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O monumento é um material da memória, sendo assim, um sinal que evoca o passado. Além disso, tem o poder de perpetuação das recordações das sociedades históricas, de forma voluntária ou não. E o que sobreviveu não é daquilo que existiu no passado, mas sim, são escolhas feitas por determinadas pessoas que as transformaram em monumento (LE GOFF, 1990).

Assim, o monumento tem como natureza a afetiva, pois não se apresenta e nem passa informações neutras. Seu intuito é tocar com emoção, uma memória viva. Nesse sentido, a construção de um monumento desperta sentimentos, provocando lembranças e esquecimentos de fatos bons e ruins. Complementa Choay (2006, p.18):

Nesse sentido primeiro, chamar-se á monumento tudo o que for edificado por uma comunidade de indivíduos para rememorar ou fazer que outras gerações de pessoas rememorem acontecimentos, sacrifícios, ritos ou crenças. A especificidade do monumento deve-se precisamente ao seu modo de atuação sobre a memória.

O passado evocado remete ao final do século XIX, quando ocorreram os assassinatos de Maria Stoch e seu filho. Ao se aproximar dos cem anos do crime envolvendo os Stoch, o Padre Luiz reconstituiu a história da triste trajetória desse casal através de uma narrativa já mencionada no capítulo anterior. Parece haver uma necessidade do padre em lembrar o centenário desse crime.

Apesar da existência de mais duas versões da narrativa, além desta que está sendo estudada, todas tem a mesma finalidade: a de reforçar a identidade italiana entre os moradores da pequena comunidade de Linha Três, em Nova Palma, local onde ocorreram os crimes. Complementa essa ideia Nora (1993, p.7):

A curiosidade pelos lugares onde se cristaliza e se refugia está ligada a este momento particular da nossa história. Momento de articulação onde a consciência da ruptura com o passado se confunde com o sentimento de uma memória esfacelada, mas onde o esfacelamento desperta ainda memória suficiente para que se possa colocar o problema de sua encarnação. O sentimento de continuidade torna-se residual aos locais. Há locais de memória porque não há mais meios de memória.

Para isso acontecer, além da narrativa, foi construído com o auxílio da comunidade um monumento à família Stoch, que homenageia as vítimas assassinadas, em um lugar próximo onde ocorreram os crimes. Houve uma missa e uma festividade para a inauguração do monumento, ocorrida no dia 20 de Janeiro de 2002, no qual participaram a comunidade e parentes das vítimas. Acrescenta Choay (2006, p.18):

Mas esse passado invocado, convocado, de certa forma encantado, não é um passado qualquer: ele é localizado e selecionado para fins vitais, na medida em que pode, de forma direta, contribuir para manter e preservar a identidade de uma comunidade étnica ou religiosa, nacional tribal ou familiar.

Com isso, percebeu-se que o passado a ser lembrado não é qualquer um: é destinada aos moradores da comunidade de Linha Três e, a escolha de tal acontecimento é para mostrar como um crime acabou fragmentando uma família de imigrantes e que, o sonho de fazer a América não aconteceu. Abaixo, a imagem do monumento que está sendo feita a referência.

Figura 2:Monumento Stoch. Imagem registrada em 25 de dezembro de 2012.

Fonte: Arquivo pessoal.

Percebe-se ainda a figura materna enaltecida no monumento. A fotografia de uma mãe acalentando seu filho e a escrita constituem a edificação. A imagem que está localizada

dentro de um triângulo, acima da parte escrita, não corresponde a Maria e seu filho, como o próprio padre relata em um manuscrito40.

Figura 3:Monumento Stoch. Detalhe da imagem descrita acima.

Fonte: Arquivo pessoal.

Já a parte escrita, tem as seguintes informações:

Nesta picada, a sete de agosto de 1898, o casal Ângelo Stoch foi destruído pelo assassinato de Stella Maria Casini Stoch e a filhinha. Os descendentes e a comunidade recordam. Homenageando a presença de todas as mães na aventura imigratória de nossa colonização.

