Apesar de não ter cura, é possível amenizar as características da dislexia mediante um acompanhamento adequado. Moojen & França (2006) deixam clara a necessidade de identificar o tipo de dislexia para, posteriormente, iniciar um tratamento específico, a fim de ajudar o disléxico a desenvolver suas habilidades fonológicas, ortográficas e na compreensão de textos. Sabendo que a principal dificuldade dos disléxicos é a relação entre fonema e grafema, dois métodos utilizados para tratar esses deficits são passíveis de destaque: o método fônico e o multissensorial. O primeiro deve ser introduzido no início da alfabetização, sendo, portanto, indicado para crianças mais novas. Nele, objetiva-se desenvolver a consciência fonológica e grafofonêmica para aperfeiçoar a leitura, diminuindo, consequentemente, a incidência de problemas na leitura e na escrita.
Segundo Capovilla & Capovilla (2004), no método fônico, o texto deve ser introduzido gradualmente e à medida que a criança for adquirindo uma boa habilidade de fazer decodificação grafofonêmica fluente, ou seja, após ela ter acesso a instruções explícitas e sistemáticas de consciência fonológica e de correspondências entre grafemas e fonemas.
Já o método multissensorial é indicado para crianças mais velhas e consiste em combinar diversas modalidades sensoriais no ensino da escrita, estabelecendo uma conexão entre aspectos visuais, auditivos e sinestésicos. Briant & Bradley (1987) e Montessori (1948) foram precursores desse método e defendiam a relação íntima existente entre o aprender a ler e o aprender a escrever. Portanto, o tratamento deve ser centrado na reeducação da leitura e escrita. Reservamos um lugar para o método multissensorial na elaboração das estratégias de ensino de português a disléxicos, conforme o que já foi introduzido no capítulo 1 e o que será apresentado no capítulo 3 (metodológico).
Ressalta-se que o diagnóstico e a avaliação da dislexia são fundamentais, sobretudo, para definir estratégias de intervenção, visando ao sucesso escolar. Assim sendo, crianças e adolescentes disléxicos podem alcançar o sucesso escolar, bem como ter atividades profissionais apoiadas na leitura e na escrita.
Quanto à intervenção pedagógica, os disléxicos devem participar de atividades que promovam não só o desenvolvimento da consciência fonológica, mas também da consciência morfológica. Deve-se enfatizar novamente que a identificação precoce da dislexia é importante,
porque o cérebro apresenta maior plasticidade em crianças pequenas e é potencialmente mais maleável para um redirecionamento dos circuitos neuronais. Esse é um princípio fundamental em nossa pesquisa, que se propõe também a estabelecer estratégias de leitura e, principalmente, de escrita para promover a superação da dislexia.
De acordo com Deuschle & Cechella (2009), uma intervenção bem-sucedida depende de uma avaliação multidisciplinar, realizada por neurologistas, fonoaudiólogos, psicólogos, pedagogos e psicopedagogos. Segundo os autores, a avaliação de fatores cognitivo-linguísticos deve estar ligada aos modelos teóricos de aprendizagem da leitura.
Entretanto, um dos principais desafios que enfrentamos nesta pesquisa foi encontrar disléxicos na rede pública de ensino do DF com laudo, conforme discutiremos no capítulo 3.
São fatores relevantes para o diagnóstico da dislexia:
histórico familiar de dislexia; alterações precoces na linguagem, referentes à articulação, mas não à compreensão; leitura e escrita muitas vezes incompreensíveis; pânico ao ter que ler em voz alta; ansiedade ao realizar testes; dificuldade em soletrar; capacidade superior de aprendizagem aliada à escrita deficiente; compreende a ideia principal, mas não recorda os detalhes do texto; confusões de letras com diferente orientação espacial (b/d); troca de fonemas surdos por sonoros, ou o contrário; dificuldades com rimas; metáteses ou epênteses; substituições de palavras com estruturas semelhantes; fragmentação incorreta em frases (ex: eu fuijo gar bola com minhapri ma.) e dificuldade para compreender o texto lido, além de leitura lenta e silabada.
(DEUSCHLE; CECHELLA, 2009, p. 197)
Esse autores ressaltam que, caso se deparem com os aspectos citados anteriormente, os profissionais devem empregar uma bateria de testes com fins diagnósticos que envolvam aspectos como “fonologia (consciência, memória e acesso), letras (nomes e sons), vocabulário (receptivo e expressivo), convenções da palavra impressa, compreensão auditiva e leitura (palavras reais, pseudopalavras e compreensão)” (DEUSCHLE & CECHELLA, 2009, p. 198). Em relação ao tratamento das características da dislexia, Deuschle & Cechella (2009) afirmam que não existe um tratamento com enfoque único que garanta melhoras a longo prazo. Segundo eles, o profissional que se dispõe a tratar um disléxico deve ter consciência das numerosas estratégias de intervenção e tratamentos disponíveis e que, por isso, a melhor alternativa é reconhecer “a natureza múltipla do transtorno” (DEUSCHLE & CECHELLA, 2009, p. 198). Defendemos aqui que a Linguística também deve se posicionar na compreensão da dislexia e, principalmente, no tratamento dela. Por isso, propomos uma pesquisa-ação (cf. capítulo 3).
Nos casos em que o aluno frequenta a escola, um questionário é enviado para que o professor contribua com a avaliação, fornecendo informações sobre o comportamento do estudante em sala de aula e seu rendimento. Destaca-se a existência de testes como o Teste de Competência de Leitura de Palavras e Pseudopalavras (SEABRA & CAPOVILLA, 2010), o qual avalia o processo de reconhecimento e decodificação na leitura de palavras isoladas, a Prova de Consciência Fonológica por Produção Oral (PCFO), que avalia a habilidade de manipular os sons da fala, expressando oralmente o resultado obtido (CAPOVILLA & CAPOVILLA, 1998), a Prova de Consciência Sintática (PCS), composta por quatro subtestes que avaliam a noção gramatical de crianças até a 4ª série (CAPOVILLA & CAPOVILLA, 2006), entre outros. Esses testes não foram utilizados em nossa pesquisa, porque, apesar de reconhecer a eficácia e validade científica desses materiais, optamos por desenvolver uma metodologia de ensino própria, voltada ao ensino de língua portuguesa de maneira contextualizada, explorando gêneros textuais e desenvolvendo a produção de texto, como veremos no capítulo 3.
Reafirmamos a atuação dos linguistas no tratamento e acompanhamento dos disléxicos, tendo em vista que a língua, campo no qual a dislexia tem consequências diretas, é o nosso instrumento de trabalho, pesquisa e estudo. Vejamos, na próxima seção, como a legislação corrente aborda a dislexia no Brasil.