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4 ANÁLISIS

4.7 Comparación con otros estudios

Alguns anos após a proclamação da República, o cenário político, social e intelectual no país estava muito distante daquele sonhado pelos mosqueteiros intelectuais da geração de 70. Em vez da nação moderna e liberal acalentada pelos republicanos históricos, ancorada na razão e na ciência, o país dos conchavos, arrivismos, oligarquias, dos coronéis. Das fraudes eleitorais, das especulações financeiras, dos “sertões” miseráveis de Canudos e Contestado. Dos bacharéis, dos acácios, dos “bota-abaixo”, dos políticos profissionais, das lantejoulas. País tão bem retratado nos escritos cheios de ironia de Lima Barreto e nas críticas mordazes de Alberto Torres. E que não reservara um espaço significativo para os intelectuais, que ficaram longe de ser os condutores da nação.

Os homens da geração de 1870, além de fortemente engajados politicamente, conseguiram, de modo geral, espaço e voz no cenário político. Mas algumas décadas depois, a situação mudara radicalmente. Na virada do século XIX para o XX, os intelectuais já não contavam com o apoio irrestrito das forças de oposição, como acontecera na época das

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Nicolau Sevcenko (1999 e 2003) relaciona diretamente a Revolta da Vacina, de 1904, aos abusos cometidos pelas autoridades durante as reformas urbana e sanitária da Regeneração. Segundo ele, a população pobre, despejada e humilhada, num surto espontâneo, se voltou contra os batalhões de visitadores e a força policial, dirigindo-se para o centro onde se entrincheiram nas valas abertas pela reforma. Já José Murilo de Carvalho (2002, p.91-139), não acredita que a revolta estivesse ligada diretamente nem à reforma urbana nem a fatores econômicos. Sua tese é de que foi uma revolta fragmentada, de uma sociedade fragmentada. Diferentes parcelas da população participaram por diferentes motivos, fazendo desabrochar várias revoltas dentro da revolta. E os cidadãos desrespeitados acertaram as contas com o governo. Entretanto, acreditamos que tanto Carvalho quanto Sevcenko apontam para um mesmo fato: que se tratou principalmente de uma revolta contra o abuso de poder das autoridades públicas. Para mostrar que a população não era “carneiro” (Carvalho, 2002, p.139). Segundo Carvalho (2002), apesar da exclusão da maioria da população do processo político formal, havia uma espécie de entendimento implícito sobre o que constituía legítima interferência do governo na vida das pessoas. Quando esses limites eram ultrapassados, ela reagia por via de ação direta, tendo havido vários outros levantes antes.

grandes campanhas públicas do ocaso do Império (Sevcenko, 2003, p.114). E, não obstante a vitória de sua cruzada modernizadora, acabaram marginalizados pelo novo regime, pela nova ordem essencialmente burguesa e oligárquica (ibidem, p.107). Receberam o esquecimento e o desprezo das oligarquias e dos novos políticos oportunistas (ibidem, p.117). Ironicamente, no momento do triunfo de seu ideal, com o advento da Abolição e Proclamação, vêem-se transformados em personagens socialmente inúteis e são deixados de fora do poder (ibidem).

Além desse afastamento do qual são alvos, há por parte dos intelectuais uma grande decepção com a República maculada, corrompida pelos acordos oligárquicos, pelas disputas por poder e por cargos rendosos. Os políticos e partidos que se assenhoravam da situação passaram a receber violentas críticas por parte dos grupos intelectuais, que censuravam-lhes o vazio ideológico, a corrupção e a incapacidade técnica e administrativa (Sevcenko, 2003, p.108). Afinal, não havia praticamente partidos políticos no sentido clássico do conceito, pois não se mantinham interesses rigorosamente conflituosos nos meios políticos e entre os grupos dominantes, e foi esse um dos traços mais marcantes da Primeira República (ibidem). A oposição foi varrida da vida pública e dos meios oficiais, sob o estigma de anti-social e perniciosa (ibidem). Assim, a imensa transformação social, econômica e cultural que eles ajudaram a realizar tomou um rumo inesperado e contrário às suas expectativas (ibidem, p115). Em vez de um mundo fundado nos valores da razão e do conhecimento, que premiasse a inteligência e a competência com prestígio e posições de comando, viram, horrorizados, tudo reduzido ao mais volúvel dos valores: o valor de mercado (ibidem). A República, contraditoriamente, viera consagrar a vitória da irracionalidade e da incompetência, e os homens de talento sentiam-se postos de lado em favor de arrivistas sem escrúpulos (ibidem, p.108-110). Nas palavras de Euclides da Cunha, o momento era o da “imbecilidade triunfante”, tendo então ampla circulação o neologismo “mediocracia”, que significava o regime das mediocridades (ibidem). Além dos problemas políticos, a atividade intelectual e

cultural enfrentava ainda problemas relacionados à própria estrutura social do país, como o altíssimo índice de analfabetismo e baixa vendagem de livros (ibidem).

