• No results found

109 AA cc oozz iinn hhaa ee ss eeuu cc aall ddee iirrãã oo ddee mm íídd iiaa ss

Após o longo percurso que nos trouxe dos primórdios da alimentação humana at é a cont emporaneidade da sociedade da inf ormação e da visibilidade, passando pelas imagens narrat ivas da comida brasileira criadas por Gilbert o Freyre, t emos algumas considerações finais a fazer. Tanto para amarrar “ pontas” da pesquisa que possam ter se soltado, quanto sobre os caminhos da culinária e da gastronomia no Brasil e no mundo.

Analisar revistas relacionadas ao universo da cozinha é um prazer, tanto pessoal quanto acadêmico. O assunto fascina, devora e prende o próprio pesquisador. As infor- mações sobre o tema são muitas, em um bombardeio contínuo que às vezes dispersa e causa uma fuga do tema central de estudo. Esta pesquisa poderia ter enfocado diversos tipos da comunicação relacionados à cozinha, como programas de TV, encartes de jornais, escolas de gastronomia e muitos outros. A opção pela revista veio da paixão pessoal da pesquisadora e pelo julgamento de que esta é uma das mídias preferidas pelo público que se interessa pela cozinha e pelas suas variadas linguagens.

Também a abordagem da aliment ação como t ext o da cult ura – que vê sua importância ganhando reconhecimento – é de uma riqueza ímpar e uma estrada com vários caminhos. O assunt o pode ser analisado sob o pont o de vist a hist órico, sociológico e, especialment e, ant ropológico, ent re t ant os out ros. Opt amos pelo enfoque midiático, o da constituição de imagens na mídia impressa. Por isso deixamos de lado aut ores f undament ais para a análise da cozinha enquant o t ext o da antropologia, como Claude Lévi- Strauss, autor de O Cru e o Cozido, obra fundamental dos est udos da aliment ação no mundo. Para f azermos uma ef icient e abordagem ant ropológica acredit amos que a pesquisa de mest rado não é suf icient e, por isso optamos por deixar o trabalho do Strauss para um futuro estudo de doutoramento.

Roland Bart hes, out ro t eórico import ant e, que abordou a cozinha no livro

M it ologias, t ambém f oi preservado para uma pesquisa f ut ura, que se t ornará um

caminho nat ural. Ant es, gost aríamos de t ecer algumas conclusões f inais sobre a pesquisa aqui realizada.

AA cc oozz iinn hhaa ee ss eeuu cc aall ddee iirrãã oo ddee mm íídd iiaa ss

As imagens de Freyre e a pesquisa em alimentação

At é os dias de hoje as imagens narrat ivas criadas por Gilbert o Freyre são marcantes no imaginário simbólico do Brasil. Em muitos exemplos anteriores vimos a força descritiva delas e o poder que possuem de criar estereótipos a respeito dessa comida, sendo que apenas parte deles correspondem à realidade – uma verdade do estereótipo é que, de fato, a comida do interior do Brasil é muito mais apegada a suas raízes históricas do que a das capitais –, mas também suscita equívocos. Um exemplo é a sua confluência com o turismo, que pode ser observada quando um viajante vai ao Nordest e em busca de uma moqueca t ípica de f ot os de agência de viagem. De- pendendo do estado visitado, ele se decepcionará. Na Paraíba, por exemplo, os pratos realmente típicos são os de carne-de-sol e de carne de bode.

Esse estereótipo é, algumas vezes, uma armadilha para as revistas de cozinha. Vimos em Claudia Cozinha que sua apost a é represent ar a cozinha brasileira resvalando, às vezes, nesse tipo de representação. Mas o que de fato nos incomoda é o olhar que a mídia t em sobre essa comida. Sempre o olhar do exót ico, de perplexidade ante ao que parece, mas não deveria ser uma novidade. Isso identifica a falta de identidade dos nossos produtos editoria. Particularmente falando das revistas brasileiras, elas copiam padrões internacionais e quando tentam adequá-los a textos da cultura nacionais, como a cozinha, podem acontecer ruídos que não traduzem essas imagens como autenticamente brasileiras. Aqui vistas pelo olhar da tradução, é claro. Gilberto Freyre, em seu trabalho com a alimentação, foi um pioneiro, seguido por nomes como Câmara Cascudo e hoje por pesquisadores que tentam ainda, dar o devido espaço e respeito merecidos para essa área de estudos. A pesquisa sobre a comida brasileira tem avançado e várias frentes estudam-na em todo o território nacional. Mas ainda há um longo caminho para que o Brasil conheça, de fato, a sua cozinha.

