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In document Veg i vest [1986] (sider 21-24)

Por trabalho, entende-se tal termo como o exercício intelectual ou material para se conseguir alguma coisa, uma ação humana em busca de um objetivo almejado; sinônimo de esforço, labutação, lida ou luta. Em termos de psicologia, trabalho se caracteriza por um tipo de ação da qual o homem atua de acordo com certas normas sociais sobre uma matéria a fim de transformá-la. Para física, trabalho é o esforço necessário para se vencer uma resistência. Independentemente da área onde se vê o termo exposto, trabalho pressupõe três elementos básicos, como se fosse um tripé: ação, esforço e transformação.

A desvalorização do trabalho, como forma criativa da atividade humana se desenvolver e se aprimorar, teve sua origem inicial no sistema fabril (Revolução Industrial) e especialmente no desmensuramento do trabalho gerado pela introdução do Taylorismo e, mais em geral, dos chamados sistemas Fordistas de gestão. O Taylorismo pressupõe a separação entre a parte produtiva e administra o que inicia um processo de segregação dos funcionários por competências, ao passo que o Fordismo, ao segmentar o trabalho por operações, aumentou a produtividade em detrimento de um enfraquecimento no conhecimento produtivo dos funcionários, uma vez que não tinham o pleno domínio do conjunto das operações para produzir o item final. Por exemplo, o funcionário que fazia algumas soldas não tinha conhecimento técnico para produzir o carro ao final da linha, embora seu trabalho esteja totalmente contemplado lá. Ao fim de uma cadeia, o trabalhador fica refém de sua própria função, pois não consegue sua independência para produzir sozinho, bem como não consegue se estruturar para dar um passo além e se firmar.

Taylorismo, ou administração científica, é o modelo de administração desenvolvido pelo engenheiro estadunidense Frederick Winslow Taylor (1856-1915), que é considerado o pai da administração científica. Caracteriza-se pela ênfase total

nas tarefas, objetivando aumentar a eficiência da empresa a partir da ampliação da eficiência em nivel operacional. De outro ponto, numa perspectiva aplicada, idealizado pelo empresário estadunidense Henry Ford (1863-1947), fundador da Ford Motor Company, o Fordismo é um modelo de produção em massa que revolucionou a indústria automobilística na primeira metade do século XX. Ford utilizou à risca os princípios de padronização e simplificação de Frederick Taylor e desenvolveu outras técnicas avançadas para a época. Suas fábricas adotavam por sinal uma estrutura produtiva totalmente verticalizada, onde a própria empresa dominava o fornecimento de matérias-primas para suas fábricas, reduzindo custos e controlando processos e padrões de qualidade. Ford possuia desde fábricas de vidros a plantações de seringueiras no Brasil, incluindo até uma siderúrgica para lhe fornecer aço e outros metais da qual necessitava.

O trabalho se converte na repetição extenuante do mesmo movimento, realizado infinitas vezes, num lapso de tempo pré-determinado e imposto pela lógica da série.

A cultura consumista atual de certo modo escraviza o indivíduo pelo fetiche proporcionado pelos objetos e porque impulsiona a “privatização” das vidas. Isso ocorre porque, para adquirir os produtos da qual se deseja, é preciso dinheiro e para se obter o dinheiro, é preciso trabalhar. Com uma oferta cada vez mais ampla de produtos variados e desejos cada vez mais intensos, o indivíduo se submete a situações desgastantes e tensas no mercado, até pela impossibilidade de pensar em algo próprio. Ou seja, para adquirir aquilo que necessita para garantir a sobrevivência, o indivíduo precisa trabalhar e vender sua força produtiva ao mercado. Num processo amplo, a cada venda de potencial de trabalho em busca de produtos, mais e mais pessoas consomem itens produzidos em outras empresas,

até em outros países. De certo modo, as empresas se posicionam de um lado do mercado de trabalho como consumidoras de mão de obra e isso faz com que barganhem, por exemplo, salários e condições adequadas para o trabalhador exercer sua função dentro daquilo que seria o ideal, o que traz mais retorno (dentro do pensamento da boa e velha teoria da “Mais Valia” de Marx). Isso faz com que o indivíduo seja privatizado, porque se por um lado ele obtém o dinheiro, por outro ele precisa bancar a própria existência e consumir, havendo uma troca, um retorno entre todos que se inserem num mercado de trabalho. As empresas, literalmente, escravizam o funcionário, que delas precisam para se manter.

