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Bransjestrukturens betydning for basisnæringene

attraktivitet Besøks- Besøks-attraktivitet

2.1 Bransjestrukturens betydning for basisnæringene

Já tinha sido apresentada a Davi Favela em outras ocasiões desde que iniciara minha pesquisa. Ele sempre se mostrou receptivo. Davi é apontado como um dos grafiteiros mais importantes da cena do graffiti tanto por ser um pioneiros como por ser responsável por organizar vários eventos, entre eles os Mega Murais e a exposição no Museu de arte da UFC no segundo semestre de 2012.

Iniciei uma entrevista com ele na casa de Teia e Doug, mas senti que precisava conversar mais, faltava saber mais coisas a respeito deste grafiteiro e isso só seria possível com uma entrevista. Combinei de encontra-lo na rádio universitária em um final de tarde de um domingo no mês de outubro. A entrevista que fiz com ele na marcou meu retorno a pesquisa de campo pós-gravidez. Senti-me tateando o campo como se estivesse reaprendendo a fazer um gesto que sempre fui acostumada a fazer, mas que por algum motivo estive impedida de reproduzi-lo.

Fui entrevistá-lo na rádio universitária porque Davi presenta um programa lá. O programa que toca músicas rap chama-se “Se liga!” e vai ao ar aos domingos às 18 horas. Levei minha filha para este encontro porque ainda não me sentia segura de sair sem ela. Enquanto conversava com Davi na parte de dentro da rádio, meu marido ficou com nossa filha na parte de fora. Confesso que foi difícil me concentrar na entrevista e reouvindo para transcrever, percebi as lacunas que deixei. Enquanto Davi respondia as minhas perguntas, eu ouvia um choro que só acontecia na minha cabeça. Ao terminar minha entrevista minha filha

estava do jeito que deixei e eu me dei conta que o retorno ao campo seria mais difícil do que eu supunha não tanto por ela, mas mais por mim.

Na cena, Davi é conhecido como um articulador. Foi ele quem organizou os Megas Murais. O primeiro evento com tinta de graça para os participantes aconteceu por intermédio dele no muro do campus da Pici da UFC. Localizado na Avenida Mister Hall, o muro do I Mega Mural teve 500 metros de extensão por 3 metros de altura. Davi diz todo orgulhoso que este é o maior graffiti da América Latina38. Esta ação envolveu grafiteiros de praticamente todas as crews de Fortaleza mais artistas urbanos e pixadores. No espaço entre um desenho e outro, os pixadores puderam colocar suas assinaturas sem serem abordados pela polícia39, pois estavam ali com autorização.

38

Davi explica que existe um muro em Porto Alegre que é maior do que este da UFC, mas não supera o recorde do muro daqui por não ser continuo. O muro de Porto Alegre é grande também, porém este tem partes que não são pintadas.

39 Davi relata que uma viatura passou durante a realização do evento, parou e um policial ficou furioso ao ver

ações de pixadores, mas foi impedido de prendê-los pelo seu próprio comandante, afinal eles tinham permissão para estar ali.

Figura 21 - I Mega Mural na Avenida Mister Hall

Davi Favela é ex-pixador. Ele não sabe precisar como começou a grafitar. É como se uma coisa tivesse levado a outra: o contato com o spray e a rua veio com a pixação, os desenhos pela Aerografia40 e a ideia do graffiti pelo hip hop. Quando se deu conta já era grafiteiro. Sobre sua trajetória de vida ele comenta:

Davi favela ou Davi mal do pantanal ou simplesmente mal da área da Serrinha, Parque Dois Irmãos precisamente Auto da Coruja onde eu comecei a descobrir os meus poderes. 8 , 9 anos lembro que já riscava, desenhava e participava dos bailes funk e das reuniões da EDT ( espirito das trevas), CSU (crucificado no sistema urbano), GA2 (garotos do ano 2000) entre outras galeras. Não era pixação era uma ideia de grafite mesmo. Os pixadores era como se fosse grafiteiros. Eu pixava, desenhava e ia dançar com os bboys nos baile funk... Lembro-me do meu primeiro emprego na minha área. Era de pintor de vela de aniversário. Passei algum tempo e o dono me despediu dizendo que eu não tinha talento e nem jeito pra pintar nada, rsrsrsrsrsrsr depois fui trabalhar de eletricista em várias empresas. Eu ainda piveti chapava parede de cal, lixava portão, carregava peso e nas horas vagas eu encabulava os mais velhos por pintar com a mão esquerda. Isso era motivo de alegria. Começei a tá mais envolvido com a cultura hip hop e fui conhecendo vários parceiros que faziam as mesmas correrias. Viajei várias vezes pra fora antes de todo mundo ir. Eu fui um dos primeiros a participar de encontros fora com [em] Porto Alegre, São Paulo, Rio, Suécia, Canada e outros lugares. Voltando, depois de muito tempo fora fazendo corre pro’s outros resolvi cuidar da minha “zaria” ai mudei para o Pantanal em 94 e aqui estou até hoje. Participei de vários movimentos, grupos,

40 A aerografia é uma técnica de pintura que utiliza uma máquina para sua execução chamada de areográfo. Este

consiste num objeto similar a uma caneta, com um reservatório de tinta e ligado a uma mangueira de ar comprimido. A areografia possui semelhanças estéticas com o graffiti e é muitas vezes usada por grafiteiros para fazer trabalhos comerciais.

mas sempre às vezes só e as vezes com uns e outros que aparecia como Frank juazeiro, Pingo , Uz, Tubarão, Selo, Masther, Flay, Clarck ,Wmem, mas as correrias se formou mesmo com a P2K onde se deu pra unir mais as ideias e pintar ai foi quando as paradas começaram a acontecer. Foi a P2K que organizou o primeiro encontro com tinta de graça pra todo mundo e sempre veio fortalecendo a cena como fortalece até hoje. Tentamos com a Federação Cearense de grafite, mas por causa de ideias diferentes não se concretizou, mas o bonde não podia parar, pois não existia só o nome, existia uma pá de grafiteiros na cena e com muita sede de pintar e o resto a maioria sabe. (Retirado do Facebook em 16/04/2012).

