No que concerne a carga de trabalho, de acordo com Falzon e Sauvagnac (2007) o termo carga refere-se ao esforço empreendido pelo trabalhador para lidar com as exigências de uma tarefa. Toda exigência de trabalho requer um esforço para realizá-lo, assim, sempre existirá uma carga de trabalho por menor que seja a tarefa. No entanto, de acordo com Abrahão et al. (2009), em muitas situações quando se menciona carga de trabalho, faze-se referência geralmente ao excesso, a sobrecarga. Nesse sentido, a sobrecarga refere-se à solicitação feita ao trabalhador que excede suas capacidades e aumenta o seu esforço.
Nesse aspecto, todos os participantes foram unanimes ao descrever que existe sobrecarga de trabalho na maternidade, como apresentam os fragmentos a seguir:
Aqui a demanda é muita grande, então chega, chega, chega, chega e a gente não pode fazer nada né, tem que receber. Então eu acho que isso ai é o mais difícil. É não ter limite e a gente ter que fazer alguma coisa sem as condições necessárias. (GO 8)
Existe pela superlotação do serviço. Muitas vezes a gente passa despercebido alguma coisa que deveria ser feito, mas algum que deveria ter feito com mais urgência exatamente não pela falta de conhecimento, mas pela superlotação e você não ter condição de atender a todos na mesma hora. ...nós sempre trabalhamos com superlotação, por exemplo nós hoje estamos com sessenta pacientes. Você imagine o que é sessenta mulheres dentro de um hospital, cada enfermaria com onze pacientes, onze! Fora os acompanhantes, então não tem como você ter um serviço de boa qualidade. (GO 10)
Observa-se nas falas supracitadas a manifestação do real. Esse real apresenta-se na forma de superlotação do serviço, na possibilidade de não dar a atenção necessária aos pacientes e assim cair em equívocos ou de não realizar a assistência de uma urgência. Consequentemente, o trabalhador sobrecarrega-se.
Além disso, outros fatores também geram sobrecarga no trabalho do médico obstetra, entre eles, encontra-se o fator temporal. A participante GO 8 relata: “Não, as vezes a gente só
para pra comer, só, só, só, semana pa ssada foi um desses dias, a gente só parou pra comer, e
pronto”; de igual modo a participante GO 9 diz: “É uma correria grande, hoje especificamente
eu corri muito, quase fiquei sem almoçar”. Por fim, a participante GO 11 expressa: “A gente trabalha praticamente doze horas seguidas, praticamente não existe essa hora de descanso. A gente não descansa. Existem profissionais que deitam, dormem. Mas realmente é difícil a gente
fazer isso aqui, porque a carga de trabalho é muito excessiva”. Falzon e Sauvagnac (2007)
apontam que os fatores temporais como característicos da sobrecarga no trabalho, recebem maior destaque na atualidade devido a intensificação do trabalho nos últimos tempos. Para estes autores, a intensificação configura-se como o desaparecimento de períodos de descanso no
trabalho e a sensação por parte do trabalhador de falta de tempo. No discurso dos médicos obstetras, mencionados acima, sobressai que devido à grande quantidade de pacientes, geralmente os períodos de descanso desaparecem e até o tempo para fazer a alimentação é limitado.
Outros participantes relataram que sentem a sensação que as horas do plantão são poucas para atender com qualidade todas as pacientes. Essa falta de tempo faz com que o trabalho real do médico não seja realizado da forma que está prescrito.
Olha é, eu diria que algumas vezes sim, principalmente quando você tem um dia sobrecarregado né. Que você não consegue fazer esse acompanhamento de forma rigorosa. Ao invés de fazer uma ausculta com 30 mim você vai fazer com 1 hora. E aí você vai ter que escolher aquela que você vai fazer primeiro, o bebê está com algum tipo de irregularidade, ela está com mais dinâmica, com mais queixa de dor, então as vezes você foge um pouquinho quando encontra essas situações. (GO 5)
Ainda de acordo com Falzon e Sauvagnac (2007), outro aspecto da intensificação no trabalho é a pressão para realizar o maior número de tarefas em menor tempo. Esse aspecto ocorre no trabalho do obstetra devido a dois fatores, em primeiro lugar a pressão para realizar a atividade com rapidez encontra-se na própria natureza da atividade de trabalho, uma vez que urgências/emergências fazem parte do oficio médico e exigem do profissional a habilidade para agir com rapidez e eficiência. Como expressa a participante GO 13: “Aí você tem que ter conhecimento técnico, cientifico, agilidade de agir e conduzir”.
