de consumidores, sendo o aspecto central da elaboração de tais bens a sua adequação à função e o seu valor de uso. Conforme compreendem Leon e Montore, esta caracterização conferiu ao desenho industrial um papel junto ao Estado como um dos viabilizadores de um projeto público de desenvolvimento nacional: “ao longo dos anos setenta, o design parecia encontrar
seu caminho em direção a incorporar-se às iniciativas estratégicas do país, à modernização e às políticas multinacionais de desenvolvimento” (leon e montore: 2008, 77).
Este entendimento sobre a noção e a prática do desenho industrial/design, que é ao mes- mo tempo modernizante e instrumental, passou a ceder espaço, a partir dos anos 80, a uma outra compreensão das palavras e da prática em questão, que associa o termo inglês aos va- lores propriamente simbólico-distintivos dos objetos, ou seja, a um desenho tido como “mais aprimorado” (por vezes até luxuoso), inclusive no caso de bens de uso corriqueiro e consumo cotidiano, capacitando-os a exercer propriedades de diferenciação social (bourdieu: 2008a).
A emergência da acepção do termo “design” com ênfase nas propriedades simbólico-dis- tintivas dos bens de consumo, por sua vez, é uma consequência do esgotamento do ciclo desen- volvimentista da economia brasileira, cujos efeitos objetivos são discutidos por Paulo Eduardo Baltar no artigo Estagnação da economia, abertura e crise do emprego urbano no Brasil (1996). Nesse artigo, o autor faz um balanço das transformações do emprego urbano no Brasil, GHVGHRVHXÀRUHVFLPHQWRHQWUHRVDQRVHDWpDDEHUWXUDGDHFRQRPLDQDGpFDGDGH discutindo, em especial, alguns indicadores da deterioração dos salários das ocupações urba- nas. Dentre esses indicadores, Baltar salienta tanto a heterogeneidade das ocupações quanto a enorme variação de suas remunerações, vigentes ao longo de todo o período analisado; salien- ta também a alta rotatividade no emprego, especialmente no caso de indivíduos detentores de SRXFDRXQHQKXPDTXDOL¿FDomRSDUDRWUDEDOKRFRQGHQDGRVjSHUSpWXDPXGDQoDGHRFXSDomR HjLPSRVVLELOLGDGHGHHVWUXWXUDomRGHXPDFDUUHLUDSUR¿VVLRQDODVFHQGHQWH'HVWDFDDLQGD a pouca capacidade do aparelho produtivo brasileiro gerar oportunidades reais de constitu- LomRGHFDUUHLUDVSUR¿VVLRQDLVFRQVLVWHQWHVGHYLGRjDVVRFLDomRHQWUHDFODVVHHPSUHJDGRUD os sindicatos e o Estado brasileiro, que favoreceu “o livre arbítrio dos empregadores na con-
tratação, uso, remuneração e dispensa dos empregados”, num “regime de uso predatório da IRUoDGHWUDEDOKRTXHQmRWHPHPSUHJRHVWiYHOQmRVHTXDOL¿FDSUR¿VVLRQDOPHQWHHpPDO remunerada” que, por sua vez, “contrasta com o nível tecnológico e organizacional atingido pelo aparelho de produção de bens e de prestação de serviços” (baltar: 1996, 84). O autor GHVWDFDSRU¿PTXHDEDL[DUHPXQHUDomRHDVSROtWLFDVGHHPSUHJRGHVIDYRUiYHLVjFRQVWLWX- ição de carreiras consistentes foram acentuadas a partir do golpe militar de 1964, gerando uma conjuntura de “violenta repressão às atividades sindicais e partidárias, num retrocesso que
durou 20 anos, tendo ocorrido exatamente num momento crucial de consolidação do desen- volvimento da economia nacional” (baltar: 1996, 85).
90
No que diz respeito à estagnação da economia brasileira ocorrida nos anos 80, bem como aos seus efeitos sobre os salários, Baltar destaca alguns pontos: (1) o aumento dos “empregos
formais que exigem uma instrução especial e são ocupados por adultos em plena maturidade SUR¿VVLRQDO” (baltar: 1996, 90); (2) o aumento da proporção de trabalhadores com renda inferior ao salário mínimo, chegando a 57% da população economicamente ativa; (3) o au- mento da participação das mulheres na atividade econômica; (4) a diminuição da quantidade de trabalhadores no setor agrícola; (5) a diminuição da renda média dos 50% mais pobres em quase 20%, no período de 1981 a 1989; (6) a elevação da renda média dos 5% mais ricos em 29%, e ainda a dos 15% seguintes em 13%, no mesmo período; (7) a geração de empregos em proporção inferior ao crescimento da população em idade para o trabalho; (8) o aumento im- pressionante da ocupação não-agrícola num período de 10 anos, passando de 30,3 milhões de pessoas, em 1979, para 45,7 milhões, em 1989, “principalmente, no comércio e numa variada gama de prestação de serviços como administração pública, educação, saúde, alimentação e alojamento, reparação e manutenção, limpeza e vigilância e todo um conjunto de serviços de apoio à atividade econômica” (baltar: 1996, 91).
Em seu artigo A reestruturação da economia brasileira: desnacionalização e desem-
prego (2004), Rosélia Piquet também analisa as mudanças promovidas na economia do país
desde os anos 70, e seu impacto sobre a indústria nacional e a geração de empregos, com es- pecial destaque para a onda de privatizações ocorrida nos anos 90, e também para a abertura indiscriminada do mercado brasileiro às importações. Ela aponta que, a partir daquela déca- da, tornou-se evidente o desaparecimento da estrutura econômica e produtiva que, até então, vinha sustentando a economia e a modernização brasileiras, e que caracterizava o paradigma no qual deu-se a a fundação da esdi e do qual ela foi uma decorrência. De acordo com a au- tora, essa estrutura contava com uma combinação de (1) empresas estrangeiras, (2) empresas familiares nacionais de grande porte e (3) empresas estatais, responsáveis, respectivamente: (1) pela produção de bens de consumo duráveis (indústria automobilística, etc.); (2) pela produção de bens de consumo não-duráveis (alimentos, etc.) e; (3) pelo fornecimento de insu- mos básicos (mineração, energia etc.) e também pelo investimento pesado em infra-estrutura. Piquet aponta que tal estrutura foi desmontada a partir dos anos 90 por meio do Programa Nacional de Desestatização, o que transferiu à iniciativa privada o controle de 124 estatais (de variados setores, tais como siderurgia, mineração, ferrovias e estradas, portos, energia, água, transportes urbanos, telefonia, água e esgoto), ocasionando, por exemplo, a fragilização das empresas que eram, até então, fornecedoras das estatais, e também povocando uma onda de demissões. Também a abertura comercial às importações e a ausência de políticas industriais são discutidas pela autora, em face da vulnerabilidade a que foram submetidas as indústrias brasileiras:
Foi, portanto, só em 1990, com a abrupta abertura às importações, que as empresas aqui instaladas (nacionais ou estrangeiras) se viram obrigadas a pensar em redução de custos, aumento de produ-