Um dos parâmetros centrais da PSJ é a relação entre a formação afetivo-emocional da identidade do Ego (sujeito) e do Outro (objeto)6 e o aprendizado. No conceito de Byington (2003, p. 17) o “outro” significa “tudo que é o não-ego na consciência, seja uma entidade viva ou não”. Para tanto, a PSJ possui como foco de análise a vivência, a relação e o desenvolvimento simbólico da psique, na formação da identidade do Ego e do Outro. Considerando a consciência como sendo formada por inúmeras polaridades - Ego-Outro e Outro-Outro, representando o sujeito e o objeto, a PSJ resgata a relação dessas polaridades, as quais por muito tempo foram negadas, devido ao culto à individualidade. Assim, no centro da consciência está sempre o Ego, junto com o Outro e o Outro-Outro. Exemplificando, quando uma pessoa fala do seu amor por alguém (mãe/pai/amigo, etc.) identifica-se a presença do Ego-Outro na sua consciência, mas quando essa pessoa fala do amor entre duas pessoas (pai e mãe/irmãos, etc.) aborda a relação
66 A inclusão da palavra sujeito após o termo Ego e objeto após o termo Outro é acrescentada
Outro-Outro na sua consciência. De forma semelhante, quando um professor fala de um aluno, expressa a presença da polaridade Ego- Outro na sua consciência, e ao presenciar a conversa entre dois alunos, o professor registra a conversa em função da polaridade Outro-Outro. Segundo o teórico, em toda a psique, a formação da identidade do Ego se dá com a identidade do não-Ego, ou seja, do outro. Esse fato ocorre em condições de igualdade normais ou anormais, a partir das vivências. O desenvolvimento do Self se expressa no processo de diferenciação do Ego e do Outro.
Segundo Byington (2003), o primeiro autor junguiano a destacar as posições arquetípicas do Ego e suas características foi Erich Neumann, em 1955, mencionando as cinco maneiras características da relação Ego-Outro na consciência, em um determinado momento do Self. Qualquer coisa que seja vivenciada, e assim se torne um símbolo, é elaborada em uma destas posições: indiferenciada, insular, polarizada, dialética e contemplativa.
a) Posição indiferenciada – é o estágio do desconhecido. O Ego não consegue saber de imediato o potencial simbólico ativado pelo Self. Essa posição traduz o estado inicial de aprendizagem, ou seja, confusão criativa.
b) Posição insular – é o estágio da grande intimidade entre o Ego e o Outro. Embora em setores separados, estabelecem uma comunicação inconsciente, frequentemente pela intuição e pelas percepções extra-sensoriais. Essa posição permite a familiarização com os conteúdos, desde que seja respeitado um tempo de maturação. Nessa perspectiva, o processo de aprendizagem não pode ser atropelado com conceitos novos a cada momento, o que pode violentar o aprendizado. Reconhece-se a importância dessa posição para que o Self se habitue à vivência do novo e, assim, amadureça.
c) Posição polarizada – compreende a organização e a previsibilidade na relação Ego-Outro, ou seja, a causalidade objetiva. Nessa posição não há intimidade ou diálogo, mas limites bem definidos, por exemplo: professor fala e ensina e aluno escuta e aprende. O poder de controle e previsão permite maior segurança ao Ego, porém gera a incompatibilidade, com a posição insular, tornando difícil transcendê-la para a posição dialética.
d) Posição dialética – a interação mantém os aspectos íntimos e individualizados da posição insular e mantém a abstração e organização da posição polarizada. Busca essencialmente a
relação de encontro. Inicialmente, nada é certo ou errado, expressando um padrão de alteridade.
e) Posição contemplativa – a característica do desapego diferencia essa posição das quatro descritas anteriormente. Essa posição propicia uma gestalt totalizadora da união do Ego e do Outro.
Considerando as posições arquetípicas do Ego, torna-se importante salientar o papel fundamental exercido pela vivência durante a aprendizagem. Byington (2003) argumenta que a vivência constrói a identidade do Outro – conteúdo aprendido, ao mesmo tempo em que constrói a identidade do Eu.
A forma natural de aprendizado pela vivência é transformada na PSJ em filosofia e método de aprendizagem, baseada na formação da identidade do Ego e do Outro na consciência, através da vivência e da elaboração dos símbolos estruturantes. Adicionalmente, o modelo proposto para a formação simbólica do Ego inclui as polaridades passiva e ativa, ou seja, a polaridade passiva é assumida em um primeiro momento pelo Ego, e, em segundo momento, adota a atitude ativa no processo de elaboração da vivência para integrar os significados dos símbolos presentes na situação. Dessa maneira, o Ego vai assumindo uma atitude cada vez mais ativa, permitindo a relação dialógica na elaboração dos símbolos com as funções estruturantes. A interação, passivo-ativa reforça um aspecto essencial no processo de aprendizagem, ao estimular o aluno a buscar, a descobrir, mostrando o caminho a ser percorrido, a fim de, em um segundo momento, o próprio aluno assumir o comando do processo, e contribuir também para o aprendizado do professor. Caracteriza-se assim, um vínculo de inter- relações favoráveis para a formação do Self, que une os elementos do contexto. Frente a esse método, o professor assume a responsabilidade de desenvolver sua criatividade, associando subjetivo e objetivo, para apresentar aos alunos conteúdos prenhes de significados, simbólicos, pautados na vivência dos fatos. Assim sendo, a pedagogia da vivência não está centrada nem no sujeito que aprende, nem no objeto aprendido, pois o foco central e absoluto é a “relação” do Ego com o Outro dentro do Self.
Nessa perspectiva, para construir o saber do Self, é preciso ultrapassar o paradigma do aprendizado dominantemente racional, que compromete e aprisiona o desenvolvimento do ser e sua relação com a totalidade da vida. Assume importância um aprendizado que inclui a própria vida, para gerar seres vitalizados de emoção e encantamento.
Nesse enfoque, a relação da avaliação do processo está centrada na maior ou menor capacidade do indivíduo de transpor o aprendido ao seu processo existencial. Assim, a noção de transformação da consciência durante o aprendizado, tanto dos professores como dos alunos, ocorre dentro da dialética entre o novo e o velho, originando novas sínteses, e, por conseguinte, novos estados de consciência.
Inicialmente, esse processo gera um estado de confusão criativa, denominado de indiscriminação, representando importante papel na criação de conhecimento. Quanto mais intenso esse processo, maior a transformação do Self, em decorrência dos novos conhecimentos adquiridos. A ausência de indiscriminação é sinal de que a vivência não afetou existencialmente a relação Ego-Outro. Portanto, no processo de aprendizagem, a discriminação caracterizada pelo excesso de clareza, conteúdos prontos e conceitos fechados, sem a participação dos alunos de forma racional e emocional, impede a elaboração simbólica criativa. Por outro lado, o excesso de indiscriminação poderá produzir resistência por parte dos alunos e, se não for percebida pelo professor, corre o risco de tornar-se defensiva, gerando sérias dificuldades no aprendizado. Assim, observar a dinâmica íntima do aprendizado dos alunos, a atitude e a forma de expressar-se, auxilia a identificar o que ocorre em sua psique.