Em segundo lugar a intensificação também se refere à organização do trabalho, em que, devido a quantidade de pacientes, os profissionais precisam atendê-las em um tempo mais curto para dar conta de todas elas.
Pronto, realmente são muitas pacientes aqui. E de dia só são dois médicos, tem eu e outro colega, ou seja, se for cinquenta, da vinte e cinco para cada, o que é muito. E a noite só tem eu, ou seja, se tiver muita intercorrência eu posso passar a noite inteira acordada trabalhando, já tendo vindo do dia trabalhando também durante o dia, ou seja, é bem cansativo. (GO 1)
Interessante ressaltar que, assim como descrito nessa última fala, durante as observações foi possível perceber que são dois obstetras para cada setor da maternidade, eles dividem as pacientes, por exemplo, se são 50 pacientes no alto risco naquele plantão, cada obstetra fica com 25, assim o trabalho flui mais rápido e eles podem ter mais tempo para realizar os procedimentos necessários. Essa maneira de agir configura-se como parte do trabalho real, como a maneira que os trabalhadores encontraram para vencer os obstáculos impostos pelo real e dar conta do que lhe é solicitado.
Os obstetras que ficam no setor do acolhimento da maternidade também se queixam da sobrecarga no trabalho. Nesse setor, apenas um obstetra faz o acolhimento, a pressão para realizar um trabalho rápido é constante, pois todas as gestantes que lá chegam exigem serem atendidas rapidamente. Essa intensificação do trabalho ocasiona em determinados momentos conflitos entre médicos/gestante/acompanhantes.
Por fim, a sobrecarga de trabalho também se apresenta na complexidade da tarefa. O nível de exigência requerido ocasiona uma intensa atividade mental. Os participantes relatam:
...é uma média de 50 pacientes. Então você veja que 2 médicos evoluir 50 pacientes é um número altíssimo para você se ater a cada prontuário, revisar prontuário, examinar as pacientes né, fazer anamnese né... além dessa sobrecarga de pacientes para serem
visitados na enfermaria de alto risco, a gente tem que fazer as intercorrências... e atender as urgências e emergências e fazer os partos né. (GO 6)
Infelizmente é bem desgastante justamente por isso que eu tinha falando anteriormente, é uma demanda muito grande para poucos profissionais... então a gente tem cada paciente com suas patologias né, a gente vai examinar paciente, a gente vai anotar os exames de paciente a gente vai medicar paciente, a gente vai partejar paciente. Então assim, é um serviço que na verdade é desgastante porque a gente não pode deixar passar despercebido, se a gente deixar de passar um antibiótico, se a gente deixar de fazer uma ausculta bem-feita... a gente pode é, está deixando de fazer alguma coisa que pode ser importante para a vida da paciente ou para a vida do bebê. Então assim, a gente lida com vida, então a gente não pode ser desatenta... (GO 11)
Muitos obstetras relataram que não seria problema se apenas o volume da atividade fosse grande, a dificuldade é que geralmente os problemas são muito complexos e além de demandar um esforço mental e físico para a sua resolução, ainda tem a pressão por parte da natureza da tarefa, uma vez que o obstetra lida com duas vidas. O participante GO 7 relata:
...muita gente, pessoas que não fazem o pré-natal, pessoas que não tem o acompanhamento, pessoas, é, que não fizeram vacina, infecção urinaria, diabetes sem saber que era. Então você chega e chega a bronca... na obstetrícia é diferente, você está lidando com duas vidas, primeiro é uma criança e gera aquela expectativa que são nove meses se preparando para criança, se preparando para o parto, de uma hora para outra você tem um insucesso na hora do parto, então é muito complicado pra gente.
Nota-se, ainda, que o fato do obstetra lidar com duas vidas e com um momento de grandes expectativas sociais, a responsabilidade requerida pela sua tarefa ganha ainda maior destaque. Nesse sentido, o real do trabalho se apresenta de uma maneira ainda mais complexa, pois, lidar com o real do trabalho, para o médico obstetra, é lidar com a possibilidade de morte. E a possibilidade de fracasso e insucessos pode modificar profundamente a vida de outros.