Nos 26 domicílios analisados encontramos 34 expostos. Dentre eles, 44% são meninos e 56% meninas. As meninas, portanto, eram mais numerosas. No entanto, essa diferença não nos permite afirmar que houve uma preferência por meninos ou meninas, tanto na hora de abandonar, como na hora de acolher esses expostos.
TABELA 34 Sexo dos expostos
Sexo Número Porcentagem
Meninos 15 44%
Meninas 19 56%
TOTAL 34 100%
Fonte: AHCMM, Lista de Habitantes, Distrito de Mariana (1819), códice 651
Ao analisarmos a qualidade dessas crianças, encontramos um quadro interessante. 70% são brancos e 24% são pardos. Como foi dito anteriormente, a qualidade não significava apenas a cor de uma pessoa, mas também a sua condição na sociedade. No entanto, o fato de ser um exposto não representava uma desqualificação social, já que, na maioria dos casos, eles foram considerados brancos.
Com menor porcentagem, encontramos os crioulos, que representam 6%. Provavelmente filhos de escravos ou forros, essas três crianças eram a minoria, o que significa que a Câmara Municipal foi eficaz em sua tentativa de proibir o
Homens Número Porcentagem Mulheres Número Porcentagem
Menos de 20 0 0% Menos de 20 0 0% 20 a 29 0 0% 20 a 29 1 6% 30 a 39 2 25% 30 a 39 4 22% 40 a 49 0 0% 40 a 49 3 17% 50 a 59 5 62% 50 a 59 4 22% 60 a 69 0 0% 60 a 69 4 22% 70 ou mais 1 13% 70 ou mais 2 11% TOTAL 8 100% TOTAL 18 100%
abandono de crianças negras. Como já foi dito no capítulo anterior, em 1752, a Câmara destaca a preocupação do abandono entre escravas, o que prejudicaria seus senhores ou resultava de fraudes praticadas por estes últimos.
Ao levarmos em consideração o sexo da criança não encontramos diferenças significativas. Em ambos os sexos, a maioria dos expostos eram brancos, seguidos dos pardos e, por último, os crioulos. Entre os meninos, 73% eram brancos, 20% pardos e 7% crioulos. Já entre as meninas, 69% eram brancas, 26% pardas e 5% crioulas.
TABELA 35 Qualidade dos expostos
Qualidade Número Porcentagem
Branco 24 70% Cabra 0 0% Crioulo 2 6% Pardo 8 24% Preto 0 0% TOTAL 34 100%
Fonte: AHCMM, Lista de Habitantes, Distrito de Mariana (1819), códice 651
GRÁFICO 17
Qualidade dos expostos
70% 6% 24% Branco Crioulo Pardo
TABELA 36
Sexo / qualidade dos expostos
Sexo / Qualidade Número Porcentagem
Menino – branco 11 32% Menino – cabra 0 0% Menino – crioulo 1 3% Menino – pardo 3 9% Menino – preto 0 0% Menina – branca 13 38% Menina – cabra 0 0% Menina – crioula 1 3% Menina – parda 5 15% Menina – preta 0 0% TOTAL 34 100%
Fonte: AHCMM, Lista de Habitantes, Distrito de Mariana (1819), códice 651
TABELA 37
Qualidade dos meninos e meninas expostos
Fonte: AHCMM, Lista de Habitantes, Distrito de Mariana (1819), códice 651
A última análise feita sobre os expostos é sobre sua idade. Dividimos as 34 crianças em 3 faixas etárias: recém-nascidos (menos de um ano); crianças que ainda tinham o direito de receber o auxílio da Câmara (de 1 a 7 anos); e crianças acima de 7 anos.
Encontramos apenas uma criança, ou seja, 3%, com menos de um ano de vida. Isso demonstra que, pelo menos no início do século XIX, não foi comum o abandono de recém-nascidos. Já para as crianças na idade de 1 a 7 anos, encontramos 41%. Ou seja, das 34 crianças expostas listadas em 1819 na área urbana de Mariana, 44% tinham direito de receber o auxílio da Câmara local.
Desmembramos a idade dessas crianças para compreender melhor sobre o seu perfil. O número de crianças de acordo com a idade era bastante variado. Havia uma criança com um ano, três crianças com 2 anos, quatro crianças com 3 anos, duas com 4 anos, uma com 5 anos, duas com 6 e uma com 7. Esses números não nos permitem afirmar a preferência de uma criança de determinada idade e
Menino Número Porcentagem Menina Número Porcentagem
Branco 11 73% Branca 13 69% Cabra 0 0% Cabra 0 0% Crioulo 1 7% Crioula 1 5% Pardo 3 20% Parda 5 26% Preto 0 0% Preta 0 0% TOTAL 15 100% TOTAL 19 100%
nem a idade mais comum das crianças serem abandonadas, principalmente porque, através da Lista, não sabemos o tempo o qual a criança já está convivendo nessa residência.
Em 1819, 31 expostos foram assistidos pela Câmara Municipal de Mariana. No entanto, ao cruzarmos os nomes das pessoas que estavam recebendo o pagamento pela criação de um exposto151 com o nome dos chefes de domicílios aqui analisados, iremos encontrar apenas duas. 152 Fato curioso já que, em análises de Registros de Matrículas de expostos, a maioria dos responsáveis afirmava ser da área urbana de Mariana.153 A lógica seria, portanto, encontrarmos um número maior de chefes de domicílios recebendo o pagamento da Câmara, pelo menos dentre os 15 casos, que, em 1819, ainda tinham o direito de recebê-lo. Outro caso curioso é que nestes dois casos que encontramos, nenhum recebeu o pagamento no ano de 1819 e, em um dos casos, o exposto já possuía mais de 7 anos.
Crianças acima de 7 anos e que não possuíam mais esse direito, eram a maioria na Lista de Habitantes de 1819. Elas representavam 56%. Isso pode se explicar ao analisarmos o número de expostos assistidos entre os anos de 1805 a 1812 – período que compreende os anos em que os expostos que tinham entre 7 e 14 anos em 1819 haviam nascido – onde o número de crianças assistidas era maior do que nos anos seguintes.
TABELA 38 Idade dos expostos
Idade Número Porcentagem
Menos de 1 1 3%
1 a 7 14 41%
Acima de 7 19 56%
TOTAL 34 100%
Fonte: AHCMM, Lista de Habitantes, Distrito de Mariana (1819), códice 651
151
Nesse caso, não estamos analisando apenas o período de Receita e Despesa da Câmara de 1819. Buscamos os nomes dos chefes de domicílio para todo o período anteriormente analisado, que compreende de 1737 a 1828.
152 Encontramos outras duas pessoas que podem ser aquelas as quais estamos procurando. Portanto, não inserimos em nossa análise por não termos certeza de que se tratava da mesma pessoa. O que nos fez desconfiar desses dois casos são as datas que não correspondem ao nascimento do exposto nem ao período o qual ele teria o direito de receber pelo pagamento da Câmara Municipal.
153
Tendo em vista o conjunto dos dados apresentados, podemos afirmar que - pelo menos no que diz respeito à área urbana de Mariana – predominavam crianças expostas brancas sendo enviadas a domicílios chefiados por viúvas, também brancas, em geral com mais de 40 anos de idade.154 Esse perfil não invalida a existência de pobres e ex-escravas sendo enjeitadas, mas sugere a existência de outro padrão de “circulação de crianças” entre esses segmentos sociais.