No Brasil, Soares (2002), em seu artigo intitulado “Novas práticas de leitura e escrita: letramento na cibercultura”, afirma que “[o] uso da tecnologia digital suscita questões específicas de natureza diversa, linguística” (SOARES, 2002, p. 151) e, ainda:
[...] a hipótese é de que essas mudanças tenham consequências sociais, cognitivas e discursivas, e estejam, assim, configurando um letramento digital, isto é, um certo estado ou condição que adquirem os que se apropriam da nova tecnologia digital e exercem práticas de leitura e de escrita na tela, diferente do estado ou condição – do letramento – dos que exercem leitura e escrita no papel. (Ibidem, 151).
Assim, Soares (2002) explicita a reconfiguração de um novo letramento, o digital. Poderíamos, então, dizer que os novos textos, práticas discursivas, games, mensagens de celulares, chats, blogs, wikis e microblogs exemplificam práticas de letramento digital.
O termo “letramento digital” traz discussões com relação à expressão, como as que encontramos na literatura: eletronic literacy (letramento eletrônico), computer literacy (letramento computacional), media literacy (letramento midiático), informational literacy (letramento informacional), digital competence (competência digital), digital literacy (letramento digital). Porém, as questões mais controversas e polêmicas se referem
principalmente à/às abordagem/abordagens teórica/teóricas sobre o conceito. Alguns autores, como Lanham, consideram que o letramento estendeu a “habilidade para ler e escrever” para a
“habilidade para compreender informação”. Lanham afirma que ser letrado digitalmente
envolve “ser hábil para decifrar imagens complexas e sons, bem como as sutilezas sintáticas das palavras” (LANHAM, 1995 apud LANKSHEAR; KNOBEL, 2006, p. 12).
Um autor bastante citado é Gilster, em sua obra Digital Literacy, de 1997. Ele afirma que o letramento digital envolve “adaptar nossas habilidades para um evocativo meio novo, [e] a nossa experiência de internet será determinada pela forma como dominamos suas competências essenciais”59 (GILSTER, 1997 apud LANKSHEAR; KNOBEL, 2006, p. 13). Gilster identifica quatro competências-chave do letramento digital: reunir conhecimento, avaliar informações, pesquisar, e navegar em rotas não-lineares (hipertexto). A caracterização forjada por Gilster diz respeito a uma ideia tradicional do letramento: “habilidade de ler, escrever e além disso, lidar com informações utilizando as tecnologias e os formatos da atualidade – uma habilidade essencial para a vida” (GILSTER, 1997 apud LANKSHEAR; KNOBEL, 2006, p. 13).
Notamos que definições como essas e tantas outras de letramento digital levam em conta uma visão unitária do letramento, como algum tipo de “coisa”, uma capacidade ou habilidade ou domínio de competências. De acordo com teóricos da perspectiva sociocultural do letramento, essa visão concebe o letramento como uma entidade autônoma (STREET, 1984), que consiste em habilidades ou competências que podem ser aplicadas em diversos contextos. Portanto, com tal capacidade, as pessoas podem aplicar essa tecnologia “neutra” de diversas formas e para diversos fins. Esse modelo de letramento digital se refere a habilidades e técnicas abstratas, e os aprendizes são ensinados a codificar e decodificar como preparação para a leitura e escrita em diversos contextos digitais. Assim, cursos são criados para ensinar os aprendizes as ferramentas/técnicas/habilidades de usar tecnologias digitais, o que é uma lógica contrária ao que fazem os jovens, por exemplo, que aprendem jogando video games online, ou fazendo parte de uma comunidade online (LANKSHEAR; KNOBEL, 2006, p. 16). Segundo estes autores, a crítica do modelo autônomo de letramento não nega que as práticas sociais de leitura e escrita envolvam elementos de habilidade ou técnicas. A questão é que as habilidades e técnicas assumem formas muito diferentes quando incorporadas nas diferentes práticas sociais envolvendo propósitos, e onde diferentes tipos de significados estão em jogo. Daí, podemos observar a característica situada do letramento. Além disso, estas habilidades e
59
“[…]adapting our skills to an evocative new medium, [and] our experience of the Internet will be determined
técnicas de codificar e decodificar não contribuem muito na sua própria explicação de leitura e escrita. Isso porque esses processos são sempre “ler e escrever” “com significado”, ou seja, são “predominantemente uma função da prática social, do contexto social e do discurso”60 (GEE, 2004 apud LANKSHEAR; KNOBEL, 2006, p. 16).
Outros estudos também se embasam na perspectiva sociocultural para definir os letramentos digitais, como o de Buzato (2007), que propõe a seguinte conceituação: “redes complexas de letramentos (práticas sociais) que se apoiam, se entrelaçam, se contestam e se modificam mútua e continuamente, por meio, em virtude e/ou por influência das TICs.” (BUZATO, 2007, p. 168).
Knobel e Lankshear (2006) afirmam que o conceito de letramento digital não é algo unitário, nem um conjunto de competências ou habilidades. Eles concebem o letramento digital como “[...] uma variedade de práticas sociais e concepções de engajamento na elaboração de significados. Tal processo se dá mediado por textos que são produzidos, recebidos, distribuídos e compartilhados.”61 (KNOBEL; LANKSHEAR, 2006, p. 17 tradução nossa). Por isso, eles propõem a mudança do termo letramento digital para letramentos digitais, já que esse termo revela uma perspectiva que engloba as múltiplas práticas sociais do ciberespaço. Essa noção está embasada na ideia de “letramentos” proposta por Street (1984), segundo a qual os indivíduos entram e saem de múltiplas formas de escrita e leitura. O autor afirma que o letramento deveria ser compreendido como “letramentos”, pois há diversas formas culturais de práticas sociais e concepções de leitura e escrita. A partir desse prisma, os letramentos digitais são vistos como diferentes práticas sociais e concepções de busca, navegação, colaboração e participação na rede. Essa variedade se relaciona com as identidades e os valores dos grupos sociais aos quais pertencem as pessoas, suas afinidades (KNOBEL; LANKSHEAR, 2006, p. 17) e comunidades de prática. Como exemplo, podemos citar os chats ou bate-papos virtuais, que são uma forma de interagir em uma conversa em tempo real. Hoje em dia, há vários tipos de chats, como IRC, ICQ, MSN, Gtalk, canal de conversa do Facebook, entre tantos outros. Eles possibilitam a comunicação sincrônica para os que estão on-line e desejam conversar. Canais de chat são criados para diversos propósitos, como parte das práticas sociais e, segundo Araújo (2006), podem ser caracterizados como coletivos, ou como duais. Os coletivos se subdividem em aberto, educacional e com convidado e os duais em reservado, personalizado, privado e de atendimento. Temos, por
60
“It is predominantly a function of social practice, social context, and discourse”.
61 “The myriad social practices and conceptions of engaging in meaning making mediated by texts that are
exemplo, chats para fins comerciais, como: em lojas virtuais; hotéis; chats em ambientes virtuais de aprendizagem, como o Moodle e o Teleduc; em páginas para relacionamentos, como Uol; os que estão acoplados nos e-mails ou plataformas de redes sociais e, cada vez mais, surgem espaços virtuais diferentes com canais de chat. Os chats são práticas sociais que envolvem diversos modos de conversação de acordo com várias culturas e modos de escrita. Essa gama diversificada de práticas de chats nos mostra a dificuldade de conceber um letramento digital específico e singular.