Para a compreensão do luto materno e dos impactos da perda de um filho, é importante refletir sobre as repercussões da morte na família como um todo. A literatura sobre o luto na família apresenta abordagens teóricas baseadas nos sistemas familiares e na terapia familiar, a partir da teoria e da prática dos sistemas familiares e do trabalho que explora sistemas familiares e de saúde quando eles influenciam doença crônica e terminal e cuidados de fim de vida (SHAPIRO, 2014). Segundo Shapiro (2014), na literatura de terapia familiar, as terapias sistêmicas enfatizam narrativas familiares como construídas em contextos culturais sociopoliticamente informados. Essas abordagens visualizam a compreensão familiar da experiência da doença como necessitando de capacitação do conhecimento de características psicossociais da doença, suporte para a comunicação familiar, exploração de histórias da família e reconto de histórias para mudar de narrativa saturada de problemas para narrativas baseadas em pontos fortes. Um dos trabalhos mais influentes em terapias narrativas é de autoria de Michael White (2008). As perspectivas transformadoras das Terapias Narrativas é que elas enfatizam narrativas construídas, como contação de histórias, desempenho e ritual, baseando-se profundamente em recursos familiares e culturais para a sabedoria e valorizando o heroísmo de pessoas que lutam para superar estressores comuns da vida e desafios extraordinários. White (2008) incentivam a “externalização” de problemas para avaliar seus contextos realistas, e tanto as atividades narrativas/contação de histórias como as cerimoniais ou ritualizadas, dentro e foram de terapia, para transformar as narrativas da família coerentes com os objetivos da mesma. No trabalho “Saying hullo again”, White (2008) ofereceu uma perspectiva sobre o luto da família normalizando e promovendo a continuação de uma relação significativa com a pessoa falecida, utilizando-se da teoria de ritual em antropologia cultural. Nesse trabalho, o autor defende a “lembrança” como um processo ativo de inclusão, descrevendo um processo rico de exploração de memórias das relações (SHAPIRO, 2014). Sob um enfoque construtivista, a Terapia Narrativa tem se destacado tem na literatura científica e clínica da Terapia de Luto, com ênfase na importância do papel de reafirmar ou reorganizar o mundo de sentido desestruturado pela perda (NEIMEYER, 1999). Na perspectiva do construtivismo, o luto é considerado como um processo de reconstrução de um mundo de significado desafiado e desestruturado pela perda. A proposta dessa abordagem incentiva pesquisadores e profissionais a lidarem com o significado de luto, bem como com as repercussões da perda e lançar luz sobre os esforços dos enlutados para reconstruir suas narrativas de vida, na sequência da perda, considerando-se que os detalhes íntimos de histórias de perda das pessoas sugerem um processo complexo de adaptação a uma nova realidade, um processo que é, ao mesmo tempo, imensamente pessoal, intrinsecamente relacional e inevitavelmente cultural. Nesse sentido, o foco da Terapia de Luto é oferecer estratégias ao enlutado que o auxilie a encontrar sentido na perda, ajudando-o a restabelecer uma autonarrativa coerente, de modo a integrar a perda e permitindo-lhe, ao mesmo tempo, o avanço de sua história de vida para alcançar novos rumos e moldes (NEIMEYER, 1999). O significado da morte e do luto para a família, nas diferentes fases do ciclo de vida familiar, foi objeto de estudo de Nadeau (1998). Para a autora, os padrões de interações familiares refletem a busca por um significado às diversas situações de morte vivenciadas pela família. Tais interações representam o movimento da família na busca por uma ordem, quando se percebe diante do caos causado pela morte de um dos membros. A autora define “significado” como representações cognitivas, mantidas na mente de cada membro da família, mas construída interativamente dentro da família, ao mesmo tempo em que são influenciadas pela sociedade, pela cultura e pelo período histórico. A autora apresenta algumas categorias de significados, como: falta de sentido; morte injusta; significados filosóficos; existência ou não de vida após a morte; significados religiosos; natureza da morte; atitude do doente em relação à morte; mudança na família; lições aprendidas e verdades vividas. Nesse sentido, Nadeau (1998) discorda do uso do termo “reconstrução” de significado por considerá-lo limitante, uma vez que se refere a reconstruir algo já existente e por encontrar significados novos nas famílias (FRANCO, 2009; 2010). Walsh e McGoldrick (1998) foram