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Espaços ricos de possibilidades, os SAIs também contam com a atuação de voluntários. É, pois, necessário que se reflita a respeito da atuação e motivação que movem essas pessoas a atuarem em instituições sociais, considerando que o Estado não deve se valer do voluntariado para fazer a política pública funcionar. O IPEA, em 2003, no Levantamento Nacional de Abrigos para Crianças e Adolescentes da Rede SAC, identificou a presença significativa do voluntariado na implementação do direito de acolhimento, proteção e assistência a crianças e adolescentes em situação de risco social ou pessoal.

Historicamente associado ao assistencialismo, religião e gestão da pobreza, o trabalho voluntário estabelecia com os mais pobres uma relação caritativa e apoiada no entendimento da sua menor capacidade. Contrapondo-se a essa lógica e almejando superá-la, há movimentos que defendem um novo modelo de voluntariado, que, como uma demonstração de mobilização política e democrática, surgiram mediante a multiplicação de ações populares em prol do empoderamento de grupos das bases da sociedade (BEGHIN; PELIANO, 2004). Principalmente nas ONGs, a atuação de voluntários foi mencionada pelos colaboradores:

[...] até hoje é assim, tem curso de inglês, se você não quiser é assim, é com você, é pra quem quer [...] Quem quisesse tava ali aberto, inglês, espanhol, tinha de matemática, a professora vinha de fora pra ensinar matemática, história (COLABORADOR 3, 2016).

Ia gente lá, tinha gente que me ensinava a aprender a matemática, a aprender português, a aprender pra a gente quando arrumar um emprego saber falar direito, porque tem que falar direito né?! pra arrumar um emprego [...] Era gente de fora, voluntário (COLABORADORA 4, 2016).

Eu via muito o pessoal de fora vindo, daqui de dentro não. Voluntário ensinando, mas aqui de dentro era meio difícil, não tinha muito não [...] Assim, os educadores da noite [...] eles inventavam atividades assim, brincadeiras, não ensinamentos, mas inventavam brincadeiras, pra a gente brincar se divertir a noite e fazer algo bom, pra

não ficar aquele negócio tenso de noite, aí eles inventavam isso [...] A ler a bíblia, eles ensinavam também como sentar na mesa, mas assim, alguns meninos não levavam a sério essas coisas, só levavam na brincadeira, então assim, ele acabou deixando as vezes de querer mandar, as vezes o pessoal achava que ele queria mandar demais e ficava falando, ele deixou mais por conta disso (COLABORADOR 6, 2016).

[...] aí minha rotina era, passava o dia aqui, às vezes vinha o pessoal da igreja, de fora, levava eu pra conhecer as coisas, por exemplo, o Instituto Federal, o IFPB de Jaguaribe. Fui lá também, aí eles me mostravam as coisas de engenharia elétrica [...] O acompanhamento psicológico da psicóloga voluntária daqui, que eu pude conversar e dialogar com ela e me abrir mais, porque eu era muito tímido também, aí me ajudou muito foi o acompanhamento psicológico [...] Como, por exemplo, no dia da sexta-feira vinha um pessoal aqui pra fazer dinâmica com a gente, esporte, vinha um pessoal da igreja (COLABORADOR 7, 2016).

Devido à demanda de voluntários que atuem nos SAIs de João Pessoa/PB, o Ministério Público exige, atualmente, que os serviços mantenham arquivada e também lhe remetam uma relação atualizada de todos os voluntários que neles atuam, indicando seus dados pessoais, a proposta da atividade que desenvolvem, os dias de sua atuação e o período previsto para a sua permanência no exercício das tarefas. Tal exigência favorece o controle das atividades realizadas e demanda maior cautela dos SAIs, à medida que, enquanto incentiva as parcerias dos serviços com a comunidade, prima, ao mesmo tempo, pela não exposição dos acolhidos, avaliando e acompanhando as atividades realizadas.

