A origem do sufismo costuma ser atribuída à palavra suf, que designava a vestimenta dos primeiros místicos dessa tradição religiosa, em média dois séculos após a morte de Maomé: uma roupa de lã branca em sinal de humildade. No entanto, não é essa a única explicação atribuída ao sufismo, uma vez que os preceitos dessa corrente advêm do esoterismo e, portanto, cabe à própria instituição sufista manter o enigma que a circunda.
Existem ainda outras explicações – outras significações – dadas pelos sufistas sobre essa origem etimológica74: observa-se a assimilação do termo ao fato de que os sufistas foram assim chamados por ocuparem a primeira fila perante Deus (saff), ou pela afirmação de que eles vivem como os primeiros Discípulos do Profeta (Ahl al-suffa), ou ainda, devido à pureza interior (safa) e, por fim, em virtude da possibilidade de representarem a elite (safwa).
Segundo Kieloe (s/d), os sufistas adjetivam sua condição de adeptos como peregrinos, estrangeiros, famintos, como indivíduos de coração iluminado, ou ainda, caracterizam-se pela renúncia aos bens materiais e aos desejos. Essa última significação de sufista corresponde àquela referente aos dervixes75.
73 Devemos ressaltar que essa polêmica existente entre sunitas e xiitas é tomada como uma alteridade no capítulo
de análises e, portanto, visualizamos somente pontualidades dessa contenda entre sunitas e xiitas. Assim, deixamos para uma outra reflexão questões mais complexas do Islã referentes a esses grupos, uma vez que esse estudo visa a enfatizar a relação dos sufistas com o islamismo, sendo a polêmica entre os grupos supracitados um recorte complexo para o momento.
74 Essa questão da etimologia da palavra sufismo aparece como enriquecimento sobre as variadas explicações
muçulmanas acerca dessa corrente. Entretanto, não é nosso intuito aprofundar em tal estudo etimológico.
75 A expressão devirxes rodopiantes deve-se ao fato de a nomeação encontrar-se ligada à cerimônia religiosa
sufista em que os membros dançam efetuando circunvoluções. Esse movimento de rotação é considerado no sufismo como uma maneira de orar (zikr, em árabe traz a significação de lembrar) a Deus. Assim, o ritual dos devirxes rodopiantes é uma forma de lembrar a Deus por meio do giro, já que tudo no universo estabelece essa movimentação, procurando a sintonia com a criação divina.
Os dervixes realizam sua purificação e encontro com a unicidade divina por meio da dança. Na dança cósmica dos dervixes rodopiantes, os participantes envolvidos efetuam três voltas na pista – simbolizando a progressiva integração entre Deus e o homem pelo conhecimento, visão, união, podendo também simbolizar os laços existentes entre as revelações corânicas e o sufismo –, envolvidos por uma música lenta e compassada. Ao final da terceira volta, eles passam a girar em torno de si, procurando evidenciar a pureza da alma e a lei que rege o universo nesse movimento de circunvolução, segundo os sufistas.
A doutrina sufista encontra-se pautada na fé irrevogável, no desenvolvimento de métodos para perceber a presença de Deus no decurso da vida do sujeito e reconhecendo-o nos próprios sujeitos, não aguardando o Dia do Juízo Final. Portanto, o Corão evidencia os cinco pilares supracitados, nos quais se deve pautar a conduta não só do sufista, mas de todo muçulmano, independente da subdivisão interna do islamismo.
Segundo os muçulmanos, todos devem submeter-se a essas leis, independentemente do grau evolutivo alcançado, até mesmo porque, ao se encontrarem na busca da Verdade, a prática não se torna um esforço, mas um hábito. Portanto, há o jogo entre a exterioridade e a interioridade nessa concepção religiosa. A primeira pode ser exemplificada pelo uso da lei corânica como meio de estabelecer uma alteridade entre os dizeres islâmicos e o sujeito e a segunda pode ser representada pela realidade do sujeito modificada por essa lei.
Continuando a reflexão sobre interioridade e exterioridade, utilizamos a significação sufista para essa questão. Dessa forma, podemos dizer que,
O aspecto exterior é aquele da Lei revelada (a Shari’a) que se ocupa da observância dos ritos e dos atos de devoção. O aspecto interior existe através do sufismo (al-
tasawwuf), cujo objetivo é purificar o coração a fim de permitir que aquele que a prática venha a se confundir com Deus. (KIELOE, s/d, p.8)
Nessa visão sobre o islamismo, a preocupação encontra-se em buscar purificação por meio do conhecimento da verdade. Em outras palavras, essa busca compreende a libertação
do sujeito, mergulhando-o em seu interior, no que diz respeito ao mundo e sua a multiplicidade imediata. Assim, o objetivo do sufismo é aproximar o ser da experiência, elevando a sua consciência sobre a realidade, conduzindo-o do individual para o universal.
A prática sufista encontra-se fundamentada em dois pilares essenciais: o das verdades universais e o da realização do homem por meio dos diferentes graus. O primeiro refere-se à busca da compreensão doutrinária. Essa compreensão tenta fazer-nos apreender a natureza da realidade e o lugar do homem, ou seja, o aspecto metafísico da realidade.
O segundo refere-se ao papel do sufismo em conduzir o homem ao patamar de santidade. Isso significa dizer que a sua integração à perfeição será acessível ao homem, uma vez que ele também se descobre em estado de pureza espiritual. Assim, conforme o sufismo, alcançar esse patamar é conseguir tornar-se Aquele que amo e Aquele que amo se tornou eu.
Somos dois espíritos fundidos em um único corpo (AL-HALLAJ, apud KIELOE, s/d, p.11).
Além do respeito ao conhecimento e à prática religiosa esotérica, é necessário dizer que todo sujeito que aspira a seguir os conhecimentos do sufismo precisará de uma iniciação e de um método, propiciados por um guia espiritual, considerado como um representante do Profeta.
Existem diferentes formas de iniciação, diferenciadas apenas em seus ritos de passagem, entretanto, convergindo para a mesma exteriorização religiosa. Contudo, deve-se ter em vista que todo discípulo do sufismo busca adquirir as virtudes; em outras palavras, o sufismo a compreende como a verdade, o correto e o bom para o sujeito que modificar a sua conduta ao ser interpelado por essa MEDR. Nesse sentido, a busca dessa realidade estará pautada nas seguintes ponderações:
— um certo grau de compreensão, ou uma tomada de consciência da Unidade divina;
— uma realização em ato, consistindo em um despojamento progressivo diante da divindade; chamada de “pobreza espiritual” (al-faqr), essa realização contém de fato todas as virtudes;
— uma integração afetiva fundamentada no dom da graça e do amor, cujo suporte é a invocação de Deus (dhikr) e a concentração do espírito;
— uma realização que no plano da doutrina é a união com Deus e no plano humano é a descoberta do tesouro escondido, enterrado no mais profundo de si mesmo. (KIELOE, s/d, p.13)
Desse modo, para os adeptos do sufismo, o objetivo do Corão é distinguir o absoluto do relativo para estar nesse mundo como um viajante. Ao compreender a existência da Unidade divina – percebendo o grau de relevância da existência do Deus que organiza as virtudes –, os adeptos do sufismo valem-se do estado de pobreza em que se podem encontrar socialmente, procurando organizar suas práticas segundo preceitos de ordem afetiva, para tentarem encontrar a natureza do “eu”.
Observamos, sinteticamente, como se dão as condições de produção das manifestações religiosas em estudo. Na seqüência, apresentamos as condições de produção da enunciação literária de Schmitt, nosso objeto de análise.