O Cinema é feito de muitas despedidas. Muitas delas povoam para sempre as nossas lembranças. Adeus, Lênin! é um filme de despedida: despedida dos sonhos de uma revolução, os quais permanecem vivos apenas para uma mulher que desperta do coma, mas que continua a viver o sonho comunista, mesmo depois da queda do muro de Berlim, por meio das alegorias criadas por seu filho. “Adeus, Pierre...” também é uma despedida, mas é também um convite a todos aqueles que acreditam na narrativa. Um convite a futuros e presentes narradores a continuarem por essa história, a se permitirem vivenciar a experiência fílmica em toda a sua intensidade, enfim um convite aos educadores que, como eu, acreditam em uma educação da sensibilidade, em uma outra educação possível.
O cinema, como já dissemos, é repleto de partidas e despedidas; ele nos impele, em seus ciclos narrativos, a revisitar constantemente a vida, a morte e o renascimento das jornadas. A morte, que, segundo Benjamin, representaria o ápice narrativo, é constantemente representada no cinema.
O filme A Partida, de Yojiro Takita, nos conta a história de um músico, Daigo Kobayashi, que, ao ser despedido de uma orquestra, retorna à sua cidade natal, no interior do Japão. Essa é a representação da primeira partida e, de certa forma, do retorno de uma jornada inglória. Ao retornar, Daigo procura emprego por meio de um anúncio que fala em “partidas”. Logo a trama irá revelar que as tais “partidas” referem-se a rituais fúnebres e, ao compreender os rituais de partida, o personagem se reconcilia com a própria vida.
As partidas podem revelar outro olhar sobre o conhecimento. Quando iniciei esta caminhada, eu era como um “marujo comerciante”, vinha de Porto Alegre/RS, onde sou professora da Prefeitura Municipal e onde já havia me aventurado com o “cinema na escola”. Desde que entrei pela primeira vez em uma sala de cinema, senti um fascínio perturbador, e esse sentimento me levou a estudar cinema e educação. É como na história de certo imperador chinês: “Certo dia, um imperador chinês pediu ao principal pintor da Corte para apagar a cascata que tinha pintado na parede do palácio porque o ruído da água impedia-o de dormir.” (DEBRAY, 1993, p. 13)
Compreender a importância que a imagem possui para os processos de aprendizagem é permitir-se vivenciar essa experiência. Em Porto Alegre, trabalhei com essa proposta com alunos da 1ª série, em fase de alfabetização, depois com um grupo de estudantes da escola na oficina de cinema. Hoje me sinto um pouco camponesa, ou melhor, uma artesã que encontrou um grupo de artífices para contar e ouvir histórias de cinema.
Lembranças e despedidas, minha memória segue para perguntas de um começo na docência, de um passado que se presentifica neste estudo. Se os narradores falavam sobre as experiências, porque não pensar a experiência do cinema à luz da educação da sensibilidade? Vivenciar o filme em todas as suas etapas criativas, descobrindo uma linguagem que já conhecemos como espectadores, é uma experiência capaz de alterar significativamente a nossa relação com as imagens vencedoras. De repente, podemos olhar além das imagens finais, para além da moldura.
A moldura nos possibilita conhecer o cinema com o cinema, como em Saneamento
Básico e Rebobine, por favor, em que os personagens começam a fazer cinema meio por acaso, por uma necessidade – para resolver o problema do fosso ou refazer as fitas perdidas.
E, por ser uma forma de expressão artística, o cinema deveria estar presente na escola. Hoje, o texto audiovisual está no nosso cotidiano tanto quanto o texto escrito, e pensar por esse aspecto já seria uma provocação suficiente para que nós, os professores, saíssemos de nosso mundo comum para compartilhar, em nossas práticas docentes, o mundo especial das imagens e do cinema.
A própria educação por meio das imagens já faz parte da vida de milhares de professores e alunos: a educação a distância, mediada pela linguagem audiovisual, por mais que se esforce em buscar uma textura jornalística da informação, não pode ficar totalmente isolada da narrativa fílmica, inevitavelmente é linguagem audiovisual.
A escrita deste trabalho me fez, por muitas vezes, encontrar as lágrimas; precisei entrar em memórias afetivas profundas em relação ao cinema, entender o amor que sinto e que me move em direção a esta educação da sensibilidade. Hoje percebo o quanto sou construção do cinema e, como no filme Os Sonhos, do Kurosawa, me vejo entrando nesta grande tela para escutar, ver e dividir com muitos outros as histórias e sensações transformadoras que o cinema é capaz de fazer.
No final da experiência percebemos a unificação do contexto, sentido e local da memória em um único processo. Pierre será um múltiplo local da memória para os partícipes da oficina, o making of do aprendizado de uma linguagem escrita por imagens e sonhos.
Na derradeira partida, olho no horizonte e vejo o aeroplano seguindo o seu curso; flutuo até terra firme, lembro do filme Central do Brasil, de Walter Salles, quando Dora se despede de Josué e uma pequena foto os une, um retratinho repleto de significados.
Chegou a hora de dizer adeus a Pierre; muitas ainda serão as lembranças, pois nem todas puderam constar deste texto. Na construção dos filmes, coexistem muitas memórias, dos roteiristas, dos produtores, dos diretores, dos atores, enfim de todos aqueles que participaram da criação da obra. No nosso filme Pierre, destaco, em especial, que o roteiro contou com as memórias da Professora da UnB Patrícia Raposo, que, em depoimento aos participantes da oficina, contou a sua história de vida, de como ficara cega, e sobre docência e cegueira.
As memórias que foram construídas pelos estudantes durante o transcorrer da oficina da criação de Pierre, sobre a linguagem cinematográfica, a dinâmica do fazer do cinema, as relações entre as diferentes etapas de produção da ideia do roteiro até a finalização fazem parte do universo além da moldura: a experiência do cinema.
Isabela47 de Menezes Rocha: Os conceitos que foram passados durante oficina
acabam ficando, porque a gente os vivencia na criação da linguagem audiovisual [...]. Vê o
enquadramento e já se lembra dos referenciais; uma outra linguagem que a gente descobre, de outras possibilidades para trabalhar na área da educação.
Jussara Gomes Nazareno: Foi além do que eu esperava, uma grande descoberta. Eu
que quero trabalhar com artes visuais. [...] O trabalho que a gente teve, de preparação de
elenco, me chamou a atenção [...]; trabalhar por traz a produção toda; primeiramente a
gente tem que estar ali, sentir como é trabalhar num filme. Criar um personagem, trabalhar a direção, é necessário conhecer um pouco destes princípios.
Bianca Ribeiro do nascimento: Eu achei o máximo; pensava que fosse uma coisa bem
difícil de fazer, mas, durante o processo, eu diria que é bem tranquilo; todo mundo ajudou um pouco, foi legal porque se aceitou a opinião de todos, e todo mundo pode participar e colaborar [...]. A história é muito interessante porque, só no final, é que se consegue
descobrir que o professor é cego [...]. O roteiro, a filmagem, ângulos, uma cena envolve
muita coisa, uma cena só, cada detalhe faz diferença. 48
47 Os depoimentos destacados aconteceram durante o lançamento de Pierre. 48 Depoimentos dos participantes da oficina de vídeo.
Despeço-me com uma citação de Benjamin, para uma reflexão final ou de um novo começo:
Já se disse que o analfabeto do futuro não será quem não sabe escrever, e sim quem não sabe fotografar. Mas um fotógrafo que não sabe ler suas próprias imagens não é pior que um analfabeto? 49
O aeroplano se afasta.