2. TEORETISK RAMMEVERK
2.4 D ESTRUKTIV LEDELSE
Diversos autores procuraram explicar os fatores determinantes para um menor desempenho anaeróbio nas crianças (Bar-Or & Rowland, 2004; Malina et al., 2004; Rowland, 2005; Chia & Armstrong, 2007; Inbar & Chia, 2008), entre os quais estão incluídos fatores anatómicos, fisiológicos, neurais, bioquímicos, hormonais e genéticos.
O desempenho de exercício em jovens depende de fatores genéticos, ambientais e da sua interação, por isso, a aptidão anaeróbia encontra-se dependente, de certa forma, do genótipo (Inbar & Chia, 2008). Os estudos nesta área têm analisado fundamentalmente gémeos para perceber as diferenças nos fatores genéticos, que parecem exercer uma influência moderada ou forte no desempenho de PAn e da CAn através do WAnT (Calvo et al., 2002). Na literatura existem evidências que apontam para que os fatores genéticos sejam responsáveis por cerca de 50% da variância na aptidão anaeróbia máxima (Van Praagh, 2000; Chia & Armstrong, 2007; Inbar & Chia, 2008).
O desempenho de diversas habilidades motoras requer uma correta coordenação entre os vários músculos envolvidos (Bar-Or & Rowland, 2004). As investigações nesta área são escassas devido às restrições éticas na utilização de procedimentos invasivos em jovens saudáveis (Chia & Armstrong, 2007). No entanto, está bem documentado o facto do desempenho neuromuscular sofrer diversas alterações durante a infância e a adolescência, encontrando-se as componentes neuromusculares totalmente desenvolvidas após a puberdade (Bosco & Komi, 1980). Um dos aspetos que sofre maiores alterações diz respeito à mielinização das fibras nervosas, que termina na adolescência, indicando que até esse período a coordenação e o tempo de reação é limitado e menor nas crianças do que se verifica nos adultos (Bar-Or & Rowland, 2004; Inbar & Chia, 2008). Assim, a capacidade para a realização de atividades de curta
duração e intensidade máxima, desenvolve-se gradualmente durante a infância (Martin & Malina, 1998).
Alguns estudos sugerem melhorias com a idade no recrutamento de unidades motoras e no ângulo de penação (Fournier et al., 1982). Por outro lado, os adultos do sexo masculino possuem uma melhor capacidade para utilizar a energia elástica dos músculos comparativamente com rapazes pré-púberes (Moritani, Oddsson, Thorstensson, & Astrand, 1989). Desta forma, parece plausível que as alterações neurais durante o crescimento e maturação possam influenciar a aptidão anaeróbia dos jovens (Chia & Armstrong, 2007; Inbar & Chia, 2008), incluindo a mielinização das fibras nervosas, o aumento da coordenação intra e intermuscular, bem como as melhorias com o treino na coordenação entre os músculos multiarticulares (Chia & Armstrong, 2007).
O desempenho anaeróbio significativamente menor nas crianças reflete, entre outros aspetos, a sua menor capacidade de ressíntese de ATP pela via da glicólise anaeróbia, durante exercício de intensidade máxima (Bar-Or & Rowland, 2004; Inbar & Chia, 2008). As concentrações de PCr e de glicogénio são menores nas crianças, mas principalmente a capacidade para a utilização da glicólise anaeróbia é consideravelmente inferior nas crianças em comparação com os adultos (Eriksson, 1980; Berg, Kim, & Keul, 1986; Kuno et al., 1995). Um dos métodos para estimar a utilização do glicogénio durante o exercício consiste na mensuração das concentrações máximas de lactato no músculo, e por isso, tem sido pouco utilizado em crianças devido às limitações éticas (Inbar & Chia, 2008). No entanto, os dados existentes permitem constatar uma menor concentração máxima de lactato nas crianças e adolescentes do que nos adultos (Williams & Armstrong, 1991; Hebestreit, Meyer, Htay, Heigenhauser, & Bar-Or, 1996; Ratel, Duche, Hennegrave, Van Praagh, & Bedu, 2002; Bottaro et al., 2011), mas algumas evidências parecem indicar que essa menor concentração máxima de lactato pode ser resultado de uma remoção mais rápida e não necessariamente devido a uma menor capacidade de produção de lactato (Beneke, Hutler, Jung, & Leithauser, 2005).
