Quanto à primeira pergunta (você conhece alguém que fala diferente de você?), o grupo 6F avalia positivamente seu modo de falar. Exibe uma atitude valorativa ao falar paraibano, pois se reconhece nele, manifestando um sentimento de vínculo e de pertencimento. Admite que os Estados do Rio de Janeiro e Paraíba constituam falares diferentes. Desse modo, remete à noção de duas comunidades de fala diferentes, uma vez que podem não compartilhar entre si normas sociolinguísticas e vai além, chega até a apontar o respeito como questão central para convivência das variedades linguisticamente diferentes. Neste sentido, segundo Blom & Gumperz (1998 [1972, 1986], p. 40), a identificação com o lugar de origem remete à “visão deles significa pertencer a um grupo caracterizado por uma ascendência comum”. O trecho 41 sumariza esses achados.
TRECHO 41: eu acho que é uma forma de respeito... tem que respeitar o sotaque de cada um... não é porque eu vou no Rio que vão me chamar de matuta... é porque é meu jeito de falar... mesmo jeito se eles chegarem aqui... pia o carioquinha... eu acho que é uma questão de respeito... que tem que que respeitar o seu sutaque... eu sou paraibana... nasci na Paraíba... se eu chegar no Rio... o povo fala tudo cantano... eu não posso ter vergonha... ele infelizmente vão ter que respeitar... e eu não ter vergonha... (TPS).
As teorizações na área da Linguística (PRESTON, 2010; CLOPPER, 2010; HORA, 2011; dentre outros) têm apontado que o falante/ouvinte tem certa habilidade para identificar traços dialetais. O ouvinte nativo faz esse processo naturalmente, seja a variedade linguística familiar ou não; a ocorrência de processo de identificação e/ou representação do falar de uma dada comunidade de fala está diretamente ligada às pressões sociais que a influenciam. Por exemplo, o trabalho pioneiro de Labov (1963) em Martha’s Vineyard, quando analisou a
ocorrência da variação fonológica da vogal dos ditongos ‘aw’ e ‘ay’, constatou que o comportamento linguístico do falante local variava conforme fosse seu sentimento à ilha;
Aqui, no Brasil, um estudo realizado por Calmon (2013) com fim de mapear o uso dos pronomes você, ocê, cê e te na fala de informantes da cidade de Vitória, no Espírito Santo, apresenta uma analogia com o que foi relatado no trabalho de Labov (1963), no qual os falantes dessa comunidade de fala usam “a forma você como elemento de afirmação social e cultural, como se tivessem a intenção de se diferenciarem linguisticamente dos mineiros, que chegam às praias de Vitória na estação de veraneio ou que vêm morar no município” (CALMON, 2013, p. 85).
Ainda, quanto ao grupo 6F, pode-se verificar precisão vocabular do informante e de expressões e que parecem refletir a própria dinamicidade dos jovens. Esse mesmo comportamento também se constatou na amostra anterior formada por jovens do sexo masculino. O grupo 6F reconhece a existência de falares diferentes e atribui causas, especificando, por exemplo: contexto, ambiente e ao lugar onde se vive. Dessa forma, pode-se perceber que realmente a língua constitui comportamento social (LABOV, 2008 [1972]). O fragmento 42 sintetiza esse apontamento:
TRECHO 42: SIM... várias... várias pessoas que falam diferente... porque... é... eu acho... é... tem muito o contexto... de... do ambiente... onde se vive... o lugar... coisa e tal... e... de acordo com... com o que você... coleta:: as informações... as vozes::... é:::... que você sempre está... em contato... você adquiri pra você... mas do seu jeito... né?... acredito dessa forma... (VPC).
Com relação à segunda pergunta (o que você acha de sua forma de falar?), o grupo 6F associa seu falar com o ato de falar muito, ser comunicativo ou com quem tem desenvoltura para se expressar fluentemente e baseia-se em avaliações de outros informantes. Parece satisfeito com seu falar, avalia a sua fala como ‘rápida, comete erros’, pois fala coloquialmente e não na “forma correta”, assim, demonstrando que os falantes têm noção de que existe uma forma que fora elevada socialmente a um alto status, enquanto que há outras que são avaliadas negativamente, sobretudo, nas sociedades ocidentais (ALKMIM, 2001). Mesmo assim, consegue se comunicar com seus interlocutores adequadamente, pois tem ‘facilidade e é desenrolada’. Os trechos 43 e 44 ilustram os achados:
TRECHO 43: pessoal diz que eu sou muito comunicativa... ((risos))... que eu falo demais... sei lá... eu acho todo mundo tem... ninguém é perfeito... eu sou faladeira... (TPS).
