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Com es poden prevenir els problemes psicològics dels infants? La correcta

4.3. Àmbit psicològic. Riscs psicològics que els infants poden patir i les prevencions

4.3.2. Com es poden prevenir els problemes psicològics dels infants? La correcta

Primeira exposição: Minha vida é um barco

Em junho de 2000 recebi pelo correio um convite de Santa: “Maria das Dores

Guimarães de Souza (Santa), tem a honra de convidar você e sua família para a Exposição de Pinturas, Bordados e Cartões ‘Minha vida é um barco’. Na ocasião, haverá uma palestra com a vice-presidente da Fiocruz e Dra. em Saúde Pública, Maria Cecília de Souza Minayo com o tema Celebrar a Vida”. No convite, um singelo desenho: uma galinha amarela no

centro, rodeada por quatro sóis. Ali se refletia a imagem da Santa que, como aquela galinha, também estava cercada por irmãs-estrelas a irradiarem sua luz e a lhe permitirem o desnudar de sua alma. Munida de máquina fotográfica, gravador e roupa de festa, viajei para Itabira. O momento seria grandioso. Minhas emoções estavam à flor da pele. Tão logo cheguei, fui recebida por Baginha e Zara num delicioso café da manhã. Santa havia ido com Caride, o filho de Zizinha (a professora), esperar Maria Cecília e Carlos Minayo no aeroporto em Belo Horizonte. Sentou-se à frente do carro, de óculos escuros, e se portou como uma excelente cicerone, tendo ido, inclusive, buscar seus quadros, que haviam sido emoldurados .

Nos últimos quinze dias, Baginha conta que Santa esteve fechada, introspectiva, com poucas palavras. Não conseguiu desenhar. Só picou papel. Ela me recebeu mais séria do que de costume. Afinal, estava à espera de um dia e tanto. Como é difícil para ela esperar um grande dia! Baginha e Zara iam pondo tudo em palavras, forrando em som e sentido esse intenso clima afetivo. Santa me pediu ajuda para fazer alguns telefonemas. Queria saber se Ló, seu professor de natação, e se o Dr. Eustáquio Garcia, seu médico, iriam à sua exposição. A casa, aos poucos foi se enchendo de arranjos de flores, cartões, presentes, telefonemas. Santa diz: “eu estou com tudo hoje”. O banho foi tomado mais cedo. A indecisão sobre qual roupa vestir só persistiu até a hora “h”. Momentos antes da exposição, lá estava ela, lindamente vestida, sem a menor hesitação. Estava toda de “al gaz”, num vermelho radiante.

Seu pensamento fluía, seu sorriso aparecia. A cada presente que ganhava, dizia: “eu mereço”. Era seu dia estrela, iria brilhar.

A exposição de Santa foi um grande sucesso. Seus trinta e nove quadros surpreendiam, sobretudo, pela variedade e contraste de cores. A percepção de figura e fundo, quando o olhar dos observadores descansava em suas telas, fazia saltar cores muito vivas e vibrantes. A festa encantava a todos. Algumas imagens abstratas tinham um efeito de profundidade. Outras, simples e singelas, tematizavam flores e animais: peixes, galinhas, tartaruga e o Louro José. Eu já havia visto o seu prazer e a sua absorção ao deslizar o pincel sobre a tela. Parecia que ela estava recriando o mundo ao pincelar formas e tons, permitindo, assim, vislumbrar um pouco da riqueza de cores e luzes que brilham em sua alma, em seu ser mais profundo. Nos bordados, parecia trançar em fios multicores a moldura de sua harmonia e delicadeza interior.

Zara foi ao microfone dar início à cerimônia de inauguração da exposição. Num telão foram projetados retratos de sua vida. Um público de duzentas e cinqüenta convidados ficou ali hipnotizado ao ver a Santa menina ir se tornando a Santa mulher que conhecemos hoje. Cada foto retratava um cenário e uma época. Zara foi criteriosa nessa escolha, não queria que ninguém se sentisse excluído. Afinal, a vida de Santa estava ali entrelaçada na história de todos. Junto às imagens, apareciam palavras e frases que deslizavam, entre pausas, pela tela.

