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Abordar a hipótese da mente estendida de forma lógica se afigura em um primeiro momento como uma abordagem muito ampla, dado que os mais diversos processos cog- nitivos são considerados por esta forma de pensar a mente humana. As mais variadas formas de cognição estariam abarcadas, desde a noção de aprendizado até a questão da identificação pessoal com elementos exteriores. Sendo assim, cabe uma delimitação do que será abordado dentro do espectro de pensamento da questão da mente estendida.

Para dar fim ao projeto, pretende-se aqui, como já apontado anteriormente, tratar especificamente a questão da memória na mente estendida, levando em consideração as- pectos filosóficos acerca do tema. Se delimita a questão da memória não só por considerar que é um dos processos mais centrais ao se fundamentar a noção de mente estendida.

Assim sendo, tem-se aqui a tentativa de construir uma lógica da memória que abarque não somente a noção de memória, em especial a memória proposicional, porém

também trazer a noção de uma possível lógica com agentes múltiplos, dotada do potencial de abarcar o tema da mente estendida, considerando a já questionada concepção do tema.

A tentativa de abordar a ideia de mente estendida na lógica não é original, dada a existência de demais trabalhos acerca do tema. Um dos que gostaria de destacar é o ar- tigo Mente estendida e conteúdos previamente endossados, de Bernardo Alonso(ALONSO,

2013), que propõe uma formalização em lógica modal das questões apresentadas no tra- balho já ostensivamente citado de Clark e Chalmers.

Contudo, o que se pretende aqui é dar uma nova visão ao tema, tentando não abordar de forma tão específica a questão dos conteúdos previamente endossados como trabalhado no artigo citado. Isso se dá pelo fato de que o trabalho em questão faz uso da já quase canônica lógica epistêmica, utilizando mais um operador, o que traz para esta lógica a ideia de estar informado. Já no presente trabalho, é feita a tentativa de tratar a ideia da mente estendida a partir do conceito de memória, criando uma lógica independente dos sistemas lógicos epistêmicos a partir do trabalho de Hintikka(HINTIKKA,1965).

A escolha pela abordagem do conceito de memória se dá pelo fato de que uma formalização lógica da memória possibilita o uso posterior do sistema construído para outras considerações lógico-filosóficas. Assim sendo, esta linguagem servirá tanto como forma de apoio à noção de memória numa abordagem de mente estendida, como também poderá ser objeto de análise para projetos futuros ou ferramenta de representação da ideia de memória seguindo um esquema de multi-agente. Em suma, pretende-se criar um sistema lógico que vá para além dos própositos do presente trabalho.

3.1.1

Abordando a mente estendida via ideia de memória

Como já salientado, a escolha feita do conceito de memória é dada a partir da possibilidade de constituição da hipótese da mente estendida a partir deste mesmo con- ceito. Como parte considerável do que é pensado na mente estendida a partir da ideia de uma complementariedade das tarefas cognitivas, abordando elementos externos como dispositivos que auxiliam tarefas mnemônicas, será aqui tentada sua representação.

Escolhe-se também a ideia de memória para ser trabalhada como representativa da hipótese de mente estendida a fim de trazer à atenção também a possibilidade de construção de uma lógica da memória que leve em consideração agentes múltiplos ao se considerar o processo de relembrar ou recordar. A tentativa de tratar memória na lógica se restringe aos aspectos proposicionais da mesma, ignorando voluntariamente outras formas da mesma.

O esforço de representar formalmente a memória proposicional se dá pela facilidade de representação de conteúdos mnemônicos a partir dessa abordagem. Pode-se também considerar a possibilidade, para fins lógicos, ignorando aspectos psicológicos, de reduzir

toda a memória à memória proposicional. Por mais que a memória humana não seja reduzida facilmente a isso, pode-se pensar nessa forma de redução como mecanismo de interpretação dos conteúdos da memória de um indivíduo que está inserido no processo da mente estendida.

Para tal empreitada, escolhe-se a formalização via lógica modal. O fato se dá pela facilidade de representação de conceitos filosóficos nessa abordagem lógica, além de maior simplicidade em visualizar a interação dos conceitos trabalhados. Outras formas de abordagem foram consideradas, como por exemplo tratar a noção de memória via abordagem paraconsistente, contudo, a possibilidade foi descartada pelo autor por motivos de clareza e simplicidade a fim de realizar o projeto em questão.

Contudo, a construção do sistema não se resumirá à apresentação de um sistema lógico monomodal contendo uma representação de memória. O sistema a ser apresentado será trabalhado através da operação de fusão de lógicas, realizando uma interação desse sistema consigo mesmo através de uma formalização hierárquica desta lógica. Essas pro- posta se dá com a intenção de englobar assim a ideia de uma hierarquia entre formas de memória, representando distintos níveis de rememoração ou formas de registro e resgate de informações.

Os processos de multimodalização de lógicas e seus resultados já foram abordados em uma série de trabalhos anteriores de outros autores. Muito do tratado aqui leva em con- sideração trabalhos de Carnielli e Pizzi(CARNIELLI; PIZZI, 2008), Costa-Leite(COSTA- LEITE, 2011) e até mesmo pelo autor do presente trabalho(LIMA, 2012). São levados em consideração resultados anteriores de forma a sustentar o que é pretendido aqui ao realizar tais operações e trabalhar lógicas modais combinadas.

O uso de métodos de construção de lógicas multimodais também serve ao propósito do trabalho, que além de abordar as noções do ciborgue e da mente estendida, investiga as formas de representação de conceitos filosóficos em lógica e a interação entre esses conceitos. A proposta de tratar de questões filosóficas de forma lógica também passa pelo próprio processo de investigação das formas de construção de lógica e interação entre esses sistemas.