Até o século XVIII, a medicina se organizava através de um sistema classificatório. Nessa medicina classificatória, havia uma relação entre vida e morte, na qual a morte era entendida como algum natural do nascer e do viver. A doença tinha uma essência, uma ordem, um curso e um fim natural (Foucault, 2006; Canguilhem, 2007). Nessa medicina classificatória, a doença era ordenada através da constituição de família, segundo o modelo botânico (Foucault, 2006). Ela era associada muitas vezes às estações do ano, à impureza do sangue e aos humores típicos de cada indivíduo, a exemplo da tradição hipocrático-galena (Roger, 1995; Gusdorf, 1967). Essas concepções permitiam a manutenção de formas medievais de intervenção, como o uso de sangrias, purgativos, clisteres, vomitórios, suadouros, etc. (Porter, 2006).
No período, a vida e o corpo eram pensados por diversas tradições: aristotélico- tomista, mecanicista, vitalista, etc. (Roger, 1995; Porter, 2006).36 As autópsias não eram incomuns desde o Renascimento, ainda que existissem limitações e proibições a essa prática. Entretanto, elas eram realizadas em virtude dos interesses filosóficos, teológicos e físicos acerca da vida e da morte (King e Meehan, 1973). Assim, já entre os séculos XVII e XVIII não havia mais “nenhuma escassez de cadáveres”, “nem sepulturas violadas ou missas negras anatômicas” (Foucault, 2006, p. 138). As dissecações se tornaram mais comuns, mas as técnicas e as perguntas feitas diante do corpo morto não levaram, até século XIX, à localização da doença em sua singularidade e espacialidade (King e Meehan, 1973, Foucault, 2006).
48 Para Michel Foucault (2006), o nascimento da medicina moderna, como anátomo-clínica, permitiu uma reorganização epistemológica da doença. Isso significa dizer também que o adoecimento deixou de ser algo do domínio de Deus, para passar a ser explicado cientificamente pela medicina. O Homem na modernidade, sob a égide da tradição iluminista, passou, então, a ser objeto do tribunal da razão, da crítica e da ciência moderna (Koselleck, 1999), assim como sua forma de existir, adoecer e morrer (Foucault, 2006; Canguilhem, 2007).
Na medicina moderna, a ideia de um corpo normal em oposição a um corpo doente inaugurou uma nova forma de produzir conhecimento e de entender a experiência da morte e da finitude. Tornou-se necessário individualizar e explicar a doença em suas singularidades, identificando-a no corpo. A dissecação dos cadáveres humanos e as pesquisas com animais nas diversas instituições e universidades da Europa permitiram ao médico observar anatomicamente as singularidades do corpo e da patologia.
Para Canguilhem (2007, p. 12), Morgangni (1682-1771) teria criado a anatomia patológica com o objetivo de associar “lesões de órgão” em grupo de sintomas estáveis, de modo que a “classificação nosográfica” encontrasse um substrato na “decomposição anatômica”. Para Foucault (2006), no entanto, a moderna anatomia patológica teria sido obra de Bichat, quarenta anos depois do tratado de Morgagni. Ao retomar Morgagni, Bichat teria em mente uma descrição objetiva, real e indubitável da doença. Para Bichat (apud Foucault, 2006, p. 142), “uma nosografia fundada na afecção dos órgãos será necessariamente invariável”.
Segundo Roberto Machado (2006), Morgagni almejava observar a superfície corporal e as espessuras dos órgãos, entendendo que as figuras variadas especificariam a doença. Já em Bichat, os volumes orgânicos deveriam ser reduzidos às grandes superfícies tissulares homogêneas, a regiões de identidade em que as modificações secundárias encontrassem seus parentescos fundamentais. Através de tal estratégia, Bichat transformou a anatomia patológica e constituiu a anátomo-clínica. O olhar lançado por Bichat sob a superfície do corpo teria sido a do ‘olho clínico’. Sua anatomia patológica se identificava com os princípios da análise que estava no fundamento da clínica.
Michel Foucault (2006), diferenciou a primeira experiência clínica entre os séculos XVII e XVIII – por ele denominada de protoclínica – da clínica da ciência moderna e da medicina positiva, no século XIX. Esta última teria, por um lado, a
49 anátomo-clínica e, por outro, a medicina das epidemias. O filósofo francês apresentou como argumento quatro características distintas entre a protoclínica e a clínica na medicina moderna.
