O conceito de intencionalidade e racionalidade são relacionados, pois a racionalidade tem como pressuposto a intencionalidade. O conceito de intencionalidade é central no contexto das teorias de ação, que buscam explicar o comportamento humano. (SCHNÄDELBACH, 2001). A intencionalidade está relacionado a capacidade da mente humana de apresentar estados mentais relacionados a objetos presentes no ambiente. A racionalidade é um complemento da intenção, pois permite que um indivíduo possa se comportar de acordo com suas intenções, ou seja como ele percebe o mundo, de acordo com suas crenças, e como acredita que o mundo deveria ser, isto é, seus desejos (BRADDON-MITCHELL, 2001).
Acredita-se que o termo intenção, intentio no Latim medieval, tem origem no termo Árabe maʿnā, que significa literalmente significado ou pensamento. Inicialmente intentio foi utilizado como um termo genérico para conceitos e ideias, embora existisse uma importante distinção: o intentio prima e o intentio secunda. O primeiro termo era aplicado para coisas e fatos, enquanto o segundo tinha outras intentiones como objeto, sendo assim pensamentos sobre outros pensamentos (BRADDON-MITCHELL, 2001).
Brentano, em 1874 acreditava que a intencionalidade era uma característica básica da consciência, criando o conceito de atos conscientes. Weber (1974) também se preocupou em diferenciar o comportamento simples de ações com um significado subjetivo, ou seja ações que os indivíduos atribuem seus próprios significados (BRADDON-MITCHELL, 2001). Segundo Ajzen (1991) as intenções capturaram os fatores motivacionais que influenciam um comportamento e indicam qual o grau de esforço que um indivíduo pretende exercer para realizar o comportamento em questão.
O dicionário Houaiss (2004) define intenção como “aquilo que se pretende fazer; propósito, plano ou ideia”. No caso do empreendedorismo, a intenção de criar uma empresa está relacionada com as atitudes relacionadas à ao desejo e possibilidade de abrir uma empresa.
Krueger, Reilly e Carsrud (2000) apontam que a decisão de se tornar empreendedor é voluntária e consciente, sendo também uma decisão planejada, portanto passível de ser predita e entendida por modelos de intenção. Vários estudos têm indicado que as intenções são os melhores preditores dos comportamentos planejados, especialmente quando este comportamento é raro, difícil de observar e ocorre em um espaço de tempo dito contínuo. Estes fatores tornam os
modelos baseados em intenções ideais para prever comportamentos como a criação de novas empresas, pois oferecem um arcabouço teórico coerente, parcimonioso, generalizável e robusto para entender e predizer estes comportamentos.
Dada a grande importância de se entender e explicar o comportamento empreendedor uma infinidade de modelos foi criada com este objetivo. Guerreiro e colaboradores (2008) apontam os modelos de Modelo de Evento Empreendedor de Shapero (1982), modelos derivados da Teoria do Comportamento Planejado de Ajzen (1991), a Atitude em Relação a Orientação Empreendedora de Robinson, Stimpson, Huefner e Hunt (1991), o Modelo Básico de Intenção de Krueger e Carsrud (1993), o Modelo de Potencial Empreendedor de Krueger e Brazeal (1994) e o modelo Davidsson (1995) como os principais modelos desenvolvidos durante os anos 1980 e 1990 para predizer o empreendedorismo.
O primeiro modelo, o modelo de Evento Empreendedor (SHAPIRO,1982), considera a criação de um negócio como um evento que pode ser explicado através da interação de iniciativas, habilidades, gestão, autonomia e risco, onde a escolha pessoal dependeria de três fatores: a percepção que o evento seria desejável, a propensão em agir e finalmente a percepção de viabilidade de abrir um negócio (GUERREIRO et al, 2008).
A Teoria do Comportamento Planejamento de Azjen (1991) indica que os comportamentos conscientes são planejados, e que podem ser preditos, sabendo-se a intenção de executar o comportamento. Como é um modelo genérico de intenção comportamental, a Teoria do Comportamento Planejado (TCP) foi utilizada para a construção de uma série de instrumentos para predizer a intenção empreendedora (e.g. LIÑÁN & CHEN, 2009, THOMPSON, 2009; ENGLE ET AL, 2010).
Segundo Engle e colaboradores (2010) a TCP oferece uma abordagem teórica coerente e aplicável que permite entender e predizer a intenção empreendedora não só utilizando fatores pessoais, mas também fatores sociais. Os modelos derivados da TCP, apresentam extensiva evidência empírica de sua validade.
