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Neste tópico foi possível identificar que os trabalhadores do SAMU carregam o peso da responsabilidade pela sobrevivência e alívio da dor do outro. Essas ações, devido a sua gravidade, precisam ser realizadas com agilidade e precisão, pois quanto mais rápido concluírem, melhor será para o paciente que está sendo atendido e para aqueles que os esperam nas próximas ocorrências.

Então, fica claro que o ritmo de trabalho dos técnicos em enfermagem no SAMU é intenso; que cada minuto consumido numa ocorrência é valorizado e aproveitado ao máximo; que usam diversos meios para superar os obstáculos e encontrar soluções o mais rápido possível; que, portanto, a cooperação torna-se o coração de cada atendimento e principalmente daqueles que implicam em maiores riscos tanto para os profissionais quanto para os usuários.

O ritmo de trabalho, assim como as questões salariais e bonificações, está relacionado à ansiedade. Embora o SAMU não seja um serviço que impõe metas, o senso de responsabilidade e dever dos trabalhadores os impulsionam a acelerar para acompanhar a

velocidade do fluxo de ocorrências que chegam à central (Dejours, 1992). Essa situação está representada neste trecho das instruções ao sósia:

(…) a situação é o seguinte, você não tem muito tempo pra tá numa ocorrência, quanto mais rápido você terminar aquela ocorrência mais você fica livre pra outras (…) como são poucas equipes pra cobrir a cidade toda, então você tem que ficar em QAP o mais rápido possível (…) você tem que fazer seu serviço bem feito, porém (…) com mais agilidade (…) como você trabalhar em equipe, você tem a abertura de ajudar, auxiliar o enfermeiro, seja na abordagem (...) procedimentos, em tudo (…) a própria situação da ocorrência pede pra que a equipe seja um pouco mais ágil (…) (T.15 – Instruções ao sósia)

Para lidar com essa ansiedade, é necessário o desenvolvimento de defesas coletivas, próprias dos trabalhos realizados em grupo. Assim, há situações de trabalho que permitem a esses profissionais superarem as questões hierárquicas com muita frequência e agirem com autonomia. Esse poder de agir traz alívio aos indivíduos e satisfação quando a ação é bem sucedida.

Atualmente, com a inclusão do enfermeiro nas ambulâncias, os técnicos em enfermagem perderam uma parcela considerável da autonomia que possuíam. Isso porque quando trabalhavam em dupla com o condutor, estavam em uma posição próxima, senão de igualdade e seus superiores que ficavam na base central e as tensões e conflitos com a hierarquia ficavam longe do campo da ação.

Embora os técnicos sempre tenham sido limitados por dependerem da regulação médica, esse sentimento de limitação, com a entrada de um superior, no caso do enfermeiro, nas ambulâncias intensificou-se. A angústia que sentem diante do desejo de fazer o melhor e

dar tudo de si na ocorrência, entra em conflito com a impossibilidade de agir sem a regulação, sem a orientação dos superiores. Portanto, os técnicos agora atuam sob as ordens do médico regulador e os olhares atentos do (a) enfermeiro (a) fazem com que se sintam em muitos momentos de mãos atadas.

Cabe destacar que os técnicos entendem que sob vários aspectos, a presença do enfermeiro é algo positivo, pois é mais uma pessoa para agregar à equipe em termos de conhecimentos e habilidades, além disso, as responsabilidades foram redistribuídas. Entretanto, muitos aspectos negativos foram assinalados, principalmente em relação à autonomia.

Nesse sentido, o relacionamento com a hierarquia aparece como uma das fontes de sofrimento para estes profissionais, que se sentem muitas vezes sozinhos e inseguros. Não sabem a quem recorrer nos momentos de necessidade e se sentem amarrados entre tantas normas, protocolos e ordens superiores. Por essa razão, as ocorrências de maior gravidade são fonte de prazer no trabalho, pois como foi identificado anteriormente, nesses contextos a equipe mobiliza-se para a ação e a hierarquia fica em segundo plano.

Essa relação de desconfiança e perda da autonomia reflete na saúde desses trabalhadores, na qualidade de vida e consequentemente nos resultados de seu trabalho e, em longo prazo, os prejuízos psíquicos para esses indivíduos podem ser ainda maiores. Por isso, os atendimentos de maior gravidade parecem atrativos a estes profissionais, não apenas porque podem usar todas as suas capacidades, mas porque as tensões com a hierarquia diluem-se e a cooperação se sobressai.

O sistema de regulação também é uma fonte de desagrado para os indivíduos e contribui para o aumento da ansiedade, pois ficam muitas vezes de mãos atadas até que consigam contato com a regulação, como vemos na fala do participante abaixo:

O que a gente tem muita dificuldade no serviço (…) hoje é na parte de regulação (…) conseguir uma regulação mais rápida (…) a segunda regulação que tem que se falar com o médico pra saber qual o procedimento é bem mais demorado porque às vezes o médico tá em outras ligações (…) a gente tá com o paciente lá e (…) a família tá toda lá e estão cobrando que você faça alguma coisa e você não pode fazer alguns procedimentos sem ordem médica e fica aquela ou você faz ou você faz e às vezes a gente precisa (...) colocar na viatura e sair do local porque o público tá agressivo, às vezes bate na ambulância (…) (T.6).

A relação com os hospitais também aparece nessa categoria como uma fonte de sofrimento, isto porque o SAMU tornou-se um incômodo para os profissionais dos hospitais. Os médicos, enfermeiros e os próprios técnicos em enfermagem destratam frequentemente a equipe do SAMU, recusam-se a receber os pacientes e projetam na equipe a responsabilidade pela falta de aviso prévio da regulação, que, como já foi abordado anteriormente, é um processo falho, não por culpa dos médicos reguladores ou dos hospitais, mas devido às demandas dos serviços, à superlotação nos hospitais e aos mecanismos falhos de comunicação entre as instituições e o SAMU.

Tais achados, corroboram os estudos de Silva et al. (2009), que apontam o comprometimento da continuidade e qualidade do serviço prestado devido à ineficiência das condições de trabalho e infraestrutura da rede de assistência à saúde conforme pode ser constatado no relato a seguir:

(…) considero mais difícil (…) é deixar o paciente no hospital (…) você lidar com o médico, você chega ao hospital... (…) até porque não existe vaga nos hospitais (…)

Então assim, a gente briga muito, então essa é a parte mais difícil, é se estressar com o médico (…) pra ajudar meu paciente eu vou e eu brigo (…) (T.7).

Observamos então, que existem muitos conflitos interpessoais, mas a grande maioria deles ocorre devido às condições de trabalho, as limitações profissionais dos técnicos e aos constrangimentos organizacionais, tendo as normas e a posição da hierarquia como pontos centrais de dificuldades nesse processo.