4.2. MATERIAL PARA PLÁSTICA
4.2.2. CÚRRICULO ANDRÓGINO
Os concursos eram uma das atividades de promoção desenvolvidas pelos organizadores da revista Chácaras e Quintais e abordavam os mais diferentes temas, premiando os vencedores com dinheiro, assinaturas da revista ou até mesmo com galinhas de raça.
Em 1929, a revista lançou um concurso, que poderia ser considerado uma campanha política: “Queremos um agrônomo como Ministro da Agricultura”, no qual os leitores simulavam uma eleição para o cargo. O concurso foi lançado no número de maio de 1929 (Chácaras e Quintais, V. 39, n. 5, maio 1929), e seu objetivo é bem explicado pelo editor da revista no fascículo do mês de agosto: “A época é de palpites, de referendum, de cabalas eleitorais! Também a Chácaras e Quintais quer andar na onda. [...] – então lá
vai o nosso concurso – ‘qual o agrônomo que desejareis como Ministro da Agricultura, e por quê? ’” (Chácaras e Quintais, V. 40, n. 2, ago. 1929).
O editor se preocupa ainda em explicar que o concurso não tem por objetivo, de forma alguma, desmerecer o então Ministro da Agricultura, ou seus antecessores; seu objetivo é influir no futuro dessa pasta ministerial. O que se pretende é que o próximo ministro seja um agrônomo, segundo o conde, é esse o desejo dos criadores e lavradores brasileiros. Como exemplo de um técnico, exercendo de maneira brilhante sua função pública, Barbiellini cita Fernando Costa, nomeado naquele ano secretário dos Negócios da Agricultura de São Paulo (Chácaras e Quintais, V. 40, n. 2, ago.1929). Para Barbiellini, a competência de Fernando Costa baseava-se, fundamentalmente, no fato de ser ele um engenheiro agrônomo. Esclarece ainda o editor que todos os leitores podem participar; em especial os agrônomos e estudantes de agronomia. O eleito terá seu retrato publicado na revista e receberá uma pasta de couro com os seguintes dizeres gravados em prata: ”Augúrio e voto – Lembrança da Chácaras e Quintais” (ibidem). O prêmio oferecido é simbólico, pois Barbiellini não deixa de frisar que preferia oferecer ao vencedor o cargo de ministro (ibidem). O editor adverte ainda que os eleitores deverão explicar qual o motivo de escolher esse ou aquele técnico, e a revista escolherá algumas declarações e as publicará premiando seus autores com livros. Informa também que a apuração será na sede da revista com a presença do público e de uma comissão técnica (ibidem).
O resultado do concurso foi publicado em outubro do mesmo ano, com o seguinte resultado: primeiro lugar, Fernando Costa, com 1.264 votos; segundo lugar, Arthur Torres Filho, com 1.213 votos; e terceiro lugar, Edmundo Navarro de Andrade, com 1.209 votos (Chácaras e Quintais, V. 40, n. 4, out.1929; Chácaras Quintais V. 40, n. 5, nov. 1929).
Os eleitos no concurso da revista tiveram projeção no cenário da política agrícola brasileira, tendo exercido importantes cargos públicos nas esferas estaduais e federais, desenvolvendo atividades políticas e acadêmicas.
Fernando Costa, primeiro colocado no concurso, iniciou sua carreira política como prefeito de Pirassununga, em São Paulo. Mais tarde, em 1919, foi
eleito deputado estadual, assumindo em 1927 a Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, cargo no qual permaneceu até 1930. Em 1937, no período do Estado Novo, Fernando Costa tornou-se realmente Ministro da Agricultura, ocupando de 1941 a 1945 o cargo de interventor federal de São Paulo. No ano de 1946, Fernando Costa veio a falecer em acidente de carro (São Paulo. Secretaria de Estado de Educação, s.d.).
Quando esteve à frente do Ministério da Agricultura, Fernando Costa criou o Serviço de Triticultura, a primeira estação de enologia do Instituto de Experimentação Agrícola, o Instituto Agronômico do Norte e uma Estação Experimental de Caça e Pesca (ibidem). Em seu cargo como secretário de Agricultura do Estado de São Paulo, Fernando Costa procurou manter sob o mesmo comando administrativo os setores primário, secundário e terciário, bem como desenvolveu atividades de infra-estrutura, criando várias diretorias (Martins, 1991). Em 1927, no início de sua gestão na Secretaria, Fernando Costa apoiou a criação do Instituto Biológico de São Paulo, que se tornou uma superintendência desta (Martins, 1991; Silva, 2006). Além das ligações institucionais com o Instituto Biológico, Fernando Costa possuía relações de parentesco com Rocha Lima, segundo diretor do Instituto, com quem sua filha Lígia era casada.
Arthur Torres Filho, segundo colocado no concurso, nasceu na cidade de Campos de Goytacases, no Estado do Rio de Janeiro, e era filho de proprietário rural. Diplomado pela ESALQ, dirigiu o Serviço de Inspeção e Fomento Agrícola do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio (1921- 1931), mais tarde foi chefe do Serviço de Organização e Defesa Rural (1931), vice-presidente da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA) (1931-1943), presidente da SNA (1944-1955) e idealizador do Serviço de Economia Rural (Mendonça, 1998; Mendonça, 1997; Mendonça, s.d). Além desses cargos, Arthur Torres Filho chefiou, em 1931, a primeira seção da Diretoria do Sindicalismo Cooperativista e foi vice-presidente da Confederação Rural Brasileira (Mendonça, 1997). Envolveu-se também em atividades acadêmicas, foi docente e diretor da Escola Nacional de Agronomia (1933-1940) e reitor da Universidade Rural do Rio de Janeiro (Mendonça, 1998; Mendonça, s.d.).