Engle e colaboradores (op. cit.), operacionalizam o modelo de Ajzen (1991), desenvolvendo um questionário composto de escalas previamente validadas, aplicando 1748 questionários em estudantes de 12 países. Os resultados indicaram que o modelo foi capaz de predizer
satisfatoriamente a intenção empreendedora nas diferentes culturas, embora com contribuições diferentes, de cada uma das dimensões na predição da intenção empreendedora.
Outra operacionalização foi realizada por Liñán & Chen (2009) com a construção do Questionário de Intenção Empreendedora(QIE), testado e validado em uma amostra de 519 estudantes de dois países Espanha e Taiwan, utilizando os componentes de normas subjetivas, intenção empreendedora, percepção de controle sobre o comportamento e atitudes em relação ao empreendedorismo.
Baseando-se em outra abordagem, Robinson e colaboradores (1991) criaram a Entrepreneurial Attitude Orientation Scale, que se tornou um dos instrumentos mais utilizados para identificar potenciais empreendedores. Segundo Shetty (2004), o desenvolvimento da Escala de Atitude de Orientação Empreendedora (EAOE) utilizou as teorias da Atitude e de Empreendedorismo, utilizando o modelo tripartido para mensurar a atitude nos componentes afetivo, comportamental e cognitivo.
Para mensuração do empreendedorismo foram adicionadas quatro sub-escalas: motivação à realização, inovação, controle pessoal e percepção de autoestima, com a combinação destas dimensões, foi então criada uma escala que apresentou evidencias de seu poder discriminante para empreendedores e não empreendedores. (ROBINSON ET AL, 1991).
Posteriormente, Krueger, Reilly e Carsrud (2000) buscaram compreender o relacionamento entre atitudes e intenções empreendedoras, usando uma escala que permitiria uma grande flexibilidade na análises de influências externas, atitudes e também intenções. Assim, segundo este modelo a decisão de iniciar um novo negócio seria um processo intencional que pode ser influenciado por atitudes e comportamento.
Finalmente, o Modelo Davidsson congrega um conjunto de fatores econômicos e psicológicos que supostamente influenciariam as intenções individuais de constituir uma empresa. O modelo está representado na Figura 15:
Figura 15: Modelo Econômico-psicológico de Intenção Empreendedora CARACTERÍSTICAS PESSOAIS Gênero Experiências Educação Mudanças Radicais Idade ATITUDES GERAIS Mudar Competir Dinheiro Realização Autonomia ATITUDES DOMÍNIO Payoff Contribuição da sociedade Conhecimento especifico(know- how) CONVICÇÃO INTENÇÃO EMPREENDEDORA SITUAÇÃO Estado emprego atual
(empregado ou desempregado)
Fonte: Adaptado de Davidsson (1995, p.5)
O modelo de Davidsson (1995) também indica que a convicção do indivíduo de que a carreira de empreendedor é uma alternativa interessante é um determinante poderoso para a intenção empreendedora. Outra variável, a situação de emprego, também é levada em conta neste modelo, pois vários estudos indicam que o desemprego está ligado a formação de novas empresas. Davidsson (op.cit) indica que quase 30% dos indivíduos que iniciaram negócios na Suécia o fizeram para evitar o desemprego.
No modelo dois tipos de atitudes são utilizados: atitudes gerais que tem sido associadas ao empreendedorismo, tais como a propensão à mudança, a competitividade, orientação ao dinheiro, realização e autonomia. O segundo tipo de atitudes seriam as atitudes relacionadas ao empreendedorismo, como por exemplo o resultados esperados de se abrir uma empresa, a percepção sobre a contribuição social da atividade empreendedora e o know-how disponível sobre o processo de se iniciar um negócio. Neste modelo os dois grupos de atitudes, seriam afetadas por uma série de variáveis relacionadas ao ambiente e condições do indivíduo, tais como gênero, experiências, nível educacional e idade.
Embora todos estes modelos tenham sua importância, Fishbein e Ajzen (1975) e Ajzen(2001) indicam que as intenções são os melhores preditoras dos comportamentos planejados. As abordagens baseadas na TCP são ideais para prever a criação de novas empresas, pois oferecem
um arcabouço teórico coerente, parcimonioso, generalizável e robusto para entender e predizer estes comportamentos (KRUEGER, REILLY & CARSRUD, 2008).
