Um estudo que verse sobre os CSAs será relativamente incompleto sem as discussões prévias dos conceitos de hegemonia, caos e governança, os tipos de sistema-mundo, e as estruturas de longa duração do sistema-mundo moderno. Entra-se agora na parte mais importante, em que se busca reunir e ordenar todos estes temas, de modo a compreender a ascensão, auge e declínio dos poderes hegemônicos no transcorrer dos longos séculos e seus CSAs.
Arrighi coloca o sistema-mundo em perspectiva histórica ao caracterizar os CSAs a partir da lei de valorização do capital de Marx e do conceito de destruição criadora de Schumpeter. O autor percebe que, de tempos em tempos, surge um centro capitalista mais dinâmico e inovador do que o antigo, tornando obsoletas as combinações do centro estabelecido ou, nos termos de Schumpeter, destruindo o modelo velho a partir da criação do novo (ARRIGHI, 1997, p. 148).
Arrighi percebe que estes ciclos de inovação seguem um padrão de “prosperidade/expansão material” e “depressão/expansão financeira” de acordo com a lei de valorização de capital (D-M-D’). A fase de prosperidade ou expansão material ocorre quando as inovações tecnológicas e organizacionais do centro capitalista são absorvidas pela economia real e o capital disponível é investido nos setores produtivos e comerciais. Em outros termos, é o momento de pujança econômica e transformação mais dinâmica do espaço, quando o investimento produtivo é o meio capaz de garantir aos capitalistas a reprodução de seu capital a taxas de lucro extraordinárias. (ARIENTI; FILOMENO, 2007, p. 120). Arrighi define esta fase da seguinte maneira:
(...) as expansões materiais ocorrem em virtude do surgimento de um bloco específico de agentes governamentais e empresariais capazes de levar o sistema a novo ajuste espacial, que cria condições para o surgimento de divisões de trabalho mais amplas ou profundas. Nessas condições, o retorno do capital investido no comércio e na produção aumenta; o lucro tende a ser aplicado, de modo mais ou
6 As “grandes guerras de coalizão” na definição de Kennedy (1989) e as “guerras de trinta anos” na definição de
Arrighi (1996) são caracterizadas por longos períodos de conflito generalizado e competição econômica (guerras de atrito) entre os Estados beligerantes. Arrighi identifica três guerras que duraram cerca de trinta anos e tiveram como consequência a redistribuição de capacidades sistêmicas e a substituição definitiva de um CSA por outro: A própria Guerra dos Trinta Anos (1618-1648); As Guerras Napoleônicas (1792-1815); e o período que compreende as duas guerras mundiais (1914-1945).
menos rotineiro, em mais expansão do comércio e da produção; e, conscientemente ou não, os principais centros do sistema cooperam para manter a expansão uns dos outros (ARRIGHI, 2008, p. 241).
Conforme será visto adiante, a fase de expansão material coincide com o auge da hegemonia mundial, quando o modelo de acumulação gestado no Estado líder transforma a geografia do sistema-mundo e cria novos parâmetros de poder entre Estados e novas relações econômicas entre centro e periferia.
Não obstante, a fase de depressão, contração ou expansão financeira do sistema é produto de dois fatores interligados (duas formas de concentração de capital). Em primeiro lugar, o fator interno decorrente da financeirização da economia hegemônica, quando há excesso de capital financeiro, ou seja, quando a acumulação de capital é muito superior ao que pode ser investido com lucro na economia real – no comércio e na produção – e, com isso, surgem nichos de mercado altamente lucrativos para intermediários financeiros que, devido à expansão material precedente, levam vantagem ao operar a partir da própria economia hegemônica. (ARRIGHI, 2008, p. 241; ARIENTI; FILOMENO, 2007, p. 120-121).
Assim, a partir de uma crise sinalizadora o capital excedente migra para atividades especulativas e o sistema financeiro “descola-se” da economia real e provoca concentração de riqueza e contenção dos salários reais. Em suma, o “dinheiro” se transforma em “mais dinheiro” (D-D’) sem ser investido na produção e circulação de mercadorias reais e a centralidade da hegemonia garante um “momento maravilhoso” de reanimação ilusória do seu CSA. Assim, essas expansões financeiras são portadoras de extraordinária novidade cognitiva porque prenunciam o que comumente é o oposto do sentido convencional de crise (BRUSSI, 2011, p. 401). Elas trazem a Belle Époque das hegemonias, definida como a “cegueira das elites” que acreditam viver o auge de seu modelo mas que de fato, vivem o “outono”, ou seja, o início do seu próprio declínio7.