Durante o Estado Novo, Arthur Torres Filho, então vice-presidente da SNA e chefe do Serviço de Economia Rural, coordenou a Comissão de Estudo Especial para Sindicalização Rural, criada pelo governo Vargas para elaborar um projeto de lei de sindicalização rural (Welch, 1999; Mendonça, 1998).
Edmundo Navarro de Andrade, terceiro lugar no concurso, era silvicultor e agrônomo paulista. Como diretor do Serviço Florestal da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, notabilizou-se pelas pesquisas e plantio de eucaliptos e pela preocupação com o reflorestamento do País. Navarro de Andrade foi secretário de Agricultura do Estado de São Paulo no período de 05/12/1930 a 24/07/1931 (Martins, 1991) e participou, ainda, da bem-sucedida comissão, organizada pelo governo paulista, para combater a broca do café, entre 1924 e 1927 (Silva, 2006).
O concurso demonstrava, por parte da editoria da revista, a valorização da profissão de agrônomo e a vontade de influir no debate sobre os rumos da política agrícola brasileira. Tal valorização pode ser explicada se considerarmos a oposição analisada no estudo de Sônia Mendonça, entre a ESALQ (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), que concedia diplomas de agrônomos, e a ESAMV (Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária), que formava engenheiros-agrônomos (Mendonça, 1998).
Essas duas escolas agrícolas rivalizavam-se não apenas no título que concediam, mas na origem de seus alunos e em seus projetos educacionais. Os alunos da ESALQ eram, em sua maioria, filhos de fazendeiros, enquanto os da ESAMV provinham, principalmente, das camadas médias urbanas (ibidem), a ESALQ estaria voltada para formar grandes proprietários, ao passo que a ESAMV se concentraria na formação de quadros técnicos para o Ministério da Agricultura (ibidem).
No caso do concurso mencionado, a revista deixava bem claro seu apoio aos agrônomos e conseqüentemente à ESALQ, instituição paulista que os formava. Com a realização do concurso, a editoria da revista procurava influenciar os rumos da política agrícola brasileira.
A campanha não se restringiu à Chácaras e Quintais. No mês seguinte à divulgação do resultado do concurso, a revista publicou um artigo intitulado
“Ecos do nosso concurso Queremos um agrônomo como Ministro da
agricultura’”, apresentando a repercussão do concurso na imprensa (Chácaras
e Quintais, V. 40, n. 5, nov. 1929). São reproduzidos a nota que saiu sobre o evento no jornal O Paiz e o artigo de Octávio Domingues intitulado “Um agrônomo, Ministro da Agricultura”, publicado em 13 de outubro de 1929 no
Diário de São Paulo (Chácaras e Quintais, V. 40, n. 5, nov. 1929, p. 483). A
nota de O Paiz afirma que a eleição estendeu-se por todos os Estados e foi bem recebida, principalmente entre os agricultores e agrônomos, e que, pelo resultado apurado, com pouca diferença de votos entre os três eleitos, a disputa foi acirrada (ibidem).
Em seu artigo, Octávio Domingues elogia o pleito organizado pela revista, ressaltando a importância da nova compreensão do papel de agrônomo nas Américas (ibidem). Ressalta a importância da agricultura para a economia brasileira e discorre sobre como a agricultura pode ajudar no povoamento do País. Destaca o duplo papel que a educação rural deve exercer, de alfabetização da população rural e de capacitação do trabalhador. Para que tudo isso seja realizado, segundo Domingues, é fundamental que o ministro da Agricultura seja um agrônomo (ibidem).
Amadeu A. Barbiellini informa que havia providenciado a publicação do artigo de Domingues, em jornais do Rio de Janeiro e de outros Estados, por entender que:
“a nossa campanha a favor de um ministro técnico para a pasta da agricultura não deve limitar-se ao recente platônico concurso eleitoral; muito pelo contrário deve ser intensificada, deve ser cada dia mais generalizada em todas as camadas sociais, pois os lavradores e criadores só ficarão satisfeitos – e nós com eles – quando a grande Nação Brasileira tiver como Ministro da Agricultura um agrônomo [...] numa palavra que seja um profissional para orientar a nossa agricultura com a vista aguda do técnico e não com os óculos impertinentes do político” (ibidem, p.483).
Essa fase da revista ficou marcada pela presença de articulistas que participaram da política agrícola tanto no âmbito estadual, mais especificamente no Estado de São Paulo, como federal.
Observe-se que o concurso ocorreu um ano antes da Revolução de 1930, antecedendo a eleição presidencial e indicando a tentativa de protagonismo político de cientistas e lideranças políticas de São Paulo. Interessa ainda ressaltar que, durante o governo Vargas, esse pleito seria atendido, com a condução de Fernando Costa ao ministério de 1937 a 1941.