Numa fase inicial, a recolha de cada história de vida foi realizada a partir da técnica da entrevista, utilizada para a obtenção e compreensão de dados na presente investigação. Sobre esta importa referir que o conhecimento de alguns pontos da biografia dos indivíduos entrevistados constituiu um aspeto fundamental para a análise e compreensão dos percursos da imigração luxemburguesa em Portugal, sobretudo no Algarve, que são objeto de estudo, estando presentes nas questões do guião que ajudaram a concretizar a pesquisa. Foi indispensável um mínimo de três entrevistas para esta fase, tendo em atenção a disponibilidade de tempo para cada sessão por parte dos
70 protagonistas e os atributos comunicacionais de cada um/a. O número de entrevistas efetuadas derivou também do sucesso da tarefa de desocultação de conteúdo implícito e nem sempre presente na memória dos sujeitos, sendo essencial a escuta e a interrogação atentas da investigadora para essas experiências serem proferidas e explanadas.
Com o intuito de ir ao encontro das trajetórias de vida dos luxemburgueses, a pesquisa consistiu num trabalho de excisão de memórias, estando aí implícita a diversidade de significados e interpretações, fruto da dificuldade e da não linearidade das histórias de vida relatadas e (re) elaboradas pelos seus atores.
No tipo de entrevista adotado para este estudo, com características do estilo biográfico, muito embora as histórias de vida provoquem pouca diretividade na direção da entrevista, foi nosso desejo proceder a uma articulação de estilos, estratégias frequentes no método de histórias de vida e variante consoante o desenvolvimento da pesquisa (Digneffe 1997: 222). No entanto, pode-se referir que, de uma não diretividade inicial, de modo a dar espaço e oportunidade ao sujeito para falar sobre o seu percurso de vida a partir de uma questão muito geral (o motivo que levou os luxemburgueses a imigrar), passou-se para uma maior diretividade em ocasiões onde se procurava explanar aspetos que o indivíduo intimava vagamente ouos quais a investigadora desejava alcançar mais informação, de modo a tornar mais, as semelhanças ou especificidades nos diferentes casos.
De modo a obter conhecimento e compreensão das trajetórias destes imigrantes, a entrevista para a recolha das histórias de vida baseou-se na técnica semidirigida (ou semiestruturada, não-diretiva controlada, (Savoie-Zajc, 2003: 283) e em profundidade com determinadas características especiais, onde a exposição de memórias recentes nos irá ajudar à tomada de consciência e compreensão de algumas ações e atitudes de mudança, ocorridas nas pessoas entrevistadas e participantes no estudo.
De acordo com Benoît Gauthier (2003), Savoie-Zajc (2003):
A entrevista semidirigida consiste numa interação verbal animada de forma flexível pelo investigador. Este deixar-se-á guiar pelo fluxo da entrevista com o objetivo de abordar, de um modo que se assemelha a uma conversa, os termos gerais sobre os quais deseja ouvir o respondente, permitindo assim extrair uma compreensão rica do fenómeno em estudo (p. 283).
71 Nesta perspetiva, o autor definiu objetivos da entrevista semidirigida, nomeadamente tornar explícitos os contextos e realidades das pessoas participantes no estudo; a compreensão do seu mundo; ajudar a apreender, organizar e a estruturar o pensamento do interlocutor entrevistado; permitir um aprofundamento, uma reflexão, uma tomada de consciência e transformação das pessoas envolvidas (tanto do investigador, como do protagonista).
Sendo o guião um esquema da entrevista, este será o instrumento adequado para que o investigador identifique “os temas, os subtemas e as questões de orientação a fim de recolher dados pertinentes para a investigação” (Savoie-Zajc, 2003: 289). Estes assentaram numa lógica teórica estruturada com base na pesquisa bibliográfica, documental e experiência de terreno do investigador. Com efeito, a entrevista para a recolha de histórias de vida baseou-se em dois guiões, um em português e o outro em francês (caso o entrevistado tivesse dificuldades com o idioma), que contemplaram onze questões (vd. “Guião de entrevista”, em anexo):
[1] Identificação (nome, idade, nacionalidade, estado civil, local de residência, pessoas com quem vive, número de filhos, profissão, local de trabalho, habilitações literárias); [2] Situação anterior ao projeto migratório para Portugal, mais propriamente para a região do Algarve (guarda boas recordações de vida no Luxemburgo; um acontecimento que mais o marcou; recorda-se do seu passado com saudade, nostalgia ou indiferença; Portugal foi a primeira opção para o seu projeto migratório; porque decidiu sair do seu país; porque escolheu o Algarve para residir); [3] o projeto migratório no Algarve (quando chegou ao Algarve e, há quanto tempo vive nesta região (dia/mês/ano); como foi acolhido pelo povo algarvio; a decisão de emigrar foi sua ou de outra pessoa; emigrou sozinho(a) ou com outras pessoas; quando decidiu emigrar contou com o apoio de alguém; tinha familiares ou amigos no Algarve; ficou em casa de algum familiar ou de algum amigo; com que tipo de visto entrou; que transporte utilizou quando veio para o Algarve; quando chegou ao Algarve deparou-se com algum tipo de dificuldades (idioma, cultura, hábitos); quem o ajudou a ultrapassar essas dificuldades); [4] Situação laboral (a sua vinda para o Algarve tinha objetivos laborais; trabalha menos ou mais horas no Algarve do que no Luxemburgo; alguma vez foi alvo de preconceito ou discriminação no seu local de trabalho; relativamente à sua situação profissional, considera que melhorou ou piorou em conformidade à que tinha no seu país de origem;
