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Complications of Merging

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O presente estudo teve como objetivo verificar se uma intervenção em grupo, mediada por recursos da Criatividade, fomenta desenvolvimento sócio emocional e cognitivo em jovens estudantes com diagnóstico de deficiência mental. Verificou-se o aumento quantitativo de fluência de participações criativas dos estudantes ao longo do projeto. Dentre as cinco características criativas avaliadas nessas participações, quatro - sócio-afetivas, flexibilidade,

elaboração e crítica - obtiveram grau de significância em algum dos períodos comparados, o

que sugere ganho sócio-afetivo e cognitivo no desenvolvimento dos jovens com deficiência mental durante o projeto.

A Video-filmagem permitiu observar que os estudantes estabeleceram responsabilidade mútua quanto aos objetivos do projeto; que demonstraram condições de identificar e solucionar problemas; de se defender diante de situações adversas impostas por seus pares; de expressar auto-estima; de exercer auto-analise; de agir com autonomia; de construir novos conceitos; de fazer projetos para o futuro; de compreender convenções sociais; de relacionar vivências do grupo com experiências práticas da vida; de empregar qualidade na realização de tarefas; de corresponder com propostas desafiadoras e atender às altas expectativas de desempenho. Destaca-se que as novidades apresentadas pelos estudantes durante o projeto (interpretadas como importantes pela comparação de repertórios anteriores e posteriores) foram, multidirecionalmente, associadas à situação de grupo, às interações pessoais, à mediação, aos temas e aos recursos da Criatividade utilizados.

Os estudantes demonstraram satisfação com o projeto, avaliando-o de modo positivo, relacionando-o com ganhos na aprendizagem e considerando importante a realização do projeto com outros estudantes.

Os ganhos com a realização do projeto foram recíprocos entre estudantes e profissionais. A professora mencionou ter sido despertada quanto ao interesse para desenvolver novas estratégias, para aprofundar conhecimentos sobre criatividade e empregá- los com seus alunos. Afirmou ter percebido a necessidade de conceder mais tempo para os alunos expressarem suas idéias, de ter mais atenção à linguagem não verbal e a indícios corporais. A pesquisadora ficou alerta quanto à necessidade de dosar a quantidade de atividades para haver melhor aproveitamento das mesmas e conferiu a relevância das estratégias da Criatividade para um serviço de apoio educacional aos alunos com deficiência mental que, apesar das limitações, atendem a propostas desafiadoras.

Também foram identificados fatores prejudiciais no projeto, tais como: presença de barulhos externos; a falta de condições ambientais propícias da escola; a interferência de mães em algumas atividades, o tratamento diferenciado com alguns alunos percebidos como vulneráveis; o tempo reduzido para pensarem e agirem de modo criativo; o planejamento

excedente de atividades, as orientações rápidas de procedimentos de atividades e, sobretudo, a presença de estudante em condições psicológicas muito desviantes da maioria do grupo.

Todavia, não se pode afirmar que os resultados encontrados, relacionados aos estudantes, tenham sido exclusivamente determinados pelo projeto. Certamente, outros fatores contribuíram para que os mesmos apresentassem os ganhos constatados, dentre eles: o trabalho paralelo que a professora vinha realizando; o incentivo e valorização da escola para a realização do projeto; experiências anteriores de participação em grupo de alguns alunos e as características pessoais dos estudantes.

Ainda sobre os ganhos do estudo, ressalta-se que estes não podem ser afirmados como cristalizados no desenvolvimento geral dos estudantes, que também estão submetidos a variadas influências, razão pela qual não podem ser generalizados para outros contextos de intervenção. Considerando que não há outros estudos semelhantes tratando dessa relação - intervenção, criatividade e deficiência mental - são necessárias pesquisas adicionais que possam oferecer condições de comparação, bem como gerar um maior aproveitamento dos recursos da Criatividade em favor do desenvolvimento de pessoas com deficiência mental, nos seus diversos níveis de intensidade de comprometimento.

Os principais resultados encontrados neste estudo apresentam concordância com Martínez (2003) quando afirma que estratégias criativas podem direcionar a educação da pessoa com deficiência ao desenvolvimento de formações motivacionais, à independência, à segurança, à capacidade de problematização, à auto-valorização, enfim, aos processos psicológicos relacionados ao bem estar e à saúde.

Embora não haja na literatura nacional estudos da área da Criatividade com alunos com deficiência mental, os dados desse estudo convergem com os resultados de pesquisas realizadas por Neves-Pereira (1996) e Dias e cols. (2004) que investigaram efeitos de programas de treinamento de criatividade, concluindo que o estímulo à criatividade pode afetar positivamente desenvolvimento cognitivo de alunos com dificuldades de aprendizagem. Os resultados das pesquisas destes estudiosos respaldam o instrumental da Criatividade como sendo de grande eficácia, tanto para fomentar desempenho acadêmico, quanto para favorecer o desenvolvimento geral de estudantes em situação de desvantagem escolar.

Com estudantes com dificuldades de aprendizagem, Neves-Pereira (1996) encontrou ganhos em originalidade verbal e figurativa e em fluência verbal. A estudiosa cita duas pesquisas estrangeiras relacionados à Criatividade e à deficiência mental: o de Ford e Renzulli (1976) - que encontraram efeito significativo do programa de treinamento em criatividade com crianças com deficiência mental sobre flexibilidade, indicando também tendência de crescimento sobre originalidade e fluência; e o estudo de Stasinos (1984) que encontrou ganhos significativos em quase todas as medidas de pensamento criativo e em auto-estima.

