Segundo Luna (2010) foi no início do século XIX que Napoleão Bonaparte se lança na expansão do Império Francês a toda a Europa e decreta o Bloqueio Continental, para isolar a rival Inglaterra. Ao longo da primeira década daquele século, estas duas grandes potências iriam utilizar o território português para disputarem a supremacia da Europa. Portugal, velho aliado dos ingleses, após um longo período de hesitações desafia o Bloqueio e, em 1801, com o apoio francês, a Espanha invade o país, pelo Alentejo. Os portugueses conseguem derrotar o invasor, mas perdem Olivença. Em 1803 são os ingleses que ocupam a Madeira e Goa, com o pretexto de proteção face a uma agressão francesa.
A primeira invasão francesa dá-se em novembro de 1807, sob o comando do General Junot, e, a conselho dos ingleses, a Família Real foge para o Brasil. Junot ocupa Lisboa e assume a presidência do conselho de Governo.
Em agosto de 1808, uma força expedicionária britânica, comandada pelo General Wellesley5, desembarca junto à foz do Mondego e dirige-se para Lisboa. As tropas francesas, comandadas pelo General Delaborde, sofrem a sua primeira derrota, frente ao exército anglo-português, na batalha da Roliça, a 19 de agosto. O que restou das tropas francesas retirou-se para Torres Vedras, onde estava o grosso do exército, comandado por Junot, formando uma força de cerca de 12.000 homens. Ao mesmo tempo, aos 14.000 soldados anglo-portugueses, juntavam-se mais 4.000 soldados ingleses, desembarcados no Porto Novo (Maceira, Torres Vedras), junto ao Vimeiro, onde se travou uma nova batalha, a 21 de agosto, que marcou a derrota definitiva do exército francês.
No dia 22 de agosto, os Generais Wellesley e Kellermann assinaram, na Maceira, o acordo de cessar-fogo, depois ratificado sob a designação de Convenção de Sintra, que permitiu às tropas francesas saírem do país e levarem consigo os saques feitos durante a ocupação. Em março de 1809, o exército francês, sob o comando do Marechal Soult, invade novamente o país, pelo Norte, ocupando a cidade do Porto. Dois meses depois, as tropas de Wellesley e Beresford vencem a batalha do Douro, obrigando Soult a sair de Portugal.
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Após a retirada das tropas de Soult, o duque de Wellington decide defender Lisboa, para permitir uma eventual retirada do exército britânico, no caso de uma nova invasão. Estratega ímpar, e conhecedor do relatório elaborado pelo Coronel Vincent, em 1807, a pedido de Junot, sobre as excelências defensivas do terreno na região de Torres Vedras, bem como dos estudos topográficos do Major Barreiros e do Brigadeiro Neves Costa, manda edificar aquele que é considerado o mais eficiente sistema de fortificações de campo da História Militar. Este sistema defensivo consistia numa tripla linha de redutos de alvenaria, que reforçavam os obstáculos naturais do terreno, formando uma barreira delimitada pelo oceano e pelo rio Tejo.
A 1ª linha tinha uma extensão de 46 km e ligava Alhandra, junto ao rio Tejo, à foz do rio Sizandro, em Torres Vedras. A 2ª linha, construída cerca de 13 km a Sul da 1ª, tinha uma extensão de 39 km e ligava a Póvoa de Santa Iria a Ribamar. A 3ª linha, que consistia no perímetro defensivo da praia de embarque – S. Julião da Barra -, cerca de 40 km a Sul da 2ª linha, tinha uma extensão de 3 km e ligava Paço de Arcos à Torre da Junqueira. Uma 4ª linha foi ainda levantada na península de Setúbal, para evitar uma aproximação pelo Sul. No seu conjunto, as linhas constituíam um verdadeiro reduto armado, defendido por 36.000 portugueses, 35.000 britânicos, 8.000 espanhóis e cerca de 60.000 homens de tropas portuguesas não regulares. As Linhas de Torres Vedras estendiam-se por mais de 80 Km e eram constituídas por 152 fortificações, guarnecidas com 600 peças de artilharia.
Na primavera de 1810, Napoleão empreende um novo esforço para expulsar os ingleses da Península Ibérica, onde constituíam uma ameaça ao domínio francês sobre a Europa. O General Massena entra com as suas tropas pela fronteira da Beira e, no Buçaco, enfrenta pela primeira vez o exército anglo-português. Apesar de derrotado, Massena consegue ladear o inimigo e progredir para Sul.
O exército inglês recua então para a Estremadura, refugiando-se nas linhas de Torres Vedras, onde chega a 10 de outubro. O General francês, com uma força de cerca de 65.000 homens, chega às linhas no dia 14. Consegue ainda tomar a vila do Sobral do Monte Agraço, mas é depois vencido. Para além das fortificações, o inverno particularmente chuvoso havia feito transbordar as margens do rio Sizandro, transformando-o numa barreira intransponível.
Sem conseguir avançar e enfrentando a rebelião dos seus oficiais, a fome, a chuva, o frio, a doença e a falta de comunicações, Massena inicia a retirada das suas tropas na noite de 15 de novembro de 1810, a coberto do nevoeiro e deixando bonecos de palha
no lugar dos soldados, enganando assim o inimigo e atrasando a sua reação. A derrota de Massena nas Linhas de Torres Vedras marca o início da viragem da carreira vitoriosa de Napoleão Bonaparte. Wellesley, por sua vez, foi galardoado por D. João VI com os títulos de 1º Conde do Vimeiro e 1º Marquês de Torres Vedras. Para homenagear o exército luso-britânico, o município de Torres Vedras erigiu um obelisco no centro da vila, concebido pelo Arq. Miguel Jacobety e inaugurado no dia 10 de outubro de 1954.
Não podemos esquecer, no entanto, que a Guerra Peninsular assumiu uma violência superior à de quaisquer outras guerras anteriormente ocorridas em Portugal e que as suas repercussões económicas, sociais e políticas foram muito duradouras. O número de mortos foi superior a 100.000 habitantes viriam ainda a falecer em consequência da fome e da falta de recursos.