• No results found

4. Empirical analysis

4.4 Attitudes towards immigrants and refugees

O processo de tomada de novos espaços de atuação social pelas mulheres colaborou, segundo Stuart Hall, para o descentramento final do sujeito cartesiano, em que ―as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado‖ (HALL, 2011, p. 7). As paisagens culturais passaram a incluir — ou a buscar não mais excluir — os paradigmas de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, conforme Hall (2011, p. 9), ―estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a ideia que temos de nós próprios como sujeitos integrados‖. Não à toa, para ele, os cinco grandes avanços na teoria social e nas ciências humanas que culminaram para esse descentramento foram o pensamento marxista, a descoberta do inconsciente por Freud, a linguística estrutural de Ferdinand de Saussure, a revisão crítica da história das ideias por Michel Foucault e o feminismo (HALL, 2011, p. 34). O feminismo, ―tanto como uma crítica teórica quanto como um movimento social‖ (HALL, 2011, p. 44) está estreitamente conectado aos quatro primeiros, mesmo que através do conflito.

Hall (2011, p. 45-6) traça um resumido inventário da contribuição feminista à reconceitualização da sociedade ocidental: o movimento questionou a clássica distinção entre o dentro e o fora, o privado e o público — o pessoal é político; abriu para contestação política novas arenas de vida social, como a família, a sexualidade, o trabalho doméstico, a divisão doméstica do trabalho, o cuidado com as crianças etc.; tematizou política e socialmente a forma como somos produzidos como sujeitos generificados; expandiu a contestação da posição social das mulheres para incluir a formação das identidades sexuais e de gênero e questionou a noção de que os homens e as mulheres eram parte da mesma identidade, a Humanidade, substituindo-a pela questão da diferença sexual. Margareth Rago ([2003]) acrescenta a essas conquistas o redimensionamento da própria linguagem em função do tensionamento provocado pelo discurso feminista:

As questões do mundo privado, da subjetividade, da família, da sexualidade, das linguagens corporais ganharam visibilidade e dizibilidade, podemos dizer, tomando de empréstimo alguns termos de Deleuze, tanto na prática cotidiana dos grupos feministas, quanto nos debates acadêmicos e nas reuniões dos militantes. O distanciamento do discurso marxista- masculino, por sua vez, facilitou a incorporação de temas tabus como os referentes às emoções, ou à moda e, por conseguinte, a procura de novos conceitos capazes de enunciá-los e interpretá-los. Estes foram buscados, sobretudo, no campo conceitual que vinha sendo proposto pelas correntes do pensamento pós-moderno, a exemplo do conceito de ―desconstrução‖ de Derrida, ou das noções de ―poder disciplinar‖ e de ―subjetivação‖, trabalhadas por Foucault.

A literatura, diante do impacto da contribuição feminista, não poderia permanecer estagnada nas velhas práticas da hegemonia masculina; o novo conceito de sujeito, que inclui finalmente a mulher, precisa ser representado em toda a sua diversidade. Nesse sentido, Regina Dalcastagnè (2012) aponta que a expansão dos aspectos identitários contribuiu para que o próprio conceito de subjetividade feminina se fragmentasse em perspectivas plurais, que foram adicionadas ao nosso fazer literário. As mulheres, dessa forma, não se assumiram como autoras a fim de reproduzir a literatura hegemônica. Mesmo que a princípio tivesse sido assim, pois, para penetrar no sistema literário era necessário inevitavelmente o aval masculino, em pouco tempo se fez urgente dizer da riqueza da condição a qual se refere Dalcastagnè (2012, p. 41): ―A riqueza dessa condição feminina plural se estabelece exatamente na tensão entre unidade e diferença, e a questão que se coloca aqui diz respeito ao quanto dessa riqueza está presente na narrativa brasileira contemporânea‖.

