vivemos em sociedade cruel, violenta, onde corremos o risco de perder nossa

vida em uma primeira esquina“. O protocolo n° 3, um imaginário com estrutura sintética diacrônico – DUEX -, na dramatização imaginada o personagem vive dois

momentos existenciais - heróico e místico de modo sucessivo. Nesse caso “as seqüências heróicas e místicas são atualizadas como subconjunto em uma estrutura unificada” (DURAND, Y., 1988:102). No protocolo n° 4, não há coerência entre as imagens desenhadas /pictóricas e a história/discurso o que remete a presença de um imaginário com estrutura “defeituosa”, caracterizando um universo mítico pseudo-desestruturado. Y. Durand (1988) afirma que, não havendo uma estrutura definida, existe uma estruturação defeituosa. Logo, nesse protocolo, o desenho, a história e o quadro do teste não apresentam coerência mítica, dificultando a evidencia de um conjunto de imagens estruturado. O sujeito autor teve dificuldades em efetuar a síntese necessária entre os componentes do teste. Entre os fatores de diferenciação, Y. Durand coloca a incidência mental. Esta cuidadora tem apenas o 2° grau incompleto. O protocolo n° 5, o micro-universo mítico emergido identifica a estrutura Mística Integrada, onde “os nove elementos se integram funcionalmente ao tema místico realizado por uma constelação simbólica perfeitamente isomorfa” (Y. Durand, 1988:93). Nesse protocolo, a solidão está presente nos relatos do sujeito- autor-cuidadora ”como estou sempre só...”, e o trabalho serve como refúgio para a próprio cuidadora: “Aqui no lar eu me sinto bem”. No protocolo n° 6 registra-se um micro-universo mítico Pseudo-Desestruturado, com tendência ao místico, Y. Durand (1988:132), refere-se a “um desenho explodido, cada elemento desenhado separadamente; um discurso analítico, descritivo dos elementos não exprimindo nenhum cenário, nenhum agrupamento de elementos”. Mas sendo assim, há no protocolo ausência de coerência mítica. A tendência ao místico se justifica quando a autora simboliza o monstro minimizando a ferocidade, com sua “imaginação”, eufemizando-o.

No protocolo n° 7 emerge um micro-universo mítico sintético diacrônico, onde a protagonista vivencia sucessivamente a vitória sobre o monstro simbólico da dependência; em seguida voltando a aparecer o místico positivo no final, afastando a angústia negativa do imaginário. No protocolo n° 8, o universo emergido é o sintético diacrônico positivo, com laivos de desestrutura condicionada pelo desenho explodido.

Neste universo, conforme Y. Durand (1988:102) “o personagem une dois momentos existenciais - heróico e místico de modo sucessivo; (...) o personagem participa por etapas das duas polaridades, heróica e mística”. No protocolo, a desestrutura aparece no desenho sem coerência mítica, explodido.

Em relação às análises dos protocolos, observa-se que a vivência no asilo, por parte desses cuidadores, faz com que estes encarem “a angústia do passar do tempo, o medo da morte”, de forma mais realista e tranqüila, aceitando as mudanças da velhice.

A relação idoso-cuidador é uma relação de doação, caridade; podemos perceber uma ‘troca’ nessa relação, muitas vezes é o cuidador que necessita de amparo, de uma palavra amiga, um desabafo, enfim, a sabedoria dos idosos tem muito a nos ensinar. Na escuta/observação efetuada no asilo constata-se esta reciprocidade entre os cuidadores e os idosos. O asilo passa a ser um local de aprendizagem e é visto como aconchego entre idosos e os jovens cuidadores.

O universo estudado caracteriza-se como um universo sintético o que Y. Durand (1988:102), explicita anotando, o que aqui se traduz, que :

(...) os micro-universos heróicos e místicos impuros de uma parte e heróicos descontraídos de outra, encontram sua plena expansão com os universos míticos sintéticos, nos quais as seqüências heróicas e místicas

são atualizadas como sub-conjuntos distintos em uma estrutura unificada (...) A diferenciação no micro-universo se efetua a partir da organização temporal destas seqüências (sucessão ou simultaneidade) e sobre as características do “vivido” – o qual pode estar mais próximo do engajamento existencial cotidiano ou ao contrário se elevar a um ensaio de compreensão simbólica da existência do homem (...) Não se trata de um tema heróico-impuro por que o personagem participa por etapas das duas polaridades heróica e mística”.

