4. Empirical analysis of clear language
5.1. Central banks and supreme courts
A região de São Domingos é notávelpela sua elevada riqueza de peixes troglóbios, que exibem diferentes graus de especialização à vida subterrânea (um cascudo Loricariidae; quatro bagres Trichomycteridae; um bagre Heptapteridae e um peixe- elétrico Sternopygidae – Reis 1987; Triques 1996; Fernández & Bichuette 2002; Bichuette & Trajano 2004; Trajano et al. 2004;) além de invertebrados terrestres como aranhas Ctenidae, Scytodidae e Symphytognathidae (Rheims & Pellegatti-Franco 2001). No entanto, de acordo com o verificado neste e em estudos anteriores, a fauna de invertebrados terrestres troglóbios na área cárstica em estudo é pobre em um contexto global (Trajano & Bichuette 2010; Gallão 2012). Identificamos apenas nove troglóbios e sete possíveis troglóbios em nossas amostragens. De maneira geral, as cavernas brasileiras possuem riqueza de troglóbios reduzida quando comparadas a áreas cársticas do hemisfério norte, principalmente com relação à fauna de invertebrados terrestres (Culver & Sket 2000; Culver et al. 2003; Deharveng 2005; Juberthie 2000). Tal
evidência pode ser embasada no modelo que considera as flutuações climáticas como principais responsáveis pela formação de populações troglóbias (Barr 1973;Moore 1964), já esta área compreende uma zona paleoclimática estável. O mesmo modelo assume que a origem da fauna subterrânea no hemisfério norte, onde ocorreram flutuações climáticas mais acentuadas, tenha levado a maior diversificação destes organismos (Barr 1968; Peck 1980). Os troglóbios brasileiros mais especializados são encontrados em regiões semi-áridas da Bahia, como é o caso das cavernas Chapada Diamantina e Campo Formoso (Trajano 1995).
A maior parte da fauna troglóbia brasileira descrita pertence a grupos de peixes (Bichuette 2003, Bichuette& Trajano 2003; Bichuette & Trajano 2006, Bichuette & Trajano 2008; Mattox2008; Bichuette & Rizzato 2012), contrariamente às cavernas de zonas temperadas, onde há maior ocorrência de invertebrados terrestres e aquáticos, com destaque para os microcrustáceos, e praticamente ausência de peixes (Culver & Sket 2000; Culver et al. 2003; Peck 1998;Stein et al. 2012). A exemplo destas discrepâncias, podemos citar Culver e colaboradores (2003), que relatou variação de zero a 256 espécies de invertebrados exclusivamente subterrâneas em nove áreas cársticas dos Estados Unidos, além de outros trabalhos como Juberthie & Ginet (1994) e Sharratt e colaboradores (2000), que também encontraram elevada riqueza de invertebrados terrestres troglóbios em cavernas de áreas cársticas da França e África do Sul. Para a caverna Vjetrenica Jama, Bósnia-Hezergovina, há 60 espécies troglóbias descritas (Culver & Sket 2000). No entanto, os baixos registros de troglóbios em cavernas tropicais ocorrem também devido à falta de amostragens, que ainda restringe o conhecimento e subestima o potencial de nossa fauna subterrânea (Trajano 1995).
Para o Brasil, há 104 espécies troglóbias descritas até o momento, das quais apenas 12 ocorrem no estado de Goiás (Gallão 2012; J. E. Gallão, com. pess.). As duas cavernas brasileiras com maior número de troglóbios são o Sistema Areias e Gruta Alambari de Cima, com 16 e 10 espécies respectivamente, ambas em litologia calcária e inseridas em Mata Atlântica do sudeste brasileiro (Deharveng 2005). Além disso, recentemente verificou-se elevada riqueza de troglóbios em cavernas quartzíticas do nordeste brasileiro, como a Gruna Parede Vermelha, Chapada Diamantina, Bahia, na qual foi registrado 13 troglóbios(J.E. Gallão & M. E. Bichuette, in prep.).
Os únicos coleópteros troglóbios descritos para cavernas brasileiras pertencem aos carabídeos, sendo dois do gênero Coarazuphium (C.bezerra e C.cessaima) e um do
gênero Schizogenius (S. ocellatus), com ocorrência nos estados de São Paulo, Bahia, Minas Gerais e Goiás (Trajano & Bichuette 2010; Gallão 2012).Portanto, nosso registro de um indivíduo troglóbio para a família Staphylinidae, subfamília Pselaphinae, é novo tanto para a área cárstica quanto para o país. O fato de já haver registro de outro coleóptero troglóbio na mesma caverna (Caverna Bezerra), o Coarazuphium bezerra, torna o achado ainda mais interessante. Porém, ainda é necessário o auxílio de um especialista do grupo para a identificação deste indivíduo em nível de espécie.
