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Crowding

In document Night commuting (sider 71-76)

6. Subsistence Purposes

6.3 Crowding

Cabe ressaltar que as cenas escolhidas para o estudo dos rituais no Satyricon levam em consideração o posicionamento do diretor, isto é, a expressão de Federico Fellini enquanto cineasta e sua visão ideológica de sociedade.

Ao propor o estudo do profano, do religioso e do festivo visamos partir daquilo que as próprias cenas nos mostram, buscando desvendar as zonas não visíveis do imagético.

Assim, a própria narrativa fílmica, as organizações dos seus elementos nos permitirão elucidar o “enquadramento” do diretor em relação aos personagens. O fato de escolher determinadas cenas em função de outras, justifica-se pelas próprias influências do cineasta, principalmente no que diz respeito ao contexto de produção e a apropriação do texto fílmico.

Tendo em vista tais características, salienta-se o próprio discurso fílmico adotado por Fellini. Quais os propósitos dos supostos erros de leitura do passado entre a obra fílmica e literária? Haja vista que todo discurso é uma construção de quem o realiza, e que os “erros de leitura do passado histórico são propositais.” O escritor italiano Italo Calvino completa dizendo que:

[...] O excepcional encontro entre o expectador e um filme sempre pode acontecer, por mérito da arte ou do acaso. No cinema italiano, pode-se esperar muito do gênio pessoal dos diretores, mas pouquíssimo do acaso. Esta deve ser uma das razões pelas quais algumas vezes admirei, muitas vezes apreciei, mas nunca amei o cinema italiano. Sinto que ele tirou mais do que deu prazer de ir ao cinema. Porque este prazer deve ser avaliado não só com relação aos “filmes de autor”, com os quais tenho um relacionamento crítico do tipo “literário”, mas também com relação às produções médias e pequenas, com os quais tento estabelecer uma relação de simples expectador.164

164

A partir deste relato, o cinema apresenta-se como uma fonte imprescindível para compreender aspectos de difusão de idéias e comportamentos, sendo capaz de formar e deformar opiniões, levando a uma manipulação da realidade, por representar aspectos do cotidiano, tais como a política, a guerra e em última instância, a história.165

2.2.1 Rituais do Sagrado

“Devemos dar um fim, de uma vez por todas, a fabula acerca do caráter sagrado da vida humana”

(Leon Trotsky)

Os rituais dentro da esfera do sagrado encontram-se ligados as questões religiosas ou aos sistemas religiosos. O aspecto formal do sagrado concede a coletividade uma noção de controle ou de ordem que alcançam todos os indivíduos da sociedade. Este controle social ocorre por meio dos valores morais e das visões de mundo que o religioso coloca como a forma de legitimar seu poder e influência nas questões da contemporaneidade.

A formalidade do ambiente religioso é caracterizada pela repetição, fato que agrega diferentes formas de rituais no espaço sagrado, pois tudo que se repete no sentido de ritual fornece aos indivíduos uma sensação de segurança.

Tomando como referencial teórico o livro de Mariza Peirano, deve-se levar em consideração que para se analisar os rituais, neste caso, os rituais do sagrado, não podemos considerar nossos valores racionais ou sociais, já que cada civilização possui um tipo de cultura que é peculiar há seu próprio tempo e espaço.

Os ritos166 de passagem que são marcados por rituais e que são muito comuns em quase todas as culturas, como por exemplo, o nascimento, a entrada na vida adulta, o casamento e a morte são acontecimentos culturalmente representados e fundamentais para nossa vida. A antropóloga Adriane Luisa Rodolpho apresenta em seus estudos uma visão sobre estes quatros ritos de passagem e que também compõem o cenário do mundo sagrado. Para a pesquisadora:

Com relação ao nascimento, temos rituais tão variados quanto o da “couvade” entre alguns grupos indígenas (após o parto é o homem que fica de resguardo, enquanto a mãe logo já está se ocupando de seus afazeres cotidianos), quanto o da circuncisão de meninos ou a excisão das meninas. A atribuição do nome da criança é outro tema fundamental entre os rituais do nascimento, significando na maior parte das vezes o ingresso ou inclusão desta no grupo. Do mesmo modo, a morte não se relaciona simplesmente com um cadáver, com o fim de uma vida, mas trata-se igualmente de uma nova condição, uma nova iniciação à vida eterna, ao reino dos mortos (dependendo das crenças de cada grupo sobre o destino dos homens). Os rituais de sepultamento igualmente simbolizam a separação do mundo dos vivos; estes devem zelar pelo bom encaminhamento dos ritos segundo os costumes do grupo. O não cumprimento destas prescrições pode ocasionar outros riscos para o mundo dos vivos.167

