2.8 Sun angle calibration
2.8.3 Consistency of the calibration assessments
Decidiu-se trazer à tona o tema da violência, mesmo muito debatido e controvertido na literatura. O que é fato e requer muita reflexão e atenção, uma vez que as crianças assistirão cerca de 10 tipos diferentes de crimes, de acordo com o Código Penal, se considerados os 7 canais abertos incluídos na pesquisa realizada no Brasil pelo Instituto Latino-Americano das Nações Unidas que pesquisa a prevenção da criminalidade, como parte da pesquisa “Crime e TV83”. Portanto, seriam 1433 delitos, que incluem lesão corporal, homicídios, furtos, roubos.
Em “A criança e a violência na mídia”, cuja organização é de Ulla Carlsson e Cecília Von Feilitzen (2000), textos de pesquisas mostram referências e dados, tal como o de Wartella, Olivarez e Jennings (2000), que descreve que a sociedade nos Estados Unidos tem crescente aumento de violência e que a análise mais drástica está entre as crianças e adolescentes. Elas questionam de quem é a responsabilidade de tanta e crescente violência e, de acordo com as mesmas, a violência na TV, embora não seja o único e nem isolado fator, contribui para o comportamento violento, “mais de quarenta anos de pesquisas indicam uma relação entre a exposição à violência na mídia e o comportamento agressivo” (p. 61).
Neste mesmo livro há informações de Huesmann, outro autor citado pelas organizadoras por suas pesquisas:
83 Disponível em: <http://www.ilanud.org.br/biblioteca/revistas/>. revisitada em 04 de março de 2010. (Revista nº 13 - Crime e TV de 2001).
[...] a exposição a desenhos animados violentos e a subsequente brincadeira com brinquedos baseados na série assistida, fornece às crianças uma oportunidade para ensaiar scripts agressivos derivados ou reforçados pelos programas. Crianças entre 4 e 5 anos, em pequenos grupos com meninos e meninas misturados, assistiram durante 21 minutos ou a um desenho animado agressivo ou a um outro desenho neutro. Logo após, brincaram por quinze minutos ou com brinquedos agressivos ou com brinquedos neutros (os brinquedos eram produtos comerciais baseados nos desenhos) e durante outros quinze minutos brincaram com o conjunto oposto de brinquedos; outras crianças participaram como grupo de controle, também brincando com os brinquedos, mas sem assistir aos desenhos e a análise mostrou níveis mais altos de comportamento agressivo nas crianças que foram expostas ao desenho animado violento. Concluíram que os resultados justificam a preocupação publica com o assunto dos desenhos animados e seus brinquedos e personagens.
Para esta análise usar-se-á a definição de violência como “agressão”, com base no árduo trabalho de definição de violência buscada por Alex Eduardo Gallo. Em seu artigo, Estudos da Violência e suas Intervenções84, ele comenta:
O estudo da violência implica, primeiramente, na definição de violência. Segundo uma extensa revisão, elaborada por Williams (2002), a definição de violência está relacionada à definição de agressão. Essa mesma autora aponta que Bandura (1973), afirma que “tentativas de definir um conceito representam essencialmente um convite a caminhar por uma selva semântica” (p.2). Tal fato acontece porque não existe um consenso na definição de violência. Williams (2002), aponta ainda que Hacker (1973) e Loeber e Stouthamer-Loeber (1998) definem a agressão como atos que infligem dados corporais ou psicológicos a outros, referindo-se a atos que causam danos menos sérios, enquanto violência é definida como atos agressivos que causam danos sérios. Para Wistedt e Freeman (1994), o conceito de agressão é mais amplo que violência, incluindo, também, palavras ou ações ameaçadoras e irritabilidade. Ainda na revisão de Williams (2002), Parke e Sawin (1997) definem que a agressão não é um comportamento, mas um rótulo cultural de padrões de comportamento, sendo resultado de um julgamento social por parte do outro. Uma outra definição de violência foi apresentada por Chauí (1985), sendo a violência uma realização determinada as relações de força, tanto em termos de classes sociais, quanto em termos interpessoais. Sidman (1989) e Andery e Sério (1997), definem a violência como sinônimos de coerção. Além dessas dificuldades de definição, o campo jurídico trabalha com conceitos de doloso e culposo. O que diferencia doloso de culposo é
84 GALLO, Alex Eduardo. Estudos da violência e suas intervenções. Laboratório de Análise e Prevenção da Violência. Universidade Federal de São Carlos. Disponível em: <http://www.dpi.uem.br/vi-
semanapsi/pdf/ESTUDOS%20DA%20VIOLENCIA%20E%20SUAS%20IN.pdf>. Acessada em 22 de mar. 2009. às 12:26h.
a intenção em praticar a infração. Como intenção é um constructo subjetivo, determiná-la torna-se uma tarefa propícia a enganos. “Considerando os diversos conceitos de violência e as dificuldades de definição, neste trabalho, violência será considerada como sinônimo de agressão”.
