A par dos efeitos negativos sobre as capacidades do indivíduo, o envelhecimento promove e fortifica um recurso cognitivo de grande riqueza e utilidade - a experiência.
Um conjunto integrado de conhecimentos, armazenado na memória a longo prazo, permite ao indivíduo o desencadear de processos adaptativos face a diversas situações e de mecanismos compensatórios das suas limitações, fruto do processo de envelhecimento.
A este propósito, Marquié (1995) distingue quatro categorias de efeitos positivos da experiência sobre o desempenho dos mais velhos.
Em primeiro lugar sugere que a experiência favorece a eficácia cognitiva na medida em que permite ao sujeito familiarizar-se com as diferentes dimensões e graus de complexidade do meio, tornando-o capaz de resolver situações problema com uma maior economia de recursos cognitivos, isto é, reduzindo a carga de tratamento das situações. Na medida em que adquiriu um saber próprio, torna-se igualmente capaz de resolver positivamente as situações com que se depara, não necessitando de processos tão exigentes de controlo e de tratamento de informação.
De acordo com o mesmo autor, tal deve-se ao facto destes se basearem em conhecimentos de natureza procedimental e, contrariamente aos de natureza declarativa, são menos afectados pelos efeitos do envelhecimento.
Em segundo lugar, a experiência acumulada permite o desencadear de estratégias próprias de compensação das deficiências noutras componentes da actividade cognitiva. Por outro lado, o trabalhador mais experiente possui um profundo conhecimento dos tempos do sistema em que está envolvido, dos ciclos que se repetem, o que lhe favorece uma certa flexibilidade no uso dessas estratégias (De Keyser & Woods, 1986).
Concretamente no processo de tomada de decisão, podemos distinguir o uso de regras não compensatórias que, de acordo com a literatura, permitem aos mais velhos reduzir os pedidos de processamento cognitivo. Pelo contrário, os mais novos privilegiam o recurso a regras compensatórias2, o que os conduz a elevados "pedidos" de processamento (Johnson, 1990). De
acordo com Payne (1976, citado por Johnson, 1990), à medida que aumenta a complexidade da tarefa, os mais jovens mudam de pesquisa de informação de compensatória para não compensatória. Contudo, situações há em que o grau de exigência é tal que os mecanismos de compensação de que dispõe, não lhe permitem uma resolução eficaz da situação a tratar. Consciente das suas limitações, o indivíduo idoso e experiente desencadeia mecanismos para contornar a situação, concretamente evitando o confronto com elas, se lhe for dada essa possibilidade.
Regras não compensatórias - a pesquisa de informação é feita relativamente ao mesmo atributo para as diferentes alternativas, o que poderá levar a eliminar algumas destas últimas, após uma pesquisa incompleta.
Regras compensatórias - a pesquisa de informação é feita dentro da mesma alternativa em relação aos diferentes atributos. Tal pesquisa poderá levar a compensar um valor baixo de um atributo com outro atributo, relativamente à mesma alternativa.
O referido autor acentua ainda o papel que a experiência tem ao nível dos critérios de decisão e, baseando-se em Okun (1976), afirma que a experiência permite aos mais velhos privilegiar a precisão e, em algumas situações, a cautelosidade em desfavor da rapidez na tomada de decisão.
No entanto, os estudos parecem não culminar nas mesmas conclusões. É o caso de um levado a cabo por Johnson (1990) cujos resultados apontam para a não existência de diferenças significativas no tempo usado para tomar decisões, considerando o factor idade, embora os mais velhos se demorem habitualmente mais na análise de reduzida informação.
Note-se que várias são as limitações de alguns estudos transversais, nomeadamente o efeito de geração e de grupo e também de estudos longitudinais, como é o caso da possível confusão entre idade e os efeitos do "tempo de medição" (Arenberg, 1982).
Parece contudo haver maior consenso em relação à flexibilidade de certas estratégias usadas pelos operadores mais experientes, muitas vezes baseadas no conhecimento profundo que possuem sobre os tempos e os ciclos que se repetem. O trabalhador mais experiente interioriza-os de forma a impedir a produção de erros, baseando a sua acção mais na sua própria apreciação do sistema, em detrimento dos índices revelados pela instrumentação.
