O curso de Bacharelado em Instrumento com habilitação em Guitarra/Violão é oferecido pela Universidade do Vale do Itajaí, UNIVALI, localizada na cidade de Itajaí/SC. Implantado no ano de 2010 tem como objetivo geral:
Formar o bacharel em música com condições para apropriação do pensamento reflexivo, da sensibilidade artística, da utilização de técnicas composicionais, do domínio dos conhecimentos relativos à manipulação de meios acústicos, eletroacústicos e de outros meios experimentais, e da sensibilidade estética através do conhecimento de estilos, repertórios, obras e outras criações musicais, revelando habilidades e aptidões indispensáveis à atuação profissional na sociedade, nas dimensões artísticas, culturais, sociais, científicas e tecnológicas, inerentes à área da Música. (UNIVALI, 2014, p. 24).
A UNIVALI possui em seu quadro de docentes um professor de guitarra elétrica que atua também como professor de violão no curso de bacharelado em instrumento e em disciplinas da licenciatura em música. O nome do professor é Paulo Demetri Gekas. A UNIVALI é a única instituição investigada nessa pesquisa que é mantida por uma fundação privada e que os alunos pagam mensalidade.
O acesso a essa graduação se dá a partir da realização de uma entrevista11, de uma prova teórica e de uma performance. O quadro de discentes ingressantes é muito heterogêneo. Segundo o professor:
Já entraram alunos aqui, por exemplo, que vem dessa escola do rock and roll, completamente informal, não tem nenhum contato nem com teoria e nem com leitura. Ou se tem é muito frágil, muito incipiente. Tem desde essas figuras até alunos que, por exemplo, frequentaram o conservatório
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Disponível em: http://www.univali.br/ensino/nucleo-das- licenciaturas/musica/musica-bacharelado-itajai/prova-de-habilidades-
especificas-em-musica/Paginas/default.aspx Acessado em 06/11/2014 às 22:31 horas.
de música aqui da cidade e que tiveram o contato com a literatura do jazz, da guitarra jazz, e que chegam muito bem embasados teoricamente, lendo, já com um bom repertório de standards. (PROFESSOR PAULO, Entrevista).
A carga horária total do curso é de 2.415 horas e é adotado o sistema de créditos (cada crédito com 15 horas semestrais). O curso tem duração mínima de três anos (6 semestres) para integralização e: "[...] não há previsão, por parte da instituição, de tempo máximo para a integralização da matriz curricular, em virtude da não existência do jubilamento" (UNIVALI, 2014, p. 12). Dentro dessa carga horária total, 195 horas são destinadas à atividades complementares que incluem ensino (monitoria), pesquisa, produção bibliográfica, extensão, produção cultural, eventos e trabalhos técnicos.
O Projeto Político Pedagógico dessa instituição apresenta quatro eixos temáticos principais: “[...] fundamentos da formação musical [...] fazer artístico [...] produção sonora [...] performance” (UNIVALI, 2014, p. 26 - 27). Segundo este documento, os dois primeiros eixos são comuns aos cursos de bacharelado e licenciatura, o que permite uma integração entre as diferentes modalidades. Esta integração entre licenciatura e bacharelado permite que o aluno tenha uma formação pedagógica formal desde que o discente opte pela realização dessas disciplinas. Sobre a possibilidade de formação para a atuação com o ensino de instrumento, Paulo recomenda aos alunos que:
[...] se sentirem que também irão trabalhar, ou vão trabalhar muito com aula, que façam disciplinas específicas para essa área na licenciatura, porque, como os cursos têm lá os currículos entrecruzados, comuns, com mais de repente um ano, quem faz a licenciatura, o bacharelado, ou vice e versa, pode completar. (PROFESSOR PAULO, Entrevista).
Nessa fala, o professor Paulo concorda que as disciplinas na área da educação podem contribuir para a formação do possível professor de guitarra elétrica. Além de incentivar os alunos a cursarem disciplinas na licenciatura, o professor descreve que:
[...] ao preparar as aulas, a gente cuidou de colocar no ementário, você vai ver lá, por exemplo: análise de métodos do instrumento. Isso é muito comum, ora em formatos de seminário, ora em formato de resenha, que o aluno entenda não só o conteúdo daquele método e aplique, mas que ele saiba como funciona o processo de transmissão daquela história. E eu acredito assim: a própria prática, o fazer deles aqui enriquece muito essas questões didáticas. (PROFESSOR PAULO, Entrevista).