Zara ... Zara ... para ficar tudo jóia rara deixou ali impresso, em sentenças, seu toque de

carinho: “ (1) Santa - sinal de vida, esperança e amor; (2) Santa - presente, sentido e

explicação da vida; (3)Tudo o que o amor toca se concretiza; (4) Quando o amor e o carinho caminham juntos, o resultado é uma obra de arte”. Ali estava Santa, a obra de arte em

pessoa, esculpida no carinho de uma família que nunca perdeu a esperança. Confiou, acreditou, apostou que aquela presença era sinal de vida; que ela tinha um sentido, uma

explicação que unia a todos numa só atitude: acolhê-la como um presente de Deus. E foi

assim que o toque de amor, dessa grande família, concretizou o milagre de torná-la viva, uma pessoa especial muito mais rica de atributos, qualidades, valores e talentos. Por isso, aquele foi o dia de celebrar a vida.

Em vindas anteriores de Maria Cecília a Itabira, Santa expressou seu desejo, num tom irrecusável: “Você vem aqui em Itabira e faz conferência para todo mundo. Eu quero que

você venha fazer uma palestra para inaugurar a festa dos meus quadros”. Pois bem, chegou

o momento. Lá estava Maria Cecília, sendo convidada por Zara a subir ao palco. Santa, a artista homenageada, juntou-se a ela. Por traz de uma comprida mesa, de toalha rendada, se agigantavam duas baixinhas. Uma na eloqüência da voz, a outra na vivacidade de sua arte. Santa estava numa postura impecável, bebendo seu copo d`água, assumindo, ao lado de sua

irmã, o lugar de destaque. Maria Cecília, emocionada, saúda toda sua família e os amigos. Assinala a importância das pessoas que ali estão, sobretudo, porque são amigas de Santa. No auditório se vêem rostos atentos, que ora ou outra, explodem em sorrisos, entre os mais fortes aplausos. As palavras de Cecília cativam e povoam de sentido tão nobre momento:

“ Escolhi como título desta palestra a expressão ‘Celebrando a Vida!’

Mas o que é a vida? perguntam-se a filosofia, a religião, a ciência. A religião responde que é um Dom Divino. Por isso, papai e mamãe por serem fervorosos católicos, quando receberam Santa em seus braços, compreenderam e interpretaram para nós da família que haviam recebido um presente de Deus. E mais, que presente de Deus não se recusa. Deve ser valorizado. (...)

Quero dizer que, a partir da crença religiosa de nossos pais que acolheram a dádiva de Deus, Santa encontrou na família, nos amigos e na comunidade o mar que abriga seu barco. Esse mar, cuja grandeza é insondável, pode receber, pelo menos em parte, algumas denominações, sendo possível determinar, no mapa da vida, o espaço do ambiente social onde seu barquinho ancora. Irmãs e irmãos, primas e primos, sobrinhas e sobrinhos, amigos e amigas, vizinhos e vizinhas merecem ser lembrados. Dentre os muitos, a dois nomes temos que prestar indiscutível homenagem, porque são hoje os timoneiros que representam os laços de organização e de crescimento da vida cotidiana na velejada do mar. E todos sabemos que não é fácil esse dia-a-dia que combina o conhecido e o esperado com os profundos e imprevisíveis ruídos das tempestades que constituem a deficiência e o sofrimento mental. Esses guias são Baginha e Zara, que permanecem apesar de tudo e de todos, dirigindo e contemplando, com sua sabedoria, seu carinho, sua dedicação, seu amor, a dona do barco e seus desejos, e a casca frágil da embarcação nas tormentas e nas sempre novas aventuras pelo mar aberto. Sua grande bússola é a admiração pelo dom de Deus.

Depois, estão aqui para nosso enlevo, carinho e respeito, Lili, a professora de pintura, que ensina, embevecida, as técnicas da paisagem reinventada pela artista criativa; e Maria Helena, a professora de bordado, que enfeita, com sua doce ternura, os traços seguidos por quem aprecia os riscados e surpreende pelas novas descobertas. Neste círculo concêntrico de proteção, mas um pouco mais afastados, estamos os outros irmãos, irmãs, cunhados e cunhadas que observam, usufruem e admiram, recebendo o influxo da experiência de uma auto-organização a partir dos limites da vida. E aí aprendemos que Santa vive de amar e se superar, celebrando, comemorando, valorizando e descobrindo pessoas e possibilidades. No centro mesmo da história, olhando de um plano superior, os dois grandes baluartes, papai e

mamãe, que do céu sorriem felizes pelo legado que tão bem construíram, vendo nele o testamento de seu amor e de sua utopia de vida. Talvez nunca puderam imaginar em sua passagem pela terra que, de seus filhos e filhas, quem parecia menos privilegiada se tornasse o centro, o elo, a força de reunião de uma família que queriam unida, trabalhadora, inteligente, criativa e capaz de contribuir para melhorar o mundo.