A sincronia também pode acontecer quando o personagem vive os dois universos ao mesmo tempo.O imaginário aparece místico/heróico.

Chaves (2000), em sua pesquisa em uma escola do Rio de Janeiro, encontrou, com a utilização do AT-9, resultados semelhantes ao desta pesquisa no asilo, transcreve:

“O exame dos protocolos (...) mostra que a paisagem mental, a força de coesão que se manifesta no ambiente (...) é de teor sintético, ou seja, as estruturas sintéticas, segundo G. Durand (1989:236), ‘eliminam qualquer choque, qualquer rebelião diante da imagem, mesmo nefasta e terrificante, mas que, pelo contrário harmonizam num todo coerente as contradições mais flagrantes. A imaginação sintética (...) com suas fases contrastadas, estará mais ainda, sob o regime do acordo vivo. Em linhas gerais, o grupo revela uma forte tendência à vida, à luta apaziguada”.(CHAVES, 2000:182).

Na síntese encontrada nesta pesquisa há uma tendência ao místico, e deve considerar-se que não há nenhum imaginário com estrutura heróica. E apesar do contexto asilar apenas 2 (dois) dos sujeitos autores apresentam um imaginário com alguma desestrutura. O que remete na análise é que nesse univeso sintético emergido há a presença mística: a vontade, desejo de paz, tranqüilidade, aconchego. O que parece coincidir com a função do cuidador – profissão de cuidar.

A calma, a paciência e a tranqüilidade/solidariedade caracterizam o grupo que mesclam esta condição de cuidador com “laivos de heroísmo” (Loureiro, 2006).

Apresentando o protocolo n°1 como exemplo com estrutura mística impura o que significa que há um heroísmo que se imiscui nesta estrutura de paz, quer dizer o cuidador pleno de carinho e de vontade de paz age energicamente com heroísmo quando é preciso vencer o monstro/perigo.

O protocolo n° 5, registra um universo místico integrado e 1 (um) dos protocolos que apresenta a desestrutura (Pseudo) contém uma presença mística. É importante ressaltar nesta análise que os 4 (quatro) protocolos que registram micro- universos sintéticos, todos apresentam diacronia quer dizer: os personagens vivem/imaginam situações em momentos distintos: místicos seguidos de um imaginário heróico e vice versa.

O importante é pois, como alerta G Durand,

ao tratar da “fantástica transcendental”, da “transcendentalidade da consciência imaginante”, que é preciso “passar de uma morfologia classificadora das estruturas do imaginário a uma fisiologia da função da imaginação. (...) mostrar que essa função de imaginação é motivada não pelas coisas, mas por uma maneira de carregar universalmente as coisas como um sentido segundo, como um sentido que seria a coisa do mundo mais universalmente partilhada. (...) Os três grandes grupos de estrutura fantástica (...) poderiam fazer-nos crer que se trata de tipos psicológicos de representação que se excluem uns aos outros, e inclinar-nos a pensar que a arquetipologia não é mais que uma tipologia” (DURAND, G., 2002: 378/379).

Numa análise durandiana, esta dissertação deixou claro que a forma dos cuidadores asilares de encarar a morte e as mazelas do envelhecimento – “a maneira de carregar as coisas”, a visão de mundo, o pensar o sentir e o agir - interfere nos cuidados prestados aos idosos institucionalizados, como se verificou nas falas e nos dados míticos emergidos nos protocolos do teste At-9.

O carinho por parte desses cuidadores se apresenta na pesquisa assim como a paciência, a preocupação e atenção com os idosos, atitudes místicas e

heróicas, evidenciadas nas reações ditas frente aos perigos que ameaçam os idosos, daí sintéticas, o que reflete também preocupação com o próprio futuro, ou seja, o que os aguarda quando estiverem também nesta fase da vida, se lograrem o privilégio de envelhecer.

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