Com isso, a antropóloga Adriana Luisa Rodolpho salienta ainda que ao passar pelos “ritos de passagem”, o indivíduo deixa de ser o que era, contudo ainda não é o que poderia ser como, por exemplo, um cadáver, que não está propriamente morto, pois não passou pelos ritos de sepultamento. Este fator faz com que o indivíduo passe a encontrar-se num estado de indeterminação. Este período, do pré e pós ritual devem ser analisados como fases invariantes e que mudam de acordo

166 Para a etnóloga francesa Martine Segalen: “[...] o rito é caracterizado por uma configuração espaço-temporal específico, pelo recurso a uma série de objetos, por sistemas de linguagens e de comportamentos específicos e por signos emblemáticos cujo sentido codificado constitui um dos seus bens comuns de um grupo [...] Enquanto conjuntos fortemente institucionalizados ou efervescentes, os rituais podem ser considerados sempre como um conjunto de condutas individuais ou coletivas relativamente codificadas, com suporte corporal (verbal, gestual e de postura), caráter repetitivo e forte carga simbólica para atores e testemunhas. Cf: SEGALEN, M. Ritos e rituais contemporâneos. Rio de Janeiro: FGV, 2002, p. 31-32.

167

Cf: RODOLPHO, A, L. Rituais, ritos de passagem e de iniciação: uma revisão da bibliografia antropológica. In: Estudos Teológicos, v. 44, nº 2, 2004, p: 142 Apud (HELLERN, V; NOTAKER, H; GAARDER, J. O Livro das religiões. São Paulo: Cia das Letras, 2000).

com os ritos culturais. Ao fazer referência a Gennep, pioneiro dos estudos sobre rituais, o pesquisador e antropólogo Roberto da Matta completa dizendo que168:

A grande descoberta de Van Gennep é que os ritos, como o teatro, têm fases invariantes, que mudam de acordo com o tipo de transição que o grupo pretende realizar. Se o rito é um funeral, a tendência das seqüências formais será na direção de marcar ou simbolizar separações. Mas se o sujeito está mudando de grupo (ou de clã, família ou aldeia) pelo casamento, então as seqüências tenderiam a dramatizar a agregação dele no novo grupo. Finalmente, se as pessoas ou grupos passam por períodos marginais (gravidez, noivados, iniciação, etc), a seqüência ritual investe nas margens ou na liminaridade do objeto em estado de ritualização.

Para o cientista social Émile Durkheim (1858 – 1917)169, a religião é a expressão dos valores e da moral da sociedade via os atos rituais. Os significados simbólicos das crenças organizam a sociedade, assim como o antropólogo Roberto da Matta enfatizou ao citar Gennep. Cada cultura se organiza frente aos objetos em estado de ritualização. Na discussão acerca da religião Durkheim expõe uma divisão entre o sagrado e o profano, sendo antes, uma divisão fundamentada pelo próprio homem. Com isso, o aspecto do sagrado conduziria os indivíduos para a formação de uma moralidade social, coletiva e impessoal.

Com este parâmetro, é por meio do sagrado que os ritos, as crenças e os símbolos se prevaleceriam no meio social, reforçando as expressões da sociedade. Dessa forma, como positivista Durkheim defendia uma religião laica, desvinculada do sagrado e voltada para o racionalismo. Os indivíduos seguiriam uma religião não por temor das conseqüências que poderiam advir sobre o pecador, mas pelas regras morais, baseadas na boa conduta do convívio em sociedade.170

168 Cf: GENNEP, A.V. Os ritos de passagem (apresentação de Roberto da Matta). Petrópolis: Vozes, 1978, p. 18.

169

Cf: DURKHEIM, E. As formas Elementares da Vida Religiosa. São Paulo: Paulus, 1989. 170

A certeza de Durkheim de que a religião era o centro da sociedade era tão grande que ele não podia imaginar uma sociedade totalmente profana e secularizada. Onde estiver à sociedade ali estarão os deuses e as experiências sagradas. E chegou mesmo a afirmar que existe algo de eterno na religião que está destinado a sobreviver a todos os símbolos particulares nos quais o pensamento religioso sucessivamente se envolveu. Cf: ALVES, R. O que é Religião? São Paulo: Loyola, 1999, p: 66.