Essa homenagem a Santa é muito mais do que a inauguração de uma exposição, é uma homenagem ao Dom da Vida. Perdoem-me os presentes, a falta de modéstia para dizê- lo, porque falarei sobre alguma coisa muito pessoal. Minha família é um exemplo de como uma pessoa, - Dom de Deus que nos foi concedido – portadora de uma diferença ou de uma deficiência, pode ser feliz, pode interagir com seu meio e sobressair, pode dar e receber afeto, pode criar e se auto-organizar. A casa da rua João Pinheiro é o barco de sua vida, mas seu mar, somos todos os que a amamos e somos amados por ela, tornando a sua vida, mas sobretudo, a nossa vida, muito mais cheia de graça, de beleza e de amor”.

A palestra de Maria Cecília foi certamente muito mais extensa, rica e detalhada do que o pequeno trecho anteriormente narrado. Ela se deteve nos avanços da ciência, no campo da biologia molecular e celular, situando como ‘noção de vida enquanto funcionamento perfeito

dos órgãos se modificou: hoje ela é explicada a partir da idéia de desordem, ruído, falha, indeterminação e acaso como fatores de auto-organização e complexidade’. Outro destaque

foi dado ao neurologista inglês Oliver Sacks, que mora atualmente nos EUA e, a partir da teoria da Nova Biologia, “tem feito descobertas incríveis e ensinado que é preciso construir

novos conceitos de saúde e doença e novos conceitos sobre o sentido da vida”.

Nos instantes finais da palestra, Maria Cecília pede ao marido Carlos Minayo que diga algumas palavras sobre aquele momento. Santa abre um franco sorriso, enquanto o escuta atentamente:

“Santa como sempre nos provocando... [gargalhadas compartilhadas com a platéia].

Vou dizer duas coisas. A primeira é sobre este momento que Santa nos preparou, e nos prepara sempre, para nos surpreender. Eu a sinto como um ser que trouxe uma missão para esta terra. Uma missão que vai se desdobrando e vai desprendendo constantemente. Acho que é isso que marca um pouco a estréia dela. Quando você vê os quadros, você pensa: puxa que pulo deu esta mulher! Quando você a escuta dizer que sua agenda está lotada, que ela está sem tempo, nota-se que é sua alegria que está sempre presente. Então, eu penso que Santa é o centro da nossa família. É ela quem aglutina os familiares. Como os pais já

passaram desta vida, então, ela ficou como o elo da família. Com Santa não existem diferenças; as diferenças se quebram; os conflitos ficam em segundo plano. Acho que isso se estende aos amigos, aos familiares, à comunidade toda. Uma segunda coisa é que Santa podia ter deixado esse barco nas tempestades e nos contratempos do mar. Acho que ela é que está sendo a timoneira, que nos conduz a todos. Muitas vezes eu me sinto manipulado pela Santa, como todos; manipulado alegremente por ela. Finalmente, queria dizer que acho que foi um Dom que realmente nos entregaram e, nesse sentido, eu queria lembrar e agradecer particularmente aos que foram os portadores desse Dom, minha sogra Dona Loca e meu sogro, Seu Ninico. Obrigado a todos”.

O momento era comovente, tocante, alegre e formal. Como é de costume em outros eventos formais, Santa não quis omitir nenhum detalhe que, no seu modo de ver, deveria fazer parte desta noite de glória. Para surpresa de todos, Santa pediu que se tocasse o Hino Nacional. Os convidados e os palestrantes ficaram de pé, exceto Santa, que em sua mais espontânea diferença, não julgou necessária essa formalidade: permaneceu sentada. Sua internalização de etiqueta social não chegava a esse detalhamento. Para ela, ficar de pé, ou ficar sentada não importava. O que importava é que a festa de seus quadros deveria ser completa. E ali quis marcar o seu lugar de cidadã, de brasileira, através de uma atitude que representa um fio condutor a unir o presente ao passado, pois resgata o espírito nacionalista que tanto marcou seu pai no seu amor e valor à pátria. Finda a solene cerimônia, Baginha anuncia um coquetel.