A importância de modelos baseadas em intenções para explicar o empreendedorismo tende a ser maior quando se considera que modelos alternativos que utilizam traços psicológicos, características demográficas ou educacionais têm sistematicamente apresentado um baixo poder preditivo. Robinson e colaboradores (1991) indicam que o uso de atitudes para prever o comportamento empreendedor pode ser mais proveitoso do que a busca de traços de personalidade ou dados demográficos para prever ações empreendedoras.
Para Robinson et al (1991) existem várias desvantagens em utilizar a abordagem de personalidade ou traços psicológicos, pois tais metodologias de pesquisa não foram feitas especificamente para medir o empreendedorismo, pois as teorias de personalidade são utilizadas em espectro amplo de situações para medir tendências gerais, além disso, os instrumentos utilizados para medir o mesmo conceito ou traço, normalmente não se correlacionam entre si, indicando problemas de validade.
A abordagem demográfica, também apresentaria problemas, para mensurar a atitude empreendedora, pois teria uma tendência de generalizar os grupos individuais em relação a população. Um estudo conduzido por Cowling (2000) indicou que embora a idade, gênero e educação estiveram estatisticamente associados ao empreendedorismo, a natureza e o relacionamento entre as variáveis variou consideravelmente entre diferentes países, não sendo possível encontrar um fator comum aos empreendedores entre os países pesquisados.
Rychlak (1981) fez uma observação pertinente ao apontar que as ações não são influenciadas por características demográficas, mas sim por reações especificas em relação a algumas situações, como atitudes em relação a um objeto ou comportamento. Thomas e Muller (2000) também defendem o uso de atitudes para entender o comportamento, pois as atitudes estão mais relacionadas ao comportamento do que os traços psicológicos, desta forma a variância não explicada do comportamento empreendedor seria menor, pois a correlação entre atitudes empreendedoras e ações empreendedoras seriam mais fortes.
Kundu e Rani (2008) apontam que o uso de modelos cognitivos de atitude na pesquisa sobre empreendedorismo tende a explicar melhor a variância de uma série de comportamentos do que disposições pessoais ou instrumentos baseados em traços.
Outra vantagem em se utilizar a abordagem de atitudes ao invés de traços é que as atitudes são mais facilmente mutáveis do que os traços de personalidade (Robinson, et al., 1991). Thomas e Muller (2000) concluem que seria mais viável modificar as atitudes deliberadamente do que as características pessoais em relação ao empreendedorismo, sendo assim imprescindível entender as atitudes e se necessário modifica-las para o desenvolvimento do empreendedorismo.
Os modelos que utilizam a intenção em conjunto com as atitudes conseguem melhores no que tange a predição de comportamentos. Krueger, Reilly e Carsrud (2000) indicam que a melhor predição de qualquer comportamento planejado é realizada pela observação das intenções e não o uso de atitudes, crenças, personalidade ou outros dados demográficos. Para os autores a abordagem de intenções seria particularmente útil quando o fenômeno predito é mais raro, obscuro ou possui um lag temporal, como o empreendedorismo.
Shook e colaboradores (2003) definem o evento empreendedor como um processo de quatro fases, que se inicia com a intenção empreendedora, avança para a busca de oportunidades viáveis de negócio, sendo seguidos por uma fase de decisão, onde as oportunidades são avaliadas, e finalizando com a execução das atividades efetivas que permitem a criação de uma empresa.
Thompson (2009) aponta a intenção empreendedora como um dos conceitos mais fundamentais e constantemente utilizados na pesquisa sobre o empreendedorismo. Liñán e Chen (2009), asseguram que a intenção empreendedora é o passo inicial para o processo de constituição de um empresa. Portanto, modelos baseados em intenção oferecem uma oportunidade de entender melhor o empreendedorismo, principalmente através do estudo conjunto de atitudes e valores. Os valores tendem a influenciar diretamente os antecedentes da intenção, como as atitudes, as percepções de controle de comportamento e também as normas sociais.
Davidson (1995) aponta vantagens adicionais em estudar as intenções empreendedoras ao invés de se realizar comparações entre indivíduos empreendedores e não empreendedores, pois o grupo de empreendedores é relativamente reduzido e os fatores que levam um indivíduo a abrir uma empresa podem estar manifestos em outros comportamentos, sendo impossível predizer de forma precisa os fatores que de fato levaram ao comportamento empreendedor. Outra dificuldade na comparação de características entre empreendedores e não empreendedores é a
dificuldade de distinguir entre características presentes antes do evento empreendedor e as que surgiram como consequência de ser empreendedor.
