O arquipˆlago de Fernando de Noronha conhecerŽ tambˆm uma histƒria polarizada entre paraŠso e inferno. Retornando aos relatos ˆ possŠvel observar que apresentam esta oscila€‚o, salientando suas caracterŠsticas nada paradisŠacas e, por exemplo, sua possŠvel utiliza€‚o como local de degredo. • o caso do portugu…s Melchior do Amaral, que em 1602 ao aportar na ilha constatou a presen€a de escravos e a descreveu como:
[...]pequena, áspera e pedragosa, tem alguns regatas de água muito
salobra e ruim, e alguns arvoredos silvestres e tem uns de fruto, e muitos de
algod‚o, e n‚o ha nelas ervas algumas de comer; tem bom gado vacum; cabras e porcos, tudo bravo e nenhum domˆstico; [...] Estavam trese ou quatorze
escravos, machos e fêmeas, e com elles um homem português por feitor
(AMARAL, 1604?, p. 33, grifo nosso).
Dez anos depois de Amaral, a presen€a de uma pequena comunidade composta por um portugu…s e alguns Šndios, todos escravos, indŠcios da provŽvel utiliza€‚o de Fernando de Noronha como local de desterro ou degredo em 1612, mesmo sem a exist…ncia de nenhum ato oficial que assim a destinasse, tambˆm surge em D’Abbeville:
[...] aŠ encontramos muitos mel•es, gerimuns, batatas, ervilhas, favas e outros frutos excelentes, bem como grande quantidade de milho e de algod‚o, alˆm de bois, cabras selvagens, galinhas comuns, maiores que as de Fran€a. [...] Como habitantes encontramos nessa ilha um portugu…s e desessete a dezoito Šndios, homens, mulheres e crian€as, todos escravos e para aŠ exilados pelos moradores de Pernanbuco. Parte desses Šndios foi batizada e dois d…les casados depois de termos plantado a cruz no meio de uma capela que arranjamos para a celebra€‚o da santa missa.Tanto os pobres Šndios, como o portugu…s, tantas finezas receberam dos srs. De Rasilly e de la Ravardi‘re que, ao saberem de nosso projeto de plantar no Maranh‚o a fˆ e a cren€a no verdadeiro Deus [...]pediram com insistência para
que os tirassem da ilha e os levassem com êles (ABBEVILE, 1975, p. 47-49, grifo
nosso)35.
D’Abbeville refere-se ainda ao vigor e fertilidade local, no entanto, surpreende-se com a “malignidade” de uma das Žrvores mais notŽveis dessa ilha, “um verdadeiro sŠmbolo do pecado mortal”:
[...] Entre as Žrvores mais notŽveis dessa ilha, uma há muito bela e agradável de ver; tem as folhas bem verdes e bastante semelhantes às do loureiro.
Se por acaso as tocamos com a m‚o e em seguida levamos as m‚os aos olhos,
sentimos uma dor violenta, tão aguda que por três a quatro horas perdemos o uso da vista. [...] Ignorando a malignidade dessas árvores, muitas pessoas da nossa
expedi€‚ose viram extremamente atormentadas com as dores provocadas pelo
toque involuntário das folhas. [...] Trata-se em verdade de um verdadeiro símbolo do pecado mortal, na aparência exterior agradável, sorridente, convidativo;
quando porˆm, tocado com a m‚o das obras e consentimento de uma vontade determinada, faz perder a graça que é a vista da alma e provoca imediatamente
uma dor viva, pungente remorso (ABBEVILE, 1975, p. 48, grifo nosso).
Mas, no mesmo relato o capuchinho franc…s regozija-se com a bondade divina ao dispor, na mesma ilha, uma Žrvore que tem a propriedade de aliviar os malefŠcios da Žrvore do pecado mortal:
[...] No mesmo lugar se encontra uma outra espécie de árvores, que a
divina bondade aí colocou como antídoto, cujas folhas, como se viu da experi…ncia
de alguˆm do nosso grupo, têm a propriedade de acalmar essa dor e restituir a
vista esfregando os olhos com ela (ABBEVILE, 1975, p. 48, grifo nosso).