A descontração durante o coquetel favoreceu agradáveis encontros e bate-papos. Muitos paravam para admirar e contemplar os quadros, surpreendidos. Outros tantos trocavam impressões. Santa foi entrevistada pela TV Itabira. Em meio a um largo sorriso, da Santa e do repórter, ela fez comentários sobre sua exposição, respondendo com desenvoltura e falando bem junto ao microfone. A cena ia sendo filmada e Santa lidava muito bem com todas aquelas exigências sociais, de alguém que estava definitivamente tendo um dia de estrela. Tudo parecia perfeito. Eu aproveitava para fotografar. Lili se aproximou e contou como foi o processo de escolha do nome da exposição. Ela a ajudou a pensar: “Galinha não pode ser,

Petty não pode ser, tem que ser algo sobre sua vida”. Santa foi para sua casa e lá ficou

“matutando”, depois telefonou para Lili e gritou: “Já sei: Minha Vida é um Barco”. A desenvoltura de Santa é intrigante. O curioso é que sua reflexão lenta, com tantas idas e voltas, aquilo que corresponde a seu padrão habitual de comportamento, se altera em circunstâncias sociais específicas. Durante um evento importante como este, parece que tudo

flui, sua fala é mais rápida, seu raciocínio mais ágil, seu vocabulário se enriquece, com saídas perspicazes e brilhantes. Num ambiente que dá sustentação à sua competência afetiva e social, tenho a impressão de que uma espécie de “inteligência social” e “inteligência interpessoal” aflora com maior desenvoltura. Nessas horas, Santa parece dar saltos, alçar vôos e se superar tremendamente.

No dia seguinte, tive a grata oportunidade de conversar com Rose, filha de Antônio, irmão de Santa, durante um churrasco que sucedeu à festa formal. As emoções da noite anterior ainda estavam vívidas e a sensibilidade desta sobrinha, uma profissional fisioterapeuta e mãe de duas crianças, certamente expressa os sentimentos dos outro sobrinhos e familiares que partilham o aconchego da presença da “tia especial”:

“Ontem eu tive a sensação de querer que mais pessoas pudessem partilhar conosco

daquele momento que nós da família estávamos vivendo com a tia Santa. Mais do que estar mostrando seu trabalho artesanal, ela estava nos dando uma lição de valorização, nos fazendo olhar pessoas com diferenças de uma maneira especial... Ontem eu senti muito orgulho de fazer parte da família dela! A impressão que temos do diferente, do excepcional fica sempre marcada por uma idéia de exclusão. Pensamos que eles não podem nos trazer nada de novo, como se não pudessem nos ensinar nada enquanto nós permanecemos com a sensação de ser superior. Ontem, a tia Santa mostrou o contrário. Foi tanta grandeza, tanta expressão de vida, no sentido melhor que a vida pode ter, que eu sai de lá com uma nova idéia de excepcional. É preciso que sejamos catalisadores para que os excepcionais possam mostrar seus frutos. A tia Santa só pode mostrar o fruto do trabalho dela, de tudo o que vem de seu íntimo, porque existem pessoas, ao redor, que são os catalisadores. Esse aprendizado precisa ser levado para outros excepcionais”.

Rose relatou que teve a impressão de que “um processo químico” aconteceu na noite anterior. Vários fatores parecem ter interagido, simultaneamente, favorecendo que Santa estivesse assim tão centrada e viesse a ocupar o papel de estrela com tanta desenvoltura. Peço a Rose para explicar o que a fez pensar desse modo:

