5.3 Summary of modal meaning and auxiliary use
6.1.1 Conceptual metaphors
Na Turquia, o liberalismo econômico dos anos 1980 e 1990 não foi acompanhado por liberalismo político. Nas palavras de Ümit Sakallıoğlu (1996, p. 143 apud ELIGUR, 2010, p. 137), a nova economia política turca foi uma “síntese única”, na medida em que “o liberalismo econômico foi promovido por uma agenda política autoritária”. De acordo com Sunar e Sayari (1986, p. 186 apud KAMRAVA, 1998, p. 281), existiam sérias dificuldades para o desenvolvimento de uma democracia na
139 Em apenas um ano de sua fundação, o FP já tinha rede de assistência social organizada em 80 províncias e em
81 Turquia, a maior delas sendo “os limites impostos pelo próprio governo à atividade política”.
O regime inaugurado com o golpe militar de 1980 foi um exemplo nesse sentido. Em 1982, os militares impuseram uma nova constituição, que restringiu as atividades dos sindicatos e associações voluntárias e aboliu o estatuto de autonomia das universidades e emissoras de TV e rádio (YAVUZ, 1997, p. 67). No governo de Turgut Özal, inaugurado em 1983, a tendência autoritária persistiu. De acordo com Eligur (2010, p. 39), Özal considerava a burocracia estatal ineficiente, por isso preferia governar “de cima para baixo”, mediante decretos. Essa prática permitiu-lhe contornar procedimentos e restrições parlamentares regulares e levou a vários escândalos de corrupção. Foram feitas também repetidas alterações na legislação eleitoral durante seu governo, a fim de fortalecer a posição de seu partido. As prerrogativas não democráticas de Özal foram, em parte, resultado do legado jurídico e institucional da lei marcial do interlúdio 1980-1983, cujas diretrizes permaneceram em vigor e continuaram a limitar o espaço político disponível aos vários atores políticos nos anos vindouros (KAMRAVA, 1998, p. 282).
Os direitos civis também eram continuamente violados. Jornalistas e escritores eram perseguidos por discutirem as demandas dos curdos por direitos sociais, por exemplo. Oficiais islamistas foram expulsos das forças armadas em dezembro de 1999. Em dezembro de 1994, a Associação Turca de Direitos Humanos divulgou que, somente no mês anterior, houvera 383 assassinatos (grande parte de turcos separatistas), 36 casos de tortura, 15 desaparecimentos e 41 vilas evacuadas à força, todos eventos cuja responsabilidade recaía sobre o governo. A associação também forneceu o nome de 107 presos, que envolviam políticos, intelectuais e cientistas. No contexto da guerra entre separatistas curdos e forças do governo, a situação era colocada por este como uma “erradicação” à “ameaça terrorista curda”. Em 1994, o pró-curdo Partido Democrata foi banido, e seus oito deputados eleitos foram presos (ibid., p. 281).
Os limites à liberdade de expressão também eram significativos. Participar de discussões públicas sobre os separatistas curdos que não fossem feitas em termos pré- aprovados pelo governo podia até levar a prisão. Os limites impostos pelo Estado à liberdade de expressão atingiram seu limite em 1999, quando o Ministério do Interior divulgou uma lista de expressões que não poderiam ser usadas pela mídia. Os termos “rebelião curda”, “levante armado” e “insurgência”, por exemplo, eram censurados, e
82 determinava-se que fossem substituídos por “atividade terrorista” (WHITE, 2002, p. 125-126; KAMRAVA, 1998, p. 281).
O descontentamento da população com a deficiência da democracia era facilmente evidenciado em pesquisas de opinião. Em estudo divulgado em outubro de
1994140, 69% dos entrevistados responderam que o Estado turco não estava cumprindo
sua responsabilidade para com os cidadãos, e 76,9% responderam que o aparato estatal se tornou um instrumento dos interesses pessoais dos políticos. Em outro estudo141, feito no mês anterior, apenas 20,2% dos entrevistados responderam que confiavam nos políticos do país; 1%, que acreditavam nos partidos em que esses políticos eram membros; e 59,9% disseram achar que as coisas piorariam (TURKISH DAILY NEWS, 1994, p. B3 apud KAMRAVA, 1998, p. 286). Os resultados das pesquisas de março de 1996 foram igualmente surpreendentes142: dos 2722 entrevistados em 10 províncias, 64% afirmaram não existir democracia na Turquia; 69% não consideravam os partidos políticos do país democráticos; 57% achavam que não tinham o direito de criticar o governo; e 56% viam o sistema judicial como injusto (HURRIYET, 1996, p. 24 apud KAMRAVA, 1998, p. 286).
Em função do descontentamento do eleitorado com o autoritarismo estatal, as ideias do FP de promoção da democracia e descentralização do Estado tiveram ampla ressonância (KAMRAVA, 2998, p 283; WHITE, 2002, p. 126). Como as pesquisas de opinião evidenciaram, o diagnóstico do FP de que a democracia turca era deficiente tinha credibilidade empírica para a audiência, ou seja, conformava-se com sua percepção da realidade. O prognóstico de reformar o sistema democrático atraiu principalmente membros da classe média, estudantes e intelectuais, que passaram a questionar o kemalismo, o nacionalismo e até a noção de um Estado centralizado, que muitos passaram a ver como totalitário. Dessa forma, também a centralidade do tema abordado para a audiência contribuiu para sua ressonância.
Por fim, cabe mencionar que a retórica do FP de defesa da liberdade de expressão teve aceitação especialmente junto ao público feminino conservador no contexto da controvérsia sobre a proibição do véu. De acordo com Arat (2005, p. 27), o apoio que o movimento islamista deu às mulheres que queriam legitimar o uso do adereço em universidades e instituições públicas não foi expresso como uma questão de
140 No periódico Turkish Daily News, 25 de outubro de 1994, p. B3. 141 Ibid.
83 gênero per se, mas como uma questão que remetia à natureza autoritária do Estado e à necessidade de democratização. O que os críticos consideravam “a opressão do véu” era retratado (framed) pelo partido como expressão da liberdade religiosa e autonomia da mulher. Esse discurso teve ampla fidelidade narrativa com a própria visão que essas mulheres tinham da questão, pois elas mesmas afirmavam que a possibilidade de usar o véu publicamente não era uma questão de gênero, mas de exercício das liberdades civis básicas (ibid., p. 25). Os membros do partido sempre afirmavam abertamente seu apoio inequívoco a essa reivindicação, e garantiam que liberalizariam o uso do véu tão logo chegassem ao poder. Para muitas mulheres, essa promessa teve grande apelo e foi razão para apoiarem o partido (ibid. p. 37).