Em primeiro lugar, a protoclínica era um estudo sucessivo e coletivo de casos ordenados na nosologia, restrita e sem especialização. Em segundo lugar, no hospital a doença não é indiferenciada, e sim, o portador. Na clínica do século XIX, o doente é apenas o portador da doença e, esta, é que deve ser diferenciada no corpo. Em terceiro lugar, a protoclínica estava fundada no método de decifração, enquanto a clínica do século XIX tinha como método o exame clínico. Em quarto lugar, a protoclínica estaria fundada no saber e na experiência magistral transpassada pelos mestres e professores aos alunos. Estes deveriam aprender a ver como os seus médicos lhe ensinavam, sem permitir a possibilidade de constituição de novos olhares. Essa pedagogia não focava a experimentação e a descoberta de novos objetos e conceitos, discursos e práticas (Foucault, 2006b).
Já no século XIX, a clínica buscava olhar e localizar no corpo a doença. A clínica foi responsável por tornar assim visível e enunciável aquilo que não se via até então. A clínica seria essa constante, minuciosa e profunda observação do corpo e no corpo, para identificar as singularidades patologia, nas vísceras e conformações anatômicas. Para que isso tenha sido possível, foi necessária uma reorganização do campo hospitalar, tornando-se medicalizado e higienizado (Foucault, 2006a).
Além disso, buscou-se instaurar uma determinada relação entre assistência e experiência, mas principalmente um novo estatuto sobre a doença, a morte e a finitude. Ao longo do século XIX, a saúde deixara de ser uma simples oposição à doença. Instaurou-se um processo de normatização do corpo e dos comportamentos em prol da promoção da saúde, no espaço coletivo e individual. A morte passou a ser alvo a ser evitado e, assim, não mais um evento natural da vida. A salvação se daria não mais no
post-mortem, mas sim em vida, através da cura (Foucault, 2006).
No período, a medicina ganhou um estatuto político através da medicina das epidemias. Com a incorporação do espaço público e privado como objeto de saber e regulação, a medicina constituiu o campo da saúde pública. A luta contras as doenças epidemiológicas eram travadas pela descoberta dos agentes patológicas, mas também pela higienização das cidades, dos pântamos, dos cemitérios e dos hospitais. A família, a mulher e a infância também se tornam temas do olhar médico, a partir do nascimento da
50 Até a revolução bacteriológica, a medicina epidemiológica do século XIX estava dividida entre algumas tendências teóricas e práticas: contagionismo, anticontagionismo e teorias miasmáticas. O anticontagionismo teve grande hegemonia na primeira metade do século XIX, em países como a França, Inglaterra, EUA e Alemanha. Os cientistas anticontagionistas lutavam contra o misticismo e as especulações, que consideravam medievais. A ausência de uma prova empírica para elucidar as teorias do contágio permitiu a difusão do anticontagionismo (Ackerknecht, 1948, p. 567).
Essa teoria médica ganhou um grande número de adeptos a partir do seu posicionamento contrário à prática das quarentenas e dos cordões sanitários. A quarenta era a medida central para impedir a proliferação das doenças segundo os contagionistas. Porém, ela foi vista como um entrave para o liberalismo, que ganhara força no século XIX, principalmente, na Inglaterra. A quarentena trazia prejuízos comerciais e industriais, ao impedir a circulação de mercadorias (Harrison, 2006). Foi qualificada como um aparato de controle da burocracia estatal, de redução da liberdade individual e comercial (Ackerknecht, 1948, p. 567).
Além do debate entre o contagionismo e anticontagionismo, a explicação das doenças também era dada por teorias miasmáticas. Alain Corbain (1987) voltou-se para as transformações efetuadas pelas teorias biomédicas no plano teórico-intelectual e nos espaços socais, em um contexto de particular preocupação com o ar. Desde o século XVIII, com os avanços da química pneumática que o ar passou estar em foco nas discussões médicas e no imaginário social. Com o pensamento “aerista”, passou-se a avaliar a ventilação nos ambientes. Operou-se a passagem da fixação do ar para a ideia da circulação do ar. Além disso, a inalação do ar fresco passou a ser discutida dentro e fora do campo médico. As construções civis e os diversos espaços da cidade foram qualificados como salubres ou insalubres de acordo com a circulação de ar. A clínica que outrora estava muito ligada à visão, à audição e ao tato, cedeu espaço para olfato e os estudos da putrefação (Corbain, 1987).
No decorrer do século XIX, surgiram novos paradigmas nas teorias biomédicas e mudanças na concepção das doenças. Foi um momento de grandes debates no campo médico e do surgimento de novas disciplinas e especialidades. O entendimento das doenças foi pluralizado, com descrição e constituição de entidades patológicas, assentadas na crença da universalidade das doenças. Esse foi o momento do reaparecimento da teoria do contágio animado, a partir da revolução bacteriológica, a qual foi responsável por uma ruptura epistemológica.
