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4. Data analysis

4.2. Loco Contigo

Entre o início e os meados do século XX, a popularidade dos manuais ainda seria assombrosa na impressão do escritor e famoso higienista Afrânio Peixoto. O personagem Luciano assegura que havia "mais Chernoviz no Brasil do que Bíblia" (PEIXOTO 1962)96.

Apesar do imenso mimetismo que o Chernoviz provou possuir dentro do panorama da medicina, através de

consagrados escritores, variando de conhecimento enciclopédico até salvo-conduto científico para o

charlatanismo, algumas obras apresentam a seus leitores um médico/manual desprezível e inútil (talvez, porque desatualizado para o período em questão). Um Chernoviz que mais parece ter sido escrito, como uma

farsa oportunista, apenas para corroborar crendices e superstições. Despojado de seu fundamento científico e

racionalista, o receituário terapêutico é visto aqui, como integrando aos sistemas mágicos e religiosos

predominantes no universo popular de cura.

O poeta (e farmacêutico) Carlos Drummond de Andrade, no poema "Dr. Mágico", reconhecendo a popularidade do manual, assevera: "Dr. Pedro Luiz Napoleão Chernoviz/ Tem a maior clientela da cidade./ Não atende a domicílio/Nem tem escritório./Ninguém lhe vê a cara./Misterioso doutor capa preta.../." Outros versos, no entanto, revelam o deslocamento sofrido pelo Chernoviz, aqui subsumido ao campo semântico da medicina folclórica: "Esse que cura todas as moléstias/ (De preferência as incuráveis)/ Socorre os afogados/ Asfixiados/ Assombrados de raio/ Sem desprezar defluxo, catapora, /Sapinho, panariz, cobreiro/ Bicho do pé, andaço, carnegão.../" (ANDRADE 2001)97.

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Silva Araújo, ao escrever os dados biográficos de Chernoviz, cita essa frase enquanto um comentário de Afrânio Peixoto.(ARAÚJO 1979)

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ANDRADE, C. D. Doutor Mágico. In: ______. Boitempo I. Rio de Janeiro: Ed. Record. 27-28.2001. Apud FIGUEIREDO, B. Chernoviz e a medicina no Brasil do século XIX. Estredos, I(1) 95-109, Maio 2001.

O personagem Jeca, de "Urupês", de Monteiro Lobato (LOBATO 1961)98, preguiçoso e ignorante, reproduziu o desprezo do autor pelo universo de costumes e crenças do caboclo caipira do interior do Brasil (CAVALHEIRO 1961)99. Para Lobato, o "mobiliário cerebral" de Jeca é repleto de superstições, além de um banquinho de três pernas para receber os hóspedes - "três pernas permitem o equilíbrio; inútil, portanto, meter a quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão" - e sua medicina é tratada por "ritual bizantino", uma "noite cerebral", de onde "pirilampejam-lhe [ao Jeca] apozemas, cerotos, arrobes e eletuários100 escapos à sagacidade cômica de Mark Twain", e comparada a "um Chernoviz não escrito, monumento de galhofa onde não há de rir, lúgubre como é o epílogo." Tal opinião situa o Chernoviz numa arena dentro da qual ele já não serve de salvo-conduto para a ignorância do Jeca, mas passa a ser a própria evocação da ignorância. Lobato, no conto "Urupês", não mais distingue o manual do rol de mezinhas aplicadas por um ' "curador", um Euzébio Macário de pé no chão e cérebro trancado como moita de taquaruçu', em cujo receituário, "O veículo usual das drogas é sempre a pinga..."101 Na terapêutica do Jeca para bronquite,

'é um porrete cuspir na boca de um peixe vivo e depois soltá-lo: o mal se vai com o peixe água abaixo...[...]. Para "quebranto de ossos" 102, já não é tão simples a medicação. Tomam-se três contas de rosário, três galhos de alecrim, três limas de bico, três iscas de palma benta, três raminhos de arruda, três ovos de pata preta (com casca; sem casca desanda) e um saquinho de picumã...' 103,

receita mais parecida com o colonial Erário Mineral (FERREIRA 2002) do que com a ciência ilustrada do Chernoviz (CHERNOVIZ 1862)104.

Nas "Memórias" de Pedro Nava (NAVA 1983), serão encontrados personagens médicos, convictos de uma medicina moderna, da terceira década do século XX, cuja

98

Urupês, pág. 277-292.