As revistas de cozinha no nosso imaginário simbólico

Consideramos que a nossa hipótese inicial, de que a comida brasileira contamina sua representação na mídia e vice-versa, realmente se comprovou. Pelas categorias de análise desenvolvidas no capítulo 4, podemos observar que, muitas vezes, a comida é devidamente adequada aos padrões de determinada publicação, como é o caso das releituras feitas por Gula e Prazeres da Mesa e pelos diversos percursos editoriais de

Claudia Cozinha.

Claudia Cozinha, aliás, se revelou um excelente objeto de estudo, pois é uma obra

em constante mutação. Em apenas três anos e meio de análise do corpus proposto, a revista passou por três grandes transformações, o que não é comum em grandes títulos. Ela parece ainda estar se adequando aos novos rumos tomados pela cozinha brasileira, que precisou se adaptar ao conceito de alta gastronomia e se “ reinventar” . A grande dificuldade da revista, assim como a da nossa cozinha, é encontrar um equilíbrio entre suas raízes e o que a era da visibilidade pede, para atender ao público leitor que busca, ávido, por mais informação na área de gastronomia. Público este que, caso não encontre o que deseja em uma publicação, certamente irá procurar outra que o satisfaça.

111 AA cc oozz iinn hhaa ee ss eeuu cc aall ddee iirrãã oo ddee mm íídd iiaa ss

A t ransf ormação da comida em objet o de desejo t rouxe várias implicações midiáticas. Não basta representar uma comida típica da maneira que ela é feita no int erior de um est ado como Goiás, por exemplo. Ela precisa ser iluminada, transformada em produto de consumo. Esse é o trabalho, principalmente, das capas de revistas de cozinha, que precisam vender um prato apetitoso na sua capa, assim como as revistas femininas vendem o corpo de uma mulher. É preciso despertar no leitor o desejo de ter aquele objeto, seja o prato ou o corpo.

Esse f enômeno implica em duas f rent es: no desejo de visibilidade da vida contemporânea, quando ser visto jantando em um restaurante da moda é condição fundamental para “ ser alguém” na sociedade; e na iconofagia das imagens, quando elas se devoram continuamente para se adequar a essa nova necessidade das pessoas.

A imagem midiat izada e bidimensional da revist a devora a imagem tridimensional do prato consumido na vida real e o retransforma, compondo camadas desse texto da cultura. Concluímos também com esse processo que a iconofagia das imagens da cozinha do Brasil é ainda mais rica por se tratar de um texto de uma cultura híbrida, replet a de conf luências e miscigenações, que a carregam de salut ar complexidade.

Por esse motivo, a análise de tal “ devoração” não é simples, implica no estudo dessas camadas e impossibilit a uma cat egorização rígida. Consideramos que nosso objet o de est udo, a revist a Claudia Cozinha, est á em cont ínua mut ação e não comporta integralmente essa categorização. Mas a análise desenvolvida no capítulo 4 se mostrou necessária para não deixar um vazio comparativo entre a representação da comida brasileira em Claudia Cozinha e a realizada por outros títulos importantes do mercado. Essa qualificação é importante para entendermos como o objeto de estudo se comport a f rent e a seus concorrent es, o que inf luencia a sua maneira de se apresentar ao leitor.

Nossa int enção f oi verif icar como a gast ronomia est á se impondo como um texto da cultura que não pode ser deixado de lado, e como a culinária vem cedendo espaço para ela, embora sem perder f orça. Podemos dizer que as duas se complementam, pois a culinária é a base de sustentação desse mercado editorial. Sem as revistas e livros repletos de receitas não haveria público e dinheiro para que esse mercado de revistas mais “ sofisticadas” e elaborada pudesse existir.

Os caminhos de Claudia Cozinha

Como já dissemos, a revista Claudia Cozinha revelou-se um excelente objeto de estudo, por ser rica e complexa, com uma história de transformações intensa, que nos remete a momentos de explosão da cultura oportunas para o seu estudo. Uma das últimas surpresas, pouco antes da finalização desta pesquisa ocorreu no mês de abril de 2006, quando a revista mudou novamente seu projeto gráfico e editorial. E toda a sua equipe foi também trocada. Isso prova que trata-se de um objeto de estudo muito interessante e que estimula por seu caráter por esse trânsito constante entre diversas realidades, como o hibridismo entre a culinária e a gastronomia.

AA cc oozz iinn hhaa ee ss eeuu cc aall ddee iirrãã oo ddee mm íídd iiaa ss

As imagens da comida brasileira que a revista cria podem ser consideradas de extrema complexidade, pois ainda que ela tenha optado por sofisticar o seu conteúdo, o imaginário simbólico da cult ura na aliment ação parece se sobrepujar a essa ne- cessidade. Por isso em muitos exemplos citados vimos séries típicas da cultura brasileira, como imagens de santos, bandeirinhas de festas juninas, doces enfeitados, entre tantos outros, compondo essas imagens. O uso dessas séries remete diretamente às imagens narrativas criadas por Gilberto Freyre, como vimos anteriormente.

