Antes mesmo do início das atividades da primeira Oficina Presencial Temática do módulo 1, algumas informações já compunham o histórico textual que traduz a experiência vivida com a pesquisa; seja pelo pesquisador, pela professora e até mesmo pelos alunos.
As entrevistas realizadas com os envolvidos no processo de acolhida de refugiados, com a professora do curso e com os próprios refugiados já sinalizaram o terreno no qual eu estava prestes a fincar meus pilares e construir minha compreensão do contexto. As entrevistas com os gestores do processo de acolhida, coordenador e professora do curso de português foram gravadas em áudio e transcritas. Já as entrevistas com os refugiados, infelizmente, não puderam ser gravadas em áudio e, portanto, resultaram em notas de campo produzidas por mim. Lembro que em ambos os casos, mesmo seguindo os roteiros para as entrevistas (anexos 1 e 2), informações inesperadas emergiram nas vozes dos entrevistados.
Nas oficinas do módulo 1, as experiências foram registradas durante a minha observação das interações entre os participantes e materializadas em notas de campo. Ao mesmo tempo, todos os tipos de redação e imagens produzidas pelos alunos foram considerados como dados relevantes para a pesquisa. Nesse módulo, não houve criação, reconstrução de imagens, mas, sim, a escolha de imagens em sites da Internet seguida de uma breve explicação das razões pela escolha. Essa justificativa da escolha se transformou em texto a ser interpretado na pesquisa.
As redações produzidas por meio do computador foram impressas, corrigidas e devolvidas aos alunos. As produções originais (digitalizadas) foram
utilizadas por mim, o pesquisador, para leitura e interpretação. Já as sugestões e opiniões solicitadas aos alunos sobre as atividades propostas, foram redigidas de próprio punho e xerocadas antes da devolução dos originais, após leitura e correção pela professora e pesquisador.
Considero como registro textual de experiências a serem interpretadas tanto as produções resultantes das atividades em língua portuguesa quanto às redações contendo sugestões e críticas sobre as propostas, redigidas nos idiomas inglês, francês ou espanhol.
Nas oficinas do módulo 2, além das notas de campo resultantes de minha participação como observador, foram produzidos textos e trabalhos com imagens somente no papel (produção de pôster). As imagens foram criadas com recortes de revistas, jornais ou mesmo desenhos feitos com canetas e lápis coloridos disponibilizados aos participantes para a atividade. Esses pôsteres, após terem sido colados nas paredes, foram explicados pelos alunos, e as explicações gravadas em vídeo e posteriormente transcritas para interpretação. Essas explicações traduzem as razões pelas quais as imagens foram escolhidas, recortadas e montadas ou desenhadas.
Os textos redigidos pelos alunos participantes também estiveram presentes em todas as atividades de ambas as oficinas do módulo 2. Assim, o procedimento de correção e entrega dos originais se repetiu, considerando que duas cópias das produções sempre eram feitas antes da entrega. As redações que resultaram dos momentos reflexivos também foram consideradas como registros textuais e xerocopiadas para interpretação, antes da entrega corrigida dos originais como nas oficinas anteriores.
Além dos textos resultantes das atividades, das notas de campo e dos momentos reflexivos, também considerei como registros de experiências vividas os pôsteres que os alunos produziram, os registros fotográficos dos pôsteres e as transcrições das gravações feitas em vídeo. O quadro a seguir resume o processo que possibilitou o registro textual das experiências para interpretação:
Ações Iniciais de Pesquisa
Data Ação Registros resultantes
De 05/2005
à 06/2005
Entrevistas (dois grupos de alunos, gestores do curso, gestores da recepção de refugiados, assistente social, instrutor de laboratório e professora)
Assistência de aula (pesquisador) Reunião final com professora.
Formulários criados para coleta de informações (entrevista alunos – p.24).
Notas de campo. Roteiros de entrevistas. (anexos 1 e 2). Transcrição de gravações.
Oficinas Presenciais Temáticas 1 e 2 - Módulo 1
Data Ação Registros Resultantes
De 07/2005
à 09/2005
Atividades das Oficinas Presenciais Temáticas 1 e 2 do Módulo 1. Assistência de aula e feedback para os alunos das atividades das oficinas presenciais 1 e 2.