Ainda para Dalcastagnè (2012, p. 17), ―O termo chave, neste conjunto de discussões, é representação, que sempre foi um conceito crucial dos estudos literários, mas que agora é lido com maior consciência de suas ressonâncias políticas e sociais‖. A representação, assim, configura uma dupla questão literária à medida que quanto mais diversas forem as identidades das escritoras, provavelmente mais diversas serão as representações produzidas e difundidas; concomitantemente, no horizonte de recepção, quanto mais diversas e difundidas as representações, mais leitoras e leitores terão oportunidade de se reconhecer e novas expectativas e

exigências deverão surgir por parte da crítica. Daí a importância, conforme Dalcastagnè (2012, p. 40), da análise crítica dessa relação:

Ao mesmo tempo em que se vão fazendo escritoras, as mulheres continuam sendo, também, objetos da representação literária, tanto de autores homens quanto de outras mulheres. Essas representações apontam diferentes modos de encarar a situação da mulher na sociedade, incorporando pretensões de realismo e fantasias, desejos e temores, ativismo e preconceito. Na medida em que, nas últimas décadas, transformou-se aceleradamente a posição feminina nos diversos espaços do mundo social, a narrativa contemporânea é um campo especialmente fértil para se analisar o problema da representação (como um todo) das mulheres no Brasil de hoje.

No caso das representações femininas, há um conflito percebido pela crítica: as possibilidades representacionais, conforme Susana Bornéo Funck (2011, p. 72), podem se converter em perigos para o projeto feminista, pois a possibilidade de que as autoras contribuam para a expansão do cânone hegemônico é proporcionalmente inversa ao risco de que elas apertem ainda mais os nós da estrutura patriarcal, visto que se trata de um sistema entranhado nas bases da nossa estrutura social, capaz de produzir, num mesmo movimento, consciências emancipadas e consciências reprodutoras de paradigmas discriminatórios e opressores. Assim, Funck (2011, p. 72) analisa:

[...] no momento em que o termo ―mulher‖ é colocado no binômio ―mulher e literatura‖ (ou ―a mulher na literatura‖), novas considerações precisam ser feitas. O termo aqui funciona como uma marca de diferença, implicando uma relação que qualifica ou restringe a literatura, e indicando um recorte específico que determina um posicionamento político. Na verdade, temos aqui duas ―mulheres‖ – uma, por assim dizer, corporificada e fora da literatura; outra dentro, discursivamente imaginada (ou imaginando, se considerarmos a autoria). A primeira, que somos nós, não pode prescindir de uma consciência crítica interessada. Como sujeitos do feminismo, estamos necessariamente engajadas naquela luta de que falava Wittig pela erradicação de estruturas de dominação. [...]

A segunda mulher está nos textos. E é a política de sua representação que nos interessa na medida em que, imaginada, ela é da maior importância na construção dos sistemas a partir dos quais nos subjetivamos. Se somos as histórias que nos contam – tanto no sentido de que elas nos representam quanto no de que são contadas para nós – então as narrativas podem se tornar uma fonte de identificação. Essa ―outra mulher‖ que habita os textos é um repertório de possibilidades e perigos para o projeto feminista.

A análise crítica dessa segunda mulher que está nos textos não tem como finalidade limitar ou, ainda mais grave, censurar a arte, no entanto é inegável que da segunda metade do século passado para cá as representações distorcidas ou preconceituosas, em todos os âmbitos da cultura, não passam mais despercebidas e esbarram em dificuldades para serem naturalizadas. Antes um grupo hegemônico falava por todos, hoje todos têm oportunidade de buscar um espaço de representação, já que as mídias alternativas ganham cada vez mais força no contexto do mercado literário, implicando um policiamento atento e constante. Resguardadas os entraves que as minorias ainda encontraram para sua inserção no mercado das grandes editoras, a publicação independente, seja on-line ou através das editoras de menor porte, tem atingido um público ainda restrito, mas ao que parece bastante interessado em escutar novas vozes e conhecer a diversidade.

A respeito da literatura de autoria feminina, houve um deslizamento do foco do discurso crítico, que transita da tentativa de definir uma dicção feminina capaz de abranger o conjunto abstrato mulher para a observação de uma perspectiva feminina baseada na experiência corporal, psicológica e social das diferentes mulheres, levando em consideração também os seus diferentes contextos sociodemográficos. Se em 1989 Bella Jozef fez perguntas direcionadas à identificação das características de uma possível escrita feminina praticada por um sujeito mulher unificado — há uma temática específica da mulher?, o que caracteriza a escrita feminina?, o que ela acrescenta à escrita dos homens?, como é a linguagem da mulher? —, em 2008, Sandra Regina Goulart Almeida (2008, p. 13) pôde atualizar os questionamentos de acordo com as novas concepções de identidade, em que a subjetividade é construída no limiar em que o corpo se confronta/inscreve no meio social: há um lócus de enunciação nitidamente feminino?, de que forma o questionamento dos papéis de gênero nesse espaço global, híbrido e multicultural tem perpassado a literatura de autoria feminina contemporânea?, com que frequência essas escritoras delineiam narrativas que expõem as contradições e ambiguidades do mundo global e que questionam noções preestabelecidas de identidades subjetivas e nacionais?

