2. Casebeskrivelse og resultater
2.1. Casebedriften
A International Cocoa Organization (ICCO), organização que congrega produtores e
consumidores mundiais de cacau, não monitora a produção e comercialização de cacau orgânico, mas apresenta oficialmente uma estimativa deste mercado: em 2005, a produção mundial anual foi de 15.5 mil toneladas de cacau em amêndoas e o total de exportações aproximou-se de 11.2 toneladas anuais (tabela 11) (ICCO, 2006).
A América do Sul abriga 14 dos 24 países produtores de cacau orgânico, sendo a origem de 70% da produção mundial. A instituição indica, contudo, que os valores devem ser utilizados
com cuidado em razão das limitações do processo de coleta de dados, em especial, dos relativos à comercialização: múltiplas fontes de consulta, como ONGs e órgãos certificadores, relutância de pequenos empreendedores em oferecerem dados comerciais, existência de poucos estudos sobre o setor (ICCO, 2006).
Tabela 11: Exportações de cacau orgânico por país
País Exportações
(tonelada)
Participação (%)
América Latina e Caribe 8.638 77,3%
República Dominicana 5.000 44,8% Peru 1.700 15,2% México 600 5,4% Bolívia 400 3,6% Panamá 350 3,1% Costa Rica 300 2,7% Brasil 50 0,4% Outros 238 2,1% África 1.770 15,8% Madasgacar 1.500 13,4% Outros 270 2,4% Ásia e Oceania 762 6,8% Vanuatu 500 4,5% Sri Lanka 200 1,8% Fiji 50 0,4% Outros 12 0,1% Total 11.170
Fonte: Elaboração do autor com base em dados de ICCO (2006b)
Merece destaque nesse cenário de escassez de informação, o estudo apresentado pela Export Promotion of Organic Products from Africa (EPOPA), programa criado pela Agência Sueca
para o Desenvolvimento Internacional, que realizou um mapeamento junto a 90% dos importadores europeus de cacau orgânico, apresentando uma estimativa de consumo, em 2003, de 14 mil toneladas de cacau em amêndoas, ou do equivalente processado. Foram consultados os mais relevantes importadores, como as empresas Rapunzel, Claro e Gepa, e
produtores de chocolate orgânico, como a Barry Callebaut e a Icam. As amêndoas eram
provenientes da Bolívia, Peru e República Dominicana, com destaque para Confederación Nacional de Cacaocultores Dominicanos (CONACADO), uma cooperativa de mais de 9 mil
No Brasil, há apenas quatro produtores de cacau em amêndoas orgânico, com certificação internacional e todos estão localizados na Bahia. Além da CABRUCA há a Cooperativa de Pequenos Produtores Agroecologistas do Sul da Bahia (COOPASB), também baseada em Ilhéus, a Cacau Badaró, localizada em Itacaré, e a Cooperativa Agrícola Mista do Projeto Onça, localizada em Taperoá.
A estimativa de produção nacional é de 1.110 toneladas (ICCO, 2006b). Contudo, esse número é considerado exagerado por Marc Nuscheler, baseando-se nos fatos de que a produção da CABRUCA é de 200 toneladas ao ano e de que ela é a maior exportadora do segmento.
4.3.4. Acesso do produto orgânico do empreendimento aos mercados de PDs
Em 2006, a CABRUCA exportou 12 toneladas de cacau em amêndoas para a França. Em 2005, foram 27 toneladas exportadas para França e Itália, enquanto que em 2004, foram 15 toneladas para Itália. A primeira exportação, de 15 toneladas, foi realizada em 2001, para os Estados Unidos.
Se comparada à estimativa de exportações mundiais de cacau orgânico da ICCO, a participação da CABRUCA é pouco representativa: em 2005, corresponde a 0.24% do mercado total. Se comparada à produção anual da cooperativa, o volume de exportações nunca chegou a representar mais que 27%. Há que se considerar, contudo, que a cooperativa também atinge indiretamente o mercado internacional através de vendas locais, com prêmios equivalentes aos praticados nas exportações, à Barry Callebaut102, a única das grandes
moageiras que atua no mercado de orgânicos.
Os clientes da CABRUCA no mercado internacional são produtores de chocolates especiais e de alta qualidade, como a francesa Valrhona – que apresenta a logomarca da CABRUCA na embalagem dos chocolates produzidos a partir de suas amêndoas – ou distribuidores, como a italiana Liberomondo.
4.3.5. Características demandadas pelos clientes diretos, nos mercados-alvo
- Qualidade: Para os clientes produtores de chocolates finos, a excelência do processo de fermentação e secagem das amêndoas é o requisito mais importante em relação aos fornecedores.
- Certificação orgânica: Os rótulos de certificação orgânica diferenciam a empresa, principalmente na visão dos clientes de PDs. A empresa Valrhona, por exemplo, procurava por um fornecedor que estivesse localizado na Reserva da Biosfera da Mata Atlântica103. Dentre as centenas de possíveis fornecedores, a CABRUCA chamou a atenção por conta da certificação orgânica e logo foi contatada pela empresa. A partir desse primeiro contato, pesa mais a qualidade do produto.
- Confiabilidade: Em relação a exportações de cacau em amêndoas, a CABRUCA sempre realizou contratos de curto prazo devido a pouca disponibilidade de matérias- primas. Produtores de chocolate fino atuam no mercado spot até que adquiram
confiança na qualidade do produto e só então partem para parceiras de mais longo prazo. Em relação aos clientes locais, como a Barry Callebaut, a CABRUCA fecha
acordos em relação a prêmios, que refletem a confiança dessas empresas na cooperativa.