Para o professor, a análise de métodos, textos focados nos processos de transmissão de conhecimentos e a própria prática, como aluno e professor, são elementos suficientes para a formação pedagógica dos alunos. De certa forma, nessa instituição, o papel do professor na seleção e mediação dos conteúdos específicos (análise de métodos; resenha e seminários de livros) apresentados aos alunos possibilita a preparação também do professor de instrumento. Essa mediação se torna perceptível quando o professor Paulo faz a preparação dos alunos para a docência do instrumento, mesmo que o bacharelado em instrumento não tenha como foco principal a formação de professores.
O foco no ensino do instrumento está nas disciplinas de Instrumento Principal (três créditos com 45 horas cada) e Grupos Musicais (quatro créditos com 60 horas cada), sendo que ambas disciplinas duram os seis semestres do curso. Uma das ementas de guitarra/violão descreve: “prática musical, performance e improvisação em grupo, leitura musical em grupo e montagem de repertório representativo de diferentes gêneros, estilos e épocas. Técnicas de ensaio.” (UNIVALI, 2014, p. 80). A sala disponibilizada pela instituição para as aulas de guitarra tem três amplificadores, sistema para escuta musical, uma guitarra e um violão disponíveis para o uso dos alunos. Paulo ainda dispõe de microfone, placa de áudio e filmadora para a gravação (áudio e vídeo) das suas aulas.
Além das aulas de instrumento, a grade curricular tem uma grande parte de sua carga horária voltada para prática de conjunto, percepção (rítmica e melódica), harmonia, canto coral e práticas relacionadas a trabalhos em estúdio.
O trabalho de conclusão (TCC) dessa graduação prevê o desenvolvimento de uma monografia ou artigo acadêmico e a
preparação de um recital. Segundo o Projeto Político Pedagógico dessa instituição, o aluno egresso terá um perfil onde:
Evidenciará a formação nas dimensões artísticas, culturais, sociais, científicas e tecnológicas, em condições de atuação em espaços culturais, grupos musicais, carreira solo, estúdios de gravação e outros, pautado em princípios éticos para atuar com responsabilidade social. (UNIVALI, 2014, p. 25).
Na visão do professor Paulo, o perfil de egresso é um profissional bastante versátil, onde:
[...] apesar de você ter aí a atenção voltada para o instrumento, guitarra, violão, saxofone, etc., nós tivemos essa preocupação de montar o currículo com eixos que preveem, por exemplo, o domínio bem profundo em equipamentos musicais, tecnologia [...] eu vi aqui alguns alunos saírem, claro, tocando seu instrumento, aptos a trabalharem na performance: concertos, bandas e etc., bem preparados para isso, mas também muito atentos a essa questão da tecnologia, vão viajar em outras áreas, já prontos para montar seu home estúdio, ou já com seu home estúdio montado, produzindo, já gravando outras pessoas, então, eu acho que até certo ponto, na medida do possível, o curso está conseguindo realizar esse objetivo maior do currículo que é esse egresso versátil, que pode ser performer, é óbvio, que o curso tem como objetivo, mas pode também atuar em outras áreas como: tecnologia de gravação, arranjo e até mesmo aí, isso é inevitável, como professores. A grande maioria deles já atua como professores. (PROFESSOR PAULO, Entrevista).
Essa fala indica que o professor tenta seguir ao máximo os objetivos e os planejamentos realizados pelo curso para que o aluno egresso conquiste os conhecimentos previstos pela UNIVALI, assim como identifica que grande parte de seus alunos já atua com o ensino de
instrumentos em diversos contextos (escolas alternativas; aulas particulares; aulas on-line).