No espaço de quase vinte anos entre os textos de Jozef e Almeida é possível verificar a mudança de direcionamento da crítica feminista de uma visão ainda

essencialista do universo feminino para uma visão mais politizada, em que a mulher é também (em relação ao homem) um sujeito ativo na construção dos sentidos contemporâneos e que cobra das escritoras a responsabilidade por seu discurso. A problematização das questões levantadas por Almeida se configura num norte importante para seguir, pois é através de um pensamento que desvincule as mulheres da essência feminina e se empenhe em compreendê-las como seres que respondem individualmente a contextos culturais coletivos e gendrados que poderemos nos arriscar a dar conta das duas mulheres identificadas por Funck (2011), a de dentro e a de fora do texto.

Assim, em relação ao percurso desta tese, ao reunir o corpus de personagens femininas, escritoras e teóricas que selecionei para compor a pesquisa, percebi que nem sempre a segunda mulher dialoga com a que está do lado de fora, a leitora, bem como as críticas feministas e as escritoras parecem muitas vezes caminhar para lados opostos, numa inegociável dissidência: enquanto as pesquisadoras se empenham em demarcar os espaços da autoria feminina, através do resgate ou da divulgação, as autoras parecem rejeitar, em sua maioria, iniciativas que relacionem sua produção a conceitos como gênero, feminino, feminismo e, o mais improvável, mulheres. Meus objetivos foram, dessa forma, bombardeados — e enfraquecidos — pelas dúvidas que me acometeram ao entrar em contato com o discurso das escritoras: de que serve uma tese com um recorte exclusivamente feminino de escritoras e personagens? Que conceito de mulher é capaz de sustentar esse recorte? Em que medida reforço o sistema hegemônico binário ao optar por esse recorte? Que valor esse trabalho tem para a crítica feminista e para a própria literatura? O mais importante: que valor esta tese tem para as mulheres?

É possível compreender a recusa das escritoras a enquadrar-se em quaisquer categorias e o receio de que sua literatura seja rotulada e, numa consequência direta de toda rotulação, inferiorizada diante da dominante, neutra, universal — masculina. Porém, para iniciar este trabalho, era necessário que eu me posicionasse sobre a questão e assim decidi manter o meu feeling inicial e acompanhar as críticas feministas na certeza de que é preciso, antes de ter como encerradas discussões sobre valor, estética e arte, na literatura contemporânea, dessacralizar os caminhos para a

formação do cânone e da história da literatura, o que só se conquista lendo mais e mais conscientemente mulheres, assim como toda literatura oriunda das minorias, na proposta de um ato político que não neutraliza nem exclui o prazer do texto. Rita Terezinha Schmidt (2008a, p. 128) identifica esse deslizamento de perspectiva no horizonte do próprio fazer crítico:

Na perspectiva das práticas, entende-se que hoje há um enfraquecimento do termo ―literário‖ em seu uso tradicionalmente restritivo, no sentido de ―arte‖, dependente de uma estrutura de valor culturalmente específica, e um fortalecimento do sentido antropológico, pelo qual o literário é integrado à cultura, um campo de produção histórico-social atravessado por diferentes valores, relações e interesses específicos.

