Chapter 2: Contemporary Conspiracy and the Function of Conspiracy
3.2. The Contemporary Conspiracy Film
O combate à Aids através da política de saúde pública brasileira contribuiu para destacar o país no cenário mundial, apesar do enorme contraste sócio-econômico aqui presente. Hoje vivenciamos os casos da quebra das patentes de antiretrovirais usados no tratamento da
43 Pegando como exemplo apenas a incidência de doenças em 2003, para efeito comparativo tem-se: A
tuberculose teve incidência de 40,76 por 100 mil habitantes; a sífilis congênita 4.233 casos para uma população estimada em 161.700; com 64 casos de febre amarela registrados; enquanto a Aids teve uma incidência de 18,17 para 100 mil habitantes (dados retirados do Datasus do Ministério da Saúde). Há ainda a hanseníase, atualmente com taxa de incidência igual a 4 em cada 10 mil habitantes, ou seja, a cada ano são diagnosticados 43 mil novos casos no país. Já a dengue infectou 299.764 pessoas apenas em 2003. Dados do Ministério da Saúde.
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Em 1980 houve um caso de varíola causado por uma contaminação acidental em um laboratório da Inglaterra. Nascimento e Carvalho p. 222, 2004.
Aids e o da responsabilização governamental pela sua distribuição gratuita para os soropositivos, em atitudes pioneiras que servem de modelo na redução de infecção do vírus HIV (vírus que causa imunodeficiência em humanos) e no acesso ao tratamento. O Brasil foi o primeiro país do mundo a oferecer o coquetel anti-Aids gratuitamente para os soropositivos.
Esse caminho começou a ser traçado na segunda metade do século XIX com o movimento dos médicos-sanitaristas que iniciaram a institucionalização da saúde, com a criação da Comissão Central de Saúde Pública e a Junta de Higiene Pública, num esforço de conter a epidemia de febre amarela na capital do Império, Rio de Janeiro, em 185045. A saúde começou a sair da esfera privada para a pública, onde a urbanização e o direito ao atendimento passaram a compor o debate, seja para melhorar a saúde da população em geral, ou para minimizar a ameaça que as classes menos abastadas representavam.
Outro passo importante foi a profissionalização da categoria dos médicos, a partir de meados do século XIX, que organizavam instituições de pesquisa e de saúde e passaram a ter grande influência junto ao governo seja no estabelecimento de estratégias para conter patologias, ou para combater práticas não-científicas ou charlatãs, que ameaçavam não apenas a saúde da população (como diziam), mas, sobretudo, o poder da classe médica.
Mundialmente, Roy Porter46 enfatiza a inclusão dos laboratórios como principal local de pesquisa no ensino da medicina, principalmente na Alemanha, a sofisticação tecnológica como parte integrante da medicina e a inclusão de análises químicas rigorosamente quantificadas, como cruciais para mudar o perfil da medicina. Se antes ela era mais prática e voltada para as observações empíricas feitas pelos profissionais da saúde em hospitais e campos de batalha, passa a contar com maior precisão, escorando-se na experimentação controlada e sistemática.
As contribuições do químico francês Louis Pasteur na final do século XIX para a microbiologia e imunologia impulsionaram a medicina de maneira decisiva. Pasteur
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Pimenta in Nascimento e Carvalho p.33, 2004.
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conseguiu invalidar a Teoria da Geração Espontânea47 com seus estudos do processo de fermentação do vinho e da cerveja que acabaram originando o processo da Pasteurização48, praticado ainda atualmente, e que garantiu o fim do leite como fonte da tuberculose e distúrbios intestinais49. Com isso, Pasteur demonstrou que as doenças eram causadas por agentes patológicos microscópicos – como previa, igualmente Robert Koch50, descobridor do bacilo que leva seu nome, transmissor da tuberculose, em 1882, e do cólera em 1883. O cientista francês também foi responsável por dar um salto qualitativo à medicina quando desenvolveu vacinas51 contra o carbúnculo de ovelhas (1881) e raiva (1885), doenças fatais que afetavam tanto animais quanto humanos. Este eficaz método de prevenção contra doenças contribuiu, nas décadas seguintes, para reduzir drasticamente a incidência de inúmeras doenças transmitidas por bactérias e aumentar a expectativa de vida da humanidade. A chamada Era da Vacinação seria, justamente, a primeira fase da história da imunologia, que seguiu até meados do século XX, quando surgiu a teoria da formação de anticorpos e que levou à segunda fase, quando passou a haver um entendimento sobre o sistema imunológico (Söderqvist & Stillwell, 1999, p.210).
Outras vitórias foram conquistadas pela medicina já no final do século XVIII e início do XIX para entender a origem das doenças. Entre elas estão a descoberta do ciclo da malária por Ronald Ross (Nobel de Medicina de 1901) em 1894, o combate ao mosquito do gênero
Anopheles (hospedeiro do vírus transmissor da febre amarela) durante a construção do
Canal do Panamá (1904-1914), o isolamento do espiroqueta Treponema pallidum (transmissor da sífilis) em 1905 e o desenvolvimento do composto de arsfenamina por Paul
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Segundo esta teoria, enunciada pelo filósofo grego Aristóteles, as espécies originavam-se de uma massa inerte que, em contato com um princípio vital, geraria vida sob condições favoráveis do meio.
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Processo em que se eleva a temperatura do leite a 62º C por trinta minutos ou a 72º C por 15 segundos, matando os microorganismos. Enciclopédia Britânica (1974).
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Porter, p. 108, 2004.
50 Seus postulados foram fortemente retomados no caso da Aids, para se averiguar se o vírus HIV era
realmente o causador da doença (Harder, 1992). De acordo com os postulados, para se comprovar que um agente patológico é mesmo o causador de uma doença é preciso: (a) o organismo específico tem que estar presente em todos os casos da doença infecciosa; (b) o organismo deve ser passível de cultivo numa cultura pura; (c) a inoculação de um animal experimental com a cultura deve reproduzir a doença e; (d) os organismos podem ser recuperados do animal inoculado e novamente reproduzidos numa cultura pura. (Porter, 2004), p. 111.
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Termo cunhado por Pasteur em homenagem a Edward Jenner, médico rural inglês que, no final do século XVIII, havia defendido a inoculação de varíola bovina contra a varíola humana. Porter (2004), p. 110.
Ehrlich52 (1854-1915), dois anos mais tarde, para curar os sifilíticos. Esses fatos contribuíram para fortalecer, ainda mais, a credibilidade na medicina e na ciência a partir do século XX. “Quanto mais científica e eficaz ela [a medicina] se tornou, mais o próprio público, seus representantes políticos e os meios de comunicação passaram a recorrer a seu potencial benevolente, dando às artes curativas o papel de uma fada madrinha que, segundo se esperava, atenderia aos desejos de todos”53.
No Brasil, a recém implantada República (1889) investiu na implementação das questões nacionais de saúde pública com a criação do Instituto de Manguinhos (hoje Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz), fundado no final do século XIX, do Instituto Butantan (de 1901) e do Instituto Biológico (de 1927), que voltaram sua atenção para pesquisar doenças de maior incidência no país e produzir vacinas, barateando custos e aperfeiçoando sua técnica e qualidade, que resultaria na exportação de soros e vacinas. As campanhas de vacinação em massa introduzidas por Oswaldo Cruz, a partir de 190454, mudaram, definitivamente, a responsabilidade de prevenção a doenças, antes individual, para as mãos do governo.