A colaboradora 1 expôs a sua leitura da atuação de voluntários que não desempenhavam satisfatoriamente suas funções e que se mostravam curiosos com respeito às histórias de vida dos acolhidos, além de não oferecer o aprendizado proposto:

Eu acho que tudo é questão de arrumar aquelas pessoas determinadas pra fazer aquele trabalho. Fiz o curso de costureira aqui, mas eu acho que a professora se envolvia muito com as crianças e adolescentes pra conversas, querer saber as coisas da vida, quere saber do abrigo também, não tinha aquela determinação “não, eu vim pra ensinar e elas vão ter que aprender”. A gente ficava é conversando, lanchando na sala e sem fazer calcinha, sem fazer cueca, sem fazer nada. A gente ficava brincando, conversando. Não teve aquele negócio “a gente vai aprender” (COLABORADORA 1, 2016).

Prezar a qualidade e continuidade do serviço oferecido por voluntários também evita que ocorram novas situações de rompimento brusco de vínculos e que se reeditem experiências de perdas, às quais se submeteram os indivíduos que foram afastados de seu núcleo familiar. Conforme Tinoco (2005), é preciso atentar para o fato de que a separação das figuras de apego que decorre da institucionalização pode representar uma perda do mundo particular das crianças e adolescentes, de quem se exige, em seguida, que assimilem um mundo novo, com novas figuras de referência. Essa adaptação, certamente, é dificultosa e

pode ocasionar o abalo das bases que alicerçavam sua vida, realidade e identidade, furtando- lhe o poder de controlar as situações.

Potencialmente benéfico para o processo educativo de crianças e adolescentes, o trabalho do voluntário pode resultar na criação de vínculos afetivos saudáveis e que perdurem para além do período de institucionalização. Carvalho e Oliveira (2007) afirmam que o voluntário pode exercer uma influência educadora e ajudar a romper os muros institucionais, que, com frequência, limitam o contato dos acolhidos com os funcionários da instituição. A fala da colaboradora 2 salienta a importância que ela atribui a uma voluntária que a acompanhou durante a institucionalização e com quem mantém contato até os dias atuais:

Assim, quando eu cheguei no abrigo [...] passei bons meses sem ninguém me visitar [...] Passei nesses abrigos todinho ninguém nunca foi me visitar não. Aí eu dizia assim “eu acho que eu vou ficar aqui pelo resto da vida. Ninguém gosta de mim mesmo, eu vou ficar aqui mesmo” [...] sempre quem me acompanhava nas audiências era a voluntária. Não vou dizer que ninguém ia me visitar não né? Da minha família não, mas ela sempre teve ali comigo, em todos os momentos ela tava comigo, ela ligava pra mim “oi [...], como é que você tá?” [...] é uma pessoa muito legal [...] é uma pessoa que me ajuda, nunca deixou de me ajudar não. Aí quando eu percebi que ela tava se envolvendo comigo, me ajudando, falando, fez o álbum Fazendo Minha História, aí pronto, eu já me vi outra pessoa né?! [...] Ela que me acompanhou. Ela fez o meu álbum e o álbum do meu filho. Ela me dava conselho “não fique desanimada, não fique triste porque ninguém vem lhe ver. Eu sempre venho aqui se eu puder venho lhe ver, trazer alguma coisa pra você”, daí eu não fiquei mais triste num canto porque minha família não queria me ver. Eu tinha uma pessoa que vinha me ver de vez em quando, pronto [...] fiquei contente com as visitas dela [...] até hoje tenho contato (COLABORADORA 2, 2016).

Apesar de a narrativa da colaboradora 2 não esclarecer a finalidade concreta do trabalho da voluntária que a acompanhou – trabalho que, por certo, não se limitava ao Projeto Fazendo Minha História, posto ter ela acompanhado a jovem em uma audiência –, fica evidente o lugar afetivo que, até hoje, a voluntária ocupa em sua vida e a importância de um vínculo com a realidade fora do SAI.

Por outra parte, Carvalho e Oliveira (2007) advertem ser necessário que a equipe técnica do SAI oriente o voluntário, para que sua atuação atinja os objetivos propostos e contribua para o processo de crescimento e desenvolvimento educacional dos acolhidos. Os autores ressaltam, ainda, que o trabalho do voluntário deve agregar-se àquele que realiza a equipe de profissionais do SAI, em vez de substituí-lo.