TRECHO 44: eu acho que... sou... uma pessoa desenrolada... na... na... pra falar... mais que falo muito rápido... e quando fico nervosa... mais ainda... mais uma pessoa ainda que tem uma facilidade de... cunversar:::... ainda vamos dizer que oralmente eu
cometa muitos... muitos erros ortográficos... é... ortográficos né?... não da forma correta de se falar o português... eu reconheço isso... falo coloquialmente... bastante vezes... e qui... mais... no geral... me acho uma pessoa qui... tenho uma:::... consigo passar uma mensagem... acho que o importante é isso... (RSF).
Esses achados apontam para o que Hora (2011, p. 19) tem-se referido ao discutir a ideologia da língua padrão. Observa esse autor que há “culturas de língua padrão” que exercem influências significativas sobre a própria língua quanto aos seus falantes, por exemplo, o processo de padronização que ocorre sobre ela e que até se estende a outras categorias da sociedade. Sobre o falante, esse efeito se dá, principalmente, no campo avaliativo e representativo dos usos sociais da língua, na diferenciação que faz, ou sobre os valores sociais que atribui a cada variedade linguística dita padrão e não padrão.
Percebe-se que o problema da noção de correção linguística pode ser mais ainda problemática quando se pensar que essas noções são constitutivas da própria língua, quando, na verdade, se reconhecem que são oriundas de imposições externas à língua, vindas de diferentes segmentos ou instituições sociais que compõem as sociedades, tais como: universidades, igrejas, documentos oficiais de governos, academias de letras, dentre outros.
Alkmim (2001), ao descrever aspectos relacionados às variedades linguísticas e à estrutura social, sublinha que as sociedades de tradição ocidental atribuem um prestígio socioeconômico singular às variedades linguísticas que são rotuladas de padrão. Os efeitos dessa tradição podem ser observados nos mais diversos comportamentos linguísticos exibidos nas comunidades de fala em diferentes contextos comunicativos. Essa realidade é tão presente que, na fala da informante RSF (Trecho 44), esta se refere a erros ortográficos cometidos na fala, algo impossível de acontecer. É o efeito da ideologia da língua padrão que povoa o imaginário do falante.
Encontrou-se, também, nesse grupo, o caso em que o informante se apoia ou explicita isso no discurso de outro para avaliar seu falar. Para ele, sua fala não é da Paraíba, mas há traços de regionalidade ao se expressar. O trecho 45 exibe parte desse resultado.
TRECHO 45: a minha forma de falar... devido ao que as pessoas me FALAM... qui é diferente do:::... da... Paraíba... que a Paraíba tem muito aquele... oxente... né?... aquela coisa do pu-xa-do... mais... é... minha... minha de expressar... é muito regional... (TPS).
Percebe-se que a informante identifica a marca ‘oxente’ como sendo da Paraíba e qualifica seu falar como ‘puxado’, indicando aspecto de sua entonação, o que a diferencia de outros falantes. Esses aspectos evidenciam a competência que há nos falantes de avaliar seu próprio falar e o falar de outrem; e, pensando no conjunto de achados que as amostras aqui
utilizadas apontam, percebe-se que indicam ou revelam que os falantes têm consciência da existência de uma série de processos fonológicos, gramaticais, prosódicos, paralinguísticos e retóricos que ocorrem nos usos sociais da língua (HORA, 2011).
Para a terceira pergunta (o que você mudaria na sua forma de falar?) no grupo 6F percebe-se o uso de itens lexicais precisos e da área da Linguística. Ressalta-se que esse achado ocorreu apenas com os informantes mais jovens, tanto masculinos quanto femininos. Isso indica algumas direções que norteiam esta investigação: a primeira, a de que esses informantes têm uma maior rede social, pela qual estão em contato com diferentes informações, objetos, processos, comportamentos, etc., que são próprios da faixa etária em que estão inseridos; a segunda, entende-se que há um efeito da escola sobre esses falantes, pois, ao se verificar o quadro de perfil sociocultural dos informantes femininos (Cf. Quadro 5), constata-se que algumas são estudantes com, no mínimo, oito anos de escolaridade. E, os sistemáticos estudos sociolinguísticos já têm evidenciado que a escola constitui um gatilho nos processos variáveis que ocorrem na língua.
Um dos informantes desse grupo admite que fala a variedade coloquial, mas quer uma outra ‘mais correta’ e com ‘normas’, o que revela a influência dos aspectos da existência da ideologia da língua padrão mais uma vez sobre os informantes, conforme atesta o trecho 46:
TRECHO 46: primeiro... mudaria... a questão da dicção... tentar falar... mais devagar... e também falar mais corretamente... assim... tentar deixar a forma coloquial... e falar um pouco mais... de acordo com a língua portuguesa... com as normas... acho que mudaria isso... (RSF).