2.2.2 Encontrando os rituais A Morte

Figura 1

Cena do Satyricon – despedida – (Enquadramento: Plano Conjunto).

Figura 2

Cena do Satyricon – despedida (2) – (Enquadramento: Close/Front View: foco no personagem de frente) – Câmera movimenta-se da direita para esquerda, imagem que remete a emoção)

Figura 3

Cena do Satyricon – despedida (3) – (Enquadramento: Close-Up)

A religião romana no período do principado romano, isto é século I d.C, era formada por meio de uma relação “contratual” entre os cidadãos romanos e os deuses, enquanto os romanos prestassem cultos e homenagens aos deuses, a ordem e a paz estariam asseguradas. O sagrado para os romanos (sacer) não era propriamente a presença de qualidades divinas em um objeto ou ser, mas este objeto ou ser passava a ser propriedade do divino por meio da qualidade jurídica a ele atribuída. Assim, como toda a propriedade pública é inviolável, a violação da propriedade divina também possuía uma definição, o sacrilégio.171

Para John Scheid, estudioso da História Religiosa Romana (École des haustes études em Scienses Sociales – EHESS), os deveres religiosos eram impostos aos indivíduos pelo nascimento, pela obtenção da cidadania romana, em caso de estrangeiro, ou pela profissão, sendo algo de cunho social e não individual, existindo assim, tantas religiões quanto grupos sociais, tais como: a cidade, a legião, os colégios de artesãos, os bairros, as famílias, etc.172

171 Cf: SCHEID, J. La Religion des Romains. Paris: Armand Colin, 1998, p: 2 Apud: (BARNABÉ, L. E. Religião Romana: Revisões de conceitos e abordagens. In: Anais Eletrônicos da XII Semana de História – “O Golpe de 1964 e os dilemas do Brasil Conteporâneo.” UNESP/Assis. Assis, 19 a 22 de Outubro de 2004, p. 1)

172

A noção de particularidade associada à religião é algo formado na contemporaneidade, entretanto nos identificamos como seres sociais através de rituais coletivos, que são comuns a determinados grupos da qual passamos a fazer parte, legitimando nossa forma de pensar e agir.

A identificação com algo sobrenatural se deve ao fato da necessidade do ser humano de apegar-se a algo ou alguma coisa que lhe possa atribuir uma identidade, a religião passa a exercer esta função cultural de formação social que simboliza todo o processo de incultamento de valores e princípios morais.

E então, a religião e a morte sempre foram temas que despertaram interesse, pois sem a morte não haveria religião ou deuses. Nesta tentativa de decifrar a morte, o homem teria buscado na religião uma maneira de imortalizar-se.

Desta forma, este medo do desconhecido, dos deuses e da morte é que a filosofia epicurista, do Carpe Diem veio para libertar. Esta doutrina permitia ao povo romano traçar seu próprio destino, livrando-os do medo dos deuses e da morte. A filosofia epicura defendia a tranqüilidade da alma, sem a necessidade de prestar contas a religião tradicional. A felicidade estaria na aproximidade do homem com a filosofia.

Nas figuras 1, 2 e 3 que retratam cenas do Satyricon, podemos perceber o uso da emoção, o movimento da câmera do lado direito para o esquerdo, bem como o uso do plano conjunto para o enquadramento do Close e Close-Up no rosto da criança. Com isso, o Satyricon de Fellini trabalha com a emoção ao invés da razão levando o expectador a fazer parte do cenário ou da trama fílmica.

Nesta cena de despedida, alusão a morte, na qual fica mais clara ao visualizarmos a figura de número 4, filmado no plano conjunto, na qual a fala do personagem indica a existência de um lugar melhor, avesso ao mundo terreno, que denominamos de paraíso: lugar para onde vão os mortos em certas religiões; lugar muito agradável.

