Os enunciadores publicaram textos sobre Barack Obama e John McCain e seus conteúdos revelaram antagonismos entre os candidatos em suas propostas em relação a economia, política externa, saúde, educação, habitação, questões sociais e diplomacia. A própria biografia dos candidatos também marcou suas diferenças sociais, o que foi amplamente explorado pelos dois veículos de comunicação. Em seus textos, Laclau e Mouffe abordam a emergência de novos antagonismos, a transformação da política em um mundo contemporâneo e o abandono da ideia de um agente perfeitamente unificado e homogêneo. Eles afirmam que os antagonismos não são internos e, sim, externos, estabelecendo os limites da sociedade, a impossibilidade de ela constituir-se plenamente (LACLAU E MOUFFE, 1987, p. 216).
A corrida presidencial americana de 2008 trouxe o embate de um negro de 44 anos, relativamente inexperiente na política, o qual se colocou como exemplo de diversidade étnica, cultural e social contra um senador experiente de 72 anos. Este último, considerado um herói de guerra e que ressaltou suas credenciais para resolver os principais problemas que mais preocupavam os americanos.
Ressaltamos aqui alguns aspectos biográficos do futuro presidente, a fim de nos embasarmos melhor para a discussão desenvolvida. Barack Hussein Obama II nasceu em 4 de agosto de 1961, em Honolulu, Havaí. Sua mãe, Ann Duhham, conheceu o pai do político democrata, Barack Hussein Obama I (1932- 1982), um bolsista queniano que estudava na Universidade do Havaí. Casaram-se no ano de 1959. Quando Obama tinha dois anos de idade, seu pai deixou a família para fazer pós-graduação em Harvard e depois voltou para o Quênia, com o objetivo de trabalhar como economista do governo. O democrata relatou, em sua autobiografia A Origem dos Meus Sonhos, que apenas se encontrou com seu pai mais uma vez na vida, aos dez anos de idade. Barack Hussein Obama I morreu aos 46 anos em um acidente de carro em Nairóbi.
Quando Obama tinha seis anos, sua mãe se casou de novo com o indonésio Lolo Soetoro tendo a família de se mudar para Jacarta. Obama frequentou uma escola católica e, depois, a instituição Menteng 01. A revista conservadora norte-americana Insight escreveu em seu site, em 2007, que a Menteng 01 era uma escola islâmica radical, uma madrassa. Mas, vários veículos de comunicação definiram a instituição como uma escola primária pública frequentada por alunos de
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várias religiões. Aos dez anos, Barack Obama voltou ao Havaí para morar com os avós maternos. Graduou-se em Ciência Política pela Universidade de Colúmbia, em Nova York, com especialização em Relações Internacionais. Também cursou a Universidade de Direito de Harvard e foi o primeiro editor negro da revista Harvard Law Review. Após se formar, mudou-se para Chicago, onde trabalhou como líder comunitário e professor de direito constitucional na Universidade de Chicago.
Obama foi eleito pela primeira vez para o senado estadual de Illinois em 1996, e para o Senado americano em 2004. O democrata fez o discurso principal na convenção de seu partido no mesmo ano em que se deu a escolha de John Kerry para concorrer à Presidência contra George W.Bush. Quatro anos depois, Obama venceu a senadora Hillary Clinton em uma longa disputa interna do Partido Democrata, e conseguiu a indicação para concorrer à Casa Branca.
Conforme expusemos no Capítulo 1, quando Obama foi o orador principal na convenção que escolheu John Kerry para concorrer à Presidência naquele ano, ele preconizou uma política de esperança para os Estados Unidos. A análise realizada sobre as repercussões dos jornais americanos a respeito de seu discurso confirmou a eficácia da utilização da esperança como significante vazio na constituição de um discurso de união.
No início da análise do corpus, em 1º de junho de 2008, Barack Obama disputava a indicação para concorrer à Casa Branca com a ex-primeira-dama Hillary Clinton. A temática da disputa Obama x Hillary foi objeto de 66 reportagens nos dois jornais analisados durante o mês de junho, porém, ela logo se dissipou do noticiário após Obama conseguir a indicação para concorrer à Casa Branca pelo Partido Democrata, em 3 de junho. Na repercussão, os enunciadores deram grande destaque para sua biografia – um candidato nascido da miscigenação
de raças e culturas – e para sua mensagem de mudança em questões econômicas e na política
externa. O trecho a seguir foi retirado do The New York Times, de 4 de junho de 2008:
A vitória de Obama (...) quebrou barreiras raciais e representou um aumento notável para um homem que apenas há quatro anos serviu no Senado de Illinois. “Hoje à noite, nós marcamos o fim de uma jornada histórica e começamos outra