A elevada riqueza de táxons amostrada no presente estudo, com a ocorrência de registros novos e distribuições ampliadas, reforça este potencial de biodiversidade para a fauna subterrânea da região. É relevante salientar que nem todo troglóbio possui troglomorfismos e vice-versa. Em cada sistema, há diferentes pressões seletivas atuantes, capazes de promover ou não a diferenciação de caracteres em populações isoladas (Culver 1982). Há espécies que apresentam troglomorfismos tanto em ambientes hipógeos quanto em superficiais, como é o caso de alguns colêmbolos, que em geral são despigmentados. Portanto, a classificação de espécies como exclusivamente subterrâneas deve ser embasada principalmente em estudos acurados considerando a sua ocorrência e distribuição (Culver & Pipan; Gibert et al. 2009).
O impedimento taxonômico ainda dificulta a elaboração de listas faunísticas precisas, já que muitos táxons acabam negligenciados devido à falta de especialistas para sua identificação (Wheeler et al. 2004). Em países megadiversos, de campo científico ainda limitado e dependente de tecnologia externa, como é o caso do Brasil, devemos salientar a importância da taxonomia tradicional como o método mais prático, rápido e viável para o acesso à biodiversidade (Trajano & Bichuette 2010). Segundo Mace (2004), a escassez de taxonomistas pode enviesar as listas de espécies produzidas para fins de monitoramento e manejo, especialmente em ambientes pouco estudados, como as cavernas.O número de troglóbios nesta área cárstica deve aumentar em novas amostragens e na medida em que a identificação de espécies subterrâneas seja amparada por especialistas.
Organismos cavernícolas são particularmente vulneráveis adistúrbios, pois apresentam altos índices de raridade em suas comunidades, além de distribuições restritas e semelhantes às encontradas em ilhas (Slaney & Weinstein 1997). Os troglóbios são ainda mais susceptíveis às alterações em seu ambiente, principalmente em resposta as ações antrópicas, as quais acarretam diminuições populacionais podendo
resultar em extinções locais de vários grupos (Trajano & Bichuette 2006). A preservação do meio epígeo, incluindo a vegetação e recursos hídricos do entorno das cavidades, é igualmente necessária para a manutenção da riqueza de espécies subterrâneas.
Além disso, geralmente há alto grau de singularidade entre cavernas, mesmo entre aquelas com elevada proximidade geográfica e inseridas num mesmo maciço rochoso, como foi verificado em nossa área de estudo. Assim, é evidente a necessidade de preservação do maior número de cavidades possível, pois o ideal de compensação não se aplica a estes ambientes únicos. Com o aumento de estudos na região, novos táxons vêm sendo registrados e as distribuições de alguns grupos ampliadas. Isto reforça a ideia de que não se pode determinar com clareza o número de coletas necessário para se acessar toda a riqueza de espécies em uma localidade (Dole-Olivier 2009).
É importante lembrar que, mesmo com um esforço amostral de seis ocasiões de coleta sistematizadas ao longo de três anos de estudo, não tivemos acesso à fauna como um todo. Deste modo, a elaboração de relatórios ambientais e planos de conservação baseados em reduzido número de amostragens é uma proposta extremamente inadequada. Não obstante, encontramos levantamentos em cavernas com apenas uma ou duas unidades amostrais, certamente insuficientes para uma boa estimativa da biodiversidade (Bernardi et al. 2011; Jordão 2003; Santana et al. 2010; Souza-Silva 2008, 2011). Um esforço de coleta intenso é necessário para estimativas acuradas de riquezade espécies na maioria dos ambientes e, quanto mais heterogeneidade este apresentar, maior esforço deve ser dispendido (Moreno & Halffter 2000; Thompson et al. 2003).
Podemos ressaltar a elevada dificuldade para um monitoramento eficaz de áreas naturais, mesmo aquelas inseridas em reservas legais. O fato de grande partedas nascentes dos rios que atravessam as cavernas do PETER estarem fora da área do parque, onde há criação extensiva de gado e plantio de monoculturas, acarreta o assoreamento e poluição dos mesmos, o que prejudica o habitat e aporte de material alóctone para as cavernas (Bichuette & Trajano 2010).Em fevereiro deste ano, ocorreu umasérie de desmoronamentos na região de São Domingos que, associados a chuvas intensas e uso mal planejado de terras,ocasionou a desestabilização de encostas e consequente assoreamento do rio São Vicente.Certamente, as atividades de agricultura intensiva, à montante do sistema, contribuíram para estetrágico episódio. Diante disso,
fica evidente a dificuldade em se preservar uma área natural, mesmo com a delimitação de parques e reservas legais.