Vale salientar as informações trazidas no monumento:

- Como forma dar ênfase às vítimas assassinadas, o religioso acrescentou ao monumento uma fotografia em porcelana de uma mãe com um bebê;

- Data do assassinato: outra referência quanto a dia e ano do acontecimento, sendo diferente do que foi apresentado na narrativa e no processo de acusação de Ângelo;

- O nome da vítima: o religioso referencia na narrativa como Maria Stella e o processo de acusação apenas Maria;

- Sexo da criança: o padre atribuiu como sexo feminino a criança assassinada. O processo de acusação traz que a criança é um menino.

- Os descendentes das vítimas e a comunidade de Linha Três recordam a triste história desse casal;

- Ressalta mais uma vez a figura materna, homenageando todas as mães italianas no processo de colonização;

- A existência de uma placa de agradecimento por graças alcançadas, levando a crer no surgimento de uma possível santa popular;

As informações trazidas no monumento buscam a cristalização da memória dos moradores dessa comunidade do crime ocorrido. Mas não é em si a morte que é lembrada, mas sim o desenrolar de uma história de imigração italiana que acabou sendo trágica. É ainda uma forma de mostrar aos moradores atuais da comunidade o quanto foi sofrida e difícil à luta da colonização de seus ancestrais.

É válido lembrar mais uma vez que, a narrativa, o monumento e a festividade são voltados para a família Stoch. Os Vedovatos são coadjuvantes nessa história narrada pelo padre, pois são necessários apenas para inocentar Ângelo e apresentar um final trágico ao verdadeiro assassino, como uma forma de mostrar que houve justiça e glorificar esses imigrantes vitimados.

Nesse sentido, a versão escrita e narrada pelo padre dos crimes envolvendo os italianos aqui já mencionados torna-se uma verdade absoluta, pois todos se lembrarão do que foi contado como aquilo que realmente aconteceu. E a lembrança só será possível se manter viva na comunidade graças ao monumento construído, pois se torna um marco, porque toda vez que alguém passar por ele, se lembrará da história que foi transmitida pelo religioso.

É provável que essa história já não mais se mantivesse viva na memória dos moradores e/ou as informações a respeito dela já não mantinham a mesma cordialidade. Então por isso a necessidade de rememorar tal data. Segundo Choay (2006, p. 18):

Para aqueles que edificam, assim como para os destinatários das lembranças que veiculam, o monumento é uma defesa contra o traumatismo da existência, um dispositivo de segurança.

A versão narrada pelo padre sobre o crime é imortalizada com a construção do monumento, pois este solidifica na memória o acontecimento. A edificação faz com que a população se lembre do crime. Mas também possibilita lembrar-se das dificuldades enfrentadas pelos seus ancestrais no período da colonização.

O trabalho não tem o objetivo de encontrar o verdadeiro culpado pelo assassinato das vítimas homenageadas nesse monumento, mas sim compreender como a narrativa e a edificação que são trabalhadas dentro da comunidade, onde seus ancestrais são na maioria imigrantes italianos.

O monumento, segundo NORA (1993), denomina de lugares de memória, para explicitar os locais que guardam recordações do passado. Para a autora, esses locais envolvem a imaginação de quem vivencia. Assim, uma edificação consolida as lembranças e faz sua transmissão, garantindo sua identidade. Há um jogo entre história e a memória para constituir os lugares de memória: nestes, não existe uma memória espontânea e, se a história não se apoderasse desses locais de memória, eles não existiriam.

Nesse sentido, poderia ser somente um monumento perdido na comunidade de Linha Três, em Nova Palma. Porém, percebeu-se que com os documentos analisados, o monumento tem uma função para o tempo presente: a de lembrar e esquecer os acontecimentos vivenciados pelos antepassados na comunidade no período da colonização italiana. Sua manutenção está a serviço do presente e do futuro, reafirmando a identidade italiana entre os moradores locais e das futuras gerações. Pensando nas colocações de NORA (1993), a edificação construída por Padre Luiz Sponchiado é um lugar de memória.