Ao falar do mercado de trabalho para o profissional oriundo dessa graduação, o professor Paulo vê um mercado bom para um profissional versátil, mas frágil se pensarmos somente no campo do instrumentista. Ao falar dos alunos, o professor comenta que:
Se ele [o aluno] abrir um pouquinho o leque das ferramentas que ele desenvolveu aqui, ele tem muito trabalho em termos de escolas, eu acho que é algo em expansão, escolas privadas e até mesmo aulas privadas. Tem alunos meus que dão aulas até pela internet já, então isso é um mercado em expansão, em plena expansão. Essas questões de produção de áudio, trilhas sonoras, gravações em estúdio, salas de ensaio. Isso tudo é um mercado também em expansão. Produção musical, eu acredito que é um mercado bem interessante. O mais frágil ainda acho que é o nicho de performance de alguns gêneros [...]. (PROFESSOR PAULO, Entrevista).
O professor quer dizer que existe um mercado de trabalho amplo se o aluno optar por trabalhar com diversos gêneros como o rock and roll, pagode e samba, além do que, diversos outros campos relacionados a festas privadas, casamentos, dentre outros. Autores como Travassos (1999) e Requião (2002) discutem a ampliação do mercado de trabalho para o músico, relacionando esse crescimento à versatilidade oferecida por esses profissionais. Para essas autoras, as possibilidades de atuação estão fortemente ligadas aos contextos de trabalho (professor; instrumentista; técnico de estúdio; dentre outros) e ao repertório. O professor Paulo, ao objetivar a versatilidade do aluno egresso, identifica um mercado de trabalho amplo para a atuação em diferentes contextos, fazendo assim uma preparação do discente para diversos campos profissionais.
Com relação à autonomia dos alunos na escolha de determinado repertório, fica evidente, nas aulas observadas, que o professor é aberto para essa prática. Os alunos apresentaram distintos gêneros musicais ao professor, que se dedica, na medida do possível, a auxiliar a execução do aluno. O professor Paulo comenta que o aluno: “[...] no começo vai poder escolher 20% do repertório, na metade 50% e no último semestre
100%” (PROFESSOR PAULO, Entrevista). Embora o aluno possa escolher boa parte do repertório, o professor comenta que tem uma estratégia de ensino bem definida e baseada em determinados repertórios. Segundo ele:
[...] do blues eu vou para o jazz na sequência, do choro eu vou para o samba, eu vou para derivações desse samba, bossa nova. E durante e depois disso, após essas primeiras etapas aí, eles estão tocando o repertório, muitas coisas que eles trouxeram a gente vai aperfeiçoando em termos de
rock and roll, de outros gêneros e tal, que eu
também me sinta confortável para orientar. De repente está tocando alguma coisa que eu não domino, ou que tenho pouco domínio, aí eu digo que não é possível. Eu não vou, até posso liberar em algum momento para ele fazer alguma atividade do tipo, mas não é algo que realmente eu vou poder colaborar. (PROFESSOR PAULO, Entrevista).
Tardif (2014) traz a discussão sobre a flexibilidade dos professores, onde os mesmos, a partir de um determinado tempo de profissão: “[...] aprendem a conhecer e a aceitar os seus próprios limites” (TARDIF, 2014, p. 88). Ao perceber que não poderá contribuir em determinado conteúdo, o professor Paulo alerta os alunos sobre as suas limitações, deixando, em momentos específicos das aulas, um tempo reservado para que o aluno apresente suas dúvidas com o objetivo de ter contribuições advindas do professor.
Em síntese, a UNIVALI, a partir do curso de Bacharelado em Instrumento tem como foco principal a formação do instrumentista. No entanto, a existência de grande parte da carga horária, voltada para disciplinas com o enfoque no trabalho em estúdio musical, amplia o leque referente ao mercado de trabalho para o aluno egresso. Outro ponto observado é a possibilidade de integração com o curso de licenciatura em música, permitindo que os alunos optem por disciplinas voltadas à educação. Além disso, o professor Paulo apresentou uma preocupação na formação dos alunos para atuarem com o ensino de instrumento. A construção dos conteúdos a serem desenvolvidos em aula e o direcionamento dos alunos para a realização de disciplinas na
licenciatura em música são algumas atitudes do professor para suprir esse aspecto da formação pedagógica.
4.3 LICENCIATURA EM MÚSICA, ÁREA DE PRÁTICAS