Em 2010, Cunha afirmou que não sabemos quem serão os nossos usuários e quais serão as suas necessidades reais. Para refletir sobre o futuro é fundamental conhecer a realidade atual. A universidade é composta pela comunidade acadêmica68, que “compreende os docentes, discentes e funcionários técnico- administrativos da IES” (BRASIL, 2014b). Mais detalhada por Santos e Costa (2013, p. 2), comunidade acadêmica é entendida como aquela
[...] constituída por diferentes setores e sujeitos institucionais, com funções e atribuições diferenciadas, que conferem especificidades no ensino (da graduação e da pós-graduação), na pesquisa e na extensão. São funções e atribuições interdependentes e complementares e que contam com o apoio logístico de toda a infraestrutura institucional para a qualificada efetivação na formação de diferentes profissionais e a sua consequente inserção no mercado de trabalho.
Corroborando esta ideia tem-se o pensamento de Lancaster (2004, p. 18), que reflete a inserção destes diferentes atores nas bibliotecas universitárias:
Não faz muito sentido, em tal ambiente, considerar todos os usuários da mesma forma, já que professores, alunos de doutorado e outros que estejam envolvidos em pesquisas provavelmente terão necessidade de um nível de apoio [...] uma ordem de magnitude maior do que [aquele exigido por outros segmentos].
Além das funções e atribuições diferenciadas exercidas pelos sujeitos institucionais dos três segmentos acima apontados, as observações e constatações do cotidiano acadêmico em bibliotecas, durante a trajetória profissional desta pesquisadora permitem refletir a respeito dos diversos perfis de usuários que impactam diretamente no planejamento e na gestão das bibliotecas universitárias públicas brasileiras. No segmento discente incluem-se alunos da educação básica, da educação profissional, científica e tecnológica, de graduação, pós-graduação –
68 Para padronização optou-se por adotar nesta dissertação a terminologia “comunidade
lato e stricto sensu –, pós doutores, incluindo os egressos de todos estes grupos
citados. O grupo “servidores” compreende os segmentos: docentes (efetivos, substitutos, convidados, visitantes, aposentados) e técnicos administrativos (ativos, licenciados ou aposentados). Os sujeitos dos três segmentos são atores do processo nas modalidades presencial e a distância, este último “caminhando para usos mais intensos”69 (CUNHA, 2010). No segmento discente, parte dos estudantes são identificados os sujeitos de baixa condição socioeconômica que necessitam de assistência estudantil para garantir sua permanência na educação superior70. E, independentemente do segmento em que estejam inseridas, é fundamental considerar as pessoas com deficiência, assegurando-lhes as condições de acessibilidade71 e os grupos historicamente desfavorecidos72, por meio da inclusão social. Soma-se a este panorama a ampliação dos programas de incentivo à mobilidade estudantil (nacional e internacional)73, que faz com que a universidade cada vez mais receba pessoas (discentes e docentes) de outras universidades brasileiras, bem como de outros países. Além das atividades de ensino e pesquisa, a universidade, como bem público, deve cumprir sua função por meios das atividades de extensão, caracterizada por um conjunto de ações dirigidas à sociedade e, neste sentido, cabe à biblioteca universitária atender também à comunidade em geral74.
Como pano de fundo deste cenário, Cunha destaca a evolução das tecnologias, a forma colaborativa de se criar conhecimento, a expansão do EaD e conclui afirmando que “portanto, análises prospectivas sobre a universidade, a pesquisa, o ensino e os usuários são condições essenciais para a redução das incertezas quanto ao futuro da biblioteca universitária” (CUNHA, 2010).
69 Estratégia 12.52 do PNE (BRASIL, 2014a). As novas formas de ensino-aprendizagem com a
expansão do EaD (aulas virtuais, materiais didáticos disponíveis nos repositórios institucionais, TIC disponíveis em dispositivos móveis) conduzem às novas formas de mediação da informação realizada a partir de necessidades/demandas, competências e comportamentos informacionais (redes sociais) dos usuários.
