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In document NSB`s rutenett i Norge (sider 107-111)

As várias tendências sobre a família coexistem e se alimentam reciprocamente através de diálogos ora amistosos, ora antagônicos, posicionando os pesquisadores em debates que confrontam teoria/ empiria, análises econômicas/análises culturais, estudos diacrônicos/ estudos sincrônicos e abordagens "quantitativas"/ abordagens "qualitativas". Estes debates polêmicos, longe de levarem a uma 'auto- destruição' do campo, têm proporcionado um crescimento ainda maior de todas as áreas envolvidas, ao rejeitarem modelos simplistas de análise (TERUYA, 2000, p 01).

A instituição familiar é algo que tem sido inquirida a partir de variados enfoques que possibilitam perceber que se trata de um campo em constante crescimento e debate devido ao seu posicionamento central nas tessituras sociais. Neste sentido, é perceptível a sobremaneira como este tema é tocante às sensibilidades individuais e coletivas. “A família é a base, quem seriamos sem ela? Família é tudo que o ser humano tem nas horas que mais precisa. É na família que se institui o amor, a educação, a boa civilidade e principalmente os bons homens da nação” (A Imprensa, 16 de junho de 1935).

Neste sentido, a partir da compreensão da importância da família para o núcleo noelista, pergunto: Será que a instituição familiar atinge esta proporção na vida dos indivíduos? Segundo Ariés no seu livro A história social da criança e da família (2006, p. 48) as construções culturais em torno da família foram resultados das modificações históricas, ou seja, a partir de transformações no seio da sociedade. A noção de criança, família, amor e outros adjetivos que cercam a instituição familiar alteraram-se de acordo com os contextos e adaptaram-se as novas realidades.

Estas transformações ocorreram devido às alterações na sociedade, pois, a vivência e as práticas sancionadas como pertencentes ao público e ou ao privado foram mescladas. Assim, como o lugar de pertencimento social do homem, da mulher e da criança também transitaram para responder ao tempo e as novas inquietações. Neste sentido, é perceptível que os esquemas de distribuição e organização familiar foram alterados de acordo com as mudanças que a sociedade passou.

Logo, ficou de suma importância destacar que estou fazendo uma discussão sobre uma instituição que está em constante transformação, portanto qualquer conceito utilizado acerca do tema “família” deve ser constantemente analisado e questionado. É válido ressaltar também que a família nesta pesquisa também passou por alterações em curto prazo (1931- 1945) e que estas vivenciaram a transformação em estado de medo, mas também de euforia:

(...) temos mulheres hoje que tem trabalho fora de casa que não é associado a vida da catequese, como também não é a educação. Vivemos novos tempos, hoje temos mulheres que estão deixando de cuidar dos seus filhos para agenciar tarefas em comércios e negócios. Minha pergunta é: Até que ponto isto é saudável para a criação dos nossos filhos? Que exemplo eles estão recebendo se a mãe não esta em casa ou trazendo eles para a Igreja? Como estamos cuidando dos nossos casamentos. Devemos ter sempre em mente que nosso objetivo é guardar nossa família e filhos do mal, mas se estamos ocupadas como o faremos? Como os nossos maridos vão se sentir quando perceberem que estamos tomando o lugar dele na tarefa de trazer o “pão” para casa (A Imprensa, 16 de dezembro de 1938).

Hoje nos é permitido o que antes foi tirado, hoje somos mulheres atentas e temos funções que antes não nos cabia. Mulheres a ti é dado o direito do trabalho, o direito do casamento, o direito da maternidade, o direito de viver uma vida muito próxima de uma igualdade e não da subjugação, por isto valorize o teu lugar de mulher, valoriza-te, respeita-te e mostra para todos que a mulher hoje pode fazer muitas funções, mas que exerce todas com mão de ferro e exemplo de moralidade (...). (A Imprensa, 02 de março de 1939, p. 09).

Portanto, ao pensar o conceito de família é de suma importância compreender que abrange vários tipos de famílias, percebendo isso esclareço que este trabalho inquiriu sobre um tipo específico, que é o modelo da família cristã noelista que buscou dar significado prático e teológico a respeito do discurso cristão sobre a Sagrada Família para “reviver” as mesmas características e modelos, dado que de acordo com Saraiva (1950, p.117) viver o noelismo é compreende-lo a partir de sua mítica que é a família e o mistério da encarnação.

A família noelista foi formada a partir de um modelo específico de conduta e normas que deveriam ser seguidas por todas, tendo em vista as regras e postulados que deveriam orientar e construir um „tipo de ideal‟ familiar baseado no exemplo máximo que é a Sagrada Família. Neste sentido, utilizo o conceito de tipo ideal de Weber (1974, p. 345) para esclarecer que as mulheres noelistas buscavam vivenciar o modelo de entidade divina que é

Maria, um exemplo vivido no „tempo bíblico‟, isto é, não existe comprovação real da pureza e das ações de Maria.