35Segundo COSTA (1985) a •nica lei pŽtria que autorizou o cumprimento de pena na ilha de Fernando de Noronha, foi a promulgada a 3 de outubro de 1833, designando-a para degredo dos fabricantes de notas, cautelas, cˆdulas e mais papˆis fiduciŽrios da na€‚o ou de bancos. O decreto n. 2375 de 5 de mar€o de 1859, fixou os casos em que os moedeiros falsos, condenados, podiam ser remetidos para a ilha.Os decretos n. 196 de 1 de fevereiro e n. 802-A de 4 de outubro de 1890,mandando recolher no presŠdio de Fernando de Noronha os moedeiros falsos e os contrabandistas, foram revogados pelo novo Cƒdigo Penal, que n‚o admitiu a pena de degredo, punindo a tais criminosos com a pris‚o celular.
Continuando a narrativa, o missionŽrio, permeado pela religiosidade da ˆpoca, faz refer…ncia a fato semelhante ao da Žrvore maldita, vivida pelo profeta Davi, alˆm de apresentar vŽrias analogias com o intuito de explicitar o perigo em afastar-se de Deus e da misericƒrdia divina:
[...] O profeta Davi falava por experi…ncia, pois logo apƒs haver tocado a Žrvore maldita, cheio de dor, dissera lastimando-se: [...] Meu cora’Žo esta
perturbado, minha virtude abandonou-me e a luz de meus olhos j• nŽo est• comigo. Essa dor pungente, esse agudo remorso jamais deixarŽo ‘quele que, pelo toque volunt•rio da •rvore maldita, volunt‘riamente se priva da luz interior de sua alma, a menos que lance mŽo das folhas da verdadeira •rvore da vida da Santa Cruz, folhas essas que sŽo o m†rito do Nosso Salvador, que na cruz sofreu curando-nos de todas as feridas dessa •rvore do pecado, como se diz no Apocalipse [...] as f“lhas dessa •rvore da Cruz destina-se ‘ salva’Žo e a cura dos gentios (ABBEVILE, 1975, p. 48-49, grifo nosso).
Claude D’Abbeville refere-se • Burra Leiteira (Sapium sceleratum), que produz um lŽtex cŽustico capaz de provocar queimaduras graves no homem e nos animais36. Outra interessante descri€‚o desta Žrvore e seu males serŽ feita duzentos e quarenta e nove anos depois, ao ser selecionada como um dos produtos “originais” da provŠncia de Pernambuco a figurarem nos Catalogos dos Productos Naturaes e Industriaes remetidos das provincias do Imperio do Brasil que figirar‚o na exposi€‚o Nacional inaugurada na cŒrte do Rio de Janeiro no dia 2 de dezembro de 1861 (1862):
“D'entre os productos que nos for o remettidos da Ilha de Fernando de Noronha, distinguem-se particularmente por sua originalidade os que
caracterisŽo a arvore all… conhecida, de expontanea vegeta’Žo, pela denominacŽo de — arvore da burra —, os quaes reduzem-se ao leite, folhas,
tronco e raizes da dita arvore. [...] Esta arvore tem propriedades que n‚o devem passar em silencio, e que por certo nos parecem dignas de serios estudos. D'entre
ellas distingue-se a de seu leite, nocivo por tal f•rma, que a passagem do viandante a sotavento he sufficiente para produzir assaduras nos ante-bra’os e entre-pernas, ainda mesmo cobertos. Este facto he por demais notavel nos
animaes que circul‚o na Ilha e que se aproxim‚o da dita arvore, queimando-os Ž tal ponto, que as partes atacadas jŽmais encabell‚o. Essas assaduras, por†m, nŽo sŽo
mortaes, e, facilmente curaveis, cedem • applica’Žo de algumas folhas da vinagreira. At† hoje esta arvore s• tem servido para o consumo ordinario, empregado como combustivel. Ao queimas exala vapores fetidos, e que offendem os olhos, sendo doloroso supporta-los [ grifo nosso].