70 Estratégia 12.5 do PNE (BRASIL, 2014a). 71 Estratégia 12.10 do PNE (BRASIL, 2014a). 72 Estratégia 12.5 do PNE (BRASIL, 2014a). 73 Estratégia 12.12 do PNE (BRASIL, 2014a).
74 Em agosto de 2009 foi publicado o Decreto nº 6.932, de 11 de agosto de 2009 que dispõe sobre a
simplificação do atendimento público, pelos órgão e entidades do Poder Executivo Federal, prestado ao cidadão e institui a Carta de Serviços ao Cidadão, com o objetivo de informar os serviços prestados pelo órgão, das formas de acesso a esses serviços e dos respectivos compromissos e padrões de qualidade de atendimento ao público.
Com o objetivo de acompanhar as mudanças advindas pelo uso das TIC e, consequentemente, do perfil da maioria dos usuários das bibliotecas universitárias – público jovem, conectado à internet 24 horas por dia –, conhecidos como “nativos digitais”75 – descritos por Cunha, em 2000, como “hábeis navegadores da internet”; os gestores têm percebido a necessidade de adaptar seus produtos e serviços, propondo novas atividades. [...] “Os usuários, cada vez mais, querem respostas quase que instantâneas” (CUNHA, 2010). [...] “Para a biblioteca, torna-se cada vez mais difícil prover acesso à totalidade da informação demandada por seus usuários” e, para recuperar suas funções básicas será fundamental que os gestores compreendam que “mais e mais usuários estão resolvendo suas demandas informacionais por meio do ciberespaço” (CUNHA, 2010).
No entanto, mesmo recorrendo primeiramente às fontes digitais e à web, antes de procurarem nas fontes primárias (PRENSKY, 2001), Cunha (2010) afirma que “quando os usuários querem informações confiáveis, eles se voltavam para a biblioteca universitária quase como a única fonte provedora das informações demandadas”. Em janeiro de 2015, o jornal O Globo publicou o resultado de uma pesquisa realizada com 300 estudantes universitários nos EUA, Japão, Eslováquia e Alemanha, cujos resultados afirmam que 92% dos alunos se concentram mais no texto impresso, ou seja, a maioria prefere os livros físicos aos e-books (O GLOBO, 2015).
“De qualquer forma, uma coisa é certa: a futura biblioteca coexistirá em um ambiente no qual os usuários estarão conectados a uma ampla variedade de recursos informacionais que muitas das bibliotecas não poderão prover” (CUNHA, 2010). Neste sentido, além de se preocupar com as necessidades/demandas deste público conectado 24 horas por dia, 7 dias da semana, é importante refletir sobre a ações que a biblioteca universitária pode oferecer para os excluídos digitais76.
75 São jovens que estão acostumados a obter informações de maneira rápida (PRENSKY, 2001) e que
“cresceram acompanhando de perto a expansão da internet” (GOMES, 2013). De acordo com o ONU, “o Brasil possui a 4ª maior população de nativos digitais do mundo” (GOMES, 2013). Dados do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (CETIC), TIC Domicílios e Usuários 2013, divulgada em 26 de junho de 2014, mostram que com 85,9 milhões de usuários com acesso à internet, a maioria deles, 77%, utiliza redes sociais, como o Facebook ou o Google +, como a principal atividade na internet. Disponível em: http://cetic.br/usuarios/tic/2013/C5.html.
76 Não se refere apenas àquele que não tem um computador ligado à rede, mas sim àquele que não
possui habilidades específicas para usar as TIC de forma efetiva. Cf.
Retomando ao instrumento de Lubisco (2011) quanto ao indicador Usuários, incluído no grupo Contexto acadêmico, identifica-se um único critério que atribui nota máxima para a biblioteca que possui um sistema de gerenciamento de suas funções, integrado interna e externamente (sistemas corporativos – acadêmico e de pessoal), que permita controlar a comunidade universitária (LUBISCO, 2011, p. 46).