A desvalorização do trabalho é produzida pela modificação das relações sociais constantes e a instalação de um total do trabalho ao capital. Isso quer dizer que o trabalho, ao invés de ser um propósito para atingir um fim, virou apenas um meio, apenas para obter dinheiro, ou seja, as pessoas se tornaram apêndices das máquinas que antes operavam. A industrialização e a crescente substituição dos postos de trabalho pelas máquinas levaram o homem a degradar aos poucos sua própria condição de trabalhador, se submetendo a situações de grande esforço físico e psicológico para garantir o próprio sustento. Com o desemprego batendo à porta, segundo Moulian, as pessoas se imergem num mundo laboral praguejado de incertezas e inseguranças, com o trabalhador submetido às coações disciplinares e à vontade de chefes e patrões. Porém fica a dúvida sobre como solucionar esta questão? “Transferir para o mercado a tarefa de recomodificar o trabalho é o significado mais profundo da conversão do Estado ao culto da “desregulamentação” e da “privatização”.” (BAUMAN, Zygmunt; 2007)

Neste caso, Bauman argumenta acima que o Estado está longe de ser um agente regulamentador eficiente, pois adota uma postura extremamente empresarial

ao gerir suas próprias instituições. Logo, não há como agir a favor de um trabalhador da iniciativa privada a partir do momento que procura equiparar os servidores públicos a eles. Assim, é preciso se criar outras instâncias para tal. Nem os sindicatos servem, pois geralmente estão posicionados não em caráter neutro, mas ou numa extremidade 100% empregados ou então na outra ponta, vinculados aos interesses dos empregadores, servindo de engodo à classe profissional.

Quando se trata de luxo, muitos indivíduos acreditam que os consumidores são na realidade “bon vivants” , alheios ao trabalho diário e da rotina estressante em detrimento de uma vida cheia de regalias. Na realidade, esta idéia bastante difundida se origina ainda na Idade Média, onde uma nobreza era 100% mantida pelo poder real (ou seja, sustentada com seus luxos por meio de dinheiro público), e depois se difundiu com o estilo de vida despojado dos burgueses que começaram a se multiplicar. Isso, na realidade, não reflete a atual conjuntura do mercado de luxo, muito mais desenvolvida e muito mais organizada, onde uma classe média usufrui de suas qualidades técnicas de trabalho para obter ganhos e lucros, o que lhes sustenta e permite algumas regalias, do gênero compras de itens mais sofisticados por exemplo.

O uso do dinheiro obtido com o próprio trabalho é inerente não apenas à atividade exercida, mas também ao repertório cultural do indivíduo, onde se exerce por parte deste um livre arbítrio de optar ou não por um caminho na qual irá dispender seu dinheiro. Ou seja, uma pessoa tem a liberdade de escolhe entre usar R$ 20.000,00 que tem na conta para ações que vão desde investir em aplicações rentáveis (dinheiro gerando mais dinheiro), até comprar um colar de pérolas numa joalheria famosa.

Há cada vez mais uma classe trabalhadora bem sucedida consumindo o luxo, não apenas por uma questão de gosto sofisticado que o salário permite desfrutar, mas porque cada vez mais a rotina faz com que as pessoas relaxem e extravasem suas frustrações e agonias do trabalho supridas com o consumo de artigos seletos, para poucos. É quase como se a pessoa usasse o artigo de luxo como uma terapia para seus problemas.

In document Veg i vest [1986] (sider 21-24)