Portanto, há nesse momento um divórcio entre as elites políticas, econômicas e sociais do país, e os grupos de intelectuais, impulsionado por ambos os lados. Enquanto as elites deixam os intelectuais de fora do poder, estes criticam os rumos tomados, a corrupção do sonho republicano. E prezam uma independência que era ao mesmo tempo buscada e compulsória, fruto do desprezo social e do analfabetismo (Sevcenko, 2003, p.113). Independência contraditória, pois se libertadora de um lado, mantendo íntegro o campo ético, de outro lado era esterilizante porque negava o campo da ação. E que implicava ainda uma situação socialmente marginalizada e que em termos materiais seria frugal, não raro miserável (ibidem). Afinal, os escritores, mesmos os mais respeitados, dificilmente viviam apenas das letras, tirando seu sustento do exercício de outros ofícios (ibidem, p.114-115). Por isso, estando afastados do mundo político e das esferas de prestígio social, ficavam em uma situação difícil, já que também não possuíam uma base material segura na qual pudessem sustentar essa pretendida independência (ibidem). Assim, de acordo com esse autor (ibidem, p.116-117), o triplo sentimento de derrota, humilhação e inutilidade a que ficaram reduzidos sob a atmosfera da indiferença e da desconsideração geral, produziu um impulso auto- destrutivo, uma das características mais marcantes da literatura desse período, sintoma de personalidades dilaceradas. Afinal, como frisou, o pior destino que se pode legar a um mosqueteiro é não incumbi-lo de nenhuma missão.

2.3.3 Anatolianos

Vencedores

Havia escritores que foram assimilados aos novos tempos, tornando-se bem-sucedidos autores da moda, na medida em que assumiam o estilo impessoal, frívolo e fútil da belle

époque. Eram os vencedores, “o filão letrado que se solda aos grupos arrivistas da sociedade

e da política, desfrutando a partir de então de enorme sucesso e prestígio pessoal, elevados a posições de proeminência no regime e de guias incondicionais do público urbano” (Sevcenko, 2003, p.131). Assim, na belle époque carioca, jornalistas, poetas, escritores, passam a realizar conferências públicas sobre assuntos em moda. Assimilados à nova sociedade, eram habitués das conferências elegantes e dos salões burgueses, favorecidos com as pequenas e grandes sinecuras, além de conseguir uma produção copiosa e bem remunerada (ibidem).

Esses escritores viam a literatura não como arte perturbadora e inquisitória, mas como a manifestação do bem-estar social, numa época de paz, estando eles próprios contentes com sua sorte (Oliveira, 1990, p.113). Pertencentes à classe dominante, escrevem livros que retratam o cotidiano sem expressar grandes dúvidas, feitos para se distrair e distrair os leitores (ibidem). Para esses autores, a literatura era concebida como o “sorriso da sociedade”, de modo que uma palavra os explica: diletantismo (ibidem). Esse tipo de produção buscava um espírito cosmopolita, desinteressado das questões nacionais, no qual a Europa, especialmente Paris, era o centro de atração maior. O tema e a forma da obra, assim como a inserção do intelectual na vida do país, diferiam do cientificismo humanista da geração anterior (ibidem).

Além de uma produção volumosa e indiscriminada, com consumidores cativos para seus livros, conseguiram um prestígio imenso, nunca visto antes (Sevcenko, 2003, p.124 e p.131-132). Para Sevcenko (2003, p.132), o segredo de seu sucesso estava no ajustamento aos gostos e anseios do público, com temáticas mundanas e linguagem aparatosa, representando nos atos e nas palavras, as aspirações da última moda da burguesia carioca. Assim, o anatoliano ou o dândi era aquele escritor cujas obras e vida expressavam a importação dos modelos parisienses de produzir literatura e viver (Oliveira, 1990, p.115). A preocupação com o trajar, a valorização do esporte e a importância das crônicas literárias-sociais fazem parte do cotidiano da vida desses escritores – a qual, por sua vez, passa a ser tema das colunas (ibidem,

p.113). De acordo com Oliveira (ibidem, p.115), encontravam-se tão fundidos criador e obra que o sucesso da segunda era maior quanto maior o mundanismo do primeiro.