Cabe relembrar que, com rela€‚o • fauna, alˆm da variedade e grande quantidade de pŽssaros jŽ evidenciados, Claude D’Abbeville e outros viajantes fazem alus•es a presen€a de animais danosos como os ratos, jŽ discutidos. • o caso do alem‚o Joan Nieuhof37, que permaneceu no Brasil de 1640 a 1649 a servi€o da Companhia das “ndias Ocidentais:
[...] No dia oito passŽvamos pela ilha Fernando de Noronha, com tempo
magnífico. Avistamos grande quantidade de pássaros e enormes cardumes de peixes voadores, seguidos de perto pelo bonito e Koret. A Ilha Fernando de
Noronha, situada a 4 graus de latitude sul e cerca de cincoenta milhas da costa do Brasil, foi habitada pelos holandeses, por volta de 1630, mas, devido à grande
quantidade de ratos que devastou todas as plantações, fora abandonada pelos
batavos alguns anos depois. A n‚o ser isso ˆ uma ilha feracíssima e o mar em
torno dela é tão piscoso que os habitantes do Recife costumam ir lŽ pescar,
voltando com os barcos abarrotados de peixe (NIEUHOF, 1981, p.27, grifo nosso).
Purgatƒrio e degredo ajustam-se perfeitamente na lide expansionista levada a cabo por Portugal durante sua fase colonizadora, notadamente nos sˆculos XVI e XVII. A nŠvel dogmŽtico, o purgatƒrio n‚o foi definido pela igreja como um lugar preciso, mas apesar das retic…ncias dos teƒlogos e da prud…ncia da Mater Ecclesia, o seu bom …xito residiu na sua “espacializa€‚o” e na aceita€‚o popular que possibilitou o seu pleno desenvolvimento e sucesso. Para o homem comum era mais fŽcil entender o Purgatƒrio associando-o a um espa€o, um “lugar” (PIERONI, 1998, p. 5-6).
Mundo temporŽrio, passageiro e purificador: o “terceiro lugar” segundo Lutero. • sob esta ƒtica mental que desembargadores e inquisidores encontram alguns dos argumentos para justificar a convers‚o das colŒnias portuguesas em verdadeiros “locais” de purifica€‚o dos desvios e improbidades existentes no Reino. Mundo imaginŽrio tornado verdadeiro; estado espiritual que ocupou temporalidade e “espacialidade” bem precisas no universo religioso do homem comum na ˆpoca (PIERONI, 1998, p. 5-6).
Durante todo o processo de coloniza€‚o, desenvolveu-se uma justifica€‚o ideolƒgica ancorada na Fˆ e na sua nega€‚o, utilizando e reelaborando as imagens do Cˆu, do Inferno e 37Em sua MemorŽvel Viagem MarŠtima e Terrestre ao Brasil , Nieuhof apresenta uma das descri€•es mais fidedignas e aut…nticas da revolta luso-brasileira contra os holandeses.
do Purgatƒrio. Aos poucos, o Brasil vai substituindo os locais para onde antes eram enviados os “criminosos” e mais tarde, Fernando de Noronha passa a ser um local para se cumprir pena, e sair recompensado uma vez purgadas todas as culpas. Cˆu e Inferno se alternam no horizonte da ilha, dando espa€o para que se imiscuŠsse o Purgatƒrio.
O trabalho Žrduo seria o caminho mais rŽpido para essa purga€‚o e abriria as portas para o caminho dos Cˆus. No entanto, para aqueles que recusassem o trabalho sistemŽtico, a colŒnia poderia se transformar de Purgatƒrio em Inferno, com a perda definitiva da alma.
Portanto, conforme serŽ apresentado a seguir o trabalho e a produ€‚o de riqueza eram a chave para alcan€ar a salva€‚o, traduzindo-se, assim, o carŽter capitalista da coloniza€‚o que convivia pacificamente com a religiosidade.
2.3 A PERSPECTIVA HOLANDESA: ENTRE PARA“SO E INFERNO, “UM MOUREJAR