A taxa de utilização da glicólise é limitada pela atividade enzimática, tais como as enzimas fosforilase, piruvato desidrogenase e a fosfofrutoquinase (Inbar & Chia, 2008), tendo sido verificado menor atividade da enzima fosfofrutoquinase em crianças e adolescentes do que nos adultos (Eriksson et al., 1973; Kuno et al., 1995). Por outro
lado, durante o exercício máximo, as crianças (Zanconato, Buchthal, Barstow, & Cooper, 1993) e adolescentes (Kuno et al., 1995) não apresentam uma acidose tão elevada como nos adultos (Ratel et al., 2002). Assim, é especulado que as vias metabólicas envolvidas no exercício anaeróbio máximo e a tolerância à acidose, não se encontram totalmente desenvolvidas até à idade jovem adulta, sendo as alterações maturacionais mais pronunciadas no sexo masculino do que no sexo feminino (Inbar & Chia, 2008).
A capacidade para o músculo gerar força depende da sua área de secção transversal, enquanto a sua velocidade de encurtamento depende do seu comprimento, entre outros fatores (Bar-Or & Rowland, 2004; Inbar & Chia, 2008). A potência mecânica corresponde ao produto de força e da velocidade, por isso, depende do volume ou da massa muscular (Bar-Or & Rowland, 2004; Inbar & Chia, 2008). O volume muscular em crianças é menor do que nos adultos, quando normalizado para o peso, e aumenta durante a infância e a adolescência, juntamente com o aumento do PP e do MP (Martin & Malina, 1998). O padrão de desenvolvimento da massa muscular constituiu uma parcela importante, mas não total, para a explicação das diferenças relacionadas com a idade e o sexo na aptidão anaeróbia durante a infância e a adolescência (Chia & Armstrong, 2007). As diferenças entre os sexos identificam um menor volume muscular nas raparigas, aproximadamente 50% e 70% para o membro superior e inferior, respetivamente, após a adolescência (Inbar & Chia, 2008). Segundo Van Praagh (2000), o aumento no tamanho das fibras musculares, entre os períodos de infância e da adolescência, é de aproximadamente 3,5 vezes no sexo feminino e 4,5 vezes no sexo masculino. Para alguns autores (Chia & Armstrong, 2007; Inbar & Chia, 2008), parece plausível que existam diferenças entre os adultos e as crianças e os adolescentes na percentagem do tipo de fibras musculares, devido às diferenças na idade e sexo, nos resultados da variável índice de fadiga através do WAnT (Inbar et al., 1996).
Tem sido sugerido que os fatores hormonais, especialmente por volta do período da puberdade, possam ser responsáveis por algumas das diferenças características no desempenho de exercício de intensidade máxima entre os sexos, nomeadamente o aumento da concentração da hormona do crescimento e da testosterona nos rapazes, porém, as evidências são equívocas devido à variabilidade intra-individual nos níveis de hormonas circulantes (Chia & Armstrong, 2007). Alguns estudos indicaram, embora
não tenha sido totalmente confirmado, que a capacidade dos rapazes para produzir lactato (Eriksson, Karlsson, & Saltin, 1971) ou para gerar potência anaeróbia máxima (Ferretti et al., 1994) depende dos níveis de testosterona circulantes e de outras alterações hormonais durante a puberdade, tais como o aumento da hormona do crescimento e o fator de crescimento semelhante à insulina (Bar-Or & Rowland, 2004; Rowland, 2005; Inbar & Chia, 2008). O menor desempenho anaeróbio no sexo feminino quando comparado com indivíduos do sexo masculino e a menor diferença na potência anaeróbia máxima relacionada com a idade entre as participantes do sexo feminino suportam essa hipótese, contudo, não existem evidências suficientes que permitam afirmar categoricamente que a diferença entre a taxa de glicólise entre os rapazes e os homens seja explicada por diferenças nas concentrações hormonais (Inbar & Chia, 2008).
Como já foi anteriormente referido, estudos que examinaram as alterações no PP e MP em crianças e adolescentes dos 10 aos 12 anos através do WAnT (Armstrong et
al., 1997, 2001), e no PPopt em adolescentes dos 12 aos 14 anos através do FVT (Santos et al., 2003), com recurso à modelação multinível, não encontraram efeitos significativos do sexo ou maturação no PP, MP e no PPopt. Estes resultados contrariam
as evidências de que a maturação sexual conta de uma forma significativa para o desempenho de atividade anaeróbias. Porém, o aumento no tamanho corporal (altura ou peso), e o início da maturação sexual (aumento das concentrações de hormonas circulantes), encontram-se ambos relacionados com a idade, podendo ter um impacto co-dependente ou independente sobre a capacidade dos jovens para a realização de exercício anaeróbio máximo (Inbar & Chia, 2008).