Neste sentido, Krueger et al (2000) afirmam que a decisão de se tornar empreendedor não é necessariamente tomada após a descoberta de uma oportunidade, pois também pode ocorrer anteriormente, isto é, o indivíduo pode ter o propósito de se tornar um empreendedor e partir desta decisão buscar oportunidades disponíveis.
Embora uma grande quantidade de modelos para explicar a intenção empreendedora tenha sido desenvolvida, Thompson (2009) indica não existir uma abordagem uniforme para definir e mensurar a intenção empreendedora, pois o termo tem sido empregado para cobrir uma série de conceitos próximos semanticamente, mas diversos, tais como: orientação de carreira, aspirações vocacionais, novos empreendedores, possibilidades de possuir auto emprego e também o desejo de ter um negócio próprio. O uso aparentemente comum dos termos “intenção” e “empreendedor” fez com vários autores considerassem o termo claro o bastante para não necessitar de uma definição formal, o que tornou o termo vago e impreciso em muitas pesquisas.
Esta dificuldade em definir o que seria intenção empreendedora e posteriormente mensurar o constructo de intenção empreendedora, tem dificultado a identificação de cognições, traços psicológicos, circunstâncias e outras condições associadas com o empreendedorismo. Liñán & Chen (2009) indicam que a grande maioria dos instrumentos de pesquisa utilizados para mensurar a intenção empreendedora foram criados de forma ad-hoc, sem preocupações com validade e testes de qualidade psicométricas, dificultando a comparação entre os achados em diversos estudos. Esta limitação motivou a criação do Questionário de Intenção Empreendedora, com os componentes atitudinais, de apoio social, percepção de controle e intenção empreendedora, que foi validado e replicado em diversas pesquisas.
Thompson (2009) identificou as mesmas limitações e propôs um outro instrumento de medida de intenção empreendedora utilizando uma série de 6 itens que mediriam o espectro de comportamentos e atitudes relacionadas a intenção empreendedora (aprender sobre iniciar uma empresa, determinação e com objetivo de iniciar uma nova empresa), realizando um extensivo trabalho de validação deste instrumento.
A intenção empreendedora pode ser considerada como o estágio inicial no processo de criação de uma empresa, ou também uma definição pessoal do objetivo de se tornar um empreendedor, aliado a um plano para alcançar este objetivo. Shook et al. (2003) conceituam a intenção empreendedora como um estado consciente da mente que precede a ação e que a direciona para o objetivo de se criar um negócio.
Thompson (2009) define a intenção empreendedora como uma convicção própria de um indivíduo de que possui a intenção de abrir um novo negócio, que planeja conscientemente em algum momento no futuro ter uma empresa, podendo ser algo iminente ou indeterminado, ou mesmo nunca acontecer devido a uma série de fatores ambientais e acontecimentos pessoais.
Para Thompson (2009) a intenção empreendedora pode ser entendida como um contínuo que contempla desde indivíduos que meramente possuem disposições empreendedoras até os que têm executado ações no sentido de abrir sua empresa, como pesquisas, busca de informações, confecção de planos e projetos, que em pouco tempo irão efetivamente iniciar um empreendimento. Assim, os indivíduos com intenção empreendedora podem ser distintos dos que possuem apenas uma disposição empreendedora, pois o primeiro grupo apresenta um grau de consideração sobre a possibilidade de iniciar um novo negócio e também não rejeitaram a possibilidade de abrir um negócio futuramente.
Já os indivíduos que somente apresentam disposição, mas não intenção empreendedora, não chegaram ao nível de considerar seriamente iniciar uma nova empresa, ou se em algum momento chegaram a considerar, já rejeitaram a ideia por algum motivo. Os que continuam o processo se tornam empreendedores nascentes, tomando ações concretas para realmente iniciar um novo negócio. Ou seja, embora a intenção empreendedora seja uma pré-condição para que o indivíduo se torne um empreendedor, a intenção em si não garante que alguém se torne empreendedor.
Para Davidson(1995) a decisão de abrir uma empresa é um comportamento planejado, sendo assim é precedido por uma intenção. No entanto, a intenção pode nunca se transformar em efetivamente em um comportamento, ou seja, muitos podem ter uma intenção empreendedora, mas não se tornarem empreendedores por uma série de razões. Podemos assim concluir que a intenção empreendedora pode predizer a criação de empresas, embora de forma imperfeita.