“Eu vivo com tia Santa mais de perto. Moramos na mesma cidade. Com freqüência ela

passa férias comigo, com minha família, com meu pai que é irmão dela, com minha mãe, lá na fazenda. Muitas vezes ela vai de carro comigo, volta comigo. Então, de certa forma, já participei muito da rotina, da intimidade da tia Santa. O que a gente pode perceber é que ela tem momentos de extrema socialização, de extremo carinho com a família, mas também tem momentos de certa dificuldade de se relacionar com certas pessoas. Ontem, eu tive a

sensação que ela conseguiu chegar num nível de equilíbrio tal que ela pode demonstrar tudo, toda a arte que nos foi mostrada, como se fosse uma pessoa completamente familiarizada com toda aquela situação. Eu sei que não é assim no dia-a-dia dela. Então, isso me surpreendeu muito. Eu imaginei que ela iria ter momentos de certa agressividade, de um certo nervosismo. Não foi o que aconteceu. Ela realmente se vestiu num papel de artista, de dona da situação, de uma maneira tão suave, tão tranqüila, que isso me surpreendeu. Eu acredito que isso só aconteceu porque muitos fatores contribuíram. A forma com que as irmãs conduziram todo o processo da mostra de arte, o modo como ela foi se preparando antes, a presença da comunidade com quem ela está acostumada a se relacionar, tudo isso ajudou. Aquele ambiente, ao mesmo tempo familiar, ao mesmo tempo de pessoas amigas é um espaço que de certa forma ela já domina. Tudo isso contribuiu para que ela estivesse assim tão bem. Ela me pareceu extremamente lúcida naquele momento. Tenho a impressão que ela viveu cada minuto do que lhe estava acontecendo, desde a hora em que as pessoas chegavam e abraçavam, que ela recebia flores, que ela cumprimentava um a um, até o momento em que deu entrevista para a televisão. Ela estava muito inteira e muito presente. Parecia que não queria perder um minuto sequer daquela glória”.

Comento que Rose parece ter descoberto ali uma outra Santa. Uma Santa mais inteira, mais madura, com um desenvoltura que ela ainda não havia visto.

“Eu descobri ontem um outro ser. Eu, como sobrinha, conheci a tia Santa quando eu

era muito pequena. Eu tinha dificuldade de me relacionar com a diferença dela. As crianças, muitas vezes, representam até um risco para essas pessoas diferentes, devido as brincadeiras que tínhamos. Santa sempre reagia às nossas brincadeiras com muita agressividade. A medida que a gente cresce, que vai tomando consciência de que ela é um ser diferente, aí a gente adquire outro tipo de sentimento. Sentimos como se ela fosse diferente para menos. Com o passar dos anos, com a maturidade a gente aprende a respeitar a diferença. Mas muitas vezes, não valorizamos a diferença como suas irmãs fazem. Nós respeitávamos a diferença, convivíamos com a diferença, mas não no nível que as irmãs delas fazem. Agora, o que eu sinto não é somente respeito, é admiração. Admiração porque agora eu sei que ela é um ser capaz de coisas, talvez até de coisas que eu não seria capaz, com tudo aquilo o que eu acho que tenho a mais. Tenho mais admiração ainda das irmãs que estão a sua volta, que têm a sensibilidade de perceber que ela tem um potencial para se integrar socialmente, para viver a sua vida e fazer a sua história. É como se as irmãs a conduzissem a escrever sua própria história e não ficar a sombra, como um serzinho que nasceu diferente. Agora eu tenho um

sentimento a mais por ela, somado ao que eu tinha antes. Feliz da tia Santa ter nascido na família que nasceu!”

Rose descobriu Santa como pessoa. Sua diferença, ao ser compreendida e compensada, estimulada e desenvolvida passa a ser respeitada e até admirada. É bonito ver um excepcional fazer bom uso das potencialidades que a vida lhe deu e conquistar um espaço na sociedade. É apreciável ver uma família ser continente de apoio, afeto, estímulo, ensinando com dedicação e persistência, demonstrando ousadia para multiplicar oportunidades e desafiar a deficiência. Rose vê Santa com novos olhos. Com uma imagem reconstruída, Santa se transforma num novo espelho. Um espelho que Rose olha e se compara, chegando a uma conclusão inusitada:

“Eu, com toda a potencialidade que julgava ter, eu não fui capaz, até o momento, de

ter um dia de estrela como Santa teve. E olha que eu não sou tão nova assim. As pessoas devem ter a sensibilidade de entender isso. Todo mundo é diferente. A questão é usar a diferença para alguma coisa que engrandeça a vida. E a gente vê tantas pessoas ditas