5.CONSIDERAÇÕES FINAIS:

A narrativa que conta a história do casal Stoch foi o ponto de partida para compreender como o discurso produzido pelo padre Luiz sobre o imigrante italiano é construindo em Nova Palma. Através da análise desse manuscrito comparando-os com os processos crimes, podem-se encontrar elementos que se alinham ao discurso sobre a imigração italiana, bem como novas características que identificam esse grupo étnico. Porém, os percalços da pesquisa com esse tipo de análise propôs dificuldades no encontro de algumas documentações, sendo que tais limitações devem-se a maneira pelo qual o padre Luiz colheu e teceu algumas das informações.

Para compreender a narrativa e os processos crimes foi necessário uma revisão bibliográfica sobre a escrita da imigração italiana no RS. Com isso, perceberam-se duas vertentes historiográficas: a tradicional e a recente. A primeira voltada ao imigrante visto como um herói, sendo através de muita luta e sofrimento, conseguiu progredir, transformando essa trajetória em uma saga. A segunda retrata as peculiaridades da imigração italiana, como uma forma de demonstrar algumas características desse grupo social, que foram ocultadas ao longo da história. Os estudos sob a óptica desta vertente recente vêm crescendo muito durante os últimos anos. Isso contribuiu para mostrar como o movimento imigratório no RS é tão diversificado, com características próprias, diferente do que foi pregado, desde o primeiro escrito.

Através desse entendimento e relacionando com as fontes, foi possível identificar a arquitetura do discurso do religioso sobre a imigração italiana, que reforça a ideia do imigrante que lutou e sofreu, porém não conseguiu ter êxito com a colonização. Enraizado na vertente tradicional da historiografia da imigração italiana, foi criado o discurso sobre o bom imigrante, propagado pelo padre em Nova Palma e região da Quarta Colônia. Nesse sentido, usou imigrantes que não obtiveram sucesso, como forma de mostrar aos moradores da comunidade de Linha Três as dificuldades enfrentadas com o processo de imigração.

Além do discurso do padre Luiz pregado sobre a imigração, perceberam-se ao longo da pesquisa as peculiaridades da imigração. Dessa maneira, foram apontados outros elementos que caracterizam os colonos imigrantes vindos a Nova Palma e Quarta Colônia. Tais como: a circulação de imigrantes nas colônias, o abandono dos lotes, a falta de financiamentos por parte do governo, ausência de solidariedade entre os vizinhos, violência doméstica, crimes sexuais, vícios e não aptidão ao trabalho na terra. Com esses indicadores, nota-se que nem

todos os imigrantes praticaram a colonização41 e, o quão diferente é o processo de colonização narrado pelos memorialistas, bem como dos processos ocorridos na Serra Gaúcha.

Pensando na ideia de colonização, pode-se dizer que o casal Stoch não colonizou a região, por não ter transformado o espaço onde vivia segundo suas necessidades, como também pela rápida passagem ao local. Assim, considera-se que, por mais que a região tenha sido colonizada por imigrantes italianos, nem todos os imigrantes que estiveram na região praticaram a colonização.

O trabalho do religioso em valorizar a figura do imigrante deu origem à narrativa do casal Stoch. Sob a ótica do padre, ela reforça a saga migratória. Sob o olhar histórico, reafirma a identidade italiana entre os moradores locais. Como forma de cristalizar na memória local o colono italiano, construiu um monumento para recordar a trajetória dos Stoch, bem como do processo imigratório, criando assim um lugar de memória. As lembranças e esquecimentos dessa história são recursos para compreender o discurso empregado pelo padre na propagação do discurso do imigrante em Nova Palma e Quarta Colônia.

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