72 mencione fatores de satisfação/insatisfação no seu trabalho); [5] Situação familiar (quando vai trabalhar quem cuida do(s) seu(s) filho(s)/(as)?; que mudanças ocorreram na sua família em relação à vinda para o Algarve; apoia economicamente familiares que se encontram no seu país de origem) [6] Integração na sociedade portuguesa e ligação ao país de origem (como se integrou na sociedade portuguesa; quais as principais dificuldades que sentiu; tem hábitos culturais em Portugal específicos do seu país (ver cinema e ler jornais do país de origem, ou outros…); pertence a algum grupo religioso, desportivo, político ou grupo de amigos que só integre pessoas do seu país de origem; que aspetos da sua vida gostaria de mudar; qual a sua opinião em relação aos algarvios; tem amigos portugueses; de que região; desde que está no Algarve já foi de férias ao seu país; quantas vezes; mantém algum contacto com familiares, amigos e outras pessoas do seu país; quais os meios que mais utiliza (email, telefone fixo, telemóvel ou carta); costuma fazê-lo com muita frequência); [7] Tempos livres (como ocupa os seus tempos livres no Algarve e como o fazia no Luxemburgo); [8] Relação com os algarvios (como vê os portugueses em geral; o que pensa dos algarvios, refira aspetos positivos e negativos; como é a sua relação com os algarvios; acha que são diferentes ou semelhantes aos luxemburgueses; como acha que os algarvios o(a) vêm; sente que a sua relação com os algarvios foi sempre boa ou sofreu alterações); [9] Satisfação com o projeto migratório (sente-se satisfeito(a) com a decisão que tomou de imigrar; se fosse hoje voltaria a tomar a mesma decisão); [10] Projetos futuros (tenciona continuar a viver no Algarve ou pensa regressar ao Luxemburgo; planeia investir numa casa ou negócio no Algarve; tem intenção de emigrar para outro país; na sua opinião, Portugal poderá ser um espaço de oportunidades para os seus filhos); [11] Tipo de autorização (está legalizado(a); tem autorização de permanência ou de residência).
Colocou-se sempre ao sujeito a oportunidade para abordar questões que julgasse serem relevantes e que não tivessem sido consideradas. Não foram introduzidos novos temas, mas realçaram-se alguns aspetos já mencionados na entrevista.
Todo este conjunto de recolha de informação permitiu-nos ordenar as histórias de vida em componentes estruturais passíveis de ser identificados e analisados, em cada uma delas, e a proceder à comparação destes elementos nos múltiplos relatos, explorando os factos, as relações entre diversos aspetos e os significados enunciados por cada interveniente.
73 Depois da recolha de todas as histórias de vida, e na sequência de uma leitura oscilante, que auxiliou a primeira tentativa de análise transversal dos relatos, desenvolveu-se uma segunda fase. Posteriormente à interpretação dos dados, interrogou-se novamente os protagonistas com o intento de beneficiar dos seus comentários, de modo a adicioná-los e tornar mais rico o estudo, bem como certificar as questões que se expôs.
Após a recolha das histórias de vida foi-nos permitido colocar novas questões, a fim de se poder identificar particularidades e traços comuns e, em simultâneo, reforçar a validade da investigação, já que a “repetição das entrevistas é condição necessária para o aprofundamento da informação e seu controlo” (Poirier et al., 1999: 50). O controlo da validade dos dados pelos inquiridos consistiu numa estratégia propositada que foi tomada antes de iniciar o trabalho de campo e que foi exposta a cada interveniente. Seguidamente, foram analisados os resultados da pesquisa, com o propósito de verificar o predomínio dos fatores (subcategorias) nos diferentes níveis de análise selecionados (categorias), e a relação entre eles, ou seja, de que forma e em que contexto os sujeitos os expressam e associam, e em que medida podem ter determinado o seu percurso de vida enquanto imigrantes. Ininterruptamente, foram transcritas as entrevistas e enviadas aos protagonistas, tal como foi acordado.
Após contactos estabelecidos por correio eletrónico com a Embaixada do Luxemburgo, (26 de fevereiro de 2012) face ao interesse manifestado pelo Senhor Embaixador, tomou-se a opção de realizar uma entrevista com a Embaixada do Luxemburgo em Lisboa, ao Sr. Embaixador Paul Schmit (vd. “Guião entrevista”, em anexo), com o objetivo de analisar o papel da Embaixada na vida dos imigrantes luxemburgueses em Portugal de um ponto de vista mais institucional.