Na visão de Sevcenko (2003, p.124-125), houve uma descaracterização do intelectual e do literato tradicionais, que se dissolveram em meio à sociedade. Para esse autor, a assimilação do artista no mundo burguês e oficial reduziram em muito seu potencial crítico e criativo, e o chavão, o lugar-comum e a mania de citações tornaram-se sua grande marca. Ao mesmo tempo, essa imagem difusa do intelectual se tornou uma fachada, requisito para se conseguir as cavações e os empregos públicos, além de acesso para a política e a diplomacia (ibidem). Não obstante, essa época foi importante, pois representou o desenvolvimento das condições de profissionalização do trabalho intelectual – profissionalização esta que estava relacionada à essa popularidade dos literatos, conseguida através dos folhetins e colunas dos jornais (Oliveira, 1990, p.114-115). Eles transformaram o que até então era passatempo em uma profissão, embora continuassem a combinar a literatura com outras atividades, como o emprego público, o magistério e, sobretudo, o jornalismo (ibidem). A grande imprensa dominava a vida intelectual e era ela que oferecia empregos, de modo que o jornalismo se tornou a atividade central desse novo tipo de intelectual profissional, o “anatoliano”39 (ibidem). Entretanto, essa literatura diletante será profundamente abalada com a Primeira Guerra, quando uma nova era – a da incerteza – tomará lugar da Belle Époque, e a preocupação com as questões nacionais voltará à ordem do dia (Oliveira, 1990, p.118-119).

Derrotados

Outros intelectuais, derrotados na nova ordem pelo mundanismo da vida literária, assumiam uma posição marginal, periférica. E marginalizados, optaram por duas formas de reação, podendo ser divididos em resignados e inconformados.

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Entre os intelectuais desse grupo, Coelho Neto aparece como o maior exemplo, constituindo-se em uma das personalidades mais eminentes desse período (Sevcenko, 2003, p.130). Também são citados Olgário Mariano, Arthur Azevedo, Afrânio Peixoto, Mário de Alencar e Medeiros e Albuquerque (Oliveira, 1990).

Segundo Sevcenko (2003, p.133-134), os resignados são os boêmios, simbolistas, que acatavam seu abandono com resignação, embora incomodassem os inimigos pela exibição dura e continuada de sua própria dor. São genericamente referidos como boêmios, embora essa caracterização seja inadequada. Entre os resignados estavam principalmente os simbolistas, nefelibatas, decadentistas e remanescentes do romantismo. Eles assistem com horror e náusea à “vitória do materialismo e do individualismo”, vendo reduzirem-se os valores tradicionais a padrões de mercado, e não contêm seus lamentos de repúdio à nova realidade. Fechados, cultivando suas noções puras e altruístas de solidariedade, são candidatos certos à tuberculose e à miséria, mas não abrem mão jamais de seus princípios. Entregam-se assim a uma resistência surda contra o mundo que os desagradava, manifestada através de uma sensibilidade etérea e sutil, cujo ponto máximo é o lamento de Cruz e Souza.

Havia ainda os inconformados com a nova ordem, que reagiam pela combatividade permanente e pela pregação reformista (Sevcenko, 2003, p.133-134). São, por isso, os mantenedores da tradição da geração de 1870, herdeiros da luta, que acontece através de suas obras, destinadas a ser um instrumento de ação pública e transformação – daí a “literatura como missão”. Os inconformados acusavam a República de ser o “paraíso dos medíocres” e combatiam tanto as oligarquias quanto os movimentos jacobinistas, mas não tinham lugar no espaço público (Oliveira, 1990, p.116). E dispondo do manancial científico e cultural europeu, estavam dispostos a conhecer a fundo a realidade nacional, a fim de poder dirigir conscientemente sua transformação (Sevcenko, 2003, p.134-135). Contudo, sem condições materiais estáveis de sustentação, vão se bater continuamente na luta pela sobrevivência, oscilando entre o anseio de fruir mecenato e o desejo de exercer tutela (ibidem). Restava ainda a esperança de fazer seguidores graças aos “novo jornalismo”, ou de influir nas decisões do governo por meio das associações cívicas de pressão, como as ligas nacionalistas (ibidem).

Para Sevcenko, os grandes representantes dos inconformados, foram, cada um à sua maneira, Euclides da Cunha e Lima Barreto. Ambos herdeiros da geração de 1870, alijados da política e comprometidos com as questões do seu tempo, mas com leituras antagônicas em pontos cruciais. Por sua crítica feroz às elites dirigentes, sua vontade de conhecer à fundo a realidade nacional e seu desejo de transformá-la, sua crítica à frivolidade da belle époque e seus bacharéis, seu profundo sentido de engajamento e de missão política e social exercida através de seus escritos, incluiríamos Alberto Torres entre os intelectuais inconformados, muito embora ele não tenha sido marginal ao mundo da política. Além disso, o situaríamos como herdeiro da geração de 1870, figura fundamental de ligação entre esta e a geração dos anos 20 e 30.