Desta forma me apoio no conceito de Weberiano para esclarecer que o “tipo ideal” é algo inexistente, portanto é um modelo que serve como referência e/ou parâmetro para

compreender as tipologias verdadeiramente existentes. Neste sentido, através da ideia de “tipo ideal” é possível entender as singularidades do modelo proposto pelas noelistas e diferencia- las das demais. Por conseguinte, o “tipo ideal” é importante para buscar orientações uteis que permitam ver as várias tipologias existentes e analisar as problemáticas através de um exemplo gerador. Este modelo ideal é um exemplo catalizador que serve como princípio norteador para compreender as singularidades do pensamento de um grupo ou pessoa. Logo, ao fazer o uso das noelistas como uma “família ideal” compreendo-as dentro de um contexto de busca constante por um modelo inexistente ou irreal, mas que motivou-as a acreditar na existência devido o mito fundante do grupo e a espiritualidade que as cerca.

É válido ressaltar também que as noelistas acreditam no tempo como uma construção histórica-teológica, de modo que acreditavam que elas viviam em um tempo transitório e que acabaria com o juízo final, e que todas as suas ações seriam „analisadas‟ para permitirem sua passagem para o divino.

(...) estamos vivendo o tempo da graça, Deus permitiu a humanidade estar aqui para se redimir de seus pecados, pois só os escolhidos estarão em seu reino, aqueles que não tem uma vida dedicada a Deus, aqueles que não comungam do princípios de Cristo não farão parte dos eleitos. Por isto vos digo, levemos uma vida regrada e temente, copiemos o exemplo da Sagrada Família para que quando cheguemos diante do Senhor nossa alma seja aceita e nosso destino a glória divina, afinal aquele que se embebeda da palavra divina na terra, terá garantido o reino do céu (...), por isto vós digo, não levais uma vida profana em desacordo com mandamentos, protegei os teus para que estes não caia em tentação, cuidai do teu corpo e do espírito para que ambos comunguem da fé divina. (...) (A Imprensa, 13 de maio de 1934, p. 07).

Ao pensar o tempo como histórico-teológico as noelistas compreendiam que ele tem um “fim” a ser atingido, de forma que enquanto este tempo final não era alcançado, elas estariam vivendo o “tempo de Deus” e que este tempo era uma nova oportunidade dada à humanidade para se redimir dos pecados, por isto a necessidade de viver em comunhão de Deus e seguir o exemplo da Sagrada Família. “Não ofenda teu corpo, com as luxurias cada carne, guardo-o, desvela-o somente diante do altar do amor, diante da força divina que a união entre o homem e a mulher para a criação” (Ata de reunião. 23 de novembro de 1931. Livro I, s/p). Logo, é de suma importância compreender que as atividades do Noel estavam diretamente vinculadas a sua própria formação mitológica e teológica, dado que o pensamento das Noelista mais uma vez é compreendido a partir do Mistério da Encarnação que é nascimento de Cristo, pois elas acreditavam estar vivendo o “tempo de Deus” que era o tempo

em que se esperava a volta do Divino para levar os escolhidos e neste tempo de espera “não poderia acontecer mais nada de novo, pois o mundo se encontrava sob a perspectiva do Juízo Final” (KOSELLECK, 2006, p.128), logo, o milagre da vida já tinha vindo a terra e dado exemplo maior que era o Menino Jesus e sua família.

Portanto, todas as ações deveriam ser guiadas a partir deste modelo; a doação, a caridade, a subserviência, o amor, o perdão, são características que prevaleceram nas ações das noelistas, uma vez que elas se basearam neles para compreender o que era de melhor e mais bonito nos ensinamentos de Cristo.

Todos os dias nos são postos inúmeras situações que devemos ser fortes como Maria e Jose, para sabermos aceitar os desígnios divinos e compreende-los como obra do senhor em nossa vida. O menino Jesus passou por inúmeras provações no calvário e não desistiu da humanidade, por isto é importante que estejamos atentas para vivenciar os problemas e releva-los com paciência e sabedoria. (A Imprensa, 30 de setembro de 1934, p. 08). As famílias pertencentes ao noelismo na Paraíba podiam ser compreendidas como família nuclear – pai, mãe e filhos –, porém ainda apresentavam determinadas características de “subalternidade” ao poderio dos avós como fio condutor para a adequação e organização social. A educação social da família noelista era baseada na figura da mãe que deve ser a imagem da mulher pura e delicada, a representação da postura de Maria diante de José (seu esposo) e de Jesus, ou seja, a representação da subserviência.

Nós mulheres temos como exemplo máximo Santa Maria. A mãe das mães nos mostra cotidianamente através dos seus olhos misericordiosos tudo o que devemos ter para ser uma boa mãe, mulher e esposa. A boa mulher esta sempre ao lado do seu marido lhe afagando nos momentos de problemas, lhe acalmando quando a paz não se faz, lhe cedendo quando este se toma nervoso. A boa mãe tem o olhar terno e sério de Maria, para mostrar aos filhos seu lugar de aprendiz, para mostrar o lugar de boa menina e bom menino que ele deve ocupar e entender que através dos pais e da família que ele encontra o caminho para o melhor, o caminho para Deus. (A Imprensa, 1939, s/p).

