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As proposições centrais desta abordagem funcionalista do voluntariado defendem que as ações neste contexto, que parecem ser superficialmente bastante similares, podem refletir marcadores diferentes dos processos motivacionais latentes e que as funções servidas pelo voluntariado se manifestam no desdobramento dinâmico desta forma de ajuda, influenciando os acontecimentos críticos de iniciação e manutenção deste comportamento de ajuda voluntária (Clary et al., 1998).

Assim, da mesma forma que algumas atitudes podem permitir às pessoas expressarem os valores basilares, também o serviço de voluntariado pode ser motivado por valores pertinentes que orientam a realização de contribuições humanitárias para a sociedade (Omoto & Snyder, 1995). Mais ainda, do mesmo modo que algumas atitudes podem proporcionar um sentido de compreensão do mundo, o voluntariado também pode atender à função de satisfação da curiosidade intelectual acerca das pessoas e dos problemas com quem contactam. Pode igualmente servir uma função mais social, facultando às pessoas oportunidades para conhecerem outros e estabelecerem relações, e desenvolverem laços sociais através do seu trabalho. Para finalizar, o voluntariado pode fornecer ferramentas de gestão de conflitos internos e ansiedades, isto é, o analisar dos seus problemas pessoais, da mesma forma que se pensa que algumas atitudes também o permitem (Omoto & Snyder, 1995). Posto isto, os autores propuseram correspondências na teoria funcionalista da motivação de acordo com as funções identificadas na teorização, considerando um conjunto de seis funções motivacionais no envolvimento em atividades de voluntariado (Clary et al., 1998; Omoto & Snyder, 1995; Snyder & Omoto, 2009).

2.4.1.1. Função Valores

Uma das funções relacionadas com o envolvimento em atividades voluntárias em organizações prende-se com a expressão dos valores relacionados com preocupações altruístas e humanitários para com os outros (Clary & Snyder, 1991; Clary et al., 1998). A ideia subjacente a esta função incorpora a hipótese geral de que os valores acerca do bem-estar de outras pessoas fomentam o comportamento de ajuda. Assim, os voluntários motivados pela função de valores envolvem-se nas atividades devido ao desejo intrínseco de ajudar outros menos afortunados. Esta preocupação com os demais é um traço característico dos que se voluntariam (Anderson & Moore, 1978), e a sua satisfação, tal como já mencionado, encontra-se associada ao completar do período esperado de serviço (Clary & Orenstein, 1991). Mais ainda, o modelo sugere que o voluntariado não só é guiado por valores da pessoa mas também ajuda os indivíduos a manterem-se fiéis a si próprios no que concerne a sua concepção de self, bem como permite a expressão de valores profundamente enraizados, convicções e disposições da personalidade (Clary & Snyder, 1991).

2.4.1.2. Função Compreensão/Conhecimento

A segunda função, denominada de knowledge-function, potencialmente relacionada com o voluntariado envolve a oportunidade deste permitir novas experiências de aprendizagem e a possibilidade do exercício de conhecimento, habilidades e capacidades que poderiam, caso contrário, permanecer por praticar. São indivíduos que procuram explorar as suas forças e ampliar a sua compreensão face à

causa com a qual colaboram, face a outros voluntários e à organização em que participam. O entendimento desta função é exemplificado pelo elevado número de voluntários na área da saúde mental e instituições ligadas à saúde, que esperavam receber benefícios relacionados com o autodesenvolvimento, aprendizagem, e uma maior variedade na sua vida através dos seus serviços de voluntariado (Clary et al., 1998). Deste modo, para Clary e Snyder (1991), esta função providencia novos insights aos voluntários relativamente às pessoas com quem contactam, satisfazendo deste modo a sua “curiosidade intelectual acerca do mundo em geral e do mundo social em particular” (p. 126). Consequentemente ao ganhar e melhorar a sua

compreensão acerca do mundo em que vivem, ou no afinar das suas competências, o voluntariado poderá igualmente proporcionar oportunidades para adquirir novas capacidades que inclusive poderão ser úteis ao nível da sua carreira.

