Den mannlige orgasmen
Kap 6: Avslutning – oppsummerende drøftninger
Civilização holandesa no Brasil, dos brasileiros José Honório Rodrigues e
Joaquim Ribeiro foi publicada pela primeira vez em fins da década de 1930, quando a historiografia positivista começava a ser abandonada. Os autores mesclam várias propostas historiográficas, fundindo análise sociológica, história das mentalidades, antropologia e um ressaibo de positivismo, perceptível sobretudo num certo determinismo psico-biológico das raças. Rodrigues e Ribeiro declaram que não querem se ater nem na biografia – “tão em moda entre os historiadores romancistas dos nossos dias”86 – nem na vida administrativa – “tão ao gosto dos antigos historiógrafos”87. Pelo contrário, desejam:
Reconstituir o ambiente histórico-social, estudando as condições econômicas determinantes, os elementos raciais, culturais e lingüísticos, que concorreram pra definir o referido momento histórico88.
De modo que os autores estruturam sua obra por temas e não pela exposição cronológica dos fatos, num estudo mais sincrônico que diacrônico. As lutas de conquista e de restauração recebem pouco destaque, e Calabar nem é mencionado. O texto de Rodrigues e
84 Idem, ibidem. 85 Idem, p. 217.
86 Rodrigues e Ribeiro, Civilização holandesa no Brasil, p. 5. 87 Idem, ibidem.
Ribeiro tem menor vocação narrativa que os anteriores89, mas é possível captar certas linhas gerais que conduzem a análise. O tema central, que dá unidade ao livro, é o exame de como a civilização flamenga, com sua mentalidade específica, se desenvolveu em solo tupiniquim.
Segundo Civilização holandesa no Brasil, a mentalidade flamenga teria sido formada durante a luta pela independência política, de modo que o pensamento holandês seria fortemente marcado pela idéia de liberdade. Conseqüentemente, “mal surgida a República, os Países-Baixos tornaram-se verdadeira capital das idéias liberais da época”90, atraindo filósofos, cientistas e artistas de toda a Europa.
Se não foram iniciadores do movimento renascentista, os flamengos teriam sido os primeiros a organizar uma comunidade baseada nos ideais humanistas e no liberalismo econômico que hoje fundamentam o que nós chamamos de “civilização ocidental”. Especialmente a doutrina do liberalismo econômico encontrou solo propício ao seu desenvolvimento através da pregação da liberdade comercial e marítima. Portanto, o liberalismo teria sido o propulsor do colonialismo holandês.
A consciência da liberdade nacional deu ao homem holandês conseqüentemente um verdadeiro “complexo de superioridade”, que vai ser a mola espiritual de seu expansionismo ultramarino91.
Como tal civilização se comportou – e que impacto ela recebeu – em seus esforços colonizadores? Esta questão perpassa os diversos tópicos problematizados ao longo da obra, mostrando-se mais contundente em alguns e mais apagada em outros. Narra-se a história de um ideal (do liberalismo) e não de um povo ou de uma pátria.
De acordo com Rodrigues e Ribeiro, os projetos iniciais dos holandeses para o Brasil não previam uma colonização fixada ao campo. Apesar de que “a cobiça holandesa foi excitada pelo açúcar”92, os holandeses teriam pensado apenas em se apoderar do comércio. Somente depois eles perceberiam a necessidade de investir na produção. A Companhia teria sonhado com lucros instantâneos, desejando tomar territórios já produtivos ou encontrar minas no interior. Essa foi a razão pela qual, ao invés de tentar dominar o norte brasileiro (onde teria sido fácil dominar o Amazonas, e daí chegar ao Peru), os holandeses procuraram conquistar o sul, tentando tomar a Bahia e planejando chegar até Buenos Aires93.
89 Wätjen também estrutura sua obra por temas gerais, mas ainda mantém uma parte do texto voltada para a
narrativa cronológica dos acontecimentos que marcaram o início e o fim do Brasil holandês.
90 Rodrigues e Ribeiro, op. cit., p. 199. 91 Idem, ibidem.
92 Rodrigues e Ribeiro, op. cit., p. 86.
93 Raciocínio parodiado em Calabar quando, em um ataque de megalomania, Nassau proclama “Envie
imediatamente forças para dominar o Maranhão, Sergipe e Chile... De posse do Chile, conquistaremos mi Buenos Ayres querido, de onde poo00demos avanças incontinenti sobre as minas de prata da Bolívia.” (Buarque e Guerra, Calabar, p. 89.
Sem um plano de colonização do meio rural, os holandeses precisaram fazer uma aliança com os senhores-de-engenho portugueses a fim de manter a indústria açucareira porque, frustrada a procura por minas, essa era a única riqueza interessante ao comércio. Assim, os senhores-de-engenho continuaram a ser a classe dominante do Brasil holandês, impedindo o desenvolvimento da democracia. A civilização flamenga também precisou abrir mão de seus pudores antiescravistas e ativar o tráfico negreiro a fim de obter mão-de-obra. Defensores da liberdade na Europa, os holandeses fizeram dos escravos africanos “a classe trabalhadora sobre cujos ombros pesava toda a vida econômica da colônia”94.