É preciso sempre lembrar que as imagens da cult ura são muit o ant eriores àquelas geradas pela mídia elet rônica. No mundo da visibilidade midiát ica cont emporânea podemos crer, em um moment o de euf oria, que a mídia e suas imagens estão no poder, dominam as nossas vidas. Mas, na verdade, são as imagens da cultura que acabam se sobrepondo, em uma constante troca que alimenta esses dois sistemas. A mídia e a cultura intercruzam-se, gerando novos textos a todo instante.

A análise da breve hist ória da aliment ação que f izemos no capít ulo 1, t em justamente o propósito de mostrar essa importância das imagens da cultura. Afinal, se hoje salivamos ao ver um apetitoso doce na capa de uma revista, é importante lembrar que já “ adorávamos” imagens feitas nas cavernas rupestres. São tipos de magia da comida. A capa da revista faz a magia de despertar nossa fome no primeiro olhar; a arte rupestre pretendia “ magicizar” o animal a ser cassado, tornando-o real.

Os mundos das revistas de cozinha

No capítulo 2 deste trabalho desenvolvemos uma classificação das revistas de cozinha em três mundos. Assim como a análise das categorias, o processo se mostra muito pertinente, mas não estanque. De fato Gula e Prazeres da Mesa pertencem ao “ Primeiro Mundo” desse tipo de revistas, pois seu enfoque é o da alta gastronomia. E

Claudia Cozinha e Menu habitam o “ Segundo mundo” , transitando em uma fronteira

híbrida ent re gast ronomia e culinária. No ent ant o vimos t ambém que Prazeres da

Mesa representa a comida brasileira de maneira mais eficiente do que Menu, o que

implica em uma aproximação com cânones dist ant es daqueles da classif icação de “ Primeiro Mundo” .

Concluímos esse processo classif icat ório acredit ando que a busca pela alt a gast ronomia é um caminho inevit ável para as revist as de cozinha. No mundo do consumo, as pessoas pedem algo e o mercado, geralmente, se apressa a atendê-las e e vice-versa. O público tem demonstrado “ fome” pelo assunto e TVs, jornais, revistas vem atendendo a esse lucrativo apelo. O jornal Estado de S.Paulo, por exemplo, lançou em set embro de 2005 um caderno especial de periodicidade semanal sobre gast ronomia. A TV t em sido inundada por programas com chef s e seus prat os mirabolantes. As revistas não poderiam ficar a parte desse processo.

No entanto, haverá sempre espaço para a culinária, como já foi dito, a base sustentatória de todo esse universo da cozinha. Afinal, sem as receitas mais simples, como as de caldos, arroz, saladas, não se faz gastronomia. Porque é preciso uma base sólida para criar os pratos mais insólitos – essa é uma consciência inerente a todos os chefs.

113 AA cc oozz iinn hhaa ee ss eeuu cc aall ddee iirrãã oo ddee mm íídd iiaa ss

A gastronomia e futuras pesquisas

Ao f inal dest e t rabalho consideramos que o t ema est á muit o longe de ser esgotado. A representação da comida na mídia abre novas fronteiras para diversas análises. Nest e t rabalho, pret endemos avaliar a cozinha brasileira nas revist as, recortando de maneira mais concisa possível a temática – o que se revelou um recorte ext enso, pois o assunt o pede complexidade. Não é possível ent ender a f ome pelas imagens da comida na mídia se não entendermos a fome eterna do homem desde os primórdios pela própria comida.

Após a análise intensa do objeto concluímos que, em uma futura pesquisa de dout orament o, poderemos abordar a própria comida como uma mídia. Af inal, um prato atua como um canal de comunicação entre aquele que o fez e seu público. Quem o come, se considera integrado aos conceitos que o autor quis oferecer na sua obra gastronômica.

O conceito de comida como mídia pode ser melhor abordado com ferramentas deixadas de lado nesta pesquisa, como a antropologia. E, certamente, atenderá muitos aspectos que precisaram ser abandonados aqui por questões de recorte metodológico. Na era da visibilidade, comer uma receita sofisticada ou ser visto comendo em um restaurante padrão cinco estrelas é prova de inserção no mundo. Por isso revistas de celebridades, como Caras, não deixam de ter uma seção de culinária com toques de gastronomia, até para servir de vitrine para mostrar o que as celebridade comem – ou devem comer para pertencer a esse mundo.

A comida faz a comunicação entre esses vários universos da cultura. Uma abordagem semiótica, antropológica, visual e midiática certamente será fundamental para um estudo futuro, que promete desvendar um pouco dos caminhos que fazem da gastronomia, da culinária e da cozinha objetos de desejo contemporâneos.

RELATERTE DOKUMENTER