pioneiras ao examinarem o impacto da perda sobre o sistema familiar, em relação à cada passagem, no ciclo de vida das famílias e a seu contexto cultural. Esse trabalho foi relevante para a compreensão fundamentada do luto familiar como em um ciclo de vida familiar culturalmente informado e para a análise dos fatores de resiliência da família que contribuem para o bem-estar familiar, bem como estressores realistas e sociais que contribuem para o desenvolvimento de psicopatologias (SHAPIRO, 2014; WALSH; MCGOLDRICK, 1998; WALSH; MCGOLDRICK, 2004). Walsh e McGoldrick (1998; 2004) propõem que o luto da família pode ser entendido como uma unidade coesa, funcionante, reconhecendo que as definições de família como uma unidade irão variar significativamente dentre e entre culturas. Baseando-se no trabalho de Willian Worden (2013), sobre as tarefas individuais do luto, as autoras descrevem uma série de tarefas adaptativas críticas para o luto da família, que são adotadas e podem ser facilitadas por meio da terapia familiar. Essas tarefas incluem o reconhecimento partilhado da realidade da morte, as experiências comuns da perda, que começam com rituais no rescaldo e continuam com a comunicação familiar aberta; a reorganização do sistema familiar para acomodar os novos papéis, com o realinhamento das relações, para que a família estabeleça o equilíbrio necessário para prosseguir com as demandas da vida familiar. Finalmente, as famílias precisam reinvestir em outros relacionamentos e atividade de vida, incluindo potencial introdução de novos membros. Essas tarefas se sobrepõem e surgem à luz de seu tempo no ciclo de vida familiar, sua localização cultural e estressores, tanto históricos como atuais, que acompanham esta experiência. A adaptação da família à morte de um ente querido será afetada pela maneira da morte em seu contexto sociopolítico, por organização familiar, comunicação e processos de significação, e por desafios apresentados pelo momento da morte no ciclo vital. Essa teoria considera que racismo, pobreza e outras formas de desigualdade compõem o sofrimento e influenciam as explorações dos sistemas familiares de justiça social, abordando estes temas nos cuidados de luto familiares (SHAPIRO, 2014). Para Carter e McGoldrick (1995), a morte tem um impacto distinto nos diferentes estágios do ciclo de vida familiar, para os vários membros e para a família, como unidade funcional (WALSH; MCGOLDRICK, 1998). Diversos fatores influenciam o impacto de uma morte e a natureza e a duração da resposta da família. Alguns tipos de morte tendem a complicar a adaptação da família à perda. A morte repentina requer que os membros tenham tido tempo para antecipar e se preparar para a perda, e até para dizer adeus. A morte violenta tem um impacto devastador em todo o sistema familiar. As mortes por acidentes, homicídios e até mesmo o suicídio podem ser consideradas mortes violentas (BOUSSO, 2006; WALSH; MCGOLDRICK, 1998). A perda prematura é a mais difícil de suportar, como se fosse injusto que alguém morresse antes do tempo. A viuvez no início do casamento e a morte de um filho são consideradas mortes prematuras. A morte de um filho é a mais trágica de todas as mortes. É como se o curso de vida estivesse sendo experimentado fora do tempo previsto (WALSH; MCGOLDRICK, 1998). Ao assumir o papel de pais, são inúmeras as fantasias e expectativas em relação aos filhos (BOUSSO, 2006). Frente à morte de um filho, os desejos de vida e de futuro são interrompidos, havendo a necessidade de reestruturação não somente de si, mas de todo o entorno familiar. A sensação real de perda de parte de si, bem como o confronto com a finitude em fases precoces da vida, são situações de grande conflito interior. O luto da perda de um filho é muito difícil de ser superado (LIMA E SOUZA et al., 2009). Para os pais, que cultivam planos e idealizações em relação aos filhos, a morte de um filho é um acontecimento indescritível. É como se, de repente, todos esses sonhos simplesmente desaparecessem. Manifestações como “o que será das nossas vidas sem ele ou ela” ou “nada mais terá sentido nas nossas vidas”, dão uma dimensão dessa perda avassaladora, segundo Carvalho e Azevedo (2009). Para estes autores, além do imensurável sofrimento, ocorre nesses pais todo tipo de sentimento: culpa, impotência, fracasso, raiva e punição. Nesse sentido, Walsh e McGoldrick (1998) apresentam tarefas adaptativas que envolvem o reconhecimento compartilhado da realidade da morte e que precisam ser promovidas junto à família, quando esta se encontra bloqueada no prosseguimento da vida, na reorganização do sistema