2.4.1.3. Função Social

A terceira função que pode ser servida pelo voluntariado diz respeito às motivações relativas às relações com os outros. O voluntariado pode oferecer oportunidades para se estar com os amigos ou se envolver numa atividade socialmente aceite por outros de referência para o próprio. Desta forma, as pessoas podem voluntariar-se para conhecerem outros e fazerem novos amigos (i.e., expandir os seus círculos sociais, fazer contatos sociais ou criarem novas oportunidades sociais; Clary & Snyder, 1991), ou estarem com os seus amigos. Se estes ou outras pessoas significativas percecionam o trabalho voluntário com respeito, os indivíduos também podem envolver-se neste tipo de atividades numa tentativa de parecer/ser aceitável (Clary et al., 1998).

2.4.1.4. Função Carreira

A quarta função refere-se a benefícios que podem ser obtidos relacionados com a carreira (e.g., ganhar experiência profissional, aumentar perspetivas de emprego), a partir da participação no trabalho voluntário (Clary et al., 1998). No que concerne a função utilitária descrita por Katz (1960), esta função pode relacionar-se com a perceção do voluntariado como meio de preparação para uma nova carreira ou de manutenção de competências relevantes para a carreira.

2.4.1.5. Função Proteção

A quinta função, a ego-defensive function, baseia-se nas tradicionais preocupações da teorização funcional das motivações que envolvem os processos associados com o funcionamento do ego. Desta forma, ajuda as pessoas a lidarem com os seus conflitos internos, ansiedades e incertezas relativamente ao seu valor pessoal e competência. Relacionadas com as preocupações de defesa do ego (Katz, 1960) ou externalização (Smith et al., 1956), o centro destas motivações prende-se com a proteção do ego de características negativas do self e, no caso do voluntariado, podem servir para reduzir a culpa (Clary & Snyder, 1999) por terem sido mais afortunados do que outros e enquanto canalização de problemas pessoais. Consequentemente, algumas pessoas poderão encarar o voluntariado como uma forma de autoproteção, ou seja, enquanto meio para se protegerem da aceitação de conclusões indesejáveis ou desconfortáveis acerca do self (que pode ser ameaçado na ausência da perceção de um bom trabalho realizado ao nível do voluntariado), assim como trabalharem para resolverem os seus problemas psicológicos ou para

assegurarem que merecerão receber coisas boas no futuro (Clary & Snyder, 1991). Esta função de proteção oferece uma leitura e interpretação dos resultados das pesquisas de Frisch e Gerard (1981) em que alguns voluntários da Cruz Vermelha relatavam que se voluntariaram para fugir a sentimentos negativos (Clary et al., 1998).

2.4.1.6. Função Promoção de Autoestima (Enhacement)

Finalmente, a sexta função do voluntariado proposta deriva de indicações de que pode haver mais para o ego do que os processos de proteção, ou seja, especialmente na relação do ego com o afeto positivo, e enquanto meio de autoconhecimento e crescimento. Em primeiro lugar, pesquisas sobre o humor sugerem que os afetos negativos e positivos são dimensões separadas ao invés de extremidades de uma escala bipolar (e.g., Watson, Clark, McIntyre, & Hamaker, 1992; Watson, Clark, & Tellegen, 1988). Em segundo lugar, investigações sobre o humor e aspetos da ajuda referem diferentes mecanismos nos quais os humores, positivos e negativos, influenciam a ajuda (M Carlson, Charlin, & Miller, 1988; Michael Carlson & Miller, 1987; Cunningham, Steinberg, & Grev, 1980); no caso do humor positivo, as pessoas utilizam a ajuda como meio de manter ou aumentar os seus afetos positivos. Finalmente, no que concerne o voluntariado, encontraram-se evidências de reforços positivos, como quando alguns entrevistados relatam que se voluntariaram por razões de desenvolvimento pessoal ou para obter satisfações relacionadas com o crescimento pessoal e a autoestima. Assim, em contraste com a função de proteção no que diz respeito à preocupação com a eliminação de aspetos negativos em torno do ego, esta função envolve um processo motivacional que se

centra sobre o crescimento e desenvolvimento do ego, e envolve esforços positivos deste (Clary et al., 1998).