Figura 4

Cena do Satyricon – despedida (4) – (Enquadramento: Plano Conjunto)

Na física epicurista, toda a matéria pode ser decomposta em átomos e é efêmero, o homem é efêmero, sendo, portanto mortal, pois é composto por átomos. Entretanto, os átomos são sólidos e indivisíveis, sendo eternos, e ao desintegrar a matéria, separam-se para fundirem em outros corpos. Assim a morte seria a desagregação do conjunto atômico, não existindo motivos para temê-la.

A fundamentação da teoria epicurista tem como propósito dissipar a angústia mental que é causada pelos deuses ou pela religião. A necessidade de uma religião sede lugar a espontaneidade da alma, a autonomia da vontade e a liberdade humana.

É necessário que o homem romano afaste-se da ignorância (dominada pela religião) para libertar-se do temor dos deuses e da morte. Não é o negar a existência dos deuses, mas os considerar como representantes das forças da natureza, e esta como o princípio e o fim de tudo que existe, até mesmo dos próprios deuses.

No epicurismo, o homem deve ser guiado pelas suas vontades, dedicando ao estudo da natureza para libertar-se das superstições do mundo religioso, a morte seria para a religião uma forma de controle social, uma coerção contra a vivência do prazer que a vida pode oferecer. O homem vive na constante busca de poder, de ascensão social, como se tudo que tivesse sido conquistado na vida pudesse também acompanhá-lo na morte, ao temer a morte o homem cultiva a infelicidade.

Na obra de Petrônio e no filme de Fellini, torna-se notável a questão de interesses em torno daqueles que possuíam dinheiro e poder, ou seja, aqueles na qual o poder e a riqueza já era algo inerente; os que lhe desejavam a morte estavam à volta na expectativa de usurparem alguma coisa, principalmente se estes não tivessem herdeiros legítimos. Todos que gravitavam ao seu redor viviam na esperança de serem contemplados no testamento. Sobre esta questão, vejamos:

Trimalquião procura controlar esse momento derradeiro através de previsões e ensaios cênicos de quando e como será sua partida para o mundo do Além. E o lugar que não terá no coração dos homens procura garanti-lo na grandeza do seu monumentum fúnebre. Licas tenta fugir a um destino marcado, observando com fervor religioso, presságios e admonições divinas. No entanto, o mesmo vento que impelia as velas das suas embarcações o empurra para o abraço mortal das vagas enfurecidas. Não tem pai, mulher, filho que o chorem no momento da despedida. Mãos inimigas lhe vão erguer a pira que resgate a passagem para outra dimensão. Eumolpo toda a vida foi um aventureiro. A única riqueza com que acenava era o brilho do intelecto, que amargos dissabores lhe causaram e também algumas alegrias. Em Crotona, vai passar os últimos dias da vida como rei que os heredipetae julgavam que ele era. E será, certamente, recordado. Pelos companheiros de aventura, que simbolicamente liberta, à hora da morte (talvez para uma existência menos atribulada); pelos captatores, que nunca hão de ser capazes de digerir o ludíbrio, maior ainda que a pretensa riqueza do velho. Três sendas rasgadas numa terra de engano, de insegurança, de receio e de morte. É a visão panorâmica desse mundo que interessa, por fim conhecer.173

Fellini em sua obra fílmica, busca dar uma ênfase nas características visuais, como as cores, o cenário e os personagens. Na relação da morte com o sagrado, o cineasta explora mais o lado psicológico, o temor que pairava sobre o desconhecido, o apego nas coisas materiais que levaria ao interesse de muitos, a solidão do

173 Cf: LEÃO, D. F. As ironias da fortuna: Sátira e moralidade no Satyricon de Petrônio. Coimbra: Edições Colibri (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), 1998, p. 116-117.

momento da morte, da despedida da vida, da falta de pessoas que pudesse acompanhar o cortejo fúnebre.

Com este pensamento sobre as características apontadas na obra de Fellini, o Satyricon foi rodado em formato alargado, vulgarmente apelidado de

CinemaScope. Os formatos alargados obtêm-se por meio da utilização de uma lente

anamórfica na câmera, que vai comprimindo a imagem. Outra lente, colocada no projetor realiza a função inversa.

O CinemaScope como citamos, foi introduzido em 1953 por meio do filme “The Robe”, na qual os anúncios sobre ele divulgavam como um “milagre moderno que era possível ver sem óculos” e com “som estereofônico de alta qualidade”. O som estereofônico demorou a torna-se padrão na época do CinemaScope dada à generalidade das salas de projeção.