familiar e reinvestimento em outras relações e projetos de vida. As autoras alertam para uma série de variáveis críticas que podem afetar adversamente os processos de luto das famílias e estão relacionadas à forma da morte, ao funcionamento da rede familiar e social, ao momento da perda no ciclo de vida e ao contexto sociocultural (BOUSSO, 2006). Para Bousso (2006), a busca por um significado sempre ocorre nas situações de doença e morte. A família está perplexa, cheia de perguntas existenciais acerca das razões por que está passando por sofrimento. A habilidade de encontrar significado e dar sentido às suas vidas é fundamental para compreendermos o processo da família na tomada de decisão. O conhecimento dos significados atribuídos pela família às suas experiências permite-nos definir conceitos, fortalecer teorias, aperfeiçoar métodos de pesquisa com família, ajudando os profissionais a intervirem efetivamente, respeitando as subjetividades das famílias diante das situações de perda, luto e tomada de decisão. Em relação ao luto materno, um estudo realizado por Freitas e Michel (2014) identificou diferentes temáticas em relatos de mães em relação às vivências pessoais, a saber: dor; perda de um modo de existir; espiritualidade; culpa; perda do sentido do mundo-da-vida; vontade de morrer; fragmentação dos laços afetivos; engajamento em projetos relacionados ao filho; perpetuação da memória do filho; estreitamento de laços com pessoas significativas para o morto. Os resultados obtidos na pesquisa, segundo os autores, indicam que, embora o luto se modifique ao longo do tempo, a perda de um filho jamais é superada, sendo este sofrimento compreendido não mais como uma condição patológica, mas como especificidades a serem compreendidas. Para Freitas e Michel (2014), a experiência da mãe em processo de luto deve ser respeitada de tal forma que esta possa agir diante da perda do filho contemplando as próprias limitações e necessidades, independentemente das cobranças e exigências sociais que possam sobrevir a elas. No decorrer do luto materno, é possível que as mães tenham experiências de perda de sentido e vontade de morrer, por exemplo, sem que tais vivências impliquem em um luto patológico. Essas possibilidades devem ser compreendidas e aceitas, pois estão relacionadas à nova realidade vivida quando da perda de um filho. A grande dor que uma mãe sofre ao perder um filho também deve ser destacada, especialmente em nosso contexto social de sobrevalorização do papel da mãe associado à discrição na expressão das emoções. Essa é uma experiência jamais superada, embora tenda a se modificar com o passar dos anos, à medida que a mãe encontra meios e modos para lidar com a ausência do filho. Estes modos estão vinculados a rituais, novos projetos e novas significações vividas que devem ser reconstruídos na direção do fortalecimento dos vínculos familiares e sociais, uma vez que o luto não é um fenômeno individual, mas um fenômeno vivido relacionalmente. A relação eu-tu, vivida antes como intercorporeidade, tende a passar por uma mudança de atualização, com ressignificação do filho e, especialmente de si mesma, ao se considerar e aceitar vivencialmente os impedimentos que a morte do outro apresenta. Percebeu-se que este novo modo de ser permite às mães uma continuidade da relação com o filho perdido e ocorre de variados modos, a depender de cada cultura, estrutura familiar e pessoalidade. A configuração de tal ressignificação é sempre muito singular e acontece em momentos distintos para cada mãe. Ainda assim, os autores apontam a vivência da espiritualidade, o engajamento em projetos relacionados ao filho e o estreitamento de laços com pessoas significativas para este, como constituintes possíveis de uma reestruturação da relação mãe-filho e que outros elementos constituintes da vivência de luto merecem ser mais estudados, como é o caso da culpa e do desejo de perpetuação da memória do filho, pelo caráter de mobilização de outros aspectos da vida da mãe enlutada que apresentam. Este cenário aponta para a delicadeza e o cuidado necessário para com o tema “luto materno” – às vezes, negligenciado e estigmatizado tanto pela sociedade como pelos profissionais e serviços, indicando a necessidade de estudos que aprofundem o tema, especialmente no que diz respeito à prática de comportamento do luto de mães no ciberespaço, como observado frequentemente pelos estudiosos na área do luto (FREITAS; MICHEL, 2014). In document Maritime preparedness systems in The Arctic : institutional arrangements and potential for collaboration : MARPART Project Report 3 (sider 117-120)