Johnson (1990), investigando pensamento criativo entre adolescentes com deficiência mental, com e sem surdez, encontrou índices significativos em desenvolvimento de fluência e

Em comparação com esses estudos, a presente pesquisa também encontrou resultados significativos, principalmente com relação à fluência e à flexibilidade. Ressalva-se que a comparação pode não ser equivalente, devido ao fato do presente estudo ter tido uma configuração diferenciada com relação ao método empregado, à estruturação das atividades e quanto à estratégia de avaliação dos indicadores de criatividade. De modo que, são necessários outros estudos para compreender resultados mais específicos sobre a interferência de programas de criatividade com pessoas com deficiência mental.

Mas, de modo geral, os resultados da presente pesquisa estão em concordância com a literatura corrente quanto: à afirmação de que a criatividade pode ser desenvolvida e estimulada em todas as pessoas, sendo que programas voltados a promover criatividade trazem ganhos para seus participantes (Alencar, 1990; Hunsaker, 2005; Neves-Pereira, 1996; Wechsler, 2002); à afirmação de que a criatividade não se desenvolve isoladamente, mas dentro de uma sistêmica rede de fatores, sendo as interações sociais, o confronto de significados culturais e de sentidos pessoais, a mediação do outro mais experiente, os recursos instrumentais e os contextos vivenciais, ferramentas cruciais no trabalho de promoção da criatividade (Martínez, 2004; Moran & John-Steiner, 2003).

Os resultados encontrados sugerem, ainda, que os recursos da Criatividade - compreendidos como exercícios, técnicas, estratégias, indicadores de criatividade e pressupostos da área - são propícios ao trabalho de intervenção educacional com jovens com diagnóstico de deficiência mental, por fomentar e agilizar processos de aprendizagem e desenvolvimento escolar.

Acredita-se que a implementação desses recursos em serviços de apoio educacional especializado pode favorecer não somente o trabalho direto com alunos com necessidades educacionais especiais, mas também ao docente e às famílias, seja por via de orientação pessoal, de grupos de estudo, de co-participação em intervenções mediadas por profissionais com conhecimentos da Criatividade, dentre outras formas. No caso da deficiência mental é bastante comum professores mencionarem dificuldades para lidar na prática, sendo que esta condição se constitui um dos maiores desafios da Educação, não por representar uma grande dificuldade, mas por necessitar de uma grande mudança de foco de visão.

A necessidade de apoio especializado para deficiência mental é consenso na literatura corrente. Estudiosos recorrentemente endossam a necessidade da intervenção precoce, considerada um trabalho indispensável à criança com deficiência mental e de apoio a sua família para potencializar aprendizagem e desenvolvimento, processos de plasticidade cerebral e prevenir prejuízos mais permanentes (Tristão & Feitosa, 2003; Vasconcelos, 2004). Em decorrência disso, vislumbra-se a importância de pesquisadores estarem atentos para o desafio de compreender a relação entre desenvolvimento da criatividade e deficiência mental desde o bebê.

A essencialidade da intervenção precoce, todavia, não reduz a necessidade de investimento em estudos e em serviços de intervenção educacional que possam favorecer o

desenvolvimento de pessoas com deficiência mental em outras faixas etárias, além da infantil. É de alta relevância social buscar retirar jovens e adultos do limbo da inércia educacional pautada por preconceitos sociais que os confina à desesperança e à marginalidade cultural.

Com relação às sugestões específicas deste trabalho para estudos posteriores, visualizam-se três questões: (1) a necessidade de pesquisar os Indicadores Qualitativos de Criatividade, construídos para incentivar, identificar e classificar características criativas, visando avaliar sua aplicabilidade e validade para outros estudos que abordem interações sociais, linguagem e contextos de vivências naturais; (2) a importância de elaborar estudos que busquem melhor compreender as condições necessárias para incentivar o aluno com deficiência mental a desenvolver certas características sócio-afetivas, considerando a complexidade e relatividade envolvida com essa dimensão; (3) a necessidade de se realizar estudos voltados a dar maior visibilidade a professores sobre as possibilidades de empregar estratégias práticas para levar o aluno com deficiência mental a desenvolver níveis mais aprofundados de conhecimento formal, de elaboração do pensamento, de flexibilidade, de desenvolvimento do senso crítico, de inserção cultural, sem, no entanto, pretender cobrar-lhe desempenho similar aos seus pares sem deficiência, o que anularia seus direitos à diferença e a uma educação que atenda as suas necessidades específicas.

Por fim, conclui-se que os recursos da Criatividade fomentam desenvolvimento escolar dos estudantes com deficiência mental e favorecem o trabalho de intervenção educacional. Diante deste estudo, torna-se mais evidente a possibilidade de se construir alternativas eficazes para intervir na educação de alunos com deficiência mental, questão que merece atenção do Estado no sentido de estabelecer políticas educacionais claras para avançar a qualidade da educação, para inibir o confinamento na retenção escolar a que usualmente estão expostos e para resgatar a cidadania dessa população, historicamente massacrada por processos de exclusão. A adoção de tais medidas poderia redundar na diminuição do ônus do próprio Estado para com as conseqüências sociais e financeiras advindas da situação de vulnerabilidade social.

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