O garoto que foi dispensado por não ter talento para pintar velas hoje vive do graffiti e é por meio dele que pode expressar-se, dizer o que pensa e passar sua mensagem:

Vou fazer 32 minha vida toda foi pintando ou sendo na aerografia ou sendo no graffiti [...] Ele [o graffiti] me proporcionou isso, a lutar em diversos espaços, diversos patamares, trocando ideias com pessoas da sociedade ou diversas empresas que eu acho que sem o graffiti eu não estaria fazendo esse trabalho hoje. (DAVI FAVELA. entrevista realizada em 21/10/12).

O graffiti foi o instrumento que deu voz as inquietações de Davi além de garantir seu sustento. Ele não se acanha em dizer que ganha dinheiro com graffiti e questiona: “Diversas empresas tão usando o graffiti porque nós mesmo que somos os artistas grafiteiros não podemos usar o graffiti pra si, no coletivo?”.

Davi ajudou a criar a P2K crew que significa “Paridos pelo kaos”. Fundada em 1996, a P2K é uma das crews mais antigas de Fortaleza antes ela foi uma gangue de pixadores. Possivelmente, por esse motivo a P2K tem um bom relacionamento com pixadores. Dificilmente seus trabalhos são atropelados por pichações. Além de se relacionar bem com pixadores, sempre que tem oportunidade Davi procura passar a mensagem do graffiti para pixadores:

eu tô vinculado ao propósito de sempre tá pegando alguns pixadores, não forçando a eles se tornarem grafiteiros, mas passando a ideia do que é o graffiti. Do que ele pode ganhar também através da arte do graffiti. Hoje o graffiti, querendo ou não, ele é uma evolução da pixação por tá usando o mesmo instrumento que é a lata de spray. Então o pixador ele utiliza ali pra se expressar de alguma forma, buscando um pouco da adrenalina e o status que é o que basicamente todo pixador procura. Um pouquinho diferente do graffiti. A pixação tá somada em que? Status, adrenalina e expressão. O graffiti é status também, expressão e no lugar da adrenalina é arte. Então tá basicamente quase no mesmo patamar e os dois estão enquadrados na Lei do meio ambiente: o ato de grafitar, pixar ou de qualquer forma rasurar um muro público ou privado é considerado crime desde que não tenha a permissão para poder realizar. (DAVI FAVELA. entrevista realizada em 21/10/12).

Davi também é educador social em instituições ligadas ao governo e ONG’s e sempre leva a linguagem do graffiti para os projetos sociais que participa. Ele faz parte da CUFA, a Central Única das Favelas, e é ligado ao hip hop. Segundo ele, “o graffiti ele veio pelo movimento hip hop pela ideia de transmitir a cultura hip hop, de transmitir uma mensagem, ou seja, contra as drogas, a violência. O graffiti em si ele é pra passar isso”. Tendo isso como meta, Davi ensina técnicas de manuseio do spray e a ideologia do graffiti nas oficinas e cursos que ministra: “a gente preserva por dar uma inclusão social através da lata de spray [independente] do cara ser um bom grafiteiro, pra nós só em ele ser um bom cidadão pra nós já é uma vitória grande”. (entrevista realizada em 21/10/12).

A partir da fala de Davi, pode-se falar em um uso social do graffiti em oficinas, cursos e projetos sociais. Situação cada vez mais frequente, visto que a linguagem e estética do graffiti mostram-se atraentes, principalmente para os jovens, sendo utilizada, nesse sentido por instituições que desenvolve ações voltadas para a juventude.

Segundo Davi, “o graffiti é bom porque ele não existe regras”, seguindo esse principio, o graffiti de Davi é free style ou estilo livre, ou seja ele tanto faz desenhos mais figurativos como letras etc. Davi comenta que privilegia em suas produções fazer algo que seja fácil de entender por quem observa.

O graffiti ele veio pra transmitir a mensagem de um grupo. Nos grafiteiros a gente retrata o que tá no cotidiano, o que tá na moda ou em auge. Aquela notícia que tá em auge a gente passa pra sociedade através do muro que a dona Maria passe, veja e realmente entenda. Tem muitos grafiteiros fazendo um graffiti que as pessoas passam e ficam em dúvida o que é. Fica parecendo aqueles quadros de arte antiga que o cara fica ali, olhando. Eu particularmente gosto de passar uma ideia rápida, que a pessoa passe, olhe e entenda. (DAVI FAVELA. entrevista realizada em 21/10/12).

A entrevista teve que terminar porque o programa de rádio apresentado por Davi ia iniciar. Depois desta entrevista, ainda encontrei com Davi outras vezes quando estive fazendo pesquisa de campo. Ele sempre me cumprimentou com a mesma simpatia que demonstrou ter na primeira vez que o conheci.