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Cavalheiro mostra como Lobato faz, depois, uma auto-crítica, percebendo que Jeca era o retrato da miséria de um país, já no século XX, e "ainda sob o regime colonial".

100

apózema: decocção de vegetais, à qual se adicionam outros medicamentos; ceroto: preparação composta de óleo e cera para curativo de feridas; arrobe(ou robe): sumo de qualquer fruto com a consistência do mel, ou xarope feito com suco de plantas; electuário: preparação de consistência mole, composta por pós, polpas vegetais, ou substâncias animais e minerais, misturadas a açúcar, mel, ou vinho. CHERNOVIZ 1878 (op. cit.)

101

Lobato, M. Urupês, op. cit. pág 287-288

102

Em CHERNOVIZ 1878 (op. cit), o verbete "quebranto" remete a "figa", onde se lê: "não é preciso dizer quanto é pouco fundada semelhante prática. O melhor preservativo das moléstias é a observação dos preceitos de higiene".

103

Urupês, pág 287-288

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racionalidade os obriga a conviver e a reagir, semelhante a Monteiro Lobato com seu "Urupês", à medicina atrasada do interior. Egon, médico recém-formado, viaja para o interior de São Paulo, a fim de fazer uma clientela em Monte Aprazível, na região de São José do Rio Preto, na década de 1930 (BUENO 1997)105. O Cavalcanti, colega e amigo, dos tempos da faculdade de medicina, e já íntimo do vilarejo em que morava, o introduziria nos costumes locais. Uma conversa entre os dois ilustra bem como o Chernoviz, diante das modernidades médicas, vai sendo identificado com a medicina do paciente, do caipira; o autor, aqui, só faz menção a ele como folclore ultrapassado, uma medicina cuja cientificidade já havia fugido da memória dos indivíduos mais cultos. Numa conversa entre os dois médicos, a respeito de uma receita de Cavalcanti, Egon estranha a associação entre um remédio científico e uma planta medicinal, por isso, "...deu logo sua cipoada no amigo”.

“-Mas Cavalcanti, será possível? Que eu faça essa viagem toda para encontrar você deixando seus doentes tomarem carqueja e de preferência a amarga e mais a raspa de caroço de abacate queimado. No meu caso, eu daria logo uma esculhambação nessas mezinhas inoperantes e cheirando a Chernoviz e obrigava a doente a ficar só na antipirina e no linimento de Betul-01. Do contrário é entreter crendice e se igualar a curandeiro..." (NAVA 1983).

Essa opinião se repete na mesma obra, agora num diálogo entre Egon e um jovem paciente, vítima de "doença de baixo apanhada no bordel". Feita uma longa anamnese, o paciente arrola os inúmeros chás e remédios que tomara, e que de nada haviam servido, um deles, receitado por um amigo do pai, "que é muito entendido". "Estendeu ao médico um papel. Nele estavam escritas duas palavras: copaíba e cubebas. Era pura medicação do Chernoviz." (NAVA 1983). Após essa constatação, o Dr. Egon prescreve-lhe inúmeras injeções e lavagens uretrais, que o diferenciam, em sua identidade acadêmica, de um Chernoviz, no caso, representado pelas plantas medicinais e mezinhas, ainda usadas, com freqüência, pelos curiosos e farmacêuticos, consultados antes do médico. Essa maneira de enxergar o Chernoviz como matéria inútil e, até, anti-científica, vai de encontro à "...medicina douta, posta ao alcance da compreensão vulgar...servindo para incorporar fatos novos à experiência cultural da coletividade" (NAVA 1949), pela qual o próprio Nava descreveu o Chernoviz e alguns outros manuais de medicina popular. E esse fenômeno se repete em

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Segundo Bueno, Egon surge como um alter ego de Nava, em resposta a atitudes que não estariam de acordo com alguns de seus valores mais conservadores.

Gilberto Freyre, que consulta o Guia Médico para as Mães de Família, de Imbert, ora para se amparar cientificamente, ora para censurar o tratamento do autor do manual para o "mal das crianças mijarem na cama", contra o qual, poder-se-ia usar "o medo, a ameaça de castigo" (IMBERT 1843). Discordando deste aspecto do manual, Freyre, estabelece uma generalização, ao concluir que "médicos e curandeiros nunca estiveram muito distanciados uns dos outros, antes da segunda metade do século XIX" (FREYRE 1946).