Todos estes recursos cinematográficos eram utilizados por Fellini e aparecem no Satyricon, às imagens eram projetadas em um quadro amplo e achatadas como se fosse um antigo afresco retratado numa parede. Assim, o filme criado por Fellini a partir de seu imaginário, foge a realidade de Petrônio, porém destaca-se pela articulação daquilo que se considera ficção e do que pode se considerar como real dentro da perspectiva historiográfica.

O filme apresenta-se de forma desconexa, em um ambiente de caos, produzidos nos estúdios do Cinecittà. A música foi escolhida pelo próprio cineasta, utilizando recursos sonoros no estilo metálico e eletrônico. Seguindo o caminho oposto das produções hollywoodianas, Fellini não mostrou uma Roma nostálgica, com base no sentimentalismo italiano, mas uma Roma baseada na perca do mos

maiorum: da tradição romana.

Os tradicionais defensores do mos maiorum – anciãos, aristocratas, casta sacerdotal – abandonam essa função para protagonizarem, à sombra da antiga fama, todos os actos que deveriam rejeitar. As mulheres, por sua vez, há muito que se esqueceram o exemplo de Cláudia. Apenas Fortunata continua a ecoar o domum seruauit com razoável eficácia. As demais qualidades só na aparência estão presentes. Curiosamente, o grande exemplo anunciado da leuitas feminina acaba por trazer uma lição adjacente: a do triunfo do amor e da vida sobre a escuridão da morte. Algo

que Encólpio, quando tudo parecia apontar para a consumação plena, se vê impotente para concretizar. Porque não ama, apenas deseja Circe; porque dedica a atenção a uma pessoa sem identidade e sem caráter, que congrega em si algumas qualidades femininas e todos os defeitos com outro fruto que não seja engano, traição e dor. O amigo tem de sofrer tudo isso e ainda a punição do deus, quando buscava trilhar outra via. Se o desalentado Encólpio se vê sem meios para atingir os objectivos que se tinha proposto alcançar, outras personagens há, no Satyricon, que, real ou fingidamente, detêm um grande poder.174

O Satyricon de Fellini é considerado pelos críticos cinematográficos como um filme de “contracultura” por ser uma adaptação livre da obra literária de Petrônio, muitos dos personagens fellinianos foram associados aos Hippies da década de 1960. Os jovens aventureiros que iam à busca de aventuras sinalizavam para os críticos contemporâneos como sendo semelhantes aos jovens do período moderno, desapegados dos valores morais, abertos a sexualidade e contra as crenças religiosas. Estes, assim como os aventureiros em Petrônio visavam o Carpe Diem epicurista, da busca pela liberdade e de novos prazeres.175

Para Fellini, o Satyricon era o resgate do misterioso, do obscuro e etéreo visual clássico do passado “arqueológico” de Petrônio com vistas às questões do período moderno. Os fragmentos literários da obra de Petrônio permitiram ao cineasta trazer aos olhos dos espectadores uma verdade inventada, rumo a Roma Felliniana.176

174

Cf: LEÃO, D. F. As ironias da fortuna: Sátira e moralidade no Satyricon de Petrônio. Coimbra: Edições Colibri (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), 1998, p. 96 e 97.

175 Essas características fizeram com que muitos estudiosos do Satyricon de Fellini e Petrônio associassem também a obra Felliniana ao espetáculo “HAIR”, de grande sucesso na Broadway, que conta a história de um grupo de jovens que vivem em Manhattan, New York, e praticam o amor livre, além de abordarem temas relacionados à homossexualidade e as drogas. Cf: WYKE, M. Projecting the past: ancient Rome, cinema, and history. New York: Routledge, 1997, p. 191.

Figura 5

A morte de dois Patrícius, indireta homenagem a Petrônio que morreu conversando com seus amigos – (Enquadramento: Close-Up) 177

177 Cf: FELLINI, F. Fellini Satyricon. Bologna: Cappelli Editore, 1969. Sobre a morte de Petrônio, o historiador Claudiomar R. Gonçalves cita que: “Tácito constrói um jogo íntimo caracterizado por três fases: uma elevação dramática; uma peripécia (atitude não passiva de Petrônio frente a morte) que prepara o leitor para o grande final: a morte do personagem marcado pela contradição: Dia/Noite;

In document Night commuting (sider 71-76)