A região de Araraquara na época da aquisição do Engenho Fortaleza já tinha produção canavieira, porém, a pecuária a principal atividade responsável pela ocupação do solo11. A cana-de-açúcar foi se inserindo aos poucos na região por alguns fazendeiros. As paisagens das fazendas nesta região eram mistas, iam das criações de gado a plantações de cana-de-açúcar. Segundo Caires (1993), a introdução da cana-de- açúcar teria provocado uma valorização da terra e dos bois carreiros que trabalhavam nas lavouras para os engenhos. Em 1862, a lavoura de cana já havia se formado, existindo na cidade 30 fábricas de açúcar (CAIRES, 1993).
Entretanto, a lavoura de cana-de-açúcar confrontou-se com a dificuldade de mão de obra e a chegada da cultura do café que começava a entrar na região. O que significou que ao mesmo tempo em que tinha as fazendas mistas (gado e cana-de- açúcar) começou a lavoura de café. Isto se deu por causa da crise da metade do século XIX que atingiu a região do Vale do Paraíba (maior região do Estado de São Paulo na produção do café). Com a crise do café houve o deslocamento para outras regiões do estado, o que atingiu inclusive a região de Araraquara.
10 Na pesquisa feita sobre esse processo não deu para identificar exatamente o ano em que Pedro
Morganti vendeu a Usina Monte Alegre e a Cia União dos Refinadores. O que sabemos é que Morganti comprou a Usina Monte Alegre em 1911 e depois a vendeu para comprar o Engenho Fortaleza (que posteriormente tornou-se a Usina Tamoio) em 1917, readquirindo-a em 1924.
Caires (1993) diz que, com o café, houve um processo de expansão e urbanização na região. Chegaram as ferrovias e muitos imigrantes para trabalhar nas lavouras de café. Com a extensão das estradas de ferro ligando a região com as zonas exportadoras e com a mão de obra de imigrantes chegando para trabalhar nas lavouras de café, criou-se as condições para a estabilização da economia cafeeira que favoreceu a criação de empresas, indústrias e comércio na cidade, então, através desse ciclo de produção agrícola se criou uma infraestrutura urbana. Após 1884, o café se consolidou como a principal atividade econômica na região de Araraquara.
Segundo dados da pesquisa de Caires (1993), entre 1888 e 1893 a estrutura agrícola do município estava bastante modificada, 64 fazendas existiam na cidade, sendo nove com produção de cana-de-açúcar e do café, as funções dos proprietários dessas fazendas variam entre senhores de engenho e cafeicultores, 11 eram apenas senhores de engenho e o restante eram cafeicultores. Entre 1890 e 1930, o café se transformou na base econômica da região e de Araraquara, apesar disso, não liquidou por completo a lavoura canavieira.
Contudo, ao mesmo tempo em que o complexo cafeeiro se estruturava, agrava-se a crise do café. A crise do café correspondia a um momento de colapso provocado pela superprodução, geada, seca e empobrecimento das terras. Nessas condições, resurgem e se desenvolvem as culturas de cana-de-açúcar, o algodão e a produção de cítricos (IANNI, 1984).
Ao romper-se a monocultura cafeeira, desenvolveram-se as culturas algodoeira e da cana-de-açúcar, além de outras. Rompiam-se a estrutura fundiária, cuja concentração a cafeicultura havia intensificado. Ao mesmo tempo, surgiam ou desenvolviam-se outras atividades produtoras, no campo e na cidade. As crises da cafeicultura provocaram o desenvolvimento das forcas produtivas (IANNI, 1984, p. 36).
Outro fator que acabou beneficiando essa transição foi anos mais tarde a crise econômica mundial iniciada em 1929, o que despertou no Estado São Paulo a transição da monocultura à policultura. As forças produtivas eram reorganizadas e destacavam novos dinamismos. Em âmbito nacional, foi adotada uma política de redução de produção com a erradicação de velhos e novos cafezais. É neste contexto de superprodução e baixa de preços do café que no município de Araraquara a cana-de-
açúcar começa a ganhar novo destaque no cenário econômico, apresentando-se como uma das alternativas para se sair da crise.
Para substituir as lavouras de cafezais por cana-de-açúcar, a Câmara Municipal de Araraquara criou subsídios com o objetivo de estimular os fazendeiros a promover a diversificação da produção agrícola, por exemplo: o algodão e frutas (laranja, banana e abacaxi), mas a cana-de-açúcar ocupava lugar privilegiado. Todavia, apesar dos incentivos à diversificação da produção, muitos fazendeiros apresentavam resistência em substituir suas lavouras de café, o que levou a Câmara Municipal de Araraquara a elaborar, em 1929 um projeto de lei que favorecia os engenhos:
Um projeto de lei que recebeu o número 59, isentando de quaisquer impostos municipais, durante 15 anos, a contar do início de funcionamento: a) os engenhos centrais que tivessem capacidade de moer no mínimo 250 toneladas de cana-de-açúcar em 24 horas; b) as destilarias que produzissem no mínimo, em 24 horas, 5.000 litros de álcool (CAIRES, 1993, p. 49).
É desse modo que a substituição dos cafezais por cana-de-açúcar se deu por interesses econômicos, segundo a autora, em virtude da crise da econômica cafeeira, os plantadores de café “teriam se valido da elevação dos preços do açúcar para mudar sua produção, passando para uma atividade que lhes parecia mais rentável” (CAIRES, 1993, p. 51). Dessa forma, o cultivo da cana-de-açúcar se expande no município, tornando-se uma de suas produções mais expressivas.
E é neste cenário de crise e decadência do café que Pedro Morganti adquiriu o Engenho Fortaleza e incorporou as várias fazendas de café que ficava ao redor da propriedade que eram vendidas a baixos custos.
Pedro Morganti soube aproveitar a crise do café e se valeu dos subsídios criados pelo município. A expansão da produção canavieira, tanto no Estado quanto em Araraquara estava vinculado a interesses econômicos em virtude da crise do café, desta forma, muitos cafeicultores e açucareiros teriam aproveitado os incentivos para a plantação de cana-de-açúcar como forma de buscar novos arranjos econômicos mais rentáveis.