Este trabalho investiga o desenho animado, preferência televisiva das crianças, que não pode deixar de ser visto como produto da indústria multicultural. Por diversas vezes, questionou-se ao longo desta pesquisa: vende tão bem porque traduz o mundo das crianças, ou vende tão bem porque vende um mundo para as crianças?
O desenho animado é feito por adultos, é “adultocêntrico” em certo sentido, pois é a tentativa do adulto “ser infantil”.
É inquietante pensar que Victor Strasburger, em 1992, entre outros autores que têm estatísticas ou números semelhantes, aponta para o fato de que catalogados os desenhos animados e repensados em suas imagens, constata-se que uma criança terá assistido 806.400 minutos, ou 13.440 horas ou mesmo 560 dias de sua vida. É impressionante pensar que aos 70 anos como criança, ter-se-á gasto sete a dez anos de sua vida assistindo à televisão.
Como o desenho animado faz mesmo parte da indústria cultural, resta-nos pensar que este entretenimento cultural é um negócio lucrativo que já subsiste por anos e deflagra, sim, os princípios e ideologia no mundo em que está inserido. Seja uma ideologia capitalista, seja uma ideologia de guerra étnica racial, sejam os sonhos de mulher prefigurados pela Disney.
Averiguou-se, na fonte citada pelo livreto “A atração perigosa em desenho animado”, que a Revista Veja, de circulação nacional, publicou em 9 de março de 2005 números estarrecedores sobre os lucros da Walt Disney Company, com a comercialização de DVDs, CDs, brinquedos, canais de TV (ABC, ESPN, Disney Channel e outros), além de cerca de 1,12 bilhões de dólares arrecadados em seus oito parques temáticos.
É impossível não dar atenção às cifras vultosas que giram em torno do desenho animado como fenômeno de entretenimento de uma cultura construída e editada por adultos em busca de lucro, como parte da natureza básica e constituinte da indústria multicultural do espetáculo, do sonho e da ilusão da imensa maioria dos cidadãos que são ou um dia foram crianças.
No desenho animado vê-se de tudo: a projeção do que é conforto e luxo, o que é lícito e traquinas, a impunidade de consequências ou a crueldade sem precedentes. Têm-se modelos de homens e mulheres, ideais de famílias, do certo e do errado, de valores diversos e de estereótipos do aceitável e do inaceitável. Assiste-se à introdução de conceitos, de comportamentos, de consumo, que, por sua vez, traduzem uma sociedade e explicam o espectro cultural, social de uma sociedade e seus aspectos e vicissitudes. Todas estas são formas de sedução e de manipulação já descritas e debatidas por Adorno, Horkheimer, Marcuse e Walter Benjamim em seus trabalhos.
Ao mesmo tempo, os desenhos animados, segundo autores como D‟Elboux “reelaboram mitos, símbolos, metáforas que atingem a subjetividade das crianças, auxiliando-as a solucionar seus conflitos internos através de narrativas que tratam do nascimento, da vida, da morte, do herói arquetípico etc.”.
Assim, questiona-se a quem fica delegada a responsabilidade da instrução, do ensino, da responsabilidade e correção do público televisivo do desenho animado e do mercado que o envolve. A televisão orienta e as crianças conseguem, por si só, filtrar as imagens e mensagens, decodificar e maturar valores e condutas? Será a escola, os pais, o governo, a família, as próprias crianças? De quem é esta responsabilidade? Há algum responsável ou, quiçá, necessidade de um responsável?
Questionar a existência ou necessidade de um responsável não é atribuir culpabilidade, mas compreender quem assiste à televisão, uma vez que as pessoas vivem em um mundo televisionado que perpetua a imagem consumida na tela. Esta perpetuação ocorre na vida das pessoas através do modo como se comportam, imitando e consumindo a tudo ao que assistem, pois vivemos numa sociedade “midiada”, em que as pessoas consomem a mídia e permitem que suas relações sejam mediadas pela mídia que, por sua vez, forma conceitos e opiniões, vendem produto de diversas formas, elege ídolos e achincalha os vilões também eleitos por ela.