Neste sentido o século XX é o tempo das transformações e mudanças em relação a esta estrutura social, uma vez que nesse tempo ocorreu um rompimento gradual com o discurso de naturalização do lugar feminino em detrimento do masculino com o advento da modernidade e os trabalhos oriundos deste processo. As novas formas de vivência, através das propagandas e a profissionalização feminina, anunciavam um novo modelo familiar que não era baseado apenas na estrutura patriarcal.

Porém, mesmo as noelistas sendo mulheres letradas e formadas como Eudésia Vieira, que foi professora e a primeira médica na Paraíba, incidia um estigma na cultura noelista de valorização e afirmação da masculinidade como lugar central na orientação da família. Neste sentido para a família cristã, apesar desse contínuo rompimento, o lugar central da família é destinado para os homens e sua força de trabalho enquanto que para as mulheres deveria existir a contínua subserviência ao poder masculino, pois é dentro da família que ocorre a inculcação de ideias de acordo com os princípios cristão, que, por conseguinte é baseado na superioridade masculina que tem sua vida destinada ao ambiente público e a submissão da mulher ao doméstico (privado).

Neste sentido, as mulheres que seguiam uma orientação diferente das inferidas pelas noelistas eram chamadas de sufragistas81. Estas eram concebidas como o oposto idealizado para as mulheres, haja vista que lutavam e buscavam por direitos iguais. Em contramão as noelistas afirmavam

Menina moça não te anima com esses modelos pregados por mulheres de cabeças desmioladas. Estas mulheres não sabem o que procuram, estão jogando o próprio nome no chão. Uma boa mulher é letrada e culta para orientar seus filhos contra os males que o cercam. (...) Para a mulher foi destinado o ambiente doméstico e as funções de boa mãe e boa esposa. Se queres realizar trabalhos que edifiquem a alma, procure estudar para ser normalista, procure se orientar nos trabalho da caridade, da fé e garanto que serás bem presenteada um noivinho lindo para abençoar e guardar o jardim lindo que plantarás com ele. (A Imprensa, 1935, p. 08).

Dessa forma, durante as décadas analisadas neste trabalho é possível ver vários desdobramentos e estranhamentos entre a mulher cristã conservadora e a sufragista. A sufragista, segundo Costa (2007, p. 67), corrompe a ordem natural da vida da mulher, uma vez que esta vive em busca de novos horizontes que não estão no casamento e na maternidade. Neste sentido, as noelistas procuram subverter e trazer essas mulheres para o entendimento cristão, entendimento que as levariam a uma união familiar em que existia a dominação masculina como sinal divino da relação com Deus.

Teu maridinho rosa-flor é presente de Deus, pois o que seria de uma mulher neste mundo sozinha? Com seu príncipe uma mulher tem sua vida resguardada, têm em seu jardim os mais lindos botões que desabrocharão com os cuidados de você. Rosa-flor cuida do teu príncipe, ama-o, pois ele é a bênçãos do céu em tua vida. (...) Uma mulher deve agradecer todos os dias pelas escolhas do pai em protege-la sob os cuidados do marido, pois ele é quem vai fazer dela uma mulher de luz (...) Cuida do teu coração e do teu corpo de acordo com os ensinamentos do teu pai, ele jamais vai lhe reservar

um príncipe ruim, ele sempre vai te guardar (...) (A Imprensa, 12 de maio de 1934, p. 09) (grifo meu).

Logo, pensar esta família noelista é algo que parte da perspectiva de pensar as subjetividades destas mulheres; mulheres que foram incutidas com valores que perpassam o social, religioso e cultural. Neste sentido, apesar de ser um lugar “naturalizado” pelos discursos intelectuais ou leigos, pesquisar a família não é algo simples, pois envolve discussões que perpassam o lugar de pertencimento de cada indivíduo (CERTEAU, 2003, p. 34). As mulheres noelistas em todos os seus discursos defendem o casamento e a família como algo ideal para toda a mulher, como algo necessário para a manutenção e ordenação necessária da sociedade, por conseguinte compreende-se que estas mulheres tiveram uma formação rígida, baseada em valores do patriarcalismo e que levaram ao longo de sua vida mesmo diante dos modelos de família terem se adaptado.

O conceito de “Família” pode ser compreendido a partir de vários pressupostos e interferem decisivamente na formação de cada sujeito, visto que “sem a família não seriamos nada, sem a família só existe sujeitos errantes, sem fio condutor, sem raiz. Na família encontramos a vida e o amor” (A Imprensa, 12 de novembro de 1936). Portanto, é relevante compreender a constituição e os discursos que formaram essa família ao longo dos anos, pois foi a união dos variados modelos que formaram a família noelista.

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