– uma jornada que trará um novo e melhor dia para a América”, disse Obama. 18
18 O trecho mencionado está em http://www.nytimes.com/2008/06/04/us/politics/04elect.html?pagewanted=all.
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Na mesma data, o The Wall Street Journal publicou:
Após Barack Obama conquistar a nomeação do Partido Democrata, é importante notar que momento extraordinário é este. Democratas estão nomeando um senador iniciante, apenas três anos após uma legislatura de Illinois e alguém que a maioria da América mal conhece. As pesquisas dizem que ele é o estranho favorito para se tornar o nosso próximo presidente (...). Pense sobre isso no contexto histórico. Jimmy Carter e Bill Clinton eram relativamente desconhecidos, mas ambos, pelo menos, tinham sido governadores de destaque. John Kerry, Walter Mondale, Al Gore e, até mesmo, George McGovern eram todos figuras de longa data de Washington. Candidatos republicanos tendem a ser ainda mais familiares, para melhor ou para pior. Sobre Obama, os democratas estão dando um salto de fé que está desafiando até mesmo seus padrões de risco. Sem dúvida, isso é parte do seu enorme apelo (...). Sua história pessoal – de raça miscigenada e vindo de Harvard – repercute
em uma América onde os dois mais populares ícones populares são Tiger Woods e Oprah. Seus dons políticos são formidáveis, especialmente sua capacidade de se conectar com o público através de um palanque.
Acima de tudo, Obama construiu uma mensagem que encaixa o momento político e o desejo do público de “mudança”. Ao dar o melhor de si mesmo, ele oferece a americanos cansados da guerra e do rancor político a promessa de um propósito e de uma unidade nacional.19
Obama disputou a eleição contra John Sidney McCain III, que nasceu em 29 de agosto de 1936, na região do Canal do Panamá. McCain entrou para a Academia Naval em junho de 1954, e serviu na Marinha dos Estados Unidos até 1981. Como piloto da Marinha, lutou na guerra do Vietnã. Em 1967, teve seu avião abatido e foi capturado. Permaneceu por cinco anos prisioneiro e ficou com limitações de movimentos em um dos braços. McCain retornou aos Estados Unidos em 1973, sendo considerado herói de guerra. Foi eleito para a Câmara dos Deputados (House of Representatives) do Arizona e, depois, para o Senado, em 1986. Em 2000, perdeu a indicação do Partido Republicano para concorrer à Presidência para George W. Bush. Em 2007, quase desistiu de tentar novamente a indicação pela corrida à Casa Branca, mas resultados inesperados internos do Partido Republicano lhe garantiram a vaga pela briga à Presidência ao desbancar nomes como Rudolph Giuliani e Mitt Romney.
McCain foi associado pelos enunciadores às políticas do então presidente George W. Bush. Em 1º de julho de 2008, o The New York Times chamou os oito anos do então governo republicano de “era do terror” por ter promulgado a doutrina de guerras preventivas para criar
19 O trecho mencionado está disponível em: http://online.wsj.com/news/articles/SB121254834844844045. Tradução
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uma lógica mais permissiva para o emprego de forças armadas, além de ter sido um governo que aprimorou as prerrogativas de uma presidência imperial em todos os assuntos relativos à segurança nacional. Os trechos a seguir foram retirados dos jornais The New York Times e The
Wall Street Journal:
No momento em que John McCain se tornou o centro das atenções na quinta-feira à noite, nós nos perguntamos se haveria algum sinal do senador que nós sempre respeitamos – o conservador que combateu lealmente, e, algumas vezes,
contrariou a ortodoxia do partido. Certamente, a convenção que o nomeou não guardou qualquer semelhança com aquele John McCain. Em vez de dar sua própria imagem ao Partido Republicano de George W. Bush, McCain permitiu que os praticantes da política do medo e da divisão conduzissem o show.20
John McCain saboreou, noite passada, o triunfo de garantir a nomeação republicana para presidente, apesar de que seu azar é ganhá-la em um ano em que o Partido Republicano está em seu pior período desde a era Watergate. Pelos padrões históricos, ele deve ser um perdedor certo. Ainda que McCain permaneça como um concorrente formidável – em parte por causa das fraquezas de seu oponente, mas, também, porque ele pode reivindicar ser um reformista que sempre lutou contra os piores instintos de seu partido, notadamente nos gastos com imigração – suas chances de ganhar agora se projetam se ele pode fazer diferença para eleitores que procuram mudança.21