Portanto, o grupo 6F avalia a sua fala positivamente, é tanto que não pretende mudar, pois se define como ‘satisfeito’. O trecho 47 ilustra esse achado:
TRECHO 47: não... não mudaria não... tou... satisfeita... (TPS).
Finalmente, quanto à última pergunta “o que é falar correto para você?”, o grupo 6F vincula o “falar certo” à noção de competência comunicativa. Mesmo assim, percebe-se que o “falar errado”, por sua vez, liga-se ao nível de escolaridade do falante e que esse falar foi apreendido por contato com outros falantes que também falam errado. O trecho 48 sintetiza esse achado:
TRECHO 48: falar certo:::... falar:::.. é... compreender... ou seja... não... não... importa... a... o nível de escolaridade de uma pessoa... desde que você saiba... entender... desde que você... entenda o que ela quer lhe expressar... e... se ela tá falando... é... na... na norma culta... ERRADO... de acordo com a... ortografia... de acordo com a gramática... está falano errado... mais... creio... em partes não é porque
ela quer... é por conta do nível de escolaridade... por conta da... das pessoas com quem ela tem mais contato... e... enfim... isso... (VPC).
Percebe-se que o grupo 6F associa seu falar certo com um determinado modo, o qual não foi indicado explicitamente nas enunciações analisadas nesta amostra, mas que deve ser “bem certo”. Neste sentido, verifica-se mais uma vez a ocorrência da noção de correção relacionada à língua. Constata-se que essa informante tinha anteriormente admitido que falava segundo a variedade paraibana, mas, agora, entra em contradição com sua primeira resposta, pois não fala o sotaque paraibano, porque esse modo de falar pode prejudicar o falante em alguma situação comunicativa. Seu falar é avaliado como quem fala “mais ou menos.” O trecho 49 expressa parte dessa realidade:
TRECHO 49: falar certo?... falar as coisas bem certo... eu acho que eu falo mais ou menos... eu não falo o sutaque paraibano... para quem fala errado acaba com... (...)... da pessoa... eu acho que falo mais ou menos... (TPS).
Assim, verifica-se que há uma representação criada pelos informantes acerca da variedade linguística utilizada pelo falante, seja ela ligada ao ambiente familiar ou de origem, seja para interagir com outros falantes em contextos comunicativos mais formais e que se reverbera em atitudes e avaliações sociolinguísticas. Os usos linguísticos não são apenas avaliados como normal, anormal, bonito, feio, adequado, não adequado, com ou sem sotaque, etc., mas, sobretudo, criam imagens de seus falantes. Os falantes, por sua vez, demonstram-se capazes de avaliar tanto seu próprio falar, quanto também o dos outros usuários da língua.
Nota-se que a informante se refere ao termo “sotaque” para caracterizar o falar paraibano. Entende-se que o sotaque faz parte da identidade sociocultural de qualquer falante: caracteriza-o ou denuncia sua comunidade de origem; daí a referida informante afirmar que não fala o sotaque paraibano, pois é avaliado negativamente na sua ou por outras comunidades de fala.
Chianca (1999, p. 05), ao discutir aspectos relacionados ao ato de interagir em sala de aula, assinala algumas interjeições que marcam a regionalidade do falante: emprega-se “uai” em Minas Gerais, “sô” no Rio Grande do Sul, “oxente” no Nordeste, onde se pode acrescentar também o item “visse”. Estes constituem aspectos verbais que fazem parte da configuração sociolinguística desses falantes.
Nesta direção, podem-se resumir as representações, atitudes e avaliações dos falantes pesquisados no quadro 13:
Quadro 13: Resultados das avaliações, atitudes e percepções do Grupo 6F
Cariocas e paraibanos falam diferentemente, pessoas do Rio de Janeiro falam cantando; As pessoas têm sotaques diferentes;
Atribui causas às diferenças linguísticas: contexto, ambiente, lugar onde se vive; Caracteriza sua fala como “rápida, com erros e coloquial”;
“Falar bem ou certo” é falar muito, ser comunicativo ou ter desenvoltura retórica; Mora na Paraíba, mas não fala o modo do paraibano;
Identifica marca “oxente” como sendo da fala paraibana; Caracteriza seu falar como “puxado”;
Faz uso de itens lexicais precisos;
Fala coloquialmente, mas quer uma forma “mais correta” e com “normas”; “Falar errado” é associado ao baixo nível de escolaridade;
“Falar certo” é vinculado a falar e ser entendido em diferentes contextos de interação; e Aprende-se a falar errado convivendo com outras pessoas que falam errado.
(Fonte: Próprio do autor). Na seção posterior, realiza-se análise comparativa entre os resultados alcançados nos grupos amostrais aqui descritos e analisados.