Notas de campo. Imagens e justificativas. Redações Impressas.
Redações escritas e xerocopiadas.
Oficinas Presenciais Temáticas 1 e 2 - Módulo 2
Data Ação Registros Resultantes
De 10/2005
à 12/2005
Atividades das Oficinas Presenciais Temáticas 1 e 2 do Módulo 2. Assistência de aula e feedback para os alunos das atividades das oficinas presenciais 1 e 2.
Notas de campo. Redações escritas e xerocopiadas.
Posteres produzidos pelos alunos.
Gravações em vídeos. Registros fotográficos. Quadro 13: Procedimentos para registro de experiências
1.6.1 Interpretação e reconstrução da moradia
As experiências nas atividades propostas nas oficinas não ocorreram a partir do nada, ou seja, de acordo com Dewey (1938:40) “as experiências não ocorrem no vácuo”, e os significados devem ser registrados como resultantes de impressões que o individuo já traz consigo construídos, continuamente, por influências externas e internas, por meio dos processos de interação com o mundo, com os outros e consigo. Cada momento, portanto, se transformou em uma experiência vivida cujo valor foi entendido de forma retrospectiva (experiências recentes são calcadas nas anteriores), e prospectiva (experiências prévias forjam as que sucedem), como ressalta Freire (1998: 52-53).
Por esta razão e tendo em vista a linha metodológica hermenêutico- fenomenológica, resolvi não pré-estabelecer categorias para a interpretação dos dados. Além disso, também considerei o que sugerem Moffett (1968 apud Freire, 1998) e van Manen (1990), quando ponderam que a pré-determinação de categorias pode conduzir o pesquisador, levando-o a abrir mão do que se mostra relevante, em função do que foi pré-estabelecido.
Tomando como base a linha metodológica adotada, meu foco interpretativo foi direcionado aos textos redigidos em português durante as atividades, aos textos produzidos em inglês, francês ou espanhol, resultantes dos momentos reflexivos, aos pôsteres que contêm textos escritos e imagéticos, e às gravações em vídeo contendo os depoimentos dos alunos, sendo que todos foram interpretados tanto em termos individuais quanto gerais.
Assim, a partir de leituras detalhadas, foi possível escrutinar os textos das experiências vividas pelos alunos e proceder à tematização do fenômeno. Segundo van Manen (1990:78), a tematização, ou interpretação temática refere-se “ao processo de recuperação do tema ou temas que estão incorporados e dramatizados nos significados e imagens emergentes”.
Tais temas hermenêutico-fenomenológicos que estruturam o fenômeno, portanto, emergiram da discussão sobre os temas/assuntos propostos no decorrer das oficinas, resgatando o sentido das Oficinas Virtuais Temáticas de Rezende (2003).
Com base nas informações que emergiram nas interações e nas produções, alguns dos temas hermenêutico-fenomenológicos puderam ser identificados e contrastados com os emergentes das notas de campo, das próprias entrevistas feitas anteriormente e das gravações feitas em vídeo. Assim procedendo, foi possível promover o ciclo de validação de que fala van Manen (1990), o qual permite ao pesquisador fazer afirmações e convalidar suas interpretações.
Lancei mão, quando possível, de conversas com os participantes, à medida em que a leitura dos textos sinalizava a necessidade de esclarecimentos posteriores sobre os significados que emergiram.
Acredito que esse posicionamento me auxiliou, de maneira progressiva e não instantânea, a voltar minha atenção ao que cada momento das oficinas
indicava, na tentativa de capturar significados e construir uma melhor compreensão dos mesmos.
O próximo capítulo apresenta as abordagens teóricas que me auxiliaram na compreensão das experiências vividas por mim, como pesquisador, pela professora e pelos refugiados alunos do curso. Resgatando a metáfora que ilustra esta investigação, apresento a fundamentação teórica como uma fundação construída para este trabalho, como os pilares da minha pesquisa que se intercruzam e permitem uma leitura que dialoga com o contexto da complexidade, terreno de toda essa reflexão.