O mais experiente torna-se, cada vez mais, capaz de pôr em prática certos mecanismos de inferência que lhe permitem reduzir o espaço-problema, entre as quais:
• Analogias (possíveis graças a esquemas de acção que ele construiu durante a sua história e que, perante situações semelhantes, são evocadas);
• Metonimias (o que lhe permite partir de uma componente para o todo, a partir de um índice, constituindo o comportamento do sistema);
• Referências do passado (o sujeito interpreta um índice ou o comportamento de uma componente em função de um passado próximo);
• Probabilidades subjectivas (refere-se a acontecimentos associados as utilidades que orientam a sua acção);
• Reconhecimento de certos modelos (comparados aos memorizados e que reenviam às causas dos incidentes, por exemplo).
Apesar de permitirem reduzir a incerteza e a complexidade do sistema, estes mecanismos podem também gerar uma margem de erro pelo seu carácter operacional e heurístico e, se levados a extremos, resultar no que alguns autores chamam de "esclerose operativa" (De Keyser & Woods, 1986).
Um outro aspecto de grande interesse para o estudo ergonómico diz respeito às estratégias que, com o avançar da idade, o próprio trabalhador desenvolve no sentido de conseguir fazer evoluir as suas competências, mais concretamente ao nível da construção de conhecimentos a partir das experiências de trabalho.
Tratam-se das actividades meta-funcionais que têm como objectivo "construir novos instrumentos técnicos ou cognitivos potencialmente úteis no futuro para situações hipotéticas" (Falzon, 1994, p.l). Contrariamente às actividades funcionais, estas são orientadas não para a situação imediata em que o sujeito se encontra, mas destinam-se às execuções posteriores, procurando facilitar o desempenho. Uma característica igualmente interessante destas actividades é o seu carácter dinâmico e de difícil conclusão. À medida que se confronta com novas situações, o sujeito vai enriquecendo o seu instrumento meta-funcional. É assim o factor experiência que conduz o indivíduo a criar estes instrumentos e a alargar, progressivamente, o seu âmbito de aplicação.
A título de exemplo, no artigo anteriormente citado, o autor identifica um trabalho realizado por Poidevin (1993) inserido na actividade dos bombeiros. Naquele contexto, estes possuem um sistema de apoio ao momento da solicitação de auxílio externo, que categoriza os diversos tipos de intervenção e os respectivos meios a enviar para o local do incidente.
O curioso das observações foi que, os mais experientes, para além de se basearem menos neste sistema formal de apoio, criam o seu próprio conjunto de classes, não para colmatar uma necessidade imediata de intervenção, mas para intervenções similares futuras.
Uma das grandes vantagens deste tipo de instrumentos prende-se com as implicações que as rápidas mudanças tecnológicas provocam ao nível da estabilidade dos saberes no seio da organização. Há necessidade de criar mecanismos que favoreçam a evolução das competências, não só relativamente
a um número restrito de elementos, mas sim alargando ao máximo ao colectivo de trabalho. Este facto assume particular relevo quando falamos de contextos marcados por ocorrências inéditas. Podemos assim dizer que, uma forma de assegurar a transferência e a partilha de saberes e a evolução das competências é através das actividades meta-funcionais. Apesar deste facto, muitas vezes estas actividades são ignoradas, senão combatidas, por parte da organização, em vez de formalizadas e reconhecidas.
3. O erro humano como limite da capacidade adaptativa
"Humanum Errare Est"
Dos capítulos previamente introduzidos, destaca-se uma dimensão que merece particular atenção e que diz respeito às exigências adaptativas que são feitas ao trabalhador e da importância dos metaconhecimentos e da experiência na gestão da tarefa.
Perante a complexidade e reduzida estruturação que caracterizam muitas das actividades de trabalho, resta ao trabalhador a necessidade de desenvolver mecanismos de ajustamento constantes. De acordo com Saad (1995), podemos então considerar os erros, os incidentes e os acidentes como testemunhos dos limites da capacidade do sujeito em se adaptar às exigências da sua envolvente. Assim, urge o desenvolvimento de pesquisas que cheguem a uma estruturação hierárquica da tarefa e identifiquem as classes de actividades que caracterizam o trabalho real. Trata-se de procurar analisar, descrever e compreender as condutas adoptadas pelo sujeito em situação e considerá-las como ponto de partida da démarche (Dejours, 1995).
Esta forma de orientação leva-nos a pôr de lado as análises centradas em comparações entre as condutas manifestadas pelo sujeito e os ideais-tipo, construídos com base num processo artificial de abstracção. Conceber assim o factor humano, obriga-nos a incidir o nosso olhar, não sobre os erros humanos, mas sobre uma gestão dos recursos humanos tendo por horizonte o seu desenvolvimento.