Dessa forma, lendo mulheres, tanto pesquisadoras quanto romancistas, observei o conflito entre o discurso de umas e de outras e também entre os discursos das próprias escritoras, que muitas vezes dispensam as chamadas categorizações, porém investem sua participação em antologias de autoria feminina, assim como aceitam convites para mesas-redondas compostas apenas por mulheres e vinculadas a temas considerados femininos, nos mais diversos eventos literários. Nesse sentido, observei ainda a ruptura que o discurso das escritoras negras e lésbicas impõe no contexto da autoria feminina, já que elas exercem uma atividade crítica que transcende a narrativa ficcional e não raro posicionam-se política e publicamente em relação ao mercado literário e às relações sociais discriminatórias que se refletem nele. Transitar entre perspectivas contrastantes numa mesma pesquisa é delicado, porém precioso para uma pesquisadora, já que dispensa manter os sentidos alertas, a capacidade reflexiva afinada e o olhar apto a captar não só as sutilezas das relações que vão se desenrolando, mas principalmente a estrutura submersa que as sustenta e alimenta a persistência do contexto conflituoso. Dispensa, também, aceitar que o conflito é parte de um processo em andamento, que se dá no seio de uma coletividade maior, já que todo trabalho intelectual, e que é também braçal, de leitura, resgate, produção, viabilização, visibilização, divulgação, distribuição, multiplicação por inúmeros meios — grosso modo, o trabalho de demarcação de território — da autoria feminina, é executado por diferentes sujeitos inseridos num mesmo grupo denominado mulheres. Tais sujeitos, embora irredutíveis a uma

definição comum, são os atores comuns da importante desconstrução que vem se dando no meio literário ao questionarem o próprio papel da literatura e seus critérios de legitimação, e esse nem sempre é um ato consciente, porque se dá sobremaneira através da presença.

Pensar o papel da crítica feminista no universo das teorias críticas da literatura requereu, num primeiro momento, desconstruir conceitos como mulher, feminino e escrita feminina, incrustados no imaginário social — incluindo o acadêmico — como sinônimos para frágil, sensível, doméstico, assim como fútil e menos importante. Embora pareça uma tecla desgastada, o preconceito contra a produção de autoria feminina ainda persiste no meio acadêmico, o que me leva a concluir que os próprios conceitos de crítica e de feminismo também precisaram em algum momento ser desconstruídos: o primeiro, porque estabelecido e legitimado exclusivamente pelo modus operandi androcêntrico; o segundo, porque profundamente estereotipado — e ridicularizado — até mesmo entre os meios intelectuais de esquerda, conforme relata Rago (2001, p. 58-9):

Do modernista Oswald de Andrade que ridiculariza as sufragettes inglesas como figuras que o assustavam profundamente, nos anos 20, aos ―rapazes‖ de esquerda do Pasquim, nos anos 70, investindo com unhas e dentes contra a estética de Betty Friedan, as feministas foram percebidas como mulheres feias, infelizes, sexualmente rejeitadas pelos homens e, convenhamos, não é muito raro ouvirmos outras mulheres reafirmando estes estigmas ainda hoje.

O termo mulher, graças ao feminismo e às teorias de gênero, foi destituído de uma essência unificadora: há mulheres, não uma singularidade, não uma definição estática em que nos enquadramos ou não, há mulheres no conjunto de toda a pluralidade de significados que um significante é capaz de abarcar tanto numa perspectiva sincrônica quanto diacrônica. Tampouco há mulheres em relação aos homens: não somos o que eles não são, e nosso parâmetro para o que somos não é aquilo em que não podemos ser como eles; não nos definimos em torno à órbita masculina, embora determinadas instituições insistam, ainda hoje, em alimentar essa cultura binária, pobre e empobrecedora, infelizmente naturalizada em nossa rotina, numa forma de violência sorrateira e contagiosa. Um exemplo claro é destacado pelo

Manual para uso não sexista da linguagem: o que bem se diz bem se entende, lançado em 2014 pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul, no qual as autoras apresentam as definições dos termos homem e mulher que integram a última versão do Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa, as quais reproduzo abaixo:

Homem: 1. Qualquer indivíduo pertencente à espécie animal que apresenta

o maior grau de complexidade na escala evolutiva; o ser humano. 2. A espécie humana; a humanidade. 3. O ser humano, com sua dualidade de corpo e de espírito, e as virtudes e fraquezas decorrentes desse estado; mortal. 4. Ser humano do sexo masculino; varão. 5. Esse mesmo ser humano na idade adulta; homem-feito. 6. Restr. Adolescente que atingiu a virilidade. 7. Homem (4) dotado das chamadas qualidades viris, como coragem, força, vigor sexual, etc.; macho.