A fase de expansão financeira indica que as bases materiais do regime de acumulação de capital e poder do Estado hegemônico encontram-se esgotadas, isto é, não proporcionam mais expectativas de lucros extraordinários nas suas estruturas
7 Verificam-se exemplos da Belle Époque nos quatro CSAs: o Renascimento italiano após um século de
expansão comercial no Mediterrâneo; a efervescência cultural e intelectual de Amsterdã em princípios do século XVIII; a Idade de Ouro dos últimos anos da Era Vitoriana e os anos da Era Eduardiana na Inglaterra em fins do século XIX e começo do século XX; e o novo fôlego da hegemonia norte-americana nos anos 1990, sob a égide da globalização e da integração dos mercados mundiais. Nas palavras de Arrighi e Silver (2001, p. 77), a expansão financeira da Belle Époque é um sinal de outono que anuncia “a maturidade dos processos de acumulação de capital instituídos sob uma dada hegemonia”. Já em sua obra mais recente, Arrighi (2008, p. 241- 242) afirma que todos os centros dominantes do capitalismo mundial desfrutaram de uma Belle Époque de inflação de riqueza e poder que, no final das contas, aprofundou a crise de superacumulação subjacente, exacerbando a concorrência econômica, os conflitos sociais e as rivalidades entre Estados num nível além do poder de controle dos centros dominantes.
produtivas. Um volume crescente de capital, na sua forma líquida e mais flexível, vai procurar sua valorização na esfera financeira (ARIENTI; FILOMENO, 2007, p. 120-121).
Em segundo lugar, o fator externo consiste na concentração de capital “às margens da economia hegemônica” (ARRIGHI, 2001, p. 75; 2008, p. 242). Isso se dá com uma transferência de capital excedente dos centros dominantes para os Estados emergentes de desenvolvimento capitalista. Por meio de inovações organizacionais, tecnológicas e outras vantagens particulares, Estados emergentes tornam-se mais dinâmicos e mais rentáveis para o capital especulativo que se encontra “encalhado” no centro antigo. Logo, se o capital não mais encontra condições propícias de se reproduzir nos “canais estabelecidos”, pois estes se encontram em processo de financeirização e queda da taxa de lucros reais, aos poucos surgem novos centros com modelos inovadores, mais atrativos e que garantem um retorno mais estável no longo prazo, seja devido a baixos salários, novas oportunidades ou escassez de capital.
Assim, há um duplo processo de concentração de capital que vai redundar no caos sistêmico: a) na esfera financeira da economia hegemônica; e b) na esfera real de economias emergentes.
Esse momento de transição entre modelos é:
(...) um período de crise hegemônica, de transformação estrutural do moderno sistema de Estados nacionais soberanos, de surgimento de novos regimes de acumulação, de novos modos de governo, de reorganização do sistema-mundo sob nova liderança, durante o qual são lançadas as bases para a superação da crise financeira e para o início de um novo ciclo sistêmico de acumulação, com transformações nas estruturas de produção e nas formas de hegemonia política (ARIENTI; FILOMENO, 2007, p. 120-121).
Arrighi identifica os impactos econômicos e políticos das expansões financeiras, da seguinte forma:
Em termos econômicos, elas desviam sistematicamente o poder de compra do investimento em commodities (até mesmo a força de trabalho), criador de demanda, para a acumulação e especulação, exacerbando assim os problemas de realização dos lucros. Em termos políticos, tendem a se associar ao surgimento de novas configurações de poder, que minam a capacidade do Estado hegemônico dominante de se aproveitar da intensificação da concorrência em todo o sistema (ARRIGHI, 2008, p. 172).
Portanto, esta redistribuição de riqueza significa que nas expansões financeiras, o capitalismo mundial reorganizou-se ainda mais fundamentalmente sob uma nova liderança, resultando em ajustes espaciais de escala e alcance cada vez maiores que criaram condições
para a solução da crise de superacumulação anterior e a decolagem de nova fase de expansão material (ARRIGHI; SILVER, 2001, p. 41; ARRIGHI, 2008, p. 243). Logo, os CSAs consistem na esfera material que afeta, e é afetada, pelas mudanças na distribuição de poder entre Estados, de forma que os três centros econômicos posteriores à liderança das cidades- Estado italianas, abrigaram também as hegemonias mundiais modernas: a holandesa, no “longo século XVII”; a inglesa, no “longo século XIX”; e a norte-americana, no “longo século XX”.