O desinteresse pela produção era tão grande que o planejamento inicial previa que toda a colônia deveria ser sustentada por víveres mandados da metrópole. Mesmo depois que passaram a investir na indústria açucareira, os holandeses continuaram a depender de alimentos importados da Holanda porque tanto a agricultura quanto a pecuária eram integralmente voltadas para o fabrico de açúcar. Conseqüentemente, por diversas vezes, o Brasil holandês sofreu com a fome.
Quanto às áreas urbanas, a situação não era mais confortável. Povoada por aventureiros atraídos pela promessa de enriquecimento fácil e rápido (mesmo que nem sempre lícito), Recife se mostraria um antro de corrupção, meretrício e criminalidade. Rodrigues e Ribeiro notam que o calvinismo era até mais rígido moralmente que o catolicismo (o que, na visão deles, seria uma vantagem da doutrina calvinista), “porém toda essa influência quebrava-se com o preconceito de que ‘além da linha do equador não havia pecado’. E assim todos entregavam-se a grandes desregramentos morais”95.
Os projetos da Companhia revelaram-se equivocados. A previsão de lucro imediato não se confirmou e, além das campanhas militares, foi preciso arcar com a produção açucareira e com outros gastos. Rapidamente, a Companhia se viu trabalhando no vermelho. Acuado pelos acionistas, o Conselho dos XIX cortou investimentos e pesou a mão sobre os colonos, chegando a se apoderar de 75% dos produtos dos engenhos, provocando a quebra dos agricultores. Com a indústria do açúcar em crise, a Companhia passou a cobrar as dívidas dos senhores-de-engenho, desapropriando fazendas, escravos e outros bens. Revoltados, os senhores-de-engenho organizaram a insurreição que pôs fim ao Brasil holandês.
Como se pode ver, Civilização holandesa no Brasil, narra a ruína das crenças de uma civilização. A perda do Brasil holandês seria uma conseqüência das contradições
94 Idem, p. 232. 95 Idem, p. 214.
inerentes ao liberalismo. Os ideais liberais levaram os holandeses a construir uma nação humanista, orgulhosa de sua ciência, arte e filosofia.
Esses ideais, todavia, por seu próprio conteúdo dialético, estavam fadados a se corromper.
A liberdade nacional levou o holandês à guerra de conquista. A liberdade dos mares levou o holandês ao imperialismo colonial.
Freud chamaria a essa transformação, ou antes, a esse abastardamento dos ideais, ambivalência.
Qualquer que seja o batismo, a verdade é que os mais altos ideais trazem sempre em si mesmos os germens da própria destruição96.
O liberalismo desempenha as funções de “herói” e de “vilão”, tendo sido o responsável pela fundação, ascensão e queda do Brasil holandês, “é essa interpretação dialética, que explica satisfatoriamente o esplendor inicial e a decadência posterior do expansionismo batavo”97.
Nassau seria o homem que se viu no vórtice dessas contradições. “Educado dentro desses ideais de liberdade”98, o conde entrou em conflito com a Companhia justamente por defender as crenças da civilização que possibilitou o surgimento daquela. “O conflito de Nassau com a Companhia constitui um símbolo do conflito entre os ideais e os interesses
mercantis dos dirigentes e financiadores da conquista”99. De acordo com os dois
historiadores, tais interesses mercantis “representavam já a conspurcação daqueles ideais”100. As contradições do período nassoviano revelariam o contra-senso intrínseco do liberalismo, mostrando a “transformação dos ideais em interesses de dominação e imperialismo”101. Segundo Rodrigues e Ribeiro, só se pode compreender a figura do conde neste contexto, pois “é esse o debuxo, que define a figura do estadista”102.
Sem lamentar a formação ou a queda do Brasil holandês, e colocando o liberalismo na berlinda, Rodrigues e Ribeiro enxergam grande riqueza histórica no período nassoviano, principalmente porque este teria sido “o primeiro reflexo sul-americano do Renascimento europeu”103. Até então, a colônia brasileira fora marcada pela mentalidade jesuítica, que era “era a negação do espírito do Renascimento”104. A presença – ainda que fugaz – da civilização holandesa no Brasil teria desestruturado o espírito jesuítico, deixando uma marca indelével dos ideais humanistas na mentalidade da colônia.
96 Idem, p. 200. 97 Idem, ibidem. 98 Idem, ibidem. 99 Idem, p. 201. 100 Idem, ibidem. 101 Idem, ibidem. 102 Idem, p. 202. 103 Idem, p. 263. 104 Idem, p. ibidem.