51 Para Cunningham (1992), a fase pré-laboratorial pode ser caracterizada pela ausência da sede da doença. Durante uma epidemia, como a da peste, por exemplo, poderia ser identificada por qualquer um, enquanto que na fase pós-laboratorial a identificação só poderia ser realizada por pessoas especializadas, que passariam a ter um olhar treinado para ver àquilo que outros não conseguiriam ver. Antes da identificação do bacilo da peste, a doença estava inserida em uma sintomatologia muito complexa e numa pluri-causalidade pensada hierarquicamente. Dentre as causas da peste, destacava- se a predisposição do paciente, sua constituição física, o clima, a época do ano, o estado do solo, o ar, a quantidade e a qualidade da nutrição, etc. (Cunningham, 1992).
A identificação do bacilo causador da peste produziu uma alteração nosográfica substantiva, com a constituição de uma nova entidade patológica que já não guardava mais qualquer ligação direta com concepção da peste pré-laboratorial. Nesse sentido, há uma incomensurabilidade37 entre as duas concepções que nos interdita a pensar que uma é igual a outra. O laboratório foi uma prática em que se redefiniram limites, bem como se produziram novas formas de pensar e de ver as doenças (Cunningham, 1992). Isto posto, pode-se afirmar que a prática laboratorial separou gerações médicas, caracterizadas por metodologias e olhares que se tornaram radicalmente diferentes na produção do saber sobre a doença.
O trabalho em laboratório produziu o questionamento acerca da validade de antigas teorias, ao mesmo tempo em que o entendimento de doenças foi deslocado do indivíduo e das regiões – pelas causas excitantes e causas predisponentes/hereditariedade ou pela constituição e classe social – para uma concepção ontológica e universal da doença (Worboys, 2000: 193 e 195).
Além da peste, outro exemplo bastante elucidativo dessa mudança é a tuberculose. Com Robert Koch (1843-1910), em 1882, a tuberculose ganhou uma nova identidade com a descoberta do Tubercle bacillus. Este resultado nos remete à medicina experimental e à concepção da tuberculose como doença comunicante. Para estabelecer uma terapêutica, Koch adotou em sua pesquisa a inoculação em animais.
Não obstante, muitos historiadores apontam que a descoberta do bacilo não resultou num total consenso. Mesmo com a aceitação do bacilo, existiram concepções
37 Para Thomas Kuhn as tentativas de se estabelecer uma conexão entre as tradições científicas pré e pós-
revolucionárias estão destinadas ao fracasso. É nesse sentido que Kuhn (1987, p. 148) afirma que a transformação de uma tradição cientifica normal acompanha uma reeducação da percepção “que o cientista tem de seu meio ambiente”. Depois de fazê-la, o novo mundo que se abre nas pesquisas tornar- se-á incomensurável em relação ao antigo. A incomensurabilidade é a marca indelével da descontinuidade na obra de Kuhn e é central para que possamos falar em uma revolução científica.
52 que buscaram alinhar a teoria bacteriológica à hereditariedade. Isso implica dizer que a descoberta do bacilo suscitou um importante debate sobre a sua presença no organismo do tuberculoso: afinal, ele era causa ou consequência da doença? Deste primeiro debate, decorriam outros sobre as formas de transmissão e as terapêuticas a serem adotadas. Tais embates indicariam as resistências à assimiliação da teoria bacteriológica em sua plenitude (Worboys, 2000).
Porém, Cunningham (1992) revela pontos de litígio entre os médicos acerca dos preceitos da teoria bacteriológica. Existiam médicos que não acreditavam na existência de entidades patógenas, não visíveis ao olho nu. Assim, os primeiros parasitos identificados não impediram que as desconfianças cessassem. Questionava-se se eram eles mesmos os agentes causadores ou se eles eram consequências da doença. Ainda que os microscópios fossem apresentados, muitos não possuíam as ferramentas intelectuais para observar e identificar patógenos, relacionando-os às doenças e à teoria do contágio animado. A revolução operada pelo laboratório revelou o resultado da luta de um grupo, dos defensores do laboratório sobre os outros, ou seja, da fisiologia experimental em relação à clínica no embate de poder no campo médico.
Para Cunningham (1992) a moderna medicina teve origem no crescimento da medicina hospitalar e da medicina laboratorial no século XIX. Em especial, o laboratório teve papel central nas experimentações que serviram de base para o estabelecimento da teoria dos germes de Robert Koch e Louis Pasteur (1822-1895). Além disso, o laboratório assumiu autoridade de prova, sendo a ele atribuída a função de confirmação dos diagnósticos médicos, isto é, ele passou a dar a palavra final acerca da presença ou ausência de um agente causal de uma determinada doença. Os testes realizados nos laboratórios contavam com um novo instrumento investigativo: o microscópio.38