- Preço: Totalmente vinculado ao preço do cacau convencional, definido na Bolsa de Nova Iorque. É sobre esse preço que se negociam os prêmios aplicados ao cacau orgânico.
- Prêmio: Com o preço do cacau convencional em US$ 1.500 por tonelada, os prêmios são em média de US$ 400. O pico de prêmio se deu nas exportações para França, em 2006: US$ 1.300, ou 87% do preço do cacau convencional.
4.3.6. Oportunidades e desafios percebidos pelo empreendedor
Acredita-se que há demanda reprimida por cacau orgânico, sobretudo no segmento de chocolates finos, que são os clientes que pagam os maiores prêmios em todo o mercado. Daí a o estabelecimento de meta de incremento da participação das exportações para o mercado de chocolateiros de alta qualidade na França, Itália, Suíça e EUA.
103As Reservas da biosfera são porções de ecossistemas nos quais se procura implementar o uso sustentável dos recursos naturais à conservação da biodiversidade. A idéia de criação dessas reservas surgiu na Conferência sobre a Biosfera, organizada pela UNESCO em 1968. São reconhecidas 507 Reservas, em 102 países. A Reserva da Biosfera da Mata Atlântica é a maior em área florestada do planeta, com cerca de 35 milhões de hectares, abrangendo áreas de 15 dos 17 estados brasileiros onde ocorre a Mata Atlântica (UNESCO, 2006).
Os desafios são em grande parte relacionados à gestão da cooperativa, que deve expandir as áreas certificadas nas fazendas dos cooperados. Essas áreas já são cultivadas de forma muito próxima do que é demandado para a conversão à agricultura orgânica, mas espera-se primeiramente que ocorra a consolidação da cooperativa como fornecedora de cacau orgânico de alta qualidade para então se fazer a conversão.
Entretanto, o fato de clientes locais como a Barry Callebaut e a Cargill104 pagarem prêmios
semelhantes aos médios praticados no mercado internacional acaba tornando os cooperados acomodados com essa solução comercial, o que resulta em menor dedicação à prospecção de novos clientes no segmento de chocolates finos.
Um outro segmento que se apresenta como cliente local, pagando prêmios equivalentes aos internacionais é o de cosméticos. Em razão da certificação ambiental da cooperativa e dos atributos socioambientais do seu arranjo produtivo, a Natura Cosméticos selecionou a CABRUCA como fornecedor de cacau em amêndoas para produção de manteiga de cacau, produto utilizado em cremes e maquiagens. O processamento do produto é realizado pela empresa Croda Brasil.
Por fim, não se entende que a produtividade dos cacaueiros cultivados em sistema cabruca seja um limitante à viabilidade do negócio e acredita-se que os prêmios não deverão se reduzir no curto prazo.
4.3.7. Análise Vertical
O caso da CABRUCA mostra-se bastante peculiar em razão (i) das características da cadeia produtiva em que a cooperativa atua, (ii) da especial atenção que se dá à qualidade do processo produtivo e do produto: cacau em amêndoas e (iii) do modelo que harmoniza produção de pequenos e médios produtores e conservação de biodiversidade.
Em relação ao primeiro aspecto, o fato de ser o processamento de cacau em amêndoas uma atividade desempenhada em larga escala e por grandes empresas transnacionais, deixa poucas alternativas aos produtores dessa matéria-prima. O sonho dos cooperados da CABRUCA,
104 A
Cargill não possui uma linha de produtos orgânicos, mas compra cacau da CABRUCA por conta da
bem como de outras associações de produtores da região é fazer de Ilhéus um pólo chocolateiro como o é a cidade de Gramado (RS). Contudo, unidades produtivas de menor escala como as utilizadas por processadores e chocolateiros finos em países como Holanda, Bélgica e Itália, são caras e não há acesso a crédito no Brasil para que uma cooperativa do porte da CABRUCA efetue essa operação.
Mesmo assim, deve-se notar que o pólo chocolateiro de Gramado não efetua o processamento de cacau e sim, compra os insumos (líquor, manteiga e cacau em pó) das moageiras localizadas em Ilhéus, e mesmo empresas de grande porte como a Nestlé abdicaram de realizar o processamento, em nível mundial, especializando-se na produção de chocolates. Além de tudo, para avançar na cadeia produtiva, a CABRUCA deveria adquirir novas competências e o entendimento dos cooperados é de que, neste momento, o foco deve estar na melhoria das práticas e dos conhecimentos relacionados à produção e comercialização de cacau em amêndoas. Isso faz com que a CABRUCA não tenham muitas alternativas além de se consolidar um exportador de cacau orgânico em amêndoas, num país processador que quase não as exporta in natura..
O segundo aspecto, relacionado ao esmero em fazer do cacau em amêndoas da cooperativa um produto premium indicado para o uso em chocolates finos é certamente o principal
atributo que garante o acesso do produto aos mercados de PEDs, com prêmios elevados. É também o motivo da procura das moageiras locais pela produto da CABRUCA, também incluindo o pagamento de prêmios.
Em relação ao terceiro aspecto, o modelo produtivo baseado em SAFs evidencia o papel conservacionista desempenhado pelos pequenos e médios produtores da CABRUCA e vincula a atividade da cooperativa de forma direta à preservação ambiental.
O modelo que associa SAFs, conservação e rótulos de certificação orgânica funciona como um elemento diferenciador no cenário internacional, como se comprovou no caso da empresa francesa Valrhona. Todavia, o rótulo orgânico não reflete totalmente a riqueza desse arranjo produtivo. O elemento conservacionista do sistema cabruca pode ser explorado futuramente através da obtenção de um rótulo de manejo florestal, tal qual o do FSC.