Mulher: 1. O ser humano do sexo feminino. 2. Esse mesmo ser humano

considerado como parcela da humanidade. 3. A mulher (1) na idade adulta. 4. Restr. Adolescente do sexo feminino que atingiu a puberdade; moça. 5. Mulher (1) dotada das chamadas qualidades e sentimentos femininos (carinho, compreensão, dedicação ao lar e à família, intuição). 6. A mulher (1) considerada como parceira sexual do homem. 7. Cônjuge do sexo feminino; a mulher (1) em relação ao marido; esposa. 8. Amante, companheira, concubina (TOLEDO et. al., 2014, p. 25).

A gritante distinção hierárquica entre as definições deveria falar por si mesma, porém, na prática cotidiana, a diferença não se faz tão explícita. Perceber a desigualdade entre uma definição que se refere ao homem como o ser humano e uma que delimita a mulher como parcela desse absoluto não é uma tarefa óbvia; requer o filtro que diferencia um olhar passivo de um olhar crítico. E o desenvolvimento desse filtro, por sua vez, requer muito trabalho: é preciso investir numa educação antes de tudo questionadora dos próprios instrumentos, postura que representa uma ameaça para as instituições que criam, alimentam, legitimam e se interessam por manter inalteradas as várias formas de hierarquias entre os sujeitos. Para que internalizemos passivamente uma estrutura hierárquica, é preciso que a ideologia dominante passe despercebida nos atos mais cotidianos como uma simples consulta ao dicionário; o sistema trata de nos manter incapazes de identificar, e assim minimizar, o impacto dos mecanismos de opressão sobre nossas vidas. Dessa forma, os verbetes do dicionário materializam o ponto em que o poder se torna capilar, descrito por Michel Foucault (1979, p. 182), o qual é necessário ser desconstruído, porque é através dele que se produzem os oprimidos dessa equação:

[...] captar o poder em suas extremidades, em suas últimas ramificações, lá onde ele se torna capilar; captar o poder nas suas formas e instituições mais regionais e locais, principalmente no ponto em que, ultrapassando as regras de direito que o organizam e delimitam, ele se prolonga, penetra em instituições, corporifica-se em técnicas e se mune de instrumentos de intervenção material, eventualmente violento.

O que consta nos dicionários são significados cristalizados pelas práticas sociais; a prática cria a definição, não o contrário. Assim, para o senso comum, o que está no dicionário é, e nesse ponto a violência impressa no instrumento é obscurecida pelos mecanismos que o autorizam como um normatizador da verdade. Tendo em vista que romper a lógica assimilada é o caminho para a desconstrução da discriminação embutida em tais definições, uma boa pergunta a ser feita é para que e para quem serve uma definição que claramente subjuga a mulher ao homem, definindo-a em relação a ele, como se o mito da costela de Adão tivesse algum fundamento, o homem tivesse recebido a primazia na criação e o nosso papel fosse

naturalmente complementar, subalterno e inferior ao dele.

O sexo feminino, para os dicionários, é a marca da diferença. O útero e a responsabilidade pela reprodução não da espécie, mas de herdeiros, determinaram o espaço das mulheres, limitando sua liberdade e seu desenvolvimento e impedindo a percepção de si como um outro empoderado frente à discriminação, capaz de revoltar-se e resistir. Em lugar disso o que se deu foi a formação de um outro encarcerado, em primeiro lugar, numa pseudo condição biológica que nos é imposta até hoje, escondendo as motivações burguesas e então capitalistas da dominação de um gênero sobre o outro. A maternidade ainda é uma obrigação que se impõe às mulheres, mais cedo ou mais tarde. Quando aceita mais cedo, interfere diretamente em nosso desenvolvimento emocional e profissional, quando mais tarde, é vista com preconceito. Quando a mulher decide não ser mãe, a única forma de neutralizar tal rebeldia é considerá-la uma não mulher, condenada à incompletude. Conforme Elisabeth Badinter (2011, p. 143),

Em cada cultura, existe um modelo ideal de maternidade predominante que pode variar segundo as épocas. Conscientemente ou não, todas as mulheres o carregam. Pode-se aceitá-lo ou contorná-lo, negociá-lo ou rejeitá-lo, mas é