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Inserida no âmbito da Dissertação de Mestrado em Design de Comunicação, foi efectuada uma visita à Fábrica Viúva Lamego em Sintra, no dia 13 de Junho de 2012.

A Fábrica Viúva Lamego é uma da principais produtoras cerâmicas em Portugal, destacando-se pela produção de obras artísticas em espaços pú- blicos (podemos observá-las em diversas estações metropolitanas e ferrovi- árias). Em colaboração com diversos artistas, a fábrica tem explorado diferen- tes técnicas de produção e decoração cerâmicas – desde as mais tradicionais às mais inovadoras.

A produção variada e a maior dimensão da Viúva Lamego, levou a investi- gadora às suas instalações, para perceber o modo como a fábrica opera.

Foi então possível fazer uma visita guiada pelas instalações da fábrica, percorrendo as etapas de produção do azulejo. A investigadora pôde ainda esclarecer as suas dúvidas em relação a este processo.

O processo de produção cerâmica inicia-se nas instalações da Viúva La- mego com a mistura da pasta. Esta é feita num poço com uma varinha e é composta por argila e água. A argila usada na Viúva Lamego tem sempre ori- gem em Alcobaça. É aqui que esta contém as características adequadas para que as peças cerâmicas produzidas na fábrica tenham a melhor qualidade.

A pasta pode, de seguida, seguir por 2 processos diversos: a via seca e a via húmida.

Para um aspecto mais regular e ligeiro, é usada a via seca. Neste processo a pasta cerâmica passa por um optimizador e fica desidratada, transforman- do-se em pó. Este é então prensado com a forma de um azulejo, através de moldes em aço.

Pela via húmida, resultam peças mais irregulares. A pasta é, neste caso, comprimida para retirar alguma água da mistura, deixando, no entanto, as suas propriedades maleáveis. Esta é então comprimida em bolachas que são, de seguida, moídas novamente até se tornarem numa massa homogénea. A massa é extrudida e cortada com a forma e comprimento desejados; ou, para azulejos com relevo, é colocada em moldes de gesso.

A utilização de massa-seca e de moldes em aço adequa-se apenas a pro- duções regulares e de grandes quantidades, devidos aos elevados custos de produção destes moldes. Para produções menores, a Fábrica Viúva Lamego utiliza massa-plástica e moldes em gesso, cuja produção é feita nas instalações da própria.

Os azulejos produzidos em massa-seca têm a vantagem de poderem pas- sar à etapa seguinte – a cozedura – mais rapidamente que os azulejos produ- zidos em massa-húmida. Esta etapa de secagem é ainda determinante para a forma e tamanho finais da peça cerâmica produzida por via húmida. Para que peças como os azulejos não empenem, é necessário colocá-los entre azulejos chacotados durante a secagem. Estes podem ainda encolher mais ou menos durante este processo.

A cor mais clara de um azulejo indica que este está pronto para ir à cha- cota, ou seja, à primeira cozedura. Desta etapa resultam azulejos mais rígidos e de tom rosado.

Procede-se então a uma verificação da qualidade de cada peça de azulejo. Para isso procuram-se defeitos visual e auditivamente, num gesto manual rá- pido, passando as peças de uma mão para a outra, uma de cada vez, e obrigan- do-as a baterem umas nas outras. Se uma peça estiver estalada ou rachada, o som que emite ao bater nas outras peças é distinto.

Feita esta selecção, as peças podem passar para a vidragem. Esta é feita numa linha semi-automatizada: os azulejos são colocados numa passadeira rolante e passam por uma cortina de vidrado líquido, que deixa uma camada uniforme na superfície de cada peça.

Para encomendas mais pequenas (i.e. com menos peças) ou para peças com formatos irregulares ou cuja dimensão não é adequada para a linha de produção, é feita a vidragem manual por imersão, que consiste em mergulhar uma peça cerâmica numa tina com vidrado líquido.

Se o azulejo for de cor lisa, então está pronto para passar à etapa de pro- dução seguinte. Se, pelo contrário, possuir um motivo desenhado, este passa por uma etapa de decoração.

Na Viúva Lamego a decoração é feita manualmente através de três técnicas distintas: a pintura manual, a estampa e a pintura do azulejo hispano-árabe.

A pintura manual é feita a partir de guias marcadas a carvão num azulejo. Estas guias são feitas com o auxílio de um desenho picotado em papel vege- tal. Depois de marcar o desenho, o artista pode pintar a pincel o motivo no azulejo. O carvão na superfície do azulejo não interfere com a pintura, pois este queima-se no forno e desaparece.

Esta técnica é usada tanto em azulejos com motivos individuais, como também em painéis artísticos, sofrendo algumas adaptações na pintura dos painéis, devido à sua dimensão maior.

A estampa consiste em pintar o motivo no azulejo com o auxílio de pelí- culas stencil. Para evitar que as linhas fiquem interrompidas (como normal- mente ficam quando é usado um stencil) o desenho é feito por fases e são usadas mais do que uma película stencil, dependendo da complexidade do desenho.

As duas técnicas anteriormente explicadas são executadas sobre o azulejo vidrado; este tratamento evita que a tinta se espalhe na sua superfície.

Por outro lado, a decoração do azulejo hispano-árabe é feita sobre a su- perfície chacotada do azulejo. Assim, é aplicado vidrado colorido com o au- xílio de pipetas. A separação das cores é feita através dos altos relevos na su- perfície destes azulejos.

A decoração das peças cerâmicas nas 3 técnicas é feita sempre com a con- sulta de um modelo de referência. Se os motivos das peças cerâmicas forem da autoria de um artista externo à Fábrica Viúva Lamego, este poderá decorar as peças nas instalações da fábrica com a assistência de peritos em cerâmica;

ou poderá fornecer os seus desenhos e, mediante a sua aprovação, estes serão produzidos pela fábrica.

Na fábrica dedicam-se também ao desenvolvimento das cores das tintas e dos vidrados. Foi demonstrado à investigadora que estas, quando cruas, po- dem apresentar uma cor muito diferente daquela que apresentarão depois da cozedura.

Depois de decoradas, as peças cerâmicas são cozidas novamente. O processo de cozedura consiste num período de aquecimento que atinge os 1120˚C, seguido de um período de arrefecimento; variando de acordo com as tintas e vidrados utilizados. O tempo de cozedura poderá variar entre 24 e 72 horas: cores como o vermelho, o verde e o azul precisam de mais tempo para cozer. Existem ainda alguns vidrados que podem demorar 4 horas a cozer em fornos de cozedura contínua – os azulejos são colocados em passadeiras ro- lantes que demoram este período de tempo a passar pelo forno.

Terminada a etapa de cozedura, procede-se novamente a uma avaliação visual das peças cerâmicas, para que não sejam vendidas peças com defeitos. No caso dos painéis de azulejo, estes são montados nas instalações da fábrica, para que a ordem e orientação de cada peça seja verificada – estas são esta- belecidas desde a decoração, durante a qual cada azulejo é marcado com um coordenada no seu verso.

Finalizada a visita guiada, a investigadora pôde esclarecer algumas dúvidas.

Apesar de se destacar na produção de obras cerâmicas para espaços pú- blicos e receber encomendas para novos projetos continuamente, a Viúva La- mego produziu também algumas placas toponímicas.

Através da visita à Fábrica Viúva Lamego, a investigadora pôde observar algumas técnicas de produção cerâmica mais modernas, aliadas a técnicas tradicionais. Apesar de usar linhas de produção automatizadas, constatou-se que é sempre necessária intervenção humana.

A investigadora inteirou-se também de técnicas de produção que abrem novas possibilidades em relação às formas que as peças cerâmicas podem to- mar. Esta exploração das formas e de decoração cerâmica só é possível numa produtora que se dedica